Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

23 de fevereiro de 2024

Resistência em alemão (16)

Irmã Maria Imma Mack

Depois de vários meses sem dar seguimento a esta série, venho hoje quebrar o silêncio, para falar de uma mulher, a segunda, depois de Sophie Scholl. Escrevi sobre vários padres católicos que contestaram o regime nazi, contrariando uma certa passividade na posição oficial da sua Igreja. Mas também mulheres pertencentes a esta instituição colaboraram com os opositores de Hitler. A Irmã Maria Imma Mack foi uma delas.

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Imagem encontrada no site da Ordem a que pertenceu

Nascida a 10 de fevereiro de 1924, na pequena localidade bávara de Möckenlohe, foi batizada de Josefa Mack. Em 1942, começou a trabalhar num lar de órfãos, em Freising, pertencente ao mosteiro da Kongregation der Armen Schulschwestern von Unserer Lieben Frau. Já nessa altura, Josefa Mack tencionava ingressar nesta Ordem, fundada na Baviera, em 1833. Não sei se tem equivalente em português (se alguém o souber, pode dar a informação nos comentários). Em latim, intitula-se Congregatio Pauperum Sororum Scholasticarum Dominae Nostrae e, em inglês, School Sisters of Notre Dame.

Freising fica a cerca de 30 Km de Dachau, onde existiu um Campo de Concentração, do qual já falei aqui, a propósito do padre Engelmar Unzeitig, prisioneiro do “Bloco dos Padres” (Pfarrerblock). Por lá passaram 2720 sacerdotes, católicos na sua esmagadora maioria e de diversas nacionalidades, levando inclusive um jornalista francês, Guillaume Zeller, a escrever o livro La Barraque des Pretres. Também há um filme alemão, de Volker Schlöndorff, com o título Der neunte Tag.

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Pfarrerblock em Dachau

Em maio de 1944, Josefa Mack foi, pela primeira vez, incumbida de se deslocar ao horto do Campo de Concentração de Dachau, a fim de comprar flores e plantas. Apercebendo-se das condições miseráveis do campo, convenceu as freiras a pouparem na sua própria alimentação, a fim de ela poder levar comida aos prisioneiros, embora fosse proibido. Assim começou ela a ir lá regularmente, com o pretexto de comprar plantas.

Ferdinand Schönwälder, um padre jovem, trabalhava no posto de venda do horto e, um dia, pediu-lhe que trouxesse também vinho para a eucaristia, hóstias e medicamentos para o tifo. Os padres tinham organizado uma capela e pretendiam celebrar missas clandestinas. Josefa Mack colaborou e, durante cerca de um ano, deslocou-se várias vezes ao Campo de Concentração, fazendo, no verão, os 30 Km (para cada lado) de bicicleta e, no inverno, de trenó. As suas missões clandestinas tornaram-se ainda mais perigosas, quando assentiu a mais um pedido de Ferdinand Schönwälder: levar cartas dos prisioneiros para as suas famílias e amigos. Seria o suficiente para condenar Josefa Mack à morte, mas ela chegou a transportar missivas para o o cardinal Michael von Faulhaber, arcebispo de Munique e Freising. E foi ela quem, além das hóstias e do vinho, arranjou velas, santos óleos e paramentos, a fim de que o bispo francês preso em Dachau, Gabriel Piguet, de Clermont-Ferrand, pudesse ordenar padre o diácono Karl Leissner, um outro conhecido opositor do nazismo, beatificado em 1996 por João Paulo II e do qual hei de igualmente falar aqui. Foi a única ordenação de um padre acontecida num Campo de Concentração nazi.

Depois da guerra, Josefa Mack tornou-se noviça e professou em 1946, adoptando o nome de Maria Imma. Muitos anos mais tarde, em 1989, publicou as suas memórias em livro. O título Warum ich Azaleen liebe (“Porque amo as azáleas”) foi inspirado numas azáleas vermelhas que um prisioneiro de Dachau lhe ofereceu, quando ela lhe prometeu visitar os pais dele. A promessa foi cumprida em janeiro de 1945.

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Editora eos

Encontrei uma tradução em espanhol, à venda em segunda mão na net:

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A 19 de Dezembro de 2004, a Irmã Imma Mack foi condecorada femme chevalier da Légion d’honneur, por ter auxiliado os padres franceses de Dachau. E, em 2005, o Presidente da República Federal da Alemanha Horst Köhler condecorou-a com a Bundesverdienstkreuz I. Klasse.

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Imagem do site do Liceu, na Baviera, que passou a ostentar o seu nome

A Irmã Imma Mack faleceu a 21 de Junho de 2006. O seu nome foi dado a um liceu do concelho de Freising, assim como a algumas ruas (uma delas em Munique) e a uma praça, em localidades dessa região.

6 de fevereiro de 2024

Em alemão

 Publiquei o meu primeiro livro em alemão.

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O texto já tem aliás uns bons anitos. Foi com esta história que me iniciei na blogosfera, em 2010. Não passou despercebida, foi referida pelo falecido jornalista Pedro Rolo Duarte, num programa radiofónico, incluindo leitura de um excerto.

Tive, no entanto, de mexer muito no texto. O formato em que foi publicado tem regras muito definidas, nomeadamente, no que diz respeito ao número máximo de caracteres. Não foi fácil, cheguei a pensar não o conseguir. Mas desistir nunca foi meu apanágio.

