Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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17 de janeiro de 2025

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (3)

 

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Chegada a Krefeld, depois de vinte e um dias de viagem e quase 570 km percorridos, Jette deixou a Pinou bem entregue e descansou três dias, alojada em casa de um tio. O namorado foi ter com ela. Na bagagem, trazia uma ração especial para a Pinou, própria para cavalos sujeitos a maiores esforços.

Jette e Pinou bem precisaram de todos os confortos proporcionados por esta estadia. Ao retomarem a viagem, a 1 de outubro, tinham a Eifel pela frente, uma cordilheira montanhosa, na Renânia-Palatinado, que se estende por 5300 km², entrando na Bélgica e no Luxemburgo e atingindo, no seu ponto mais alto, à volta de 750 m.

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Não eram apenas os montes a tornarem custosas as etapas. Os dias eram já curtos e o tempo mudou, tornando-se frio e chuvoso. Por vezes, chovia um dia inteiro. Nas pausas, para comer a merenda, Jette abrigava-se debaixo de uma árvore. E nem sempre encontrava quem lhe cedesse um quarto para dormir.

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Pernoitando na tenda, com temperaturas entre os 0ºC e os 4ºC, Jette tinha frio, apesar de se deitar vestida com calças de ski e de cobrir o saco-cama com uma manta da Pinou, feita de pêlo de ovelha. Por vezes, tinha de montar a tenda em relvados totalmente alagados. Deste modo se apresentavam igualmente muitos caminhos, obrigando-as a fazer grandes desvios.

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Havia dias em que só avançavam 18 ou 20 km. Cheia de andar à chuva, Jette começava a procurar alojamento pelas duas e meia da tarde. E, caso só lhe restasse dormir na tenda, a preparação da viagem, no dia seguinte, era penosa, debaixo da chuva. Jette sentia pouca motivação para continuar e demorava uma eternidade até ter tudo pronto, só arrancando pelas 11 horas.

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A jovem começou a duvidar se devia prosseguir. Sempre soube que ia deparar com dificuldades, mas seriam estes desafios extremos boas lições de vida, ou contribuíam apenas para a deprimir? Sentia muita falta do namorado, da família e de uma rotina caseira. Não saber, dia após dia, onde e como ia passar a noite, era psicologicamente exaustivo. E parecia-lhe que as mudanças constantes esgotavam também a Pinou. A todo o momento, poderia solicitar ao pai que a fosse buscar de carro, trazendo um atrelado para a égua. Acabaria por o fazer?

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Depois de dez dias de canseiras e extremo desconforto, encontrou uma pequena quinta com gente muito simpática. A Pinou teve direito a um estábulo coberto e, apesar de a família não ter um quarto disponível para a Jette, ela pôde dormir numa divisão aquecida, deitada no seu colchão de ar.

No dia seguinte, talvez notando que ela estava realmente esgotada, sugeriram-lhe que ficasse mais uma noite. Num primeiro momento, ela recusou, queria avançar. Mas mudou de ideias. Era domingo e, se ela e a Pinou estavam tão bem instaladas, porque não aproveitar aquele dia para descansar?

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A primeira coisa que fez, depois do pequeno-almoço, foi tornar-se a deitar. Aquela possibilidade de poder descansar, a qualquer momento, sem preocupações, fez-lhe sentir a familiaridade típica de um domingo. Convidaram-na para almoçar e, em seguida, como não chovia, resolveu ir dar um passeio com a Pinou. Poder cavalgar, sem sujeitar a égua ao peso da bagagem, trouxe-lhe uma sensação de verdadeira felicidade.

Na segunda-feira, fizeram-se novamente à estrada. Os montes continuaram a cansá-las, mas o tempo melhorara e Jette notava que a Pinou, entretanto treinada, vencia melhor as subidas. Passado uns dias, numa outra aldeia, a jovem teve de escolher entre a tenda, ou levar o saco-cama para um antigo curral de vitelos, o abrigo da Pinou, guarnecido com feno fresco.

