Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

14 de julho de 2018

Vento e Barro



«Soprou-me o vento sobre o barro, assim fez o meu ser, pés colados à terra, cabeça acima das nuvens. Cozeu-me à sua imagem - irascível, instável, amigo de larguezas e solidões. Deu-me por brinquedos imaginação e argila para os moldar - quase sempre aviões, como os que sobrevoavam as vinhas por onde corria descalço, braços abertos como asas tentando elevar-me da mediocridade terrena, e embalado nas descidas pulava barreiras e silvados, e por instantes também eu voava».

Assim se inicia a introdução a esta interessante coletânea de contos. É difícil compreender como um autor que já ganhou alguns prémios literários continua a ser ignorado pelo mundo editorial português. Nesta coletânea, encontram-se inclusive três contos premiados (Prémio Irene Lisboa 2010, Prémio Dr. João Isabel 2010 e 2º lugar no Prémio Dr. João Isabel 2015), dois que mereceram Menção Honrosa (no Prémio Dr. João Isabel 2010 e no VI Prémio Irene Lisboa) e uma Menção Especial no Prémio Glória Marreiros 2013.

É pena que as editoras não se interessem por contos que tão bem caracterizam certos aspetos do ser e do viver português e publiquem, muitas vezes, livros sem interesse nenhum. Ler José C. Catarino é entrar em certos matizes da alma portuguesa, como já tinha referido em relação aos romances Entre Cós e Alpedriz e Um Amor Inventado. Mas se os romances nos davam a conhecer a vida na província, em Vento e Barro muitos contos põem-nos em contacto com a classe média citadina, inculta, interessada apenas em dinheiro e sexo. Há igualmente lugar para a alegoria, no conto O Velho Défice, Empréstimo, o Rapaz e o Burro PIBE, e para a fábula em Pirulito, Rimas e a Associação de Moradores.

Os contos são de leitura aprazível, empolgante, num estilo que nos pinta imagens à frente dos olhos. A criticar encontro apenas alguns finais menos bem conseguidos.

Vento e Barro está disponível na Amazon:



9 de julho de 2018

Contos da Emigração (8)



«Ao chegarem a casa, reparam que as caixas do correio na entrada têm todas um autocolante artesanal com nomes diversos, parecem apelidos, que ninguém se chama Schmidt nem Müller de primeiro nome. Rui toma nota mental para averiguar o que é que vão ter de pôr na caixa de correio deles e como é que adivinham qual é a deles, não há números a distinguir e as campainhas também não indicam os andares. Descobre mais tarde que é a preocupação com a privacidade e com quem espreita que leva a estes excessos securitários».

In "partida largada fugida", Rita Sousa Uva



2 de julho de 2018

Contos da Emigração (7)



«Imaculada não era uma cebola racista. Os rabanetes, por exemplo, não lhe faziam impressão, mas, por outro lado, não gostava, nem de beringelas, que matavam quem não acreditasse lá nas divindades delas, nem de beterrabas, que eram sujas e cheiravam mal. E havia cada vez mais desses vegetais no bairro onde vivia».

In "O Sobrinho", Nuno Gomes Garcia



30 de junho de 2018

Memórias de Dona Teresa (6)

As "Memórias de Dona Teresa" estão à venda na Feira do Livro de Braga - stand da livraria Centésima Página.

«Não sei se é de noite, se de dia. Nem sequer quem vela a meu leito. Nada vejo, ouço vozes que não distingo. A única cousa que me surge com clareza é a minha vida, a passar diante dos olhos, abertos ou fechados, pois mesmo com eles abertos não são as paredes do meu quarto que vislumbro, mas aqueloutros dias que me fazem reviver todo o ódio e toda a amargura, por fim, a impotência que de mim se apoderou».


24 de junho de 2018

Contos da Emigração (6)



«A escola pública alemã, onde comecei a ir às aulas a meio do ano lectivo, era tão rica que fiquei deslumbrado. Um átrio e escadarias em mármore, ginásio, quadros nas salas de aulas que deslizavam para cima e para baixo e casas de banho tão limpas que pareciam de contos de fada. Uma vez por semana íamos à escola primária junto ao UniCenter, que tinha uma piscina interior para as aulas de natação. À porta da escola havia alunos com blusões de ganga sem mangas que me queriam bater porque eu não falava alemão. Todos os dias tinha que andar à luta ou fugir».

