Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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11 de abril de 2022

D. Berengária de Portugal, Rainha da Dinamarca

 Portuguesas com História.jpg

Na época medieval, houve uma infanta portuguesa que se tornou rainha da Dinamarca, estando sepultada junto de outros reis e rainhas medievais, na Sankt Bendts Kirke (Igreja de São Bento), em Ringsted, perto de Copenhaga. Porém, segundo Anabela Natário, autora do livro representado na imagem, o seu epitáfio identifica-a apenas como irmã do conde da Flandres.

Esta identificação, apesar de incompleta, não é falsa. Tudo começou com o avô desta infanta portuguesa, D. Afonso Henriques, ao casar a sua filha Teresa com Filipe da Alsácia, conde da Flandres. O consórcio durou apenas seis anos e o casal não teve filhos (do primeiro casamento de Filipe com Elisabeth de Vermandois também não houve descendência). O conde da Flandres embarcou em várias cruzadas e acabou por sucumbir, em setembro de 1190, a uma epidemia, durante o cerco a Akkon.

A infanta D. Teresa, ou Matilde, como ficou conhecida por aquelas paragens, por identificação com sua mãe (Mafalda, ou Matilde de Saboia), viu-se assim confrontada com a falta de sucessão e socorreu-se da numerosa prole de seu irmão, D. Sancho I. Nomeou o sobrinho, infante D. Fernando de Portugal, seu sucessor e negociou o casamento dele com Joana de Hainaut. O casal teve, porém, apenas uma filha, que morreu jovem. E, sendo a História da Europa Central intrincada e o condado da Flandres muito disputado, o filho de D. Sancho I viu-se envolvido em várias lutas, acabando prisioneiro do rei de França por cerca de doze anos e perdendo o seu valioso condado.

D. Fernando de Portugal, conde da Flandres.png

Fernando de Portugal, conde da Flandres, prisioneiro de Filipe Augusto, rei de França

This file is from the Mechanical Curator collection, a set of over 1 million images scanned from out-of-copyright books and released to Flickr Commons by the British Library

Bem, tudo isto para dizer que, ao viajar para a Flandres, ao encontro da sua noiva, o infante D. Fernando levou consigo a irmã D. Berengária. E Valdemar II da Dinamarca, ao enviuvar, escolheu esta infanta portuguesa para um segundo consórcio, união igualmente negociada pela tia Teresa. A condessa regente da Flandres pretenderia um aliado contra o rei de França, que exigia a devolução de territórios flamengos conquistados outrora. Há algo, porém, a acrescentar: Valdemar II teria tido, ainda como príncipe herdeiro, contacto com a família real portuguesa. Segundo Anabela Natário, «muitos autores escreveram que D. Sancho I e Valdemar se teriam conhecido em 1189 e lutado lado a lado, ainda Berengária não era nascida. [Valdemar] teria entrado no rio Tejo, à frente de uma armada de cruzados cristãos vinda da Dinamarca e da Frísia (…), que antes de rumar à Terra Santa, ajudaria o rei português a conquistar o Algarve aos muçulmanos» (p.169).

Valdemar II e D. Berengária casaram em Maio de 1214, na semana de Pentecostes. Mas a infanta portuguesa, feita rainha da Dinamarca, morreria em 1221, com pouco mais de vinte anos, depois de já ter dado quatro filhos à luz. Não se sabe as razões da sua morte, mas poderia ter sido de parto, como tantas vezes acontecia.

Berengária era realmente irmã do conde da Flandres. Porém, se é esta a única informação que consta do seu epitáfio, o povo dinamarquês, em geral, não conhece a verdadeira origem desta sua rainha.

Existe, no entanto, outro caso de uma infanta portuguesa assinalada, ainda segundo Anabela Natário, como «filha do rei de Espanha», no seu epitáfio dinamarquês! Mas disso falarei noutra ocasião.

 

Nota de rodapé: a infanta D. Teresa, filha de D. Afonso Henriques, é-nos apresentada, neste livro de Anabela Natário, como Teresa Henriques (pp.84 e seguintes), designação com a qual não posso concordar. Filhos e filhas adquiriam o apelido do pai, a partir do nome próprio deste, com uma terminação derivada do genitivo latino (por isso, Henriques filho de Henrique; Sanches filha de Sancho; Gonçalves filho de Gonçalo, etc.). Este apelido não transitava para netos e netas. Sendo Teresa filha de Afonso (e não obedecendo o nome de Afonso à regra do genitivo latino), a designação correta para esta infanta portuguesa seria Teresa Afonso.

11 de novembro de 2013

859º aniversário de D. Sancho I

Aguarela de Carlos Alberto Santos  

À altura do seu nascimento, D. Sancho I não estava destinado a ser o segundo rei de Portugal. A prová-lo, está o facto de ter sido baptizado com o nome de Martinho, por ter nascido a 11 de Novembro. Martinho era, no entanto, um nome sem tradição entre os reis hispânicos. E, passado algum tempo (de seis meses a um ano), mudaram-lhe o nome para Sancho. Ler mais...



Embora fosse o único filho legítimo de D. Afonso Henriques a sobreviver à infância, D. Sancho I não seria muito parecido com seu pai. Mas era um homem muito letrado e inteligente. Na sua História de Portugal, o Professor Veríssimo Serrão compara-o mesmo a D. Dinis e reporta-se a uma conhecida balada, que D. Sancho terá composto para a sua barregã preferida, D. Maria Pais Ribeira, mais conhecida por Ribeirinha. Ler mais...



20 de novembro de 2012

Bula "Manifestis Probatum"

Já aqui e aqui falei na dificuldade de atribuir uma data para a independência de Portugal. Acrescente-se que uma situação dessas não é anormal, tendo em conta que estamos a lidar com a Idade Média, uma época em que ainda não se entendiam as nacionalidades como hoje em dia. Não existiam fronteiras definidas e o poder estava na mão de potentados regionais, que, em determinadas circunstâncias, conseguiam alargá-lo, ousando ignorar a autoridade de reis e imperadores. Afonso Henriques não foi caso único na Europa, ou na Cristandade, como se dizia. A haver uma entidade superior, seria a Santa Sé, mas mesmo essa se revelou dúbia, durante décadas, quanto ao caso português.

Só no Verão de 1179, D. Afonso Henriques terá segurado nas mãos o reconhecimento oficial da independência de Portugal. O papa Alexandre III emitiu a Bula Manifestis Probatum a 23 de Maio de 1179 e, tendo em conta as viagens morosas daquela época, essa prova documental terá chegado à corte coimbrã, na melhor das hipóteses, cerca de dois meses mais tarde, ou seja, na segunda quinzena de Julho.

Imagem daqui
D. Afonso Henriques estava, em 1179, velho e muito debilitado. Tinha cerca de 70 anos e já há dez que se encontrava incapacitado, na sequência do desastre de Badajoz. Parece certo que não se conseguia mover pelos próprios meios, o que lhe deixaria os músculos muito fracos e ele próprio estaria mais sujeito a doenças e infeções. Ainda assim, só morreria a 6 de Dezembro de 1185, constituindo um caso raro de longevidade, na época, sobretudo, considerando as circunstâncias em que viveu os seus últimos 15 anos.

A chegada da Bula Manifestis Probatum à corte portuguesa deve ter sido um momento muito emocionante para o velho monarca.