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Escolheu ficar com a égua, o que se revelou a melhor solução. Durante a noite, Pinou deitou-se duas vezes ao lado dela, algo que, naquela situação, lhe deu conforto e felicidade imensos. Estabelecia-se uma verdadeira cumplicidade entre as duas, baseada, como sempre acontece numa relação entre um humano e um animal, numa total confiança mútua.

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O saco-cama de Jette, no curral onde ela dormiu ao lado da Pinou

A jornada prosseguiu, novamente com alguma chuva. Por vezes, tinham sorte e encontravam um lugar agradável para dormir, com gente que a convidava para jantar. Outras vezes, tinham de se contentar com mais um terreno alagado, onde a moça montava a tenda, enquanto a noite se aproximava fria.

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Jette ia resistindo, deixando a Eifel e as suas montanhas para trás, à medida que se aproximava do Saarland, onde o pai surgiria, a fim de as transportar até Espanha. Isso dava-lhe naturalmente motivação extra.

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O pai e ela encontraram-se a 20 de outubro, perto da fronteira francesa. A moça e a égua tinham percorrido quase 1000 km, em quarenta dias.

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Nota: Todas as fotografias e informações aqui divulgadas foram retiradas do diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

10 de janeiro de 2025

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (2)

 

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A viagem de Jette (Iéta), que se propôs ir da Alemanha até Portugal a cavalo, começou da melhor maneira, a 8 de setembro do ano passado. Teve sorte com o tempo. Houve mais sol do que o costume e as temperaturas mantiveram-se amenas durante todo esse mês. Além disso, o Norte da Alemanha é plano, facilitando o avanço, e o alojamento estava planeado para a primeira semana.

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A fim de não cansar demasiado a Pinou, que carregava com a bagagem, Jette não passava os dias a cavalgar, a grande velocidade, como gostamos de imaginar. Na maior parte das vezes, limitava-se a uma marcha lenta e descontraída. E, não raro, desmontava e caminhava ao lado do animal, guiando-o pela rédea. Fazia também muitas pausas, a fim de que as duas pudessem descansar e alimentar-se.

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Passado uma semana, Jette tinha vencido cerca de 160 km por terrenos aprazíveis, cheios de erva fresca para a Pinou. Encontrava-se na pequena localidade de Wunstorf, no dia 15 de setembro, e os pais e o namorado foram passar o fim-de-semana com ela. Jette encetou a viagem na segunda-feira, mas, apesar do tempo continuar bom, caiu numa onda de tristeza, depois de ter estado com os entes queridos. Sentia, todos os dias, faltar-lhe a motivação para continuar.

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O facto de já não ter alojamentos reservados, tornou-se, porém, vantajoso. Livrara-se da obrigação de vencer determinada distância, a fim de alcançar um destino marcado. E encontrar um local para dormir revelou-se mais fácil do que o esperado. As pessoas que Jette ia encontrando pelo caminho faziam-lhe perguntas e, inteirando-se da sua história, gostavam, geralmente, de a ajudar. Logo lhe indicavam um local, em determinada aldeia, onde ela poderia pernoitar, com estábulo para a Pinou. Essas casas de lavradores nem sempre tinham um quarto à disposição para ela, mas autorizavam-na a montar a sua tenda nalgum relvado, ou a dormir numa roulotte, caso a tivessem. Por vezes, convidavam-na para jantar.

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Havia outras surpresas agradáveis. Num dia, estavam ela e a Pinou a fazer uma pausa, quando um carro parou à sua frente. Depois das perguntas habituais, Jette foi convidada a deslocar-se à quinta dessas pessoas, onde lhe ofereceram maçãs e água para a continuação da viagem. Num outro dia, passando por uma pequena localidade, viu uma gelataria e resolveu comer um gelado. Um homem abordou-a, ao vê-la acompanhada de um cavalo, e, ao saber dos seus planos, fez questão de lhe pagar o gelado, surdo às tentativas de recusa da moça.

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Ir às compras, de vez em quando, era inevitável e, à boa maneira western, Jette amarrava a Pinou à entrada dos estabelecimentos, suscitando olhares estupefactos. Normalmente, porém, as pessoas eram simpáticas. Pediam-lhe autorização para as fotografar e algumas até se atreviam a fazer festas à égua. Nestes, como noutros casos, não lhe era possível evitar passar pelo meio das localidades. A sua presença suscitava sempre grande surpresa e interesse. Nem toda a gente a encarava satisfeita, mas não a molestavam.