Decidi apresentar-me como Cristina Santos, por duas razões. Ninguém consegue pronunciar o nome Torrão, por aqui. E, se alguém se lembra de recomendar o livro, não lhe quero dificultar a vida. O segundo motivo é a dificuldade que tenho sentido, em Portugal, em vender os meus livros. Perguntei-me então se o apelido Santos me daria mais sorte. Nem chega a ser um pseudónimo, pois faz parte do meu nome. Foi-me transmitido por um bisavô materno, que nunca conheci, mas cuja história de vida me emociona. Foi um exposto da Santa Casa de Lisboa, com apenas duas semanas de vida. Batizaram-no Carlos da Graça e Santos. Sinto-me feliz ao honrá-lo desta maneira.

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Gostaria ainda de referir que este projeto não seria possível sem a preciosa ajuda do meu marido Horst Neumann. Apesar de possuir o meu “canudo de Germânicas” e viver neste país há trinta e um anos, ainda tenho problemas em certos pormenores gramaticais. E não seria capaz de dar um livro à estampa, sentindo dúvidas desse tipo.

O livro está à venda numa plataforma online, surgida recentemente no mercado alemão, a StoryOne, com sede em Viena. Este ano, a StoryOne tornou-se mais atrativa ao estabelecer uma parceria com uma das maiores redes livreiras alemãs, a Thalia. Um júri irá apreciar as publicações submetidas até 10 de março e escolherá cerca de cem, que serão postas à venda, em papel, nas cinco principais filiais da Thalia: Hamburgo, Berlim, Colónia, Düsseldof e Viena.

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Estou tão entusiasmada com este tipo de projeto, que o segundo livro já está em preparação (cada pessoa é autorizada a participar com o máximo de três obras). No cinquentenário da nossa revolução, escolhi um conto baseado em certos aspectos do 25 de Abril, que tenho na gaveta há cerca de três anos. Além da tradução, não precisei de mexer muito no texto, pois não excedia o número de caracteres exigido. Falarei em breve desse projeto também.

Desejem-me sorte!

28 de janeiro de 2024

Teu irmão, teu rival

Outro dia, li uma publicação no Facebook sobre um tema que me é caro: a rivalidade entre irmãos. O foco eram os irmãos alemães Rudolf Dassler (1896 – 1974) e Adolf Dassler (1900 – 1978), fundadores da Adidas e da Puma (Adidas vem do nome pelo qual o irmão mais novo era conhecido na família: “Adi”, de Adolf, a que se juntaram as três primeiras letras do apelido: “das” de Dassler). Apesar de não ter havido nenhum crime, eles foram comparados a Caim e Abel, por causa da rivalidade que marcou a sua relação. Começaram aliás por fundar a Adidas juntos, mas haveriam de se separar, completamente incompatíveis (daí a fundação da Puma, por Rudolf Dassler).

Nessa menção a Caim e Abel, Paulo Marques, o autor do postal, dizia: “trágica e tristemente, foi entre dois irmãos que se deu o primeiro homicídio da história da humanidade”. Na minha opinião, porém, e num contexto criminal, o acontecimento não é, nem especialmente trágico, nem especialmente triste. Vejo-o como um símbolo muito forte, como o são praticamente todos os acontecimentos relatados na Bíblia. Sejamos crentes, ou não, a sua leitura despoleta (ou “espoleta”, para os mais puristas) reflexões sem fim. A Bíblia é a história da condição humana: conflitos, lutas, ciúmes, traições, tristezas, alegrias, desesperos, obediência cega, heroicidades e, last but not least, a nossa impotência perante as forças da Natureza, venham elas em forma de dilúvio, secas, pragas ou outras, independentemente de acreditarmos, ou não, serem baseadas em castigos divinos.

O crime de Caim sobre Abel é, por isso, um símbolo fortíssimo, ao lado de tantos outros. Irmãos eram, são e serão sempre rivais. Mesmo que se deem bem, há sempre algo por resolver, algo de inquieto, desconfortável, na base do seu "amor". E os pais são os principais responsáveis por essa instabilidade latente. As comparações, as preferências, a vontade de irritar um deles e elogiar o outro (sempre os mesmos, nisso, os pais não alternam), tudo isso, levado ao extremo, pode desembocar numa grande tragédia. Tudo depende da intensidade que os pais põem nessas suas, digamos, inconstâncias. O carácter inato dos irmãos representa um papel bem mais pequeno, pois é, acima de tudo, manipulado pelos pais (mesmo que inconscientemente).

Acham que estou a exagerar? Vamos então à Bíblia! O que gerou tão grande ódio em Caim? A diferença com que Deus o tratou, em relação ao irmão. Sem ser explicada a razão, Deus preferiu as oferendas de Abel, desprezando as de Caim, apesar de este tentar, por todos os meios, agradar-Lhe. Sim, os pais biológicos eram Adão e Eva, mas, na Bíblia, Deus é definido, inclusive por Jesus Cristo, como o Pai por excelência, o Pai da Humanidade.

No seu romance Caim, Saramago mostra compaixão pelo assassino, levado a exercer um crime por Aquele que devia ser o símbolo máximo da Justiça. Porém, na Bíblia, assim como na vida real, ninguém quer saber das razões que levam um irmão a odiar outro. O insatisfeito, aquele que reclama, é sempre apelidado de ciumento, invejoso, violento e sabe-se mais lá o quê. Parece ser-nos mais confortável enchê-lo de epítetos negativos, vê-lo como uma figura fraca, reles, desprezível. Sim, é muito confortável. Dá-nos a ilusão de sermos superiores, justos, cândidos.

Podemos perguntarmo-nos qual a razão de Deus ser tão injusto, neste episódio. Como já o disse acima, temos motivos de sