Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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25 de julho de 2019

Efemérides históricas ao tempo da formação de Portugal (3)

Faz hoje 880 anos que se deu a Batalha de Ourique.

Batalha de Ourique Jorge Colaço.JPG

Ainda existe bastante mistério à volta desta batalha, o que alimenta o mito. Não há, porém, dúvida de que ela foi importantíssima para D. Afonso Henriques e a unidade portuguesa. Foi a partir desse dia que ele passou a intitular-se rei, considerando Portugal um reino. Também foi a partir desta altura que o seu nome começou a ser temido no Al-Andalus (a Hispânia muçulmana). Por outro lado, relembremos algo que muita gente não considera: D. Afonso Henriques não conquistou, a 25 de Julho de 1139, um palmo de terra que fosse!

Este último aspeto foi aliás motivo de discussão sobre o local da Batalha: se Portugal acabava a algumas dezenas de quilómetros a sul de Coimbra (embora não houvesse fronteira definida entre Coimbra e Santarém; o castelo de Leiria situava-se em território hostil, constantemente ameaçado) como se foi dar uma batalha entre portugueses e muçulmanos em pleno Alentejo?

Hoje, parece ponto assento que a batalha terá surgido na sequência de um fossado com grande raio de acção. Era costume a realização de fossados de parte a parte, as tropas avançavam devastando e depredando, reunindo espólio, incluindo pessoas (que serviriam como escravos) e animais. Reunindo as suas forças em Coimbra, o rei português avançou em direcção ao Tejo, que cruzou a leste de Santarém, e continuou a avançar, atravessando o Guadiana e aventurando-se até perto de Sevilha. Por onde passava, deixava um rastro de destruição atrás de si. E não encontrou praticamente resistência, o que pode explicar o ter-se aventurado tão longe.

Em Abril, Afonso VII, o primo de Afonso Henriques, iniciara um cerco a Oreja, a nordeste de Toledo. Os governadores almorávidas de Córdova e de Sevilha reuniram um grande exército, a fim de lhe fazer frente, o que explica que os portugueses pudessem avançar facilmente e levando o Professor Miguel Gomes Martins (De Ourique a Aljubarrota, A Esfera dos Livros 2011) a considerar que os dois primos tivessem combinado as suas ações.

De Ourique a Aljubarrota.jpg

Fosse como fosse. No regresso, Afonso Henriques terá cruzado o Guadiana perto de Mértola, continuando depois para oeste, a fim de evitar a cidade de Beja. Os danos provocados pela sua ofensiva devem, porém, ter sido de tal ordem, que o governador de Córdova decidiu afastar-se de Toledo, a fim de ir cortar o caminho aos portugueses. E assim se defrontaram os dois exércitos no Campo de Ourique, «uma vasta área delimitada pelas serras do Cercal e de Grândola a oeste, pela serra algarvia a sul e pelo Guadiana terminal a leste» (Miguel Gomes Martins, na obra citada).

Pouco se sabe sobre a constituição das duas hostes. As fontes portuguesas são escassas e, o que também é estranho, esta campanha não é mencionada em qualquer fonte muçulmana. Parece, no entanto, que o exército mouro era muito maior do que o cristão, a «Vita Theotonii» (Vida de S. Teotónio) refere que Afonso Henriques «derrotou cinco reis dos infiéis». Os historiadores atuais vêem algum exagero nestas palavras, se bem que, muitas vezes, os almorávidas se intitulavam de reis, sendo meros governadores de pequenas cidades.

«Terá sido nos momentos que antecederam a batalha que teve lugar o célebre episódio (…) da aclamação de Afonso Henriques (…) Erguido de pé sobre o seu escudo - à maneira germânica - pelos seus guerreiros, o príncipe, então com 30 anos, convertia-se, aos olhos dos que iriam lutar a seu lado, em rei». Este episódio (considerado “coerente e verosímil” por José Mattoso) teve certamente «um efeito profundamente moralizador no seio dos combatentes portucalenses» (Miguel Gomes Martins 2011).

Quanto à tática, Miguel Gomes Martins é de opinião de que a cavalaria pesada cristã (em contraste com os ginetes, os cavaleiros leves e ágeis dos muçulmanos) deve ter conseguido romper e desorganizar as linhas inimigas com grande sucesso. A derrota terá tido um grande impacto no seio dos almorávidas, já que o mesmo governador de Córdova, no ano seguinte, levou a cabo um fossado, no âmbito do qual atacou e arrasou o castelo de Leiria. E, em 1144, foi a vez de Soure.

