Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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19 de setembro de 2026

Texto da Rapidinha #59

 

 

D. Henrique e D. Teresa - Ilustração de Carlos Alberto Santos

 

Os objetivos e desígnios de D. Henrique e D. Teresa não foram sempre os mesmos. Ou seja, eles não seguiram a mesma política, desde que casaram, até à morte de D. Henrique.

Durante esses dezassete anos, houve várias fases:

Primeira fase, de 1095, o ano do casamento, a 1105, o ano da assinatura do Pacto Sucessório por Henrique e Raimundo

Segunda fase até 1107, o ano da morte de Raimundo

A partir daqui os acontecimentos precipitaram-se.

Terceira fase, até 1108, o ano da morte do infante Sancho

Quarta fase, até 1109, o ano da morte do imperador Afonso VI

E finalmente uma quinta fase, até 1112, o ano da morte do conde D. Henrique

Ora, como vemos, deu-se uma série de acontecimentos importantíssimos, todos eles provocando viragens nas ambições e nos objetivos do par Henrique/Teresa. Tudo isto é ignorado na nossa historiografia, centrada na fundação de Portugal, como se esse plano se tivesse iniciado com o casamento de Henrique e Teresa e culminado em Afonso Henriques.

Estes acontecimentos são igualmente importantíssimos para compreender a atuação de D. Teresa, depois de enviuvar. Na verdade, foi principalmente ela quem lançou Afonso Henriques para a fundação de Portugal.

 

16 de setembro de 2026

Texto da "Rapidinha" #58

O CONDE D. HENRIQUE - 2 

 

Escudo almendrado, secs. XI,XII 

 

O conde D. Henrique é visto como o “pré-fundador” do reino português. Ou seja, ele teria preparado o caminho que seu filho viria a percorrer.

Os factos históricos, porém, não confirmam esta versão. A historiadora Maria João Branco diz-nos que essa reputação de «pré-fundador» do reino português foi difundida, sobretudo, pelos historiadores portugueses de meados do século XX. (1)

 Ela recorda, porém, algo que tem sido descurado na nossa historiografia: o grande protagonismo assumido por D. Henrique “durante as guerras entre a rainha Urraca e seu marido Afonso, o "Batalhador". As opções políticas que D. Henrique tomou nessa luta parecem falar-nos de ambições ainda mais abrangentes (2), ou seja, não se limitavam ao condado Portucalense.

Nos primeiros dez a doze anos de casamento, não há indícios de que D. Henrique pretendesse quebrar a vassalagem que devia ao sogro. Ou seja, não aspirava à independência do condado Portucalense. E, a partir de 1107, ele estaria mais interessado em lhe suceder como imperador, ou em se apossar de parte da sua herança.

Isto mostra que não podemos ver este período da História de forma simplista. Entre os primeiros anos do século XII e a morte de D. Henrique, em 1112, a Península Ibérica viveu grandes convulsões, desembocando numa situação política caótica, em que os acontecimentos se sucediam a uma velocidade vertiginosa.

O casal Henrique / Teresa foi arrastado nesse vendaval e as suas ambições mudaram várias vezes. Ou seja, D. Henrique e D. Teresa não tiveram sempre os mesmos desígnios e objetivos, desde o seu casamento, até à morte de D. Henrique. Não houve, digamos, uma linha reta, um fio condutor sem desvios.

Temos aqui ainda muito assunto para as próximas semanas.

 

(1) e (2) p. 2,  Antes da independência de Portugal, Maria João Branco

Documento da propriedade do Círculo de Leitores, cedido a Maria João Violante Branco para disponibilização no RUN (Repositório da Universidade Nova de Lisboa) e no portal académico Academia.edu

9 de setembro de 2026

Texto da "Rapidinha" #57

O CONDE D. HENRIQUE - 1

 

 Propriedade do grupo Portucale Fidelis

 

 Vou iniciar esta nova temporada das Rapidinhas de História com o conde D. Henrique.

O conde D. Henrique é uma personalidade muito interessante, porque, no nosso imaginário coletivo, ele é visto como uma espécie de “avô da nação”. Ao mesmo tempo, há um grande desconhecimento sobre ele e a sua vida.

