Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
"Este talvez seja o único relato escrito sobre o que foi ser uma menina nos tempos da Revolução dos Cravos. Cristina Torrão, com sua prosa precisa e ágil, faz o leitor ver o que aconteceu quando a exploração, a desigualdade de género, a repressão sexual e a alienação cultural impostas pelo salazarismo estremeceram e desabaram sob o impacto libertador da Revolução dos Cravos".
De Pedro Almeida Vieira, tinha já lido O Profeta do Castigo Divino e Corja Maldita, nos idos de 2012/2013. Ao contrário desses dois romances históricos, Assim se pariu o Brasil não é ficção. Na contracapa fala-se, porém, de “numa
prosa culta mas cheia de humor”. Pode-se escrever um livro sobre factos
históricos, usando humor?
Enfim, não conhecer a História do Brasil colonial ajudou à minha decisão de comprar o livro. Demorei, porém, a pegar nele, adquirido já em 2016.
E acabou por me surpreender pela positiva.
O ritmo é o de uma narrativa de
aventuras e, apesar de realmente se notar um travo humorístico, nunca é
manipulador, o que, na minha opinião, se trata de um equilíbrio difícil de
conseguir. Assim aprendemos, por exemplo, como o pequeno Portugal conseguiu
ganhar tanto território à potência espanhola; como, neste caso, “o tempo dos
Filipes” acabou por beneficiar o nosso país; como os colonos portugueses,
auxiliados por indígenas e africanos, lograram expulsar franceses e,
principalmente, neerlandeses, que se desunharam para arrebanharem o Norte
sertanejo e, enfim, onde se explica como o enorme Brasil conseguiu garantir a
sua unidade, enquanto as colónias espanholas se desmembraram em vários países.
Ou seja, recomenda-se. O livro contém ainda ilustrações de Enio Squeff.
Annie Ernaux, vencedora do Nobel da Literatura em 2022, escreve sobre a sua vida, usando, porém, uma nova forma narrativa, que se poderia apelidar de "autobiografia impessoal coletiva". Nunca utiliza a primeira pessoa, oscilando entre a terceira do singular e a primeira do plural.
As memórias vão surgindo, através de fotografias. No entanto, Annie Ernaux utiliza o pronome "ela" para falar de si própria e o pronome "nós", ao descrever a vida e os acontecimentos. Partindo de uma menina, que se torna adolescente, mulher jovem, mulher madura, mulher idosa, Annie Ernaux conta, não só a sua história, como a da França e do resto do mundo (vista de França), desde meados dos anos 1940 a 2006: o período pós Guerra Mundial, o liceu, a universidade, a escrita, um casamento que se adivinha efémero, de Gaulle, 1968, a suposta emancipação da mulher, Mitterand, a globalização, o envelhecer...
Annie Ernaux liga a vida pessoal, do dia-a-dia, com os grandes acontecimentos políticos e históricos. Porque é disso mesmo que são feitas todas as nossas vidas. E fá-lo, claro, sob a perspetiva feminina. O melhor é mesmo deixar falar o livro:
"As férias grandes serão uma longa travessia de tédio, de atividades minúsculas para ocupar os dias: (...) ir à cidade comprar champô e um livro da coleção Petit Classique Larousse, passando, com os olhos no chão, em frente ao café, onde os rapazes jogam flipper." (p. 46)
"Tínhamos a certeza de que com a pílula a vida ia dar muitas voltas, seríamos de tal modo livres em relação ao nosso corpo que era assustador. Livres como um homem." (p. 72)
"A religião católica, sem qualquer cerimónia, desaparecera do contexto das nossas vidas (...) A Igreja já não aterrorizava o imaginário dos adolescentes na puberdade, já não regulamentava as relações sexuais e o ventre das mulheres saíra da sua zona de influência. Ao perder o seu principal campo de ação - o sexo -, a Igreja perdera tudo." (p. 124)
"Os filhos, sobretudo os rapazes, dificilmente largavam o ninho familiar, o frigorífico cheio, a roupa lavada, o ruído de fundo das coisas da infância. Faziam amor, com todo o à-vontade, no quarto ao lado do nosso. Insatalavam-se numa juventude longa e duradoura, o mundo parecia não estar à sua espera." (p. 140)
"Para toda a gente, inclusive para os migrantes clandestinos amontoados num bote em direção à costa espanhola, a liberdade tinha por rosto um centro comercial, hipermercados a desabar sob o peso da abundância. Parecia natural que os produtos chegassem do mundo inteiro, circulassem livremente, e que os homens fossem reprimidos nas fronteiras." (p. 177)
Há muito que não escrevo sobre as minhas leituras. Vou tentar recuperar esse tempo, começando com Elena Ferrante e a sua tetralogia napolitana, à volta da amizade entre Lenú e Lila.