Cavaleiros V.jpg
Cavaleiros muçulmanos representados na capa de Reconquista Cristã, de Pedro Gomes Barbosa (Ésquilo 2008).

A verdade é que Afonso Henriques não mais deixou de se intitular rei, obtendo, em 1143, a confirmação do primo, em Zamora, embora não devesse ter sido quebrado o laço de vassalagem (que aliás nunca foi oficializado em cerimónia, permanecendo ambígua a relação entre os primos). A verdade é que o nosso primeiro rei enviou, dois meses depois da Conferência de Zamora, uma carta dirigida ao papa, prometendo-lhe vassalagem e solicitando que o libertasse do jugo do imperador da Hispânia.




Nota: texto publicado originalmente aqui.

1 de janeiro de 2017

Começar o ano com uma boa notícia!

Embora seja uma notícia antiga, relativa a um artigo publicado no Outono de 2012, só agora dele tomei conhecimento, através do Dr. Barroso da Fonte.

A percepção do milagre de Ourique no Romance Histórico Português é o título de um artigo publicado nos Cadernos do CEIL - Revista interdisciplinar de Estudos sobre o Imaginário, assinado por Maria Ève Letízia, da Universidade Stendhal Grenoble e CRI.

A autora disserta sobre o milagre de Ourique, analisando como o acontecimento foi tratado em três romances históricos portugueses: Afonso O Conquistador, de Maria Helena Ventura, Afonso Henriques, o Homem, de minha autoria e O Segredo de D. Afonso Henriques, de Jorge Laiginhas.




E aqui vai mais uma vez o link para quem estiver interessado em ler o artigo e/ou fazer o download:
https://ielt.fcsh.unl.pt/…/fic…/n2/14_CCEIL2_2012_MELmar.pdf
 

Já agora, as referências ao meu romance (ou seja, a minha versão do milagre de Ourique), começam no fim da página 11 e vão até à página 14.


Nota: os Cadernos do CEIL - Revista Multidisciplinar de Estudos sobre o Imaginário são uma publicação anual electrónica do Grupo de Estudos Interdisciplinares sobre o Imaginário (IELT | RG-657-4837) do Instituto de Estudos de Literatura e Tradição sediado na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

26 de março de 2011

Batalha de Ourique V - A Vitória

Com os almorávidas desgastados e assustados com o poder de Ibn Errik (assim denominavam Afonso Henriques), o comandante Ibn 'Umar só viu uma possibilidade de dar a volta à situação: acabar com o próprio rei português.


Mas Ibn’Umar reagiu! Começou a juntar cavaleiros à sua volta, com um único intuito: acabar com o próprio Ibn Errik. O comandante almorávida, que não acreditava em “golpes de magia”, cedo notou que o soberano era a fonte da força dos seus homens. Aniquilando Ibn Errik, o exército português soçobraria!
Com a cota de malha cheia de sangue dos adversários, Afonso manejava a sua espada como se o cansaço lhe fosse um fenómeno desconhecido. Nesta febre de matança, não se apercebeu das movimentações de Ibn’Umar. E o almorávida aproximou-se perigosamente dele.
Ao ouvir berros, Afonso viu três cavaleiros, entre eles Mendo Moniz, passarem a seu lado a grande velocidade, de espada no ar e gritando como possessos, precipitando-se sobre o grupo dos sarracenos. Logo atrás vinham Lourenço, o Sousão e o Braganção com mais quatro. Mas, para os três primeiros, esta ajuda chegou tarde demais, Afonso viu Mendo Moniz agonizando em cima da sua montada, com uma flecha espetada na barriga. Não tardou a cair por terra.
No rosto do irmão Egas Moniz desenhava-se o desgosto e o horror e o recém-aclamado rei reagiu impulsivo. Depois de murmurar: “Não me abandoneis, meu pai”, avançou, de espada em punho, ao encontro de Ibn’Umar. Porém, o Espadeiro atravessou-se-lhe no caminho, berrando:
- Quereis que os portugueses percam o seu rei, no próprio dia em que o aclamaram? Mantende-vos ao lado de meu pai, que não está mais em condições de combater! Eu tudo farei para vos proteger aos dois.
Com a ajuda do meio-irmão Soeiro e do Sousão, o Espadeiro organizou uma nova guarda de cavaleiros à volta de Afonso e Egas Moniz e conseguiu afastá-los do perigo. Faltava Fernando Mendes, o Braganção, que Afonso já não via em lado nenhum. Em vez disso, viu a fúria nos olhos de Ibn’Umar, antes de este abandonar o campo de batalha, ao notar que não tinha hipóteses de aniquilar Ibn Errik com as próprias mãos.