            O príncipe foi receber os recém-chegados, enquanto Afonso, que já passara dos setenta, se limitou ao seu cadeirão, incapaz de se mover. Tentava manter a calma, enquanto o cónego D. Pedro Feijão ali ficou, como que a tomar conta dele, observando-o, preocupado. Nisto, surgiu a infanta Teresa, olhando-o igualmente cheia de cuidados, puxando uma cadeira a fim de se sentar ao lado dele, o que o fez exclamar:
            - Mas que é isto? Estão todos com medo que eu não aguente as novidades e me dê algum fanico?
            O arcebispo, acompanhado pelo infante e pelo seu capelão, fez uma entrada triunfal, saudou eufórico os presentes. Depois, foi direito ao monarca, pegou-lhe nas mãos e anunciou:
            - Boas notícias, D. Afonso! Trago boas notícias!
            Sentou-se no cadeirão que lhe estava destinado e o capelão passou-lhe um invólucro cilíndrico de couro para as mãos, que D. Godinho segurou como se de uma das sete maravilhas do mundo se tratasse. Tirou lá de dentro um pergaminho enrolado e anunciou:
            - Isto, meus senhores, é a bula Manifestis probatum est, de 23 de Maio deste ano, e que eu recebi directamente das mãos do Santo Padre!
            Fez um sinal ao capelão para que este depusesse o documento nas mãos do monarca. O prelado assim fez e, perante a expectativa de todos os presentes, Afonso desenrolou o pergaminho, de mãos trementes. Mas estava incapaz de ler fosse o que fosse. Não era só a agitação que o atacava. Além de ter esquecido tudo o que sabia de latim, há anos que a sua visão vinha piorando. Tinha a impressão de que um véu se lhe formava em frente dos olhos, no início, muito fino, mas ia ficando cada vez mais espesso. Acabou por entregar o documento à infanta a seu lado, pedindo:
            - Lê, filha, lê!
            Teresa fez uma primeira leitura em silêncio e anunciou emocionada:
            - O Papa reconhece-vos o título de rei, meu pai!
            - Finalmente - disse Afonso, de lágrimas nos olhos.
            O arcebispo sorriu ao infante e ao chanceler-mor, muito satisfeito. Depois, pôs-se a limpar o suor da testa e do cachaço e ordenou ao capelão:
            - Tenho sede, arranjai-me qualquer coisa para beber! - E, virando-se para os lados: - É que está um calor de rachar, não é verdade? E, apesar de esta etapa de hoje ter sido curta, a gente ainda veio a cavalgar algumas horas.
            O infante Sancho, a quem a ansiedade fizera esquecer aquele pormenor, logo chamou um lacaio, que fosse buscar um refresco de vinho. Teresa ia lendo o conteúdo da bula ao pai:
            - Alexandre III confirma o documento de Lúcio II, tomando-vos e aos vossos herdeiros sob a proteção da Santa Sé. Considera Portugal um reino pertencente a São Pedro e promete o auxílio papal sempre que seja necessário defender a dignidade régia do soberano português. Também os territórios que os portugueses vierem a conquistar aos sarracenos gozarão da mesma proteção.
            Chegou o refresco, que pajens se encarregaram de distribuir pelos presentes. O arcebispo apressou-se a esvaziar a sua taça, Sancho e D. Pedro Feijão deram alguns goles. O rei e a sua filha ignoraram a bebida. E D. Godinho, sentindo-se retemperado, lançou enérgico:
            - O Santo Padre reconheceu, finalmente, os méritos de um soberano que tão grandes vitórias conseguiu sobre os inimigos da fé. Chama-lhe “intrépido destruidor dos inimigos dos cristãos”, “diligente propagador da fé cristã”, “bom filho e príncipe católico”, que deixa um “exemplo digno de ser imitado pelos vindouros”, enfim, não poupa elogios a D. Afonso. Não é assim, D. Teresa? - E, dirigindo-se aos outros: - Que eu já li a bula um monte de vezes, já a sei de cor e salteado!
            Teresa tornou a passar o documento para as mãos do pai. Afonso engoliu em seco, a fim de espantar as lágrimas e, depois de observar a bula durante alguns instantes, disse:
            - Agradeço a Deus, que ouviu as minhas preces. Agora, sei porque é que Ele me deixou tanto tempo vivo.
            - Ámen - concluiu D. Godinho, esvaziando a segunda taça.

Bula Manifestus Probatum, fonte: Direcção-Geral de Arquivos
Como referido, D. Afonso Henriques só viria a falecer seis anos mais tarde, a 6 de dezembro de 1185. Foi sepultado no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, no mesmo local em que a sua esposa, D. Mafalda, já repousava há quase trinta anos.

