Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
"O automóvel arrancou. Subitamente, em pânico, percebeu que vinha na sua direcção, que a ideia era esmagá-la contra a parede (...) Teresa apressou o passo, quase a correr. Ouviu as portas do automóvel baterem, dois homens vieram na sua direcção, um outro ficou dentro do automóvel que se movia agora devagar, sempre na sua direcção. Os dois homens alcançaram-na. Deitaram-na ao chão. Teresa caiu de costas e eles ficaram em cima dela a espancá-la. Disseram-lhe: «Isto é para aprenderes a não escreveres como escreves» (...) Teresa sentiu que tinha a cabeça aberta atrás e à frente, havia sangue e um prenúncio de várias dores no corpo. Um vizinho do bairro começou a subir a rua, gritou, pensava que eram ladrões. Os dois homens aperceberam-se da sua presença e entraram no automóvel. O trabalho estava feito (...) Teresa foi para o Hospital de Santa Maria de táxi com o vizinho (...) Fez radiografias, levou uma série de pontos na cabeça. Tinha o corpo coberto de hematomas, as pernas e os braços com escoriações" (pp. 220/221).
Isto aconteceu em plena Lisboa, no ano de 1971. O que a poetisa em questão escrevia? Poemas eróticos.
Quem deseja regressar aos tempos pré-revolução de Abril, bem pode ir para o Irão, ou o Afeganistão, ajudar os talibãs.
Holstentor (Porta de Holsten), em Lübeck - Foto Horst Neumann
Lübeck, no Norte da Alemanha, não tem apenas um passado glorioso como importante cidade da Liga Hanseática. Era igualmente o berço dos irmãos Thomas e Heinrich Mann, cuja família enriquecera precisamente com o comércio praticado nos Mares do Norte e Báltico.
Thomas, vencedor do Nobel da Literatura, é o mais conhecido dos dois. Mas Heinrich Mann foi igualmente um excelente escritor, autor de, por exemplo, Professor Unrat, o livro que serviu de base ao filme O Anjo Azul, dando a conhecer ao mundo Marlene Dietrich.
Thomas Mann escreveu verdadeiros clássicos da literatura mundial, como Morte em Veneza, A Montanha Mágica e Os Buddenbrook (todos eles fontes de inspiração para o cinema e/ou séries). N' Os Buddenbrook, o escritor baseou-se na própria família. Tanto, que a casa dos Mann, em Lübeck, construída em finais do século XVIII, se chama Casa Buddenbrook.
Íamos com vontade de a visitar, na semana passada, mas estava em obras. Pode, aliás, visitar-se uma exposição sobre os Buddenbrook num outro outro local, mas acabámos por não o fazer. Fica para a próxima, quando a verdadeira casa tornar a abrir ao público. Lübeck não é muito longe de Stade: cerca de 120 km, hora e meia de comboio, com transbordo em Hamburgo. No entanto, se quisermos ver o interior da famosa casa, teremos de esperar até 2028. Nessa altura, as obras terão durado cerca de dez anos.
A duração destes trabalhos tem dado que falar. Não sei se foi essa polémica a inspiração para a espécie de banda desenhada colocada nas janelas da casa. Os protagonistas são os próprios irmãos Mann. No início, são identificados com turistas, que dão com a porta fechada.
- Thomas, a casa dos Buddenbrook está em obras.
O irmão contrapõe: - Nós conseguimos fazer melhor Heinrich, se unirmos a intelectualidade à força dos nossos braços.
Heinrich permanece céptico, mas Thomas está decidido. Os dois começam os trabalhos e não tarda a instalar-se a confusão. Depois de algumas peripécias, o balde de cimento fresco acaba por cair e enfiar-se na cabeça de Heinrich. Thomas acha uma pena, tinha acabado de misturar o cimento, tanto trabalho para nada. Nestas cogitações, dá-se conta de que o melhor é livrar o irmão daquela situação aflitiva, antes que o cimento seque.