Batalha de Ourique


 O exército português tinha sofrido muitas baixas e o cerco montado à volta dos almorávidas apresentava muitas brechas. Mas a batalha estava ganha. Os mouros sobreviventes batiam em retirada, tentando salvar a pele. Logo se iniciaram as perseguições e o saque do acampamento inimigo. Ibn’Umar, porém, logrou escapar à ferocidade dos guerreiros portugueses.

Fizeram-se ao caminho de regresso, atravessaram o Tejo, passaram em Leiria. E, em todo o lado, contavam como tinham ganho a batalha de Ourique, a 25 de Julho daquele ano de 1139, contra um exército três vezes maior do que o deles, comandado por cinco reis mouros.
Afonso fez uma entrada triunfal em Coimbra, não havia memória de tantas riquezas e tantos mouros cativos juntos. Davam-se vivas a el-rei de Portugal e dizia-se que Jesus Cristo lhe aparecera na noite anterior à batalha, a fim de lhe prometer a vitória e dotar os portugueses de força divina.
           O reencontro com a sua amada Châmoa Gomes não foi a única alegria que Afonso sentiu ao chegar à alcáçova. Deparou com D. João Peculiar, acabado de regressar de Roma, onde assistira ao Concílio de Latrão, presidido por Inocêncio II. O novo arcebispo de Braga, além de ter aprofundado as suas relações com o cardeal Guido de Vico e o cisterciense Bernardo de Claraval, recebera, das mãos do Papa, o pálio: a insígnia da sua dignidade arquiepiscopal.


Cinco escudetes dispostos em forma de cruz


 Depois da aclamação em Ourique, Afonso Henriques não mais deixou de usar o título de rei. Estava aberto o caminho para o reconhecimento oficial do reino, para o qual, aliás, D. João Peculiar, o arcebispo de Braga, muito contribuiu. O Prof. José Mattoso diz-nos mesmo que Afonso Henriques não teria conseguido alcançar os seus objectivos sem a preciosa ajuda desse prelado. Se Afonso Henriques representava a demonstração de poder e força, D. João Peculiar era a astúcia em pessoa e um excelente diplomata.
 

24 de março de 2011

Batalha de Ourique IV - O Combate

José Filipe Photo

Na manhã de 25 de Julho de 1139, Afonso Henriques tinha, pela frente, um exército muçulmano muito maior do que o seu. Por outro lado, sabia que o seu futuro como rei de Portugal dependia da vitória. Segundo Miguel Sanches de Baêna (Grandes Enigmas da História de Portugal - Vol. I, Ésquilo 2008) a sua estratégia baseou-se em mandar à frente os cavaleiros vilãos dos concelhos portugueses, a fim de irem desgastando os lançadores de dardos e flechas muçulmanos. Embora não tão bem armados como a cavalaria pesada dos barões nortenhos, os cavaleiros vilãos eram mais leves e destros.


Afonso adiou o mais possível o início das hostilidades, esperando que aquela guerra de nervos desgastasse também o inimigo. Quando finalmente mandou os cavaleiros vilãos avançar, estes precipitaram-se em direcção à infantaria almorávida, que começou a lançar os seus dardos, acompanhados de nuvens de flechas e virotes. Mas também os cavaleiros vilãos disparavam os seus arcos, a galope, ganhando assim as suas flechas mais velocidade. E, ao chegarem à linha de alcance dos projécteis mouros, fizeram meia-volta, com grande rapidez, e recuaram.
Antes de chegarem ao local onde se encontrava o príncipe com os seus cavaleiros, tornaram a mudar de direcção e a repetir o ataque anterior. Afonso notava como esta ofensiva na base do ataca/recua desgastava a infantaria almorávida, provocando grandes baixas e surpreendendo Ibn’Umar e os seus comandantes.