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Depois de duas semanas de jornada, e ainda na sequência da ressaca provocada pelo encontro com os pais e o namorado, Jette confessou, no seu diário de viagem (Tag 14), estar a ser extremamente cansativo. Todos os dias se tinha de adaptar a novos locais e responder às mesmas perguntas, além de se lhe depararem constantes desafios. Depois de encontrado alojamento, tinha de cumprir muitas tarefas, até poder descansar: livrar a Pinou de toda a bagagem, tratar da alimentação da égua e, por vezes, limpá-la, antes de se tratar a ela própria.

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Por vezes, tinha ainda de montar a tenda. De manhã, em sentido inverso: desmontar a tenda, tratar da Pinou e dela, reunir toda a bagagem, selar a Pinou e carregá-la. Por outro lado, escreveu ela, era igualmente interessante conhecer locais e pessoas diferentes todos os dias. E aprendia algo a cada desafio. No fundo, era esse o sentido da viagem: amadurecer a cada nova experiência.

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Deparava constantemente com obstáculos, obrigando-a a grandes desvios, por vezes, significando voltar vários quilómetros atrás, apenas para os recuperar em seguida. Certa vez, preparava-se para atravessar uma auto-estrada e encontrou a ponte fechada por motivo de obras. Lá lhe indicaram uma alternativa, mas também isso lhe custou vários quilómetros.

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Numa zona de ribeiros, deu com várias pontes barradas com um pequeno poste. Tratava-se de um percurso pedonal e de ciclistas e os postes evitavam que as pontes fossem usadas por motorizadas ou outro tipo de veículo a motor. Mas impediam igualmente a sua passagem com a Pinou. E Jette pensou que uma família em passeio com um carrinho de bebé veria o seu avanço igualmente barrado.

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Em dias de chuva, dava com caminhos impossíveis de serem passados devido à grande quantidade de lama. Jette receava que a égua escorregasse e partisse uma perna. Via-se constantemente obrigada a procurar alternativas à rota planeada, daí esta sua viagem ser bem mais longa do que a rota pela auto-estrada, ou mesmo por uma estrada nacional.

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Apesar de todas as canseiras e desânimos, Jette prosseguia. E, ao 21º dia de viagem, a 28 de setembro, chegou a Krefeld, cidade de 240.000 habitantes, na Renânia do Norte-Vestfália. Jette fez quase 570 km para lá chegar. De Hamburgo a Krefeld, pela auto-estrada, são cerca de 400 km.

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A atravessar o rio Reno numa barcaça (ferry)

 

Nota: Todas as fotografias e informações aqui divulgadas se podem encontrar no diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

3 de janeiro de 2025

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (1)

 

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Jette é uma alemã de vinte anos, moradora nos arredores de Hamburgo e cuidadora da égua Pinou.

Muitas meninas alemãs são fascinadas por cavalos, uma fascinação que começa pelos cinco ou seis anos de idade. As escolas de equitação proliferam e o sexo feminino está em clara maioria, tanto a nível de alunos, como de professores. As crianças mais pequenas iniciam a sua aprendizagem com póneis.

Muitas vezes, essa fascinação acaba por desaparecer na adolescência. Caso se mantenha, os pais com mais posses compram cavalos para as filhas e alugam lugares nos estábulos das escolas ou de quintas. As moças pertencentes a famílias, cuja situação financeira não permite tal aquisição, prontificam-se a cuidar dos animais e a limpar os estábulos em troca da prática gratuita de equitação.

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Jette (pronuncia-se Iéta) trata da Pinou desde 2023. No ano passado, porém, a dona da égua resolveu mudar-se para Portugal, para os lados da Bemposta, alguns quilómetros a norte de Castelo Branco. Penso que essa senhora terá mais animais e não sei pormenores da mudança. Sei que ela não levou logo a Pinou, deixando-a num estábulo conhecido e aos cuidados de Jette, até organizar o seu transporte.

