Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

19 de janeiro de 2019

Feminismo


«Uma mulher que educa os seus filhos seguindo os ensinamentos e os valores cristãos faz mais pelo progresso da política e pela verdadeira emancipação feminina do que todas as feministas do mundo, com os seus costumes duvidosos».

Gosta desta frase? No fim deste post, direi quem e quando a proferiu.

O feminismo é ainda muito mal visto. No caso dos homens, não me admira. Afinal, a ambição, por parte das mulheres, de atingirem igualdade de direitos e oportunidades significa que eles têm de fazer concessões, aprender a dividir o poder. E quem gosta de perder privilégios?

No caso das mulheres, já me preocupa mais, pois mostra que estão imbuídas de mentalidade machista, mesmo sem o saberem. Não querem ser confundidas com ativistas, não vão os homens pensar que também são “dessas”. Ou seja, submetem-se à imagem que os homens criaram para elas.

Muitos homens parecem ficar ciumentos, perguntam porque não podem eles ser machistas, ou seja, consideram o feminismo um pendant do machismo. Esta interpretação está errada. A História da nossa sociedade patriarcal prova que o machismo se baseia na subjugação da mulher, considerando o sexo masculino superior. O feminismo, por seu lado, “apenas” almeja igualdade de direitos e oportunidades. Não se trata de supremacia, mas de igualdade. As pioneiras do movimento necessitaram de um termo que caracterizasse a sua causa e a sua luta. Os homens não precisam, nem nunca precisaram, de lutar contra a subjugação por parte das mulheres. E, no entanto, parecem sentir-se ameaçados por elas! Sentem necessidade de se agarrarem a um termo com o pretexto de lhes fazerem frente. Pois eu acharia ótimo que o feminismo não fosse necessário. Mas vivemos ainda numa sociedade marcadamente patriarcal, foram muitos séculos de supremacia masculina e, se o feminismo não o lembrasse constantemente, depressa se voltaria ao passado.

Não resisto a fazer um paralelo com o racismo (que não é a mesma coisa, mas tem pontos de contacto). Muitos brancos se sentem afrontados com a expressão black pride e acham que também têm o direito de apregoar o white pride. Eu não concordo. A História conta-nos séculos de subjugação indigna dos negros. Apesar de a escravatura ter sido abolida há muito tempo, nós, brancos, carregamos essa herança, quer queiramos, quer não. Até porque a verdadeira igualdade ainda não foi atingida, há muitos negros vítimas de discriminação.

Acham que os brancos não têm de carregar herança nenhuma? E se eu falar de alemães, por exemplo? Acham que os alemães de hoje não têm de carregar com o estigma nazi? Como reagiriam os portugueses, se vissem um alemão alto, forte e loiro a passear em Portugal com uma t-shirt ostentado o dístico german pride? Decerto não lhes agradaria. E com razão. Porque, também neste caso, há uma História de desrespeito pelos direitos e pela dignidade de outros povos (e inclusive de genocídio) por parte dos alemães.

Voltando ao ponto de partida: muitas mulheres alegam que não precisam do feminismo para se sentirem ao mesmo nível dos homens. E apontam comportamentos impróprios de ativistas mais radicais para justificarem a sua aversão. É verdade que o movimento feminista já conheceu radicalismos. Por outro lado, é preciso reconhecer o grande valor das pioneiras do movimento, que, muitas vezes, precisaram de atitudes radicais para serem ouvidas. Mulheres atuais com aversão ao feminismo esquecem-se de que, se não fossem essas ativistas, talvez ainda não pudessem votar, nem viajar sozinhas sem a autorização de um homem, nem sequer orgulhar-se de não se sentirem inferiores a nenhum homem e de não terem medo deles. Atitudes destas, no dia-a-dia, são muito de louvar, mas não modificam leis. E são as leis que garantem a igualdade de direitos. As modificações de que beneficiamos, hoje, foram conseguidas pelas feministas que certas mulheres tanto desprezam.

Mulheres com aversão ao feminismo e homens machistas são, em regra, lestos a criticar a situação da mulher na sociedade islâmica. Eles e elas esquecem-se de que o podem fazer graças às feministas.

Infelizmente, a verdadeira igualdade não foi ainda atingida, mesmo na nossa democracia ocidental. Ainda há muita mulher a ser agredida pelo marido e/ou companheiro; ainda há muita mulher a ganhar menos do que os homens pelo mesmo trabalho; ainda há muita mulher a ser culpada por ter sido violada e a sofrer vexames incomportáveis perante sentenças de juízes e juízas!

Volto agora à frase que serviu de mote a este post, confessando que a modifiquei um pouco. A versão original é a seguinte:

«Uma mulher que educa os seus filhos seguindo os ensinamentos da religião católica faz mais pelo progresso da política e pela verdadeira emancipação feminina do que todas as lutadoras pelo direito de voto, em todo o mundo, com os seus costumes duvidosos».*

Sim, a frase foi escrita para agredir as feministas que lutavam pelo direito do voto das mulheres, em 1912! Foi escrita por mulheres! Fez parte de um comunicado da União das Mulheres Cristãs (Christliche Frauenbund), na Alemanha.

Pelos vistos, há mulheres que continuam a pensar segundo os mesmos esquemas. Foi só preciso fazer umas pequenas modificações para o provar.