Já aqui tinha expressado a minha opinião sobre os dois primeiros volumes: A Amiga Genial e História do Novo Nome. Sobre o primeiro, dizia eu:
"Lila é dominante, sempre à espera que os outros lhe façam as vontades e
nunca perde a pose, mesmo que caia no ridículo; já Lenú tem pavor do ridículo, é
do género submisso, deixa-se guiar e manipular pela amiga, invejando-a, ao
mesmo tempo. Entre as duas desenvolve-se uma estranha dinâmica que as torna
inseparáveis."
E sobre o segundo:
"Haverá quen tenha dificuldades em apreciar o estilo de
escrita de Elena Ferrante, que conta ao pormenor situações quotidianas. Mas é precisamente
isso que me encanta. As frustrações e os rancores criam-se nessas ações consideradas
normais e que passam despercebidas. Ou melhor: esforçamo-nos para que passem
despercebidas, menorizando a sua importância. No entanto, são elas que nos moem
por dentro e nos levam a tomar atitudes estranhas a nós próprias (e próprios)."
Elena Ferrante põe-nos, de facto, em contacto com a vida real, numa escrita
crua, sem poesia. As suas personagens, mulheres e homens, não se dividem entre boas e más, todas estão
marcadas pelas disfuncionalidades de um bairro pobre e caótico, na Nápoles da
segunda metade do século XX. A própria amizade, iniciada na infância, entre as
duas mulheres, à volta das quais se centra o enredo, deixa muitos amargos de
boca, por vezes até nos exaspera. A saga, porém, não se resume às suas peripécias.
Este é igualmente o retrato do Sul de Itália, onde não faltam a pequena máfia
de bairro e as lutas entre fascistas e comunistas, que incendiaram a década de
1970.
Passo, então, ao terceiro e quarto volumes:
Depois de Lila conseguir livrar-se de um casamento tóxico, cai em desgraça e vê-se na miséria, com uma criança nos braços, ao contrário do ex-marido, que leva a sua vida por diante, sem se preocupar com o filho e sem que ninguém estranhe que leve outra mulher para sua casa. Por seu lado, Lenú sai de Nápoles, tira um curso superior e faz um casamento dentro do elevado meio académico. Mas não se livra do seu passado. O reencontro com a sua paixão de infância e juventude é fatal. E, apesar de apenas ela haver realizado o sonho partilhado entre as duas, tornar-se uma escritora de sucesso, continua a sentir-se inferior à amiga. A simples ideia de que Lila escreveria livros melhores, se tivesse tido oportunidade de optar por essa via, fá-la duvidar de si própria. A dinâmica estranha existente entre as duas atinge níveis absurdos. Também por causa de um homem...
O final da saga é difícil de digerir. Um acontecimento trágico deixa-nos com um nó na garganta. A isso se soma o envelhecimento e a desilusão. Pertencer a uma casta privilegiada não salva de um fim de vida amargo e solitário. Amores desencontrados, constatar haver pessoas capazes de nos enganarem quase uma vida inteira, porque não vimos o óbvio (ou não quisemos ver?). E a interessante pergunta: se, numa dada altura da nossa vida, não se tivesse dado determinado acaso, teríamos sido pessoas diferentes? Melhores? Elena Ferrante mantém-se fiel à sua premissa de nos pôr em contacto com a vida real. Sem paninhos quentes, nem finais telenovelescos. Tão-pouco nos mostra heróis e heroínas, vilãs e vilãos, gente boa e má. Todos temos um pouco de uns e de outros, dentro de nós.
“As crianças do 25 de Abril foram expostas à pornografia antes de saberem como se faziam bebés (…). A despontarem para a vida, viviam numa espécie de terra de ninguém, pela qual não se encontravam responsáveis. Pairavam no vazio formado entre o culto da liberdade sem limites e a crença salazarista mantida pelas mães e avós de que Portugal era um país mais temente a Deus, de melhores costumes, um oásis de santidade perante um estrangeiro devasso”.