- Boa ideia - concorda Heinrich. - Tu tens sempre as melhores ideias.
Vaidoso com o elogio, Thomas inicia uma dissertação sobre como tem sempre boas ideias, seja para enredos, seja em pensamentos filosóficos, até que Heinrich tem de o interromper, pois o cimento começa a secar. Depois de resolvida a situação, Thomas sugere deixar aquele tipo de trabalho nas mãos de profissionais.
- Mais uma vez, uma exelente ideia tua - concorda Heinrich. - Olha, vamos mas é à Benhaus, ver a exposição dos Buddenbrook!
- Surpresa! Afinal, tu também tens boas ideias!
Para ser sincera, não achei grande piada. Acho que estes dois génios da literatura mereciam melhor do que uma história que os infantiliza e carecida de originalidade, ao basear-se na máxima "cada macaco no seu galho": os artistas que façam uso da sua intelectualidade e deixem outros tipos de trabalho para quem entenda disso. Seria para honrar os trabalhadores da construção civil? Não haveria outra maneira? Qual é a vossa opinião?
Enfim, deixo-vos com um pequeno vídeo da fachada da Casa dos Buddenbrook. Valha ao menos as figuras dos irmãos estarem bem desenhadas.
A polémica, felizmente, não durou muito. O povo decidiu, os ânimos serenaram. E ainda bem. Salvo raras exceções (como quando glorificam ditadores) as estátuas não devem ser removidas de ânimo leve.
Dito isto, e porque tenho uma ligação afetiva com a cidade do Porto, a minha opinião sobre o objeto da discórdia é: feia! Mas não é por causa do nu, ou de incitar ao assédio (não adianta vir com esses argumentos nos comentários). É simplesmente grosseira. O Camilo está péssimo, destituído de dignidade. Parece um avozinho caquético, deslumbrado por uma menina nua, aproximando-se dela, com o pretexto de a proteger do frio. É isso que me vem à cabeça, quando olho para a estátua.
Além disso, não tem nada a ver, mesmo nada, com o romance Amor de Perdição. Nem sequer com o conjunto da obra de Camilo, ou com a sua vida. Camilo não era nenhum D. Juan, ou Casanova. A sua relação com Ana Plácido causou polémica por se tratar de adultério e os dois terem ido parar ao calabouço. Superado esse período negro, porém, eles levaram uma vida normalíssima.
Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, com um dos filhos – Imagem Rádio Portuense
E, se Camilo não era nenhum Casanova, Ana Plácido estava longe de ser uma Vénus. A que se acrescenta o facto de não ter sido muito mais nova do que ele, como sugere a estátua (para quem a identifica com a figura feminina). Cerca de seis anos separavam os seus nascimentos. E envelheceram juntos, como a maior parte dos casais.
Diz o autor da estátua que a menina representa as musas de Camilo. Todos os artistas têm as suas inspirações. Mas o nosso escritor das musas é o Luís Vaz (e fico-me por aqui, para não rimar), que, tendo vivido numa época mais recuada, sobre a qual as informações são escassas, convida mais à criação de lendas e mitos.
No fundo, esta estátua não passa de um mamarracho. O povo decidiu bem? Decidiu. Há tantos mamarrachos espalhados pelo nosso país, que não se justifica o trabalho de remoção de um deles.
Durante muitos séculos (ou seria melhor dizer milénios?), aceitava-se, como argumento para o suposto talento superior dos homens, dizer que era só comparar os feitos de uns e outras. 99% das obras-primas (fosse em literatura, pintura, música ou nas restantes artes), das invenções, das descobertas científicas, das obras de engenharia, etc. era de autoria de homens.