Claro que também a cavalaria pesada dos barões do norte entrou em acção, porém, numa altura em que as tropas muçulmanas já estariam desgastadas e sofrido grandes baixas. O comandante almorávida Ibn 'Umar tentou dar a volta à situação, mas Afonso Henriques possuía outros trunfos. Aqui, permiti-me uma liberdade, a fim de destacar os Templários, Ordem de Cavalaria sempre muito ligada ao nosso primeiro rei. Fizeram a sua aparição, quando os muçulmanos já não contavam com mais ninguém. Estes lembravam ainda a estranha cerimónia, de que se tinham apercebido, antes do início da batalha, ou seja, a aclamação de Afonso Henriques como rei de Portugal:

            Afonso fez então uso do ardil que reservara para o fim. Os Templários, até aí despercebidos pelos mouros, avançaram a toda a força, cercando o exército inimigo, antes que este tivesse tempo de recuar. As hostes sarracenas, vendo-se rodeadas pelos cavaleiros da cruz, que pareciam surgir do nada, começaram a desesperar. A verdade é que muitos dos almorávidas tinham avançado para a batalha já assustados. A estranha cerimónia que tinham notado no cimo do outeiro do acampamento cristão, aos primeiros raios de sol, tinha-os posto nervosos. Logo correra pelo seu acampamento o rumor de que Ibn Errik, que muitos consideravam ser o próprio diabo, invocava forças e espíritos obscuros.


Combate


            E aqueles cavaleiros da cruz, surgidos de repente, eram a prova do “golpe de magia” daquele demónio. Assim encurralados, em pânico, os almorávidas, embora em maior número, tornaram-se presa fácil para os cristãos. Faltava-lhes a força para aguentarem os embates das armas contra os seus escudos redondos e os portugueses, que pareciam realmente dotados de forças sobrenaturais, serviam-se dos seus machados e das suas maças, decepavam braços e mãos, esmagavam crânios e ombros. Cercados por todos os lados, os almorávidas e as suas montadas agonizavam, manchando de sangue a terra dos campos de Ourique. Afonso e os seus homens não conheciam perdão, só parariam à morte do último mouro.

22 de março de 2011

Batalha de Ourique III - O Combate

Que a Batalha de Ourique se deu a 25 de Julho de 1139 e que as tropas portuguesas, lideradas por Afonso Henriques, aclamado rei nesse dia, embora em menor número, venceram a peleja, parece não oferecer margem para dúvidas. Porém, e para variar, pouco se sabe da estratégia usada e de como decorreu o combate, pois não nos chegou nenhuma descrição pormenorizada.

Eu segui a versão de Miguel Sanches de Baêna, explanada nos Grandes Enigmas da História de Portugal - Vol. I, Ésquilo 2008.





Embora baseadas nessa versão, as citações que se seguem são do meu romance:


O cavaleiro cristão, com o seu armamento pesado e o forte cavalo normando, introduzido na Hispânia pelos francos, montava à brida, com loros compridos, as pernas esticadas para a frente e a lança firme, ou sobre mão, a fim de aguentar impactos e, ao mesmo tempo, apoiar-se na carga de grande violência.
Mas o exército de Ibn’Umar era quase três vezes maior do que o dele, não seria fácil destruir a sua formação, por mais demolidora que a carga fosse. Além disso, os mouros do Andalus tinham desenvolvido estratégias capazes de quebrar a violência de tais impactos. Os seus exímios lançadores de dardos e os não menos habilidosos archeiros posicionavam-se na primeira linha. Nuvens de flechas flagelavam a cavalaria cristã, mantendo-a à distância, e, assim que esta mostrava sinais de desgaste, a infantaria muçulmana criava intervalos na sua formação, a fim de deixar passar a sua cavalaria, que caía então sobre os cristãos desorganizados.
A leveza dos cavaleiros almorávidas revelava-se vantajosa neste tipo de táctica. Montavam à gineta, com loros curtos e ferro de boca em bridão, tirando partido da flexibilidade e da destreza dos seus cavalos árabes. Embora também usassem cotas de malha, os chamados lorigões, os seus escudos redondos eram mais pequenos e mais leves do que os oblongos dos cristãos, apelidados de cometa. Atacavam, fugiam, voltavam a atacar, em manobras que o cavaleiro pesado não conseguia acompanhar. Além disso, esgrimiam os dardos curtos, as espadas e os sabres com grande destreza.

