Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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28 de novembro de 2017

Infância

Vladimir Vogelov


a infância
que súbita asa
me devolve esta alegria casta
de senti-la?

longínquo eco a ressoar
na fascinação da lembrança

dispo as vestes deste reino
para onde me transmigrei...
[ingénua utopia!]
e regresso
para poder abraçá-la
e merecê-la, por um dia.

sujar os bibes brunidos
desprezar os sapatos de verniz
trepar às árvores, aos muros
não ouvir o que avó diz.
esfolar um joelho no chão
perseguir gatos e pássaros
como fazia meu irmão
a gastar a infância
até ao último sopro da ilusão.

mas tu és menina
e uma menina não… e não…
e não… e não…

regresso,
para poder abraçá-la
para lhe pedir perdão.

Lídia Borges
(publicado em 15 de Fevereiro de 2015, no blogue Searas de Versos)
 

17 de outubro de 2017

Da Igualdade



Não sou contra as diferenças, pelo contrário! Claro que há diferenças inatas entre meninos e meninas. O problema é que a vida não é sempre só a preto e branco, tem muitas cores e matizes. Deixando de parte a homossexualidade (que eu aceito e respeito, mas o cerne da questão, neste caso, é outro), há meninas que se assemelham a meninos e vice-versa. Se os pais insistirem muito em clichés (meninas-princesas e meninos-aventureiros), limitam a liberdade de escolha.

Ao educar uma menina para ser princesa e fada do lar, quando o que ela quer mesmo é ser jogadora de futebol, está programado o sofrimento de uma das partes (pais ou filha). E se um menino quiser ser educador de infância? Nem se atreve a expressar esse seu desejo.

Todos devem ter liberdade de escolha, sem preconceitos. Os famigerados blocos da Porto Editora (que regressaram às livrarias) reforçam os clichés, ou seja, limitam o espaço de manobra, o poder de escolha. Não adianta apregoar que há liberdade, quando os pais e educadores manipulam as crianças para que elas sejam aquilo que eles desejam. Um rapaz que deseje ser educador de infância deve ser elogiado, em vez de ridicularizado, ou pressionado de modo a levá-lo a desistir. Tratar de e educar crianças é do mais nobre que há. É, por exemplo, um grande erro pôr essas tarefas nas mãos de babás ignorantes, só porque são mulheres. Uma rapariga também não deve ser desviada do seu caminho, se desejar ser jogadora de futebol, ou condutora de autocarro.

Penso que seria uma boa solução comprar os dois blocos da Porto Editora, tanto para uma rapariga, como para um rapaz. Era o que eu faria, se tivesse filhos e eles se interessassem pelos blocos, porque dizer-lhes que não prestavam, só lhes alimentaria a curiosidade. Compraria os dois e dava aos filhos liberdade de escolher com quem se identificassem mais. Não lhes impunha uma identidade, do género: tu és menina, tens de gostar de princesas e vestidos cor-de-rosa, em vez de brincares com camiões, barcos, ou dares pontapés numa bola. Por outro lado, se ela preferisse realmente a princesa cor-de-rosa, é claro que não a contrariava. O importante seria que a escolha viesse dela.

Muita gente não sabe, ou não quer, definir corretamente o conceito de igualdade. De um lado, está quem jura que meninos e meninas nascem exatamente iguais, com os mesmos gostos e desejos; do outro, está quem receia que, à custa de tanta igualdade, qualquer dia, não haja homens nem mulheres. São posições extremistas, nunca de aconselhar.

A verdadeira igualdade existe na diferença, há que pôr a dignidade humana acima de tudo. Porque haveremos nós de considerar algumas características (masculinas ou femininas) superiores a outras? Porque tem mais valor saber construir uma casa do que amamentar um bebé? Porque tem mais valor ser um matemático brilhante do que ser uma boa enfermeira? Porque é considerado superior ser diretor de um banco em relação a mudar fraldas e contribuir para que uma criança cresça feliz? Não é a igualdade física, ou dos interesses, ou mesmo a intelectual, que é importante. Cada um tem o seu talento e as suas capacidades, independentemente de ser homem ou mulher. A dignidade do ser humano deve ser respeitada, em todos os casos, em todas as profissões, em ambos os sexos. 


31 de agosto de 2017

A Polémica dos Blocos

Ricardo Araújo Pereira quis ridicularizar a polémica à volta dos blocos de atividades para crianças, da Porto Editora, mas, afinal, ainda apontou mais defeitos aos famigerados livrinhos. Diz ele que a questão dos labirintos aconteceu por terem sido duas ilustradoras diferentes a criá-los. E eu pergunto: porque é que os revisores da editora não corrigiram?

