Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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17 de março de 2011

Antonio Skármeta

Foto El País

O autor de O Carteiro de Pablo Neruda, o chileno Antonio Skármeta, venceu, há dias, a quarta edição do Prémio Ibero-americano Planeta-Casa da América, com o livro Los días del arcoirisA narrativa remete para as eleições de 1998, quando os chilenos tentavam contrariar a manutenção de Pinochet no poder.

Ainda não li Skármeta, vi o filme baseado n' O Carteiro de Pablo Neruda, que tanto sucesso teve em Portugal. Gostei e claro que também me comovi. O que me levou, no entanto, a escrever este post, foi uma entrevista publicada na edição de Dezembro passado da revista Os Meus Livros (Nº 93; págs. 25/26). Na altura, marquei o artigo, mas acabei por me esquecer de o mencionar aqui. Agora, ao ler a notícia do Prémio ganho por este autor, fui procurá-lo, pois queria partilhar algumas opiniões de Skármeta, com as quais concordo inteiramente (destaques meus):

Quando era jovem, encenei teatro na universidade (...) E algumas vezes desempenhava papéis secundários. Essa é uma grande escola para um escritor: estar com uma personagem junto a outras personagens, e não acima delas. Partilhar a cena com os teus protagonistas cria uma sensação de intimidade, naturalidade e credibilidade no leitor.

As pessoas que têm grandes certezas espantam-me sempre um pouco.

O excesso de aspiração à genialidade produz apenas páginas em branco ou novelas pretensiosas.

Os verdadeiros artistas têm, por vezes, que abrir caminho entre o arvoredo cerrado do pedantismo, do obscurantismo e das poses "distintas" dos políticos e da ignorância disfarçada de sabedoria.

19 de janeiro de 2011

O Autor e as suas Personagens



Um outro aspecto que muito cativou foi a apresentação dos intervenientes nesta história de uma forma onde nenhum dos lados tem a razão absoluta. Em várias circunstâncias, mas principalmente na relação conflituosa entre Dinis e a sua rainha, o leitor é levado a sentir mais empatia ora com um, ora com o outro, mas sem que fique, alguma vez, a sensação de algum deles estar absolutamente certo.


Na sua opinião sobre D. Dinis a quem Chamaram o Lavrador, a Carla Ribeiro d'As Leituras do Corvo referiu uma das características da minha escrita, onde me mantenho fiel ao princípio de que ninguém é dono da razão absoluta. Fujo, por isso, ao esquema "personagens boas versus personagens más". Há um certo risco nesta opção, muitos leitores preferem ver o herói a lutar contra o vilão. Mas, na vida real, ninguém é um ou o outro a 100%.

No caso de D. Dinis, por exemplo, há muita tendência para considerar o sucessor D. Afonso o único culpado pela guerra civil. O infante surge como o filho desnaturado, que tem a ousadia de se revoltar contra o pai, um rei tão sábio e justo. No entanto, por trás do rei e do seu sucessor, estão um pai e um filho e todos sabemos que nos desentendimentos familiares graves as responsabilidades repartem-se pelas partes.

Deixo, por isso, agir as minhas personagens, dando a conhecer os diferentes pontos de vista, sem dar razão a umas ou a outras. Principalmente, o próprio autor deve manter-se de fora, com se não existisse. Muitos autores não resistem à tentação de dar a sua opinião sobre certos aspectos ou acontecimentos. Eu sigo os ensinamentos de Sol Stein, escritor e dramaturgo americano, que, fora do seu país, é mais conhecido pelos seus livros de escrita criativa e de conselhos a "candidatos a escritores". Diz ele que, num romance, o autor deve fazer os possíveis por se manter invisível, pois o transparecer da sua opinião é um acto inadequado, que só serve para distrair o leitor mergulhado na história. Claro que um narrador na primeira pessoa pode e deve ter pensamentos e opiniões, o que, no entanto, não pressupõe que estes coincidam com os do autor.

Também Andrés Neuman, autor de O Viajante do Século (Alfaguara 2010) disse, numa entrevista à OML nº 89, de Agosto de 2010:

A função moral mais profunda da narrativa é mostrar as razões de cada personagem, sem as julgar. Não gosto do narrador que fala do alto do seu púlpito e que assinala ao leitor com o dedo os que são maus e os que são bons. Creio que essa postura anula o pensamento crítico. A ambiguidade e a confusão entre o bem e o mal são muito parecidas à condição humana. Ninguém está totalmente ao lado do bem ou do mal.