“Ainda apática, saída de um mundo desprovido de sexo, um mundo em que os genitais eram porcos, males necessários para se expelirem os detritos do corpo, ela espantava-se com os cartazes e os títulos sugestivos das películas em cena no Sá da Bandeira, um verdadeiro templo da arte pornográfica, enquanto esperava pelo autocarro”.
“Sentindo-se impotentes perante o fenómeno e na sua tentativa desesperada de a manter agarrada às antigas convenções, os pais empurravam-na para uma dualidade de comportamentos, criavam a cultura do fingimento: a nossa casa é uma coisa e o mundo lá fora é outra. Dentro de casa, é feio falar de sexo; lá fora, o sexo é exibido em todo o lado. No meio, ficava o vazio, a tal terra de ninguém, (…) o fosso, que se cavava cada vez mais fundo”.
E o segundo livro:
“Nada, nem a inteligência, nem os estudos, nem a beleza, contava tanto como a reputação sexual de uma rapariga, o mesmo é dizer o seu valor no mercado de casamentos, onde as mães, seguindo o exemplo das suas próprias mães, se armavam em guardiãs".
“Ao sábado, em fila, casavam as raparigas de véu branco, que davam à luz seis meses mais tarde uns rapagões considerados prematuros. Presas entre a liberdade de Bardot, o gozo dos rapazes a dizer que ser virgem era doentio, as recomendações dos pais e da Igreja, não tínhamos escolha".
“Os discursos e as instituições estavam atrasados em relação aos nossos desejos, mas o fosso entre o dizível da sociedade e o nosso indizível parecia-nos normal e irremediável".
O primeiro livro é de minha autoria: A Revolução da Verónica. Nunca me tinha acontecido sentir tão grande afinidade com um escritor, ou escritora. O mais interessante é que, quando comecei a ler o livro alheio, não o achei muito promissor.
Não comparo a qualidade da escrita. Aí, sinto-me como São João Baptista: não sou digna de lhe apertar as sandálias. Está em causa a comunhão de pensamentos, a complementação de ideias. E a escolha de palavras. Como “o fosso”. “Cada vez mais fundo”, num caso; “normal e irremediável”, no outro. Encaixam como duas peças de Lego.
Nota: plágio de ideias (da minha parte, claro), está fora de questão. Comecei a ler Os Anos, de Annie Ernaux, pela primeira vez, há dias. Por seu lado, A Revolução da Verónica existia há muito tempo, na minha gaveta. Na verdade, tentei, sem sucesso, publicá-lo por ocasião do 40º aniversário da Revolução de Abril. Acabou por acontecer apenas dez anos mais tarde.
Holstentor (Porta de Holsten), em Lübeck - Foto Horst Neumann
Lübeck, no Norte da Alemanha, não tem apenas um passado glorioso como importante cidade da Liga Hanseática. Era igualmente o berço dos irmãos Thomas e Heinrich Mann, cuja família enriquecera precisamente com o comércio praticado nos Mares do Norte e Báltico.
Thomas, vencedor do Nobel da Literatura, é o mais conhecido dos dois. Mas Heinrich Mann foi igualmente um excelente escritor, autor de, por exemplo, Professor Unrat, o livro que serviu de base ao filme O Anjo Azul, dando a conhecer ao mundo Marlene Dietrich.
Thomas Mann escreveu verdadeiros clássicos da literatura mundial, como Morte em Veneza, A Montanha Mágica e Os Buddenbrook (todos eles fontes de inspiração para o cinema e/ou séries). N' Os Buddenbrook, o escritor baseou-se na própria família. Tanto, que a casa dos Mann, em Lübeck, construída em finais do século XVIII, se chama Casa Buddenbrook.
Íamos com vontade de a visitar, na semana passada, mas estava em obras. Pode, aliás, visitar-se uma exposição sobre os Buddenbrook num outro outro local, mas acabámos por não o fazer. Fica para a próxima, quando a verdadeira casa tornar a abrir ao público. Lübeck não é muito longe de Stade: cerca de 120 km, hora e meia de comboio, com transbordo em Hamburgo. No entanto, se quisermos ver o interior da famosa casa, teremos de esperar até 2028. Nessa altura, as obras terão durado cerca de dez anos.