Com este post, encerro a série dedicada a D. Afonso Henriques, que percorreu as etapas mais importantes da sua vida. Quem quiser lê-las, pode clicar na etiqueta Citando Afonso I. Quem tiver um e-reader, iPad, iPod ou equivalente, fique atento: no início de Dezembro, haverá uma surpresa!


14 de novembro de 2011

D. Sancho I, o Povoador


Embora fosse o único filho legítimo de D. Afonso Henriques a sobreviver à infância, D. Sancho I não seria muito parecido com seu pai. Durante o seu reinado não mostrou ter as mesmas qualidades.

Em 1189, chegou a conquistar Silves, com a ajuda de cruzados, pelo que se intitulou «Rei de Portugal, de Silves e do Algarve». Mas, logo no ano seguinte, os mouros tornaram a chegar à linha do Tejo, uma verdadeira catástrofe, pela quantidade de praças perdidas. Além disso, envolveu-se em vários conflitos com a Igreja, recusou-se mesmo a pagar o tributo, negociado pelo seu pai com Roma e que garantia a independência de Portugal em relação aos outros reinos hispânicos. Só em 1198, treze anos após a morte de D. Afonso Henriques, a questão foi resolvida.

Mas D. Sancho I era um homem muito letrado e inteligente. Mandou povoar locais abandonados e concedeu quase 50 cartas de foral, sobretudo na Estremadura, Beira e Trás-os-Montes. Ou seja, se não aumentou o território (perdeu mesmo algum) consolidou e organizou o já existente, tornando-o mais forte e imune a influências exteriores. Além disso, tinha qualidades poéticas. Na sua História de Portugal, o Professor Veríssimo Serrão compara-o mesmo a D. Dinis e reporta-se a uma conhecida balada, que D. Sancho terá composto para a sua barregã preferida, D. Maria Pais Ribeira, mais conhecida pela Ribeirinha, que por ele espera, no sopé da Serra da Estrela. D. Sancho virá da Guarda, cidade por ele fundada:


Ay eu coitada - Como vivo
em gran cuidado por meu amigo
que ei alongado. Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!

Ay eu coitada - Como vivo
en gran desejo por meu amigo
que tarda e não vejo. Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!




Entre os filhos que teve da sua rainha, D. Dulce de Aragão, e das barregãs, D. Sancho contou cerca de vinte rebentos, enquanto o pai se limitou a onze, embora tivesse vivido muito mais tempo. O Povoador faleceu a 16 de Março de 1211, com 57 anos.

11 de novembro de 2011

D. Sancho I (que, na verdade, se chamava Martinho) nasceu há 857 anos

À altura do seu nascimento, D. Sancho I não estava destinado a ser o segundo rei de Portugal. A prová-lo, está o facto de ter sido baptizado com o nome de Martinho, por ter nascido a 11 de Novembro. Martinho era, no entanto, um nome sem tradição entre os reis hispânicos. E, passado algum tempo (de seis meses a um ano), mudaram-lhe o nome para Sancho.

Porquê uma história tão atribulada, tendo como protagonista o sucessor de D. Afonso Henriques?

Afonso Henriques - óleo de Carlos Alberto Santos

Na verdade, no dia de São Martinho de 1154, nasceu, não o primogénito, mas o segundo filho (legítimo) do primeiro monarca português. Destinado a ser o segundo rei de Portugal estava o seu irmão Henrique, que, na altura, tinha já sete anos. Era este o primogénito, a quem D. Afonso Henriques, note-se, deu o nome de seu pai. E o facto de ter dado o nome de Martinho ao menino nascido naquele dia indica que talvez o destinasse à carreira eclesiástica. Se Martinho não era nome para rei, seria adequado para um clérigo.