Terras de Santiago


Temos, assim, de um lado, cavaleiros pesados, com mais força de impacto, e, do outro, cavaleiros leves, com mais poder de manobra. Os cavaleiros pesados cristãos europeus correspondiam à nobreza, mas, em Portugal, existia outro tipo: os cavaleiros vilãos. Tratava-se de proprietários de terras com algumas posses, que lhes permitiam sustentar cavalo e comprar armamento. Estavam organizados em concelhos, territórios que não pertenciam a nenhum senhor nobre, e que tinham o seu centro na vila (daí, o nome de "vilãos"). Não raro, eram vistos com desprezo pelos nobres, por andarem mal armados. Porém, por isso mesmo, eram mais leves e destros. Além disso, estavam habituados a fossados em terras de mouros e a combates de fronteira, ou seja, conheciam as formas de luta dos muçulmanos.

Segundo Miguel Sanches de Baêna, em Ourique, Afonso Henriques terá apostado na destreza e na experiência dos seus cavaleiros vilãos, embora tal provocasse o desagrado dos seus barões:


            Afonso acrescentou:
            - Os cavaleiros vilãos de Coimbra e dos outros concelhos formam uma cavalaria bem mais ligeira do que nós.
            Olhavam-no siderado. Fernando Mendes, o Braganção, não se conteve:
- Pudera! Faltam-lhes os recursos, andam mal armados e mal amanhados. Muitos deles nem sequer têm lorigão!
O príncipe conhecia o desprezo com que a nobreza nortenha tratava os cavaleiros sem pergaminhos. Mas ele, que lhes admirava a coragem e a astúcia, ripostou:
- Aprenderam as técnicas de construção dos arcos e das bestas dos infiéis e treinaram o seu uso a cavalo. Também as suas montadas dispõem de grande poder de manobra, são o resultado de cruzamentos com as raças árabes. É desses archeiros velozes a cavalo que nós precisamos, para dar cabo da infantaria de Ibn’Umar!

19 de março de 2011

Batalha de Ourique II - A Aclamação

etc...


O futuro do nosso primeiro rei jogou-se na Batalha de Ourique, atrevo-me mesmo a dizer que o "verdadeiro" Afonso Henriques, como hoje o conhecemos, nasceu naquele dia. Foi a partir de Ourique que começaram a cursar os rumores sobre a sua "força sobrenatural", entre os muçulmanos hispânicos. O que me leva a concluir que a sua aclamação de rei não se deu por acaso, terá sido uma manobra astuta, o que aliás confirma que muito do seu sucesso se baseou nas suas inteligência e astúcia, não só na força bruta.

Diz-nos a lenda que o exército inimigo era comandado por cinco reis mouros. Mais uma vez, deparamo-nos com dificuldades de interpretação. O império almorávida, que regia sobre o al-andalus, encontrava-se em decadência, ameaçado pelos almóadas. Muitos governadores de cidades consideravam-se independentes do poder central, formavam os chamados reinos taifas e intitulavam-se de reis, embora estivessem longe de possuir o poder de um verdadeiro monarca.

De qualquer maneira, parece não haver dúvidas de que o exército mouro era muito maior do que o de Afonso Henriques, mais do dobro, talvez o triplo. Eu aproveitei a lenda:


Ao cair da noite, o príncipe estava reunido com os seus comandantes, quando os espiões moçárabes regressaram. Os homens apresentaram-se tão hesitantes, que ele perguntou:
            - Não conseguistes misturar-vos com os soldados mouros?
            - Conseguimos D. Afonso... Mas aquilo que ouvimos, enche-nos de medo. Ibn’Umar, rei de Granada e de Córdova, veio em pessoa reunir as hostes que restavam em Badajoz, Évora, Beja e Silves. Já para não falar dos reforços de além-mar. Entretanto, até se lhe juntou Abu Zakariya, o rei de Santarém. O que faz deles cinco reis juntos!
            Os senhores entreolharam-se siderados. Afonso retorquiu impassível:
            - De que tamanho é o exército de Ibn’Umar?
            - Mais de cinco mil homens.
Os barões desataram num burburinho inquieto. Afonso calou-os com um gesto e fez sinal ao espião para que continuasse:
- Cortam-nos o caminho até ao Guadiana. Ibn’Umar tomou providências para que a zona entre Beja e o rio fosse igualmente vigiada. Diz-se que ele pretende acabar com Ibn Errik o mais depressa possível, pois anseia partir para Aurélia com os reforços, a fim de fazer frente ao imperador.