Jette tinha, nessa altura, concluído o liceu e estava indecisa sobre o que deveria fazer a seguir. Muitos jovens alemães tiram um ano para viver no estrangeiro, ou exercer alguma actividade relacionada com serviço social, no seu país, antes de prosseguirem os estudos. Em tom de brincadeira, a mãe de Jette sugeriu: “porque não levas tu a Pinou, fazendo uma viagem a cavalo até Portugal?”

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Depois de uma certa perplexidade inicial, a ideia não mais saiu da cabeça de Jette. E contactou a dona da Pinou que, depois de refletir uns dias, lhe respondeu: “Faz isso, então, se é o que queres”.

Decidida a provar a si própria e aos outros de que seria capaz, Jette começou a treinar mais intensamente com a égua e a preparar a viagem. Os pais e o namorado colaboraram, discutindo os planos com ela. Iniciando-se a jornada em Setembro, e como seria irrealista atravessar os Pirenéus no Inverno, o pai prontificou-se a levá-la de carro através da França, até Bilbao, caso ela realmente conseguisse atravessar a Alemanha, de Hamburgo até à fronteira francesa, no Saarland (quase 1000 km, na rota escolhida por ela; a viagem na auto-estrada é 300 km mais curta).

Reservaram dormidas para a primeira semana, em locais de turismo rural, com distâncias de 30 a 40 km entre eles. Depois, Jette teria de se desenvencilhar sozinha, munida de uma tenda, deixando o destino decidir. Os pais e o namorado comprometeram-se igualmente a ir buscá-la, fosse onde fosse, caso ela se achasse incapaz de prosseguir, ou algo lhes acontecesse (a ela e/ou a Pinou).

A 8 de setembro de 2024, Jette iniciou a viagem da sua vida.

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Nota: Todas as fotografias e informações aqui divulgadas são retiradas do diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

25 de fevereiro de 2017

Bruxas e Caretos



Tenho pena que o Carnaval tradicional português, também conhecido por Entrudo, com características específicas de cada região, se esteja a perder em nome da importação brasileira. Não critico que existam escolas de samba em Portugal, o samba é uma dança belíssima, além de ótimo exercício físico, mas festejar um Carnaval abrasileirado, com dançarinas a tiritar de frio, parece-me fora de contexto.


 

Em certas zonas, porém, continua a manter-se a tradição, como no nordeste transmontano, nomeadamente no concelho de Macedo de Cavaleiros, com os Caretos de Podence. São figuras curiosas, que me abrem o apetite para um livro publicado recentemente sob a chancela da Poética Edições e de autoria de Luís Filipe Costa.




Não sei até que ponto o autor explica a origem dos Caretos, mas gostaria muito de saber se há alguma ligação com as bruxas Allersberger Flecklashexen, figuras do Carnaval bávaro, que surpreendentemente me fazem lembrar as do nordeste transmontano. Desde as máscaras, à vestimenta e aos guizos que tilintam com os movimentos, em tudo são semelhantes aos “nossos” Caretos (que utilizam aliás chocalhos).




Penso que seria interessante ir ao fundo da questão, averiguar se realmente há uma origem comum, quiçá celta, mas nem sei se tal pesquisa será possível. Quem sabe, algum dia arranjo tempo…

Deixo-vos com imagens de um espetáculo carnavalesco da Baviera, bem diferente daquilo que consideramos Carnaval, mas, pelo menos, genuíno:





6 de janeiro de 2014

Os alemães e os foguetes


Os alemães são vistos como um povo ordeiro e disciplinado, mas não há regra sem exceção. O exemplo mais flagrante é o de Mallorca, local de férias para milhões de alemães. A própria comunidade alemã, nesta ilha espanhola, é enorme e organizam-se festas e orgias, em que se embebedam até à inconsciência. Outra exceção é a noite de Ano Novo, em que o alemão mais pacato se transforma num verdadeiro piromaníaco!