- Graças a Deus - repetiu o prelado. - E nascer assim, no dia de São Martinho... Tenho para mim que é um sinal dos Céus. 
- Pela minha saúde, senhor prior - replicou a aia, benzendo-se, - tirais-me as palavras da boca. Jesus! Até me parece que Deus nos quer dizer algo! 
- Será que Deus destinou este príncipe para uma carreira eclesiástica? 
Afonso opinou: 
- Ao futuro rei convinha ter um irmão clérigo, que quiçá venha a ser arcebispo… 
- E o nome, D. Afonso?
 O soberano não respondeu logo e Elvira atreveu-se: 
- Nascido neste dia, bem se podia chamar Martinho. 
D. Teotónio olhou-a intrigado, quiçá estranhando aquela impulsividade numa dama normalmente tão introvertida. Mas os olhos de Josefa iluminaram-se e a mulher dirigiu-se ao prelado, as mãos juntas como numa oração: 
- Quem sabe, seja isso que Deus nos tenta dizer, senhor prior: o principezinho deverá seguir uma vida na Igreja e levar o nome do santo! 
- É uma inspiração curiosa - admitiu Teotónio. - Não olvidemos, porém, que Martinho é um nome sem tradição nas casas reais hispânicas. E, enfim... Nunca se sabe se ele, numa qualquer eventualidade, ainda tenha de subir ao trono... 
- Para a vida eclesiástica - interrompeu-o Afonso, enervado com o comentário, - o nome seria adequado. E, fazendo a vontade a Deus, melhor contribuiremos para a recuperação da rainha. 
Josefa tornou a benzer-se e o rei anunciou: 
- Pois que se chame Martinho!

No ano seguinte, porém, talvez no Verão, dá-se uma reviravolta nos acontecimentos: o infante D. Henrique morre, com apenas oito anos de idade. Apesar de a mortalidade infantil ser alta, naquela altura, sou de opinião de que Afonso Henriques terá sofrido um grande golpe.

- Tendes de ser forte, meu rei, muito forte! 
Afonso engoliu em seco. 
- Morreu alguém, não é verdade? Mas quem, D. Teotónio, quem? 
O prelado soluçou, por entre um rio de lágrimas: 
- Nada se conseguiu fazer pelo infante... Nada... Adoeceu tão de repente... 
- O infante?
 Crianças morriam facilmente e Afonso pensou no mais novo, nascido há apenas seis meses:
- Martinho… Valha-me Deus! Martinho morreu? 
O prior levou um lenço aos olhos. Soluçava tanto, que quase não conseguia falar: 
- O infante Martinho... Não. O irmão... O irmão é que morreu... Coitadinho... 
Afonso abriu muito os olhos. De repente, tudo lhe parecia irreal. Devia ser um pesadelo! A respirar pesadamente, olhou à sua volta, como que a procurar a saída do inferno.

 



Devemos considerar que, além de perder um filho, Afonso Henriques viu destruído o seu sonho de o seu sucessor ter o nome do pai. Além disso, ele próprio já não era novo. Ia a caminho dos cinquenta, a esperança de vida não era longa (ninguém podia adivinhar que ele passaria os setenta) e, de repente, o seu sucessor não passava de uma criança de colo.

E havia a questão do nome. Porquê Sancho? No romance, eu dou a minha versão:


Nesta fase de tristeza e desolação, em que Mafalda, no seu quarto escuro, se mantinha longe dele, perguntava-se inúmeras vezes:valera a pena desposá-la?
Não entendia porque Deus o martirizava tanto. Procurava frequentemente o prior, que não perdia uma ocasião de lhe recordar que o infante devia ter um nome mais apropriado. Mas Afonso, depois de se ver obrigado a desistir do sonho de que o seu sucessor levasse o nome de seu pai, não encontrava cabeça para o assunto.
Um dia, deu consigo a pensar no avô, a quem o herdeiro, já homem feito, morrera em combate. Como se teria sentido o imperador, que, na altura, era bem mais velho do que ele? Afonso VI falecera um ano depois do filho, na incerteza do que sucederia aos vários reinos que ele unira, à custa de tantas lutas e de tanto sangue.
Afonso sentiu que devia dar o nome do herdeiro do avô ao filho: Sancho! Era, acima de tudo, um nome cheio de tradição nas casas reais hispânicas. A partir daquele dia, deixou de existir o infante Martinho. O príncipe herdeiro de Portugal chamava-se Sancho!