Acrescento ainda que a expressão «costumes duvidosos» se refere às fundadoras da Associação Alemã para o Direito de Voto Feminino (Deutscher Verein für Frauenstimmrecht), criada em 1902. Chamavam-se Anita Augspurg e Lida Gustava Heymann e eram um par lésbico. É interessante verificar que este facto se tornava mais importante do que a causa em si. Hoje, continua a acontecer. Muitas vezes se atacam pessoas pelas suas opções sexuais, ofuscando a sua luta por causas justas.



* Traduzido, por mim, do alemão. O original foi lido na KirchenZeitung, um jornal católico alemão, edição de 13 de janeiro de 2019, e aqui o transcrevo:



«Eine Frau, die in echt katholischer Gesinnung Söhne erzieht, hat mehr für den politische Fortschritt und die wahre Emanzipation des weiblichen Geschlechtes getan als alle Wahlrechtdamen der Welt mit ihren höchst zweifelhaften Sitten insgesamt».


12 de janeiro de 2019

Por Longos Dias, Longos Anos, Fui Silêncio



Esta breve antologia de autoras transmontanas, com organização de  Hercília Agarez e Isabel Alves, tem lugar para a poesia, a prosa de ficção e o ensaio e é mais uma boa oportunidade para entrar em contacto com a região transmontana, as suas gentes e os seus costumes. Os ensaios incluem estudos sobre os escritores Miguel Torga e A. M. Pires Cabral e a pintora Aurélia de Sousa.

O livro pode ser adquirido contactando diretamente a Âncora Editora ou a Academia de Letras de Trás-os-Montes: academiadeletrasosmontes@gmail.com.


7 de janeiro de 2019

Contos do Portugal Profundo - e uma história brasileira (6)



«Saiu para a noite descalça e envergando apenas o vestido rasgado e ensanguentado. Não sentia frio. Caminhava firme e resoluta, sem parar para pensar, para se perguntar se haveria outra solução. Cães, que por ali vagueavam, quedavam-se sem ladrar, lançando-lhe um olhar que se diria solidário, como se nela vissem uma atormentada alma gémea dentro de um corpo açoitado».

In "Os Presuntos", conto de minha autoria na coletânea Portugal Profundo.


Os Contos do Portugal Profundo reúnem nove escritores que se conheceram no blogue Horas Extraordinárias, sendo um deles a anfitriã Maria do Rosário Pedreira.

À venda na Amazon:

https://www.amazon.es/Contos-Do-Portugal-Profundo-brasileira/dp/1727085205/ref=olp_product_details?_encoding=UTF8&me=

29 de dezembro de 2018

Gentes e Lugares



"Contos e Contas de Autores Transmontanos" - uma coletânea que reúne trinta seis escritores e na qual tive a honra de participar, com o conto "Identidade".

Os textos são tão variados como os seus autores e focam vários temas (incluindo a emigração), mas todos nos falam da terra transmontana, das suas gentes, costumes, vivências e pensamentos. Quem estiver interessado e/ou curioso sobre esta região, tão desconhecida do resto do país, pode adquirir o livro contactando a Academia de Letras de Trás-os-Montes: academiadeletrasosmontes@gmail.com.

A Academia de Letras de Trás-os-Montes tem um blogue oficial:
http://altm-academiadeletrasdetrasosmontes.blogspot.com/

17 de dezembro de 2018

Contos do Portugal Profundo - e uma história brasileira (5)



«Diário de bordo do ano da graça 1721... O navio Rainha dos Anjos de bandeira portuguesa, vindo de Macau para Lisboa, traz nos porões um tesouro na carga de artefactos, presentes da corte chinesa entre pedras preciosas e porcelana fabricada no palácio Imperial do período Kangxi para o Rei de Portugal D. João V. Era madrugada, no lusco-fusco se lhe mantendo vigilantes os grumetes e a tripulação do Rainha. O acompanhará uma pequena esquadra composta de três velozes fragatas. Agora estas, lentamente, manobram na chegada e estrategicamente baixam âncoras para descanso e mantimentos da frota. Porto dos Patos, desde sempre historicamente referência de Sebastião Caboto, escolhido o ser gente pacata e de fácil navegabilidade à larga baía, a lida de abastecimento na ilha do Desterro do Sul do Novo Mundo, Brasil».

In "O Barrete", Cláudia da Silva Tomazi - a história brasileira incluída na coletânea Portugal Profundo.

Os Contos do Portugal Profundo reúnem nove escritores que se conheceram no blogue Horas Extraordinárias, sendo um deles a anfitriã Maria do Rosário Pedreira.

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3 de dezembro de 2018

Contos do Portugal Profundo - e uma história brasileira (4)





«Mastigou e atropelou a missa matinal, o que de resto não notaram a Pulquéria Beata e a Isaulinda da Meã, uma surda que nem molho de carqueja e a outra decrépita, ambas empenhadas em ganharem a vida eterna pela via da oração, assistiam à missa rezando o terço tão concentradas, que nem a queda do altar-mor as desviaria da devoção. É latim! Diriam com ar sabedor, se inquiridas a respeito.
A sua verdadeira testemunha, para além do Cristo no altar, que de braços abertos parecia simultaneamente fazer um gesto de resignação impotente a estes atropelos e admirar o panorama que dali abarcava, foi a serra que se avistava pela porta escancarada da igreja. Assim, controlava o evoluir do estado do tempo, enquanto se extasiava com o espectáculo sempre renovado daquela beleza agreste».


In "O Padre Bento", António Luiz Pacheco, conto incluído na coletânea Portugal Profundo


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