Enfim, sejamos coerentes: um bom fogo de artifício pertence a um reveillon que se preze. Mas o que se passa na Alemanha, nessa noite, supera todas as expectativas. Gastam-se cerca de cento e cinquenta milhões de euros (repito: cento e cinquenta milhões!) em foguetes, rojões e quejandos. Note-se que o lançamento de fogo de artifício não se encontra nas mãos das autarquias ou de empresas que organizam reveillons. Qualquer cidadão é autorizado a adquirir material pirotécnico, em qualquer supermercado.

Estabelece-se um dia para o início da venda, este ano foi no sábado, 28 de dezembro. Não será necessário dizer que a maior parte das pessoas se sentem incapazes de esperar pela meia-noite do dia 31. Durante três ou quatro dias, as explosões, os petardos e o assobio dos foguetes passam a fazer parte do quotidiano e sair à rua pode tornar-se num sobressalto. Os estrondos vão aumentando de intensidade, até culminarem numa verdadeira orgia, na noite de passagem de ano. E, a 1 de janeiro, as ruas das cidades e das localidades alemãs têm o aspeto da imagem seguinte:




Enfim, cada um tem o direito de se divertir como quiser. Mas toda esta euforia tem o seu preço. E não estou apenas a falar dos milhões de euros que chegariam para deixar os reformados e pensionistas portugueses em paz. Verificam-se sempre acidentes e incêndios, por vezes, até mortes. Por isso, muita gente é contra este hábito e há proibições, como não se poder usar o fogo de artifício em certos locais. Mas não são respeitadas. Além de não haver pessoal suficiente na Polícia para vigiar todas as infrações, nesta noite, há muita tolerância (a tal conversa das tradições).

Embora o meu marido e eu nos recusemos a gastar um cêntimo que seja neste tipo de material, o barulho não nos incomoda. O mesmo já não se pode dizer da nossa cadela. Cães e gatos, em geral, entram em verdadeiro stress, que vai do ligeiro medo ao pânico total. Também outros animais, inclusive nos zoos, têm problemas. Li, por exemplo, sobre espécies de pássaros tropicais, no zoo de Hamburgo, que são metidos em salas à prova de som, pois entram num pânico tal, que chegam a morrer de ataque cardíaco. Para outros, acendem-se todas as luzes e holofotes do zoo, a fim de que não se assustem com os clarões dos foguetes.

No início, a Lucy ficava mais ou menos calma, mas tem vindo a piorar com a idade. E nós assustamo-nos, quando a vemos a tremer e a arfar horas e horas seguidas, sem comer, nem sequer fazer as necessidades (passa um dia inteiro assim). Como completou dez anos no Outono (o que, para um cão, já começa a ser uma idade respeitável), resolvemos, este ano, poupá-la ao stress. Foi essa a razão que nos levou à ilha Föhr, já que se dizia que nas ilhas do Mar do Norte há apenas uma sessão de fogo de artifício, oficial, na maior localidade, à meia-noite.

Constatámos que não é bem assim. Mas foi, de qualquer maneira, muito mais sossegado do que no continente. Conto mais pormenores num próximo post.


6 de janeiro de 2012

O Mar

Cresci com o mar à beira dos olhos. Nunca vivi sem ele. Faz-me falta como ar - são palavras de Pedro Rolo Duarte, que me recordaram a falta que o mar me fazia, nos meus primeiros tempos na Alemanha.

Na verdade, até sou uma privilegiada, estou a cerca de 90 km da foz do rio Elba, que desagua no Mar do Norte, numa cidade chamada Cuxhaven. É lá que os navios entram nesse rio, a fim de atingirem o famoso porto de Hamburgo.

Estava cá há cerca de meio ano, quando disse ao meu marido que tínhamos de lá ir, pois, apesar de ainda ser Inverno, eu queria ver praia: a areia e o mar.
Lá chegados, a expectativa era grande, ao estacionarmos o carro. A praia não se avista da estrada, é preciso subir a a um dique, em certos sítios até existem escadinhas. Subi-as ansiosa, mas, chegada ao cimo... a desilusão! Vi areia, mas não vi mar nenhum!!!
"Isto é que é a praia?" perguntei. "Onde está o mar?"
"Bem", respondeu o meu marido, "é maré baixa."
"E depois?"
"O mar recua vários quilómetros, deixa de se ver."
Uma destas!
Fomos consultar a tabela das marés e constatámos que demorava algumas horas a vir o mar. Tivemos de ir embora, sem o ver., o que, na altura, muito me desiludiu.