In "A minha bicicleta verde"
Miguel Szymanski



19 de junho de 2018

A lindíssima igreja barroca de Podence


A visita a Podence e à Casa do Careto vale bem a pena. Mas esta aldeia transmontana encerra ainda outra pérola no seu seio: a pequena igreja barroca, um verdadeiro tesouro a precisar, infelizmente, de muitas obras de restauro. Espero que essas obras sejam feitas, para que ainda várias gerações de portugueses possam admirar esta maravilha.

De fora, não se adivinha a sua beleza

Pormenor das pinturas do teto, a precisarem de muito restauro

A parte da igreja em pior estado

Mais uma vez, as lindas pinturas, que ameaçam desaparecer

O altar. E uma senhora a explicar-me certos pormenores

Vista do lado direito

Mais uma vez, o teto

Tão bonito, mas em tão mau estado

Aqui pode ver-se o mau estado das madeiras
 

17 de junho de 2018

Contos da Emigração (5)



«Aos domingos à tarde, durante o verão em Berlim, não é preciso muito esforço para ocupar o tempo. O tempo ocupa-nos. O dia começa muito cedo e não tem pressa de acabar. Espreguiça-se pelas curvas do rio e chega-nos num bafo quente que nos entorpece e faz divagar. Se seguirmos pelas margens do rio afora, em poucos passos nos deparamos com espaços despovoados e escassamente organizados. Ruínas de casas de paredes de tijolos vermelhos cobertas de indecifráveis escritas denunciam passagens ilícitas e provocadoras. Uma vereda aberta por entre os arbustos espreita um pescador e a sua bicicleta».

In "Uma história verdadeira"
Luísa Coelho





15 de junho de 2018

Origens

A freguesia do Lombo, vista do Santuário de Balsamão


«Era com a impressão de entrar num outro mundo que eu, em criança, chegava ao Lombo, aldeia-natal do meu pai, cujo nome deriva da sua localização sobre a lombada de um monte, com vista para o Santuário de Balsamão, a norte, e para a Serra de Bornes, a oeste». 

Começa assim Um Outro Mundo, o conto que escrevi para a "Antologia de Autores Transmontanos, Alto-durienses e da Beira Transmontana", publicada pela Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa.
 

O meu pai é natural da freguesia do Lombo, concelho de Macedo de Cavaleiros, distrito de Bragança. Trata-se de uma aldeia bastante isolada, pois fica a cerca de cinco quilómetros desviada da EN 216, que liga Macedo de Cavaleiros a Mogadouro. Quando eu era criança, a estradeca que levava ao Lombo não estava alcatroada. E, ao tempo da infância e da juventude do meu pai (que tem 80 anos), apenas havia caminhos, pelo meio dos montes. Não havia meios de transporte motorizados, as pessoas iam a pé, ou de burrico, à sede do concelho, a vinte quilómetros de distância. Foi, por isso, uma aldeia sempre muito isolada, até meados do século XX.

Freguesia do Lombo

A informação na página da Wikipedia, que aponta a paróquia sueva do século VI, denominada Tureco, como origem da aldeia, não está historicamente comprovada. Pouco, ou nada, se sabe da História do Lombo, até meados do século XVIII. Há uma parte mais alta denominada de "castelo", embora não haja, hoje em dia, o mínimo vestígio de uma possível fortificação, ou castro. Confesso que acho a versão Tureco interessante, já que se assemelha ao nome da minha família (Torrão).


Lombo - praça principal

Devido à sua localização, perto da fronteira, houve, pelo menos, desde meados do século XIX, bastante intercâmbio com o concelho espanhol de Alcanices. Algumas famílias leonesas estabeleceram-se no Lombo, nessa altura. A da minha bisavó Maria Rodriguez, originária da localidade de Fonfria, foi uma delas.

Freguesia do Lombo

Na última vez que estive no Lombo, em Abril passado, era tempo de tosquia e o meu marido aproveitou para tirar algumas fotografias.