A lenda diz igualmente que Jesus Cristo terá surgido a Afonso Henriques, na noite anterior à batalha, e lhe prometeu a vitória. Talvez este aspecto sirva para explicar como é que homens assustados e em muito menor número do que o inimigo conseguiram vencer a peleja. No meu livro, Cristo não aparece ao nosso primeiro rei, mas este não deixa de receber "inspiração divina". Não revelo aqui, porém, qual, há-de haver razão para que queiram ler o romance ;-)


Terras de Santiago


O que parece não oferecer qualquer dúvida é o facto de Afonso Henriques ter sido aclamado rei pelas suas hostes, naquela manhã. O que terá funcionado a nível psicológico. Apercebendo-se de que os seus homens receavam o numeroso exército inimigo, Afonso Henriques, consciente de que naquela batalha se jogava o tudo e o nada, terá apostado na força psicológica, através de um ritual, pondo em prática aquilo que já muitos desejavam: a transformação do condado em reino e a sua aclamação como rei de Portugal.

  
Os primeiros raios de sol iluminavam o cimo do outeiro, onde se tinham juntado todos os guerreiros, a fim de assistirem à cerimónia, naquela manhã de 25 de Julho de 1139, dia de Santiago Mata-Mouros. Afonso Henriques, já armado para a batalha, ostentava o seu pavês, o escudo que usava em cerimónias solenes, adornado com as suas armas: escudetes azuis em forma de cruz. Deu-o para as mãos de Egas Moniz, que o pousou no chão. Afonso pôs-se então em cima do pavês e desembainhou a sua espada. Assim foi erguido, por vários dos seus cavaleiros.
O hábito de aclamação de um rei em cima do seu escudo era um antigo costume visigótico, uma aclamação guerreira que dispensava a coroação litúrgica. E quando os soldados o viram a ser erguido sobre o pavês, de espada em punho, jubilaram:
- Viva el-rei D. Afonso de Portugal!
Afonso pediu silêncio e falou-lhes:
            - Nada temei, bravos guerreiros! Somos menos do que o inimigo, mas a vitória está-nos garantida. - A sua voz, já de si poderosa, troava cada vez mais forte: - Porque para esta nossa primeira batalha contra os infiéis, sem ajudas, seja de quem for, a protecção divina foi-me pessoalmente garantida!
            Já nenhum dos soldados duvidava que a força daquela voz vinha directamente dos céus. Afonso bradava, sem que se notasse que fizesse pausas para respirar:
            - O povo de Portucale, ou Portugal, foi, é e será sempre capaz de lutar sozinho pelos seus interesses. Aqui vos prometo, bravos guerreiros de Portugal: tudo aquilo que viermos a conquistar à mourama, há-de pertencer só a nós! Nada entregaremos de bandeja ao imperador Afonso VII!
            Os homens responderam em uníssono, como se um maestro os dirigisse:
- Viva el-rei D. Afonso de Portugal!

15 de março de 2011

Batalha de Ourique - Os Preliminares

À semelhança de vários aspectos da vida de Afonso Henriques, a Batalha de Ourique levanta problemas aos historiadores, a começar pelo próprio local em que se terá dado. O nome parece não deixar margem para dúvidas. Porém, à altura, a fronteira sul do Condado Portucalense ainda não chegava ao Tejo. Apesar de já ter mandado construir o castelo de Leiria e colocado um posto de vigia em Tomar, Afonso Henriques ainda não tinha feito nada daquilo pelo que haveria de se tornar famoso: a conquista de territórios aos mouros. Como é que se explica, assim, uma batalha em pleno Baixo Alentejo?




Baseado no Dr. José Saraiva, o Prof. Freitas do Amaral considera a hipótese do "«Campo de Ourique», junto à nascente do rio Lis, na freguesia das Cortes, concelho de Leiria - que fica situada a cerca de oito quilómetros a sul da cidade de Leiria" (Biografia de D. Afonso Henriques, 5ª Edição, Bertrand Editora 2000, página 81).