Entretanto, já lá fui mais vezes e vi o Mar do Norte, até já banhei nele. Claro que não se compara ao Atlântico, só se formam ondas quando há tempestades, isto é, Outono/Inverno. Mas esta coisa de haver uma grande diferença entre a maré alta e a baixa tem as suas vantagens.

Aqui, uma fotografia, numa altura em que a água começa a desaparecer:


Permite-nos ir até bem longe da praia. No sítio onde tirámos esta, a água dava-nos apenas pelos tornozelos:



Aqui, um aspecto da praia, que, em vez de barracas, tem estes bancos protegidos por uma espécie de concha, chamam-se Strandkorb ("cesto" de praia):



A água desaparece por completo, permitindo organizar passeios e excursões no sítio onde, pouco tempo antes, se podia nadar. Ao largo de Cuxhaven, há uma ilha, a cerca de 11 km da costa, que se pode atingir a pé, ou nestas carroças castiças, puxadas por cavalos:




31 de dezembro de 2011

Costumes Curiosos (2)

Vamos então ao fenómeno Dinner for One!


Dinner for One, também conhecido por The 90th Birthday, é um sketch de comédia britânico, com cerca de 15 minutos de duração, escrito para o teatro nos idos anos 1920. Em 1963, a NDR, estação televisiva alemã, gravou uma representação que se tornou na peça televisiva mais repetida de todos os tempos (registada como tal no Guinness Book of Records, 1988-1995; as edições posteriores não contemplam esta categoria).

E agora eu digo-vos como foi atingido este recorde: os alemães deliram tanto com esta peça (um fenómeno difícil de explicar, pois aqui não se aprecia muito aquilo que vem das ilhas Britânicas), que ela é repetida, desde 1963, todos os anos, na véspera de Ano Novo! E isto não só num canal televisivo, mas em vários! Milhões de alemães vêem o sketch ano após ano e desfazem-se em riso, mesmo aqueles que não percebem patavina de inglês. E isto constitui o próximo fenómeno, pois a transmissão alemã não tem legendas, nem é dobrada!

Trata-se de uma senhora que, no seu aniversário, convida sempre quatro amigos muito especiais. No dia do seu 90º aniversário, porém, já nenhum deles está vivo. A senhora recusa-se a aceitar esse facto e o seu mordomo, também ele já velho, põe a mesa como habitualmente e serve o jantar, constituído por quatro pratos. O homem vê-se obrigado a representar o papel dos quatro convidados e a brindar, por cada um deles, entre o servir de cada prato. Apanha uma grande bebedeira e o cómico do sketch está precisamente no facto de ele servir à mesa, cada vez mais borracho.

A peça tem piada, mas não sei porque é que os alemães a vêem, todos os 31 de Dezembro, há quase 50 anos!

Para quem estiver interessado, pode ver o sketch aqui. Embora acuse o pó dos anos, é divertido. Escolhi uma versão com legendas francesas, porque a alemã (sem legendas) tem um apresentador que, no início, fala cerca de três minutos.

29 de dezembro de 2011

Costumes curiosos (1)

Os alemães são vistos com muita desconfiança por terem provocado duas guerras mundiais no mesmo século, muita gente se pergunta que tipo de povo é este. Depois de quase 20 anos na Alemanha, não vejo grandes diferenças, no geral. Há gente de que gosto, há gente que me irrita, há simpatias, há hipocrisias, etc. Mas é claro que há muitas diferenças, em relação a Portugal. Este post da Rita fez-me lembrar uma característica alemã curiosa: o costume de ver, repetidos até à exaustão, certos filmes e/ou programas de televisão e surpreender-se, ou rir-se, de todas as vezes como da primeira! Isto é tanto mais estranho, porquanto se trata de películas sem qualidade, algumas delas mesmo imbecis.