A duração destes trabalhos tem dado que falar. Não sei se foi essa polémica a inspiração para a espécie de banda desenhada colocada nas janelas da casa. Os protagonistas são os próprios irmãos Mann. No início, são identificados com turistas, que dão com a porta fechada.
- Thomas, a casa dos Buddenbrook está em obras.
O irmão contrapõe: - Nós conseguimos fazer melhor Heinrich, se unirmos a intelectualidade à força dos nossos braços.
Heinrich permanece céptico, mas Thomas está decidido. Os dois começam os trabalhos e não tarda a instalar-se a confusão. Depois de algumas peripécias, o balde de cimento fresco acaba por cair e enfiar-se na cabeça de Heinrich. Thomas acha uma pena, tinha acabado de misturar o cimento, tanto trabalho para nada. Nestas cogitações, dá-se conta de que o melhor é livrar o irmão daquela situação aflitiva, antes que o cimento seque.
- Boa ideia - concorda Heinrich. - Tu tens sempre as melhores ideias.
Vaidoso com o elogio, Thomas inicia uma dissertação sobre como tem sempre boas ideias, seja para enredos, seja em pensamentos filosóficos, até que Heinrich tem de o interromper, pois o cimento começa a secar. Depois de resolvida a situação, Thomas sugere deixar aquele tipo de trabalho nas mãos de profissionais.
- Mais uma vez, uma exelente ideia tua - concorda Heinrich. - Olha, vamos mas é à Benhaus, ver a exposição dos Buddenbrook!
- Surpresa! Afinal, tu também tens boas ideias!
Para ser sincera, não achei grande piada. Acho que estes dois génios da literatura mereciam melhor do que uma história que os infantiliza e carecida de originalidade, ao basear-se na máxima "cada macaco no seu galho": os artistas que façam uso da sua intelectualidade e deixem outros tipos de trabalho para quem entenda disso. Seria para honrar os trabalhadores da construção civil? Não haveria outra maneira? Qual é a vossa opinião?
Enfim, deixo-vos com um pequeno vídeo da fachada da Casa dos Buddenbrook. Valha ao menos as figuras dos irmãos estarem bem desenhadas.
O texto já tem aliás uns bons anitos. Foi com esta história que me iniciei na blogosfera, em 2010. Não passou despercebida, foi referida pelo falecido jornalista Pedro Rolo Duarte, num programa radiofónico, incluindo leitura de um excerto.
Tive, no entanto, de mexer muito no texto. O formato em que foi publicado tem regras muito definidas, nomeadamente, no que diz respeito ao número máximo de caracteres. Não foi fácil, cheguei a pensar não o conseguir. Mas desistir nunca foi meu apanágio.
Decidi apresentar-me como Cristina Santos, por duas razões. Ninguém consegue pronunciar o nome Torrão, por aqui. E, se alguém se lembra de recomendar o livro, não lhe quero dificultar a vida. O segundo motivo é a dificuldade que tenho sentido, em Portugal, em vender os meus livros. Perguntei-me então se o apelido Santos me daria mais sorte. Nem chega a ser um pseudónimo, pois faz parte do meu nome. Foi-me transmitido por um bisavô materno, que nunca conheci, mas cuja história de vida me emociona. Foi um exposto da Santa Casa de Lisboa, com apenas duas semanas de vida. Batizaram-no Carlos da Graça e Santos. Sinto-me feliz ao honrá-lo desta maneira.
Gostaria ainda de referir que este projeto não seria possível sem a preciosa ajuda do meu marido Horst Neumann. Apesar de possuir o meu “canudo de Germânicas” e viver neste país há trinta e um anos, ainda tenho problemas em certos pormenores gramaticais. E não seria capaz de dar um livro à estampa, sentindo dúvidas desse tipo.
O livro está à venda numa plataforma online, surgida recentemente no mercado alemão, a StoryOne, com sede em Viena. Este ano, a StoryOne tornou-se mais atrativa ao estabelecer uma parceria com uma das maiores redes livreiras alemãs, a Thalia. Um júri irá apreciar as publicações submetidas até 10 de março e escolherá cerca de cem, que serão postas à venda, em papel, nas cinco principais filiais da Thalia: Hamburgo, Berlim, Colónia, Düsseldof e Viena.