Por outro lado, deu a conhecer mais absurdos. As meninas parece que são mais cultas. Leem e vão ao museu, enquanto os rapazes só pensam em brincar. Engraçado, como o conhecido humorista (que eu aliás aprecio) usa isto como justificação para dizer que os blocos, afinal, não são tão maus. Afinal, os meninos também aparecem em desvantagem!

Simplesmente ridículo!

Eu gostava de saber porque se publicam livros separados, se, na escola, aprendem todos com os mesmos. Porque não incluir tudo no mesmo livro? Dava mais liberdade criativa. O menino e a menina podiam ser protagonistas em exercícios diferentes e, nalguns, principalmente nos que dizem respeito à leitura e às idas ao museu, deviam atuar os dois juntos, em equipa. Seria muito mais pedagógico.

Há muita gente que acha tratar-se de um tema sem importância, posição da qual discordo totalmente. Livros são sempre um tema sério, sejam infantis, ou não. Acresce dizer que a Porto Editora compreendeu perfeitamente a recomendação da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, não se queixou de ter sido vítima de censura e está disposta a rever os conteúdos. Para mim, isto é a aceitação do erro (o que pressupõe a sua existência) e vontade de o corrigir.




Da Porto Editora saíram dois bloquinhos,
Um p’ró menino, outro p’rá menina.
Engane-se quem julgue que eram miminhos,
Choveu indignação abaixo e acima.

Labirintos simples para princesas,
Mas só porque as ilustradoras eram diferentes.
E os revisores, senhores, estão ceguetas?
Precisarão de novas lentes?

Retire-se do mercado, da loja, do caneco!
Ressurge a Velha Senhora de lápis na mão.
É a censura do politicamente correto.
Pois, minha gente, o Trump é que tem razão!

Meninas dedicam-se à leitura e vão ao museu,
Meninos só querem brincar com carrinhos.
«De que se queixam?», faz o humorista escarcéu,
Afinal, a todos se desanca nos lombinhos.

E assim vai a educação em Portugal,
Quando comem todos, é uma alegria.
Os estereótipos aí estão, de pedra e cal,
O negócio à frente da pedagogia.

Meninos e meninas juntos a apreciar pintura?
Um bloco para todos, como é na escola?
Onde já se viu, aqui não há mistura!
Diz o lusitano, esse grande estarola.

Erguem-se vozes num medo desalmado,
Que mundo é este, tão descaracterizado,
Sem meninas dóceis, a mexer os tachos?
E nem um piropo, nem um “apalpanço”,
Para alegrar os malandrões do rapinanço?
Construam-se muros, teçam-se farpados!
Guardemos o nosso jardim à beira-mar plantado!




8 de agosto de 2017

O Comedor de Preocupações



Foto © Horst Neumann


Escrevo hoje sobre uma iniciativa de que tomei conhecimento, numa escola primária de uma pequena cidade alemã chamada Lehrte, e que achei que devia existir em todas as escolas. Trata-se de uma caixa de correio, decorada com uma espécie de ursinho sorridente e de braços abertos, apelidado de Comedor de Preocupações ou Problemas (em alemão Sorgenfresser). O princípio é simples: qualquer aluno pode escrever sobre aquilo que o aflige, sejam as notas, sejam problemas na família, zangas com os colegas, ou qualquer outra coisa que lhes passe pela cabeça. Depois é só enfiar o papel num sobrescrito, fechá-lo e metê-lo na tal caixa. Quem quiser, pode escrever o seu nome, solicitar uma resposta ou até uma conversa com as responsáveis por esta iniciativa. Mas os sobrescritos também podem ser anónimos, tendo sido a carta escrita com o único propósito de desabafar.

A iniciativa pertence a uma professora desta escola, em colaboração com uma assistente social do bispado de Hildesheim, que também está à disposição de professores e pais. As duas analisam as cartas juntas, atuam conforme as necessidades das crianças e ainda não deixaram de se espantar com os pensamentos e as preocupações manifestadas por alunos da primária sobre a família, a amizade e, por vezes, até sobre o mundo e Deus. As crianças podem confiar em que os seus segredos não serão violados, tem de ser mesmo assim, para que se atrevam a dar esse passo de passar para o papel aquilo que lhes vai na alma. Escrever é desabafar. E dar a carta ao Comedor de Preocupações é livrar-se destas.

Porém, as cartas não contêm apenas problemas. As duas responsáveis constatam, com agrado, que algumas crianças aproveitam o método para contar sobre as suas alegrias e até sobre coisas boas que aconteceram a algum amigo ou amiga. Tanto as tristezas, como as alegrias da vida, devem ser partilhadas.

Penso que iniciativas destas são impagáveis, no bem que fazem às crianças. Além de lhes dar oportunidade de analisarem os seus problemas, treinam a escrita. Era tão bom que todas pudessem contar com iniciativas destas…