Começo pelos filmes da dupla Bud Spencer/Terence Hill. Não sei se se lembram do cow-boy Trinitá, ou dos Dois Missionários. Pois! Estes eram os únicos filmes que eu conhecia da dupla italiana (que já me aborreciam quando eu tinha 12 ou 13 anos). Mas isso era antes de vir para a Alemanha. Há muitas mais destas "obras de arte", cada uma mais imbecil do que a outra. São constantemente repetidas por alguns canais alemães, a ponto de representar excepção passar mais de meio ano sem isso acontecer!
Ao fim de 20 anos, uma pessoa acaba por tomar mais ou menos contacto com os filmes e houve um que me chamou a atenção. O título original é Non c’è due senza quattro, rodado no Rio de Janeiro, nos anos 80, e conta com a participação de actores de telenovelas que eu conhecia, dessa altura.


Resta dizer que Bud Spencer publicou, há meses, uma auto-biografia e conquistou os tops de vendas de livros cá do burgo!

Outro costume deste género tem por objecto os filmes de Louis de Funès, esse francês colérico, que dá pulinhos como um coelho a pilhas e se desfaz em esgares imbecis. Na verdade, ele teve algumas actuações de mérito e é muito considerado em França, mas a maior parte das películas são mesmo para atrasados mentais, especialmente, as do Gendarme de St. Tropez.


Os alemães adoram os filmes de Louis de Funès e - socorro gente - há dezenas deles! Cada um já mostrado pela milionésima vez, claro!

Um outro exemplo é uma trilogia, aqui considerada como um "clássico do cinema" (mas só mesmo aqui). Data dos fins dos anos 50/princípios de 60 e trata-se de um western de produção europeia, rodado em terras jugoslavas (já isto chega para nos pôr o estômago às voltas). A personagem principal é um índio, chamado Winnetou, que trava amizades fraternas com "brancos", que têm nomes sugestivos como Old Surehand, ou Old Shatterhand. Esta trilogia põe esta nação de trabalhadores disciplinados e, normalmente, nada dados a pieguices, a chorar baba e ranho! E, sim, no passado 24 de Dezembro, houve um canal que transmitiu a trilogia completa, de enfiada!


Os filmes são baseados na obra de Karl May, um autor alemão do século XIX, que escreveu inúmeros livros de aventuras.
Nos meus primeiros tempos neste país, numa reunião de família (sogros, cunhados, sobrinhos), começaram todos a falar de Winnetou. Ele era Winnetou para aqui, Winnetou para acolá... Decidi-me a perguntar: "Mas, quem é Winnetou?" Todos me olharam como se eu viesse de outro planeta!

Enfim, um outro caso digno de estudo tem a ver com um antigo sktech britânico, intitulado Dinner For One, este sim, com a sua piada. Mas merece um post exclusivo, até porque se aproxima a data em que ele será mostrado pela, sei lá, trilionésima vez!

20 de abril de 2011

Voyeurismo

Através da Vespinha, cheguei ao trabalho do fotógrafo Michael Wolf. E a sua série de fotos Transparent City, embora composta de fotografias tiradas em Chicago, lembrou-me certas vivências nos meus primeiros anos na Alemanha.







Morava em Hamburgo e dava aulas de Português em escolas de línguas. No Inverno,  já era escuro quando regressava a casa, de autocarro (aliás, escurece aqui mais cedo do que em Portugal). A viagem demorava uns vinte minutos e passava por bairros habitacionais. Diga-se de passagem que os prédios não são muito altos, Hamburgo não é uma cidade de arranha-céus.

Era interessante constatar que os alemães, principalmente nas grandes cidades, são muito liberais e simples, quanto à decoração das suas janelas: quase nenhumas têm persianas, grande parte delas, nem sequer cortinas. Se as luzes estavam acesas, via-se o interior das casas. Os autocarros andam devagar e têm paragens a cumprir. Eu via-me com tempo para olhar para aqueles compartimentos. Sentia-me muito voyeurista, mas, por outro lado, se as pessoas não se dão ao trabalho de esconder o interior das casas...