Por incrível que pareça, só nos últimos anos se começou a tomar consciência de que, salvo raras exceções, as mulheres não tinham, por um lado, acesso ao conhecimento e, por outro, andavam ocupadas com outras tarefas, impeditivas de se dedicarem a atividades consideradas mais prestigiantes. Era interessante verificar a contradição: se os homens se elogiavam por serem os maiores criadores e inventores, aplaudiam, ao mesmo tempo, as primeiras mulheres a serem aceites numa Universidade. Tinham a resposta à frente da cara e não a viam. Se isto é inteligência…
A esmagadora maioria das mulheres seguia-lhes aliás os passos. Mas havia exceções, mulheres com coragem para admitir que a educação que lhes impunham desde o berço só servia o universo masculino.
A bávara Emerenz Meier (1874-1928), pertencente a uma família de lavradores, foi uma dessas mulheres. Começou a escrever sobre a sua terra-natal ainda em criança e, em 1893, foram publicados os seus primeiros contos no periódico regional Passauer Donau. Três anos mais tarde, foi publicado o seu único livro. Mas também escreveu poemas, onde, muitas vezes, se destacava um tom irónico. Em Março de 1906, emigrou para os EUA com a sua mãe, juntando-se ao pai e às irmãs, no bairro alemão de Chicago. Casou em 1907, mas o marido morreu três anos mais tarde de tuberculose, deixando-a com o filho pequeno. Emerenz Meier não deixou de ser dona-de-casa, durante toda a sua vida e, durante a Lei Seca, fazia cerveja para si e os seus compatriotas.
No Jornal Católico da diocese de Hildesheim (edição nº 33, de 21-08-2022) deparei com um seu pequeno poema de traço irónico, o qual não resisto a traduzir (segue-se o original em alemão):
No passado dia 22 de março, o canal franco-alemão ARTE
mostrou um docudrama
sobre a vida do famoso dramaturgo, poeta e compositor Bertolt Brecht. O realizador,
Heinrich Breloer,
é especialista neste tipo de filme, onde a ficção é apoiada por imagens reais e
entrevistas a pessoas que conheceram a personagem em questão. Com esta técnica,
Heinrich Breloer realizara já dois docudramas que fizeram história na TV alemã:
um sobre o movimento terrorista alemão RAF e outro sobre a família de Thomas
Mann.
Heinrich Breloer pesquisou sobre a vida de Brecht e trabalhou
no filme durante dez anos. A sua intenção era mostrar a pessoa por trás do
artista, pois, como ele diz, estas personalidades, que gozam da espécie de proteção
que se costuma dedicar a monumentos, foram pessoas como todos nós, com os seus
defeitos e virtudes.
Bertolt Brecht intitulava-se a si próprio, desde muito
jovem, de génio. Temos de admitir que tinha razão. O génio, porém, convivia
lado a lado com um manipulador de mulheres. Apesar de casado (e apesar de não ter figura de galã, bem pelo contrário), Brecht teve relações
íntimas com quase todas as atrizes das suas peças e outras colaboradoras da sua
companhia de teatro, vendo-se obrigado a mentir compulsivamente, a fim de manter
a complicada teia de casos amorosos. Também não se pode dizer que tenha sido um
bom pai, pois pouco participava na vida dos filhos que teve dentro e fora do
casamento. Tudo isto a sua mulher, a atriz Helene Weigel, aguentava. E mais! Ela
era o verdadeiro pilar do “Berliner Ensemble”, a companhia de teatro do marido.
Bertolt Brecht foge do nazismo, primeiro, para Praga,
depois, para Viena, Zurique, Paris e, em 1941, acaba por se exilar nos Estados
Unidos. Vê-se, porém, obrigado a distanciar-se da perseguição aos comunistas,
instituída por McCarthy, e regressa à Alemanha, estabelecendo-se em Berlim Leste.
A sua conivência com o regime ditatorial da RDA é
outro ponto negativo da sua personalidade. Brecht mantinha uma conta na Suíça, possuía
passaporte austríaco (o que lhe permitiria, ao contrário do que acontecia com
os seus compatriotas, deixar o país se o desejasse) e silenciou sobre as
torturas e a perseguição a cidadãos críticos do regime comunista, já que foi
este que lhe realizou o sonho de possuir o seu próprio teatro.