Estou tão entusiasmada com este tipo de projeto, que o segundo livro já está em preparação (cada pessoa é autorizada a participar com o máximo de três obras). No cinquentenário da nossa revolução, escolhi um conto baseado em certos aspectos do 25 de Abril, que tenho na gaveta há cerca de três anos. Além da tradução, não precisei de mexer muito no texto, pois não excedia o número de caracteres exigido. Falarei em breve desse projeto também.
A polémica, felizmente, não durou muito. O povo decidiu, os ânimos serenaram. E ainda bem. Salvo raras exceções (como quando glorificam ditadores) as estátuas não devem ser removidas de ânimo leve.
Dito isto, e porque tenho uma ligação afetiva com a cidade do Porto, a minha opinião sobre o objeto da discórdia é: feia! Mas não é por causa do nu, ou de incitar ao assédio (não adianta vir com esses argumentos nos comentários). É simplesmente grosseira. O Camilo está péssimo, destituído de dignidade. Parece um avozinho caquético, deslumbrado por uma menina nua, aproximando-se dela, com o pretexto de a proteger do frio. É isso que me vem à cabeça, quando olho para a estátua.
Além disso, não tem nada a ver, mesmo nada, com o romance Amor de Perdição. Nem sequer com o conjunto da obra de Camilo, ou com a sua vida. Camilo não era nenhum D. Juan, ou Casanova. A sua relação com Ana Plácido causou polémica por se tratar de adultério e os dois terem ido parar ao calabouço. Superado esse período negro, porém, eles levaram uma vida normalíssima.
Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, com um dos filhos – Imagem Rádio Portuense
E, se Camilo não era nenhum Casanova, Ana Plácido estava longe de ser uma Vénus. A que se acrescenta o facto de não ter sido muito mais nova do que ele, como sugere a estátua (para quem a identifica com a figura feminina). Cerca de seis anos separavam os seus nascimentos. E envelheceram juntos, como a maior parte dos casais.
Diz o autor da estátua que a menina representa as musas de Camilo. Todos os artistas têm as suas inspirações. Mas o nosso escritor das musas é o Luís Vaz (e fico-me por aqui, para não rimar), que, tendo vivido numa época mais recuada, sobre a qual as informações são escassas, convida mais à criação de lendas e mitos.
No fundo, esta estátua não passa de um mamarracho. O povo decidiu bem? Decidiu. Há tantos mamarrachos espalhados pelo nosso país, que não se justifica o trabalho de remoção de um deles.
Este livro é sobre um dos capítulos negros da ditadura
em que se transformaram os regimes de ideologia comunista. Lembro-me bem de, a
seguir à queda do Muro de Berlim, virem à luz as atrocidades cometidas na
Roménia de Ceaușescu, nomeadamente, os orfanatos, onde bebés e
crianças vegetavam em condições inenarráveis. Como pode uma sociedade consentir
em tal? Como podiam certas pessoas viver de consciência tranquila, tendo
conhecimento daquele inferno? Os humanos podem realmente ser muito cruéis e não,
o Holocausto, por mais horrível que tenha sido, não é o único exemplo de quão
longe pode ir a perfídia.
Na altura, porém, dizia-se esses orfanatos romenos se
destinarem “apenas” a crianças com deficiência, ou cujo nascimento era
inoportuno. Ana Cristina Silva mostra-nos que havia outras razões para o fazer.
Por exemplo: um pai acreditar na ideia propalada pelo governo da criação de um
exército do povo, cujos soldados seriam treinados desde crianças. Nessa
convicção, entrega o seu filho, de apenas três anos, a um orfanato, convicto de
que ele assim receberá do Estado a educação certa. E fá-lo sem informar a mãe.
Ao mesmo tempo que alimenta a ideia fixa de matar o
marido, Nadia lutará, primeiro, para encontrar o filho e, depois, para tentar
libertá-lo. Ao descrever essa odisseia, a autora põe-nos a par do mundo de
corrupção, chantagens e denúncias em que se baseava o regime de Ceaușescu. Uma
sociedade podre, desumana, miserável, decadente (e ainda dizia a propaganda
comunista que o Ocidente é que era decadente!).
Não querendo revelar demais sobre o enredo, fico-me
por aqui, referindo apenas que o romance engloba igualmente a queda do regime
comunista e a libertação da Roménia. Um livro escrito com sensibilidade,
sob a perspetiva feminina, e que nos ensina muito. Se isto não são boas razões
para o ler…