 

 




 O certo é que a consciência não me pesava muito. Ao fim de um certo tempo, percebi porquê. Dei conta  que o que mais me interessava não eram as pessoas que estavam lá dentro e o que estavam a fazer e, sim, a decoração: os móveis, os candeeiros, os sofás, as cores etc. Muitos livros, poucos livros; paredes cheias de quadros, paredes nuas; candeeiros e móveis pomposos, decorações simples; plantas grandes, plantas pequenas, sem plantas; secretárias cheias de papéis e livros, secretárias arrumadas; decoração antiga, decoração moderna...

Aquelas viagens eram tudo menos monótonas...

18 de abril de 2011

Günter Grass e Nina Hagen



O que têm em comum estas duas personalidades alemãs tão díspares: o escritor, de 83 anos, vencedor do Nobel, e a rocker caótica, de 51, que atingiu fama mundial nos anos oitenta? Resposta: a luta contra a energia nuclear!

Os dois participaram numa acção de protesto junto à central atómica alemã de Krümmel, perto de Stade, a cidade onde vivo. Tanto Günter Grass, como Nina Hagen, não deixaram dúvidas quanto à sua posição.

A Alemanha tem tradição neste género de luta e mesmo um governo conservativo, como o de Merkel, pondera alternativas, estuda prazos. Infelizmente, isso não se verifica noutros países. Em França, por exemplo, em que existem mais do dobro das centrais atómicas da Alemanha, a contestação é quase nula, limita-se a meia dúzia de excêntricos, apesar da tragédia de Fukushima.

É isso que desencoraja muitos alemães. Mesmo que conseguissem desactivar todas as centrais do seu país, estariam rodeados de outras e não se livrariam de sofrer com possíveis acidentes. Além disso, se a Alemanha, nesse caso, não conseguisse produzir energia suficiente, acabaria a importá-la de outros países, que a produzem a partir das suas centrais nucleares.

Um problema global, para o qual não se vislumbra solução.

21 de dezembro de 2010

Weihnachtsmarkt



Uma das coisas que muito me surpreendeu (e agradou) nos meus primeiros tempos na Alemanha foi o Mercado de Natal. Em todas as cidades, grandes e pequenas, realiza-se, durante o Advento, um Mercado de Natal, onde se podem comprar objectos alusivos à quadra, sem esquecer os habituais comes e bebes, que incluem doces, muitos doces. Para quem não sabe, os alemães são grandes comedores de bolos, chocolates e afins.

Na fotografia seguinte podem-se ver Lebkuchen, bolos de especiarias, neste caso, em forma de coração, com dizeres escritos a creme de açúcar. As mensagens variam, agora há, claro, muitos "Feliz Natal" e "Boas Festas", mas também se encontram os "amo-te", "és a minha gatinha" e outras do género.




As fotografias foram tiradas em Stade, a cidade onde vivo, que tem cerca de 40 000 habitantes. Estavam 4 graus negativos, o que não impede que as pessoas andem na rua (um alemão que se preze não tem medo do frio). Este tipo de mercado decorre paralelo ao comércio habitual e costuma acabar por estes dias, antes do Natal propriamente dito.




O Mercado de Natal transmite muito bem a atmosfera desta época, principalmente, quando há neve e faz este frio de rachar. Claro que isto nada tem a ver com as condições climatéricas da terra onde Cristo nasceu, mas o frio, a neve, as luzinhas são, para o bem e para o mal, o símbolo do Natal europeu.




Por acaso, não tenho nenhuma fotografia de uma barraca de Glühwein. Como o próprio nome indica, Glühwein (vinho incandescente, ou em brasa) é feito de um vinho tinto um pouco ácido, assim a dar para o nosso verde, ao qual se juntam várias especiarias (canela, cardamomo, anis, etc.). Pode ainda ter um Schuss (pinguinha) de rum ou um qualquer bagaço. Agora, imaginem o carácter explosivo da mistela. Há quem venha ao Weihnachtsmarkt apenas para beber canecas de Glühwein mit Schuss... Não há frio que resista...

À falta das ditas fotografias, fico-me, para rematar, pelas habituais e inofensivas estrelas decorativas.