A obra, porém, vale por si, independentemente do
carácter do seu criador, algo que vamos aprendendo a aceitar. Ficam cada vez
mais longe os tempos em que se consideravam os génios seres humanos exemplares,
destituídos de qualquer mácula.
Li esta interessante entrevista a Fernando Naporano e pus-me a fazer considerações sobre a maneira como escrevo. Saiu este texto:
Escrevo prosa: romances e contos. Levanto-me
muito cedo e gosto mais de escrever durante a manhã. De tarde, não tenho
ocasião e, ao serão, não consigo ser criativa. O ato de criação é, para mim,
muito cansativo e só me sinto apta a ele na frescura da manhã. Ao serão,
aproveito para fazer revisões. Revejo inúmeras vezes aquilo que escrevo, no
mínimo, dez vezes, algumas passagens ou cenas seguramente vinte ou trinta
vezes.
Tento sempre escrever entre duas a
três horas seguidas. Menos do que duas horas, não compensa, e mais do que três,
não consigo, começo a ficar cansada e vazia.
Para escrever um romance histórico,
é claro que tenho de fazer muita pesquisa. Já os contos são ideias que me
surgem, não preciso de pesquisar nada. Tenho alguns contos por publicar e
muitos mais na cabeça.
Nunca sinto medo de não corresponder
às expectativas. Escrevo aquilo que sinto. Quem gosta, gosta; quem não gosta,
não gosta.
Com projetos longos, romances de duzentas
ou mais páginas, fico um pouco ansiosa. Antigamente, ficava mais, tinha medo de
me esquecer de ideias que me surgiam logo no início para o meio ou o fim do
texto. Com o tempo, fiquei mais calma, a experiência ensinou-me que essas
ideias raramente se perdem. Pelo contrário: à medida que o enredo avança,
surgem outras melhores. Às vezes, porém, é difícil parar de escrever, quando penso que ainda tenho mais de cem ou de duzentas à
minha frente.
Escrevo seguramente de maneira
diferente hoje do que há dez ou vinte anos, quando comecei. Sou mais sucinta e
consigo “chamar” melhor os sentimentos. No início, estava bastante bloqueada.
Sentia necessidade de escrever, mas, por vezes, não sabia bem o quê. Hoje,
identifico mais facilmente.
O conselho que daria a mim mesma, se pudesse recuar,
seria o conselho que daria a qualquer principiante: pratica, escreve, sempre,
só com a prática se aprende!
Tenho dois grandes projetos que não
sei se chegarei a realizar. O primeiro seria um romance sobre a vida de Cristo,
com o foco na sua relação com a família. Há passagens da Bíblia que falam em
irmãos de Jesus. Como se daria ele com esses irmãos? Há outra passagem em que
ele diz que um profeta é reconhecido em todo o lado, menos na sua própria casa.
A família desconfiaria da sua sanidade mental? Também é curioso que Jesus nunca
se dirija a Maria com a palavra “mãe”, diz sempre “mulher”. Maria foi elevada,
pelo Cristianismo, a modelo de mãe ideal e, no entanto, o seu próprio filho
nunca a apelida de “mãe”. «Que queres tu, mulher?» pergunta Jesus, quando ela o
aborda, nas bodas de Canaã. Tudo isso seriam aspetos da sua vida que gostaria
de explorar. De uma maneira geral, interessam-me muito as relações familiares,
porque pouco do que as famílias expõem corresponde à realidade. Desconfio,
porém, que nunca chegue a realizar este projeto.
O segundo seria um romance que
caracterizaria a vida numa aldeia transmontana, ao longo de várias gerações.
Ando a pesquisar a minha família e a vida na aldeia-natal do meu pai com esse
fito e já constatei que as relações entre as pessoas estão carregadas de
violência. De novo, as relações familiares, aquilo que fica escondido, as
tragédias que se dão e ninguém consegue explicar (e, no entanto, têm sempre uma
explicação, nada do que fazemos é por acaso). Este projeto já me parece mais
realizável.