Segundo os historiadores Amaral e Barroca, na terra futura de Portugal, o tempo e a memória dos homens encarregaram-se de o revestir de grandes virtudes, construindo uma personagem ideal, o verdadeiro percursor da independência nacional. (1)

Como é hábito em personagens míticas, muito do que se costuma contar sobre D. Henrique não corresponde à verdade. Para dar um exemplo, há quem diga que ele conquistou territórios aos mouros. Na realidade, foi o contrário: ele perdeu território para os mouros.

O condado Portucalense que D. Teresa trouxe, ao casar com ele, incluía Santarém. Em 1111, porém, os muçulmanos reconquistaram Santarém e a fronteira recuou, grosso-modo, ao rio Mondego. E por ali ficou.

A imagem que ainda hoje vigora dos pais de Afonso Henriques foi a descrita por Alexandre Herculano. E Herculano não se desviou muito da narrativa medieval, reforçando-a e legitimando-a (2)

Como já vimos, a narrativa medieval é muito desfavorável a D. Teresa. D. Henrique, pelo contrário, é sempre descrito como um guerreiro forte e leal, inspirador de temor e reverência (3)

Esta visão fez dos pais de Afonso Henriques dois polos opostos: D. Henrique, o homem, o guerreiro valente e justo; D. Teresa, a mulher, apenas uma política ardilosa (4). Esta é uma visão medieval, reforçada por um historiador do século XIX e já não faz o menor sentido no século XXI.

Veremos nos próximos vídeos o que nos dizem os factos históricos em relação a D. Henrique.

 

(1) p. 168, Teresa, a condessa-rainha, Luís Carlos Amaral e Mário Jorge Barroca, Temas e Debates 2020

(2) p. 104 - nota 232; (3) p. 105 e (4) p. 105, Fernão Peres de Trava e seus cavaleiros: um estudo sobre os rituais de investidura cavaleiresca atribuídos pelo Livro do Deão e pelo Livro de Linhagens do Conde D. Pedro a Fernão Peres de Trava, João Paulo Martins Ferreira, publicado em Guarecer, Revista Eletrónica de Estudos Medievais, nº 5, 2020 DOI: https://doi.org/10.21747/21839301/gua5a4 

7 de junho de 2026

Rapidinhas de história #56

NACIONALISMO ANACRÓNICO (8)

O principal objetivo de D. Teresa era tornar-se independente do poder central hispânico, um aspeto ignorado e mesmo distorcido na nossa historiografia tradicional.


 

Com este vídeo, as Rapidinhas despedem-se para férias. Voltarão em setembro ou outubro. 

24 de maio de 2026

Rapidinhas de História #55

NACIONALISMO ANACRÓNICO (7)

A. de Almeida Fernandes iguala a Batalha de São Mamede à Restauração de 1640, dizendo que, na primeira, o povo, ao lado da nobreza, jogou igualmente haveres e vidas. Mas não há fontes históricas que façam referência ao envolvimento do povo, em São Mamede.


 

10 de maio de 2026

Rapidinhas de História #54

NACIONALISMO ANACRÓNICO (6)

A maneira como as famílias portucalenses e galegas estavam ligadas mostra-nos como é inadequado apresentar o contexto da Batalha de São Mamede de forma simples, do género: portucalenses “patriotas” de um lado, “estrangeiros” ou “estrangeirados” do outro.

 


 

26 de abril de 2026

Rapidinhas de História #53

NACIONALISMO ANACRÓNICO (5)

A "Crónica dos Godos" foi escrita em fins do século XII, ou mesmo no século XIII. Como nos diz o Professor Luís Carlos Amaral, num dos episódios de Visita Guiada, dedicados a D. Afonso Henriques, o autor desta crónica já conhecia "o filme todo" sobre a vida do nosso primeiro rei e utilizou expressões anacrónicas, em relação à Batalha de São Mamede. Essas expressões foram repetidas ao longo dos séculos, sem qualquer sentido crítico, sendo ainda utilizadas por A. de Almeida Fernandes, em 1978.


 

19 de abril de 2026

12 de abril de 2026

Rapidinhas de História #51

NACIONALISMO ANACRÓNICO (3)

Sob o título de “conde da Galiza”, D. Raimundo, casado com a infanta D. Urraca, tornou-se responsável por um território que ia desde a costa norte galega até ao rio Tejo.