No entanto, o Prof. Mattoso, na biografia já aqui citada, considera verosímil a localização no Baixo Alentejo, baseado nas razias e nos fossados que as populações de fronteira levavam a cabo, em terras de mouros. Muitas vezes, os monarcas hispânicos embarcavam nessa prática, organizando expedições de grande envergadura, sem o intuito de conquista, mas tão-só de intimidação e saque. Também os muçulmanos usavam esse tipo de estratégia, numa demonstração de força, de parte a parte.




Afonso Henriques regia, há mais de dez anos, sobre o Condado Portucalense, mas ainda mal se tinha dado a conhecer aos muçulmanos, já que passara aquele tempo tentando intimidar o primo, D. Afonso VII. Depois de perder os territórios galegos conquistados (ver Tratado de Tui), o nosso primeiro rei terá sentido necessidade de mudar de estratégia, virando-se para sul.

O ano de 1139 era favorável. Os almorávidas, a casta bebere que dominava o al-andalus (assim se chamava a Hispânia islâmica) tinham problemas com os seus rivais, os almóadas. Tashufin, o filho do emir almorávida, teve de ir em ajuda do pai, ao Norte de África, deixando Ibn 'Umar, governador de Córdova e Granada, a substituí-lo. D. Afonso VII aproveitou esse momento vulnerável para cercar a cidade de Aurélia e Afonso Henriques para organizar uma grande expedição de saque, a sul do Tejo.


Em Miniatura



Com tantos homens armados, Afonso reconquistou Leiria. Atravessaram o Tejo a leste de Santarém, penetrando cada vez mais em zonas a eles estranhas, mesmo às milícias vilãs, que estavam habituadas a fossados e algaras em terras de mouros. Mantendo-se afastados, tanto de Évora como de Badajoz, atacaram e pilharam povoações, devastaram os campos e destruíram as colheitas. Ousaram mesmo atravessar o Guadiana, a sul de Badajoz, continuando os seus ataques sem se distanciarem muito do rio, pois era de evitar a zona de influência de Sevilha.
Julho ia a meio e o cerco do imperador Afonso VII a Aurélia já durava há dois meses. A fim de ir em socorro da cidade assediada, Ibn’Umar, governador de Córdova e Granada, representante de Tashufin, ocupava-se a reunir reforços e a comandar razias em territórios leoneses, numa tentativa de desviar o imperador daquela cidade. As hostes de Afonso viram-se assim livres para se apoderarem de muitos despojos e fazerem cativos, que venderiam ou manteriam como escravos.

No regresso, terão atravessado o Guadiana perto de Mértola, dirigindo-se para oeste, a fim de contornarem Beja. Aventuraram-se, talvez, longe demais e foram interceptados pelos mouros:

 
A preocupação de Afonso crescia, à medida que o mês de Julho se aproximava do fim, sem que tivessem sequer começado a deslocar-se em direcção ao norte. Aquela região inóspita, a que se chamava os campos de Ourique, deixava-o nervoso. Não havia florestas, onde se pudessem esconder em caso de necessidade, só uma imensa charneca, cujos arbustos o sol transformava em palha. E, quando os batedores, que eram mandados apalpar o terreno, esgotados e suados, se punham a observar a planície, o sol fazia-os ver movimentos e sombras onde estes não existiam.
No meio da sua preocupação, Afonso deu-se consigo a admirar ainda mais a arte dos mouros. Com os seus sistemas de irrigação, como noras e canais, alguns subterrâneos, os infiéis faziam surgir plantações viçosas no meio de zonas desérticas. Mas tais pomares e searas concentravam-se à volta das cidades, precisamente as zonas que o príncipe e os seus homens evitavam.
Afonso estava tão convencido de que a sua expedição já havia chegado aos ouvidos de Ibn’Umar, que, a 24 de Julho, quando o corso se virava finalmente para norte, ali nos campos de Ourique, não se surpreendeu ao ouvir os batedores informá-lo que um exército inimigo lhes cortava o caminho. Os homens relatavam, à beira do pânico, que, além dos estandartes do Andalus, com os versículos do Corão escritos a verde sobre fundo branco, tinham avistado outros com inscrições a negro sobre fundo vermelho, o que provava a existência de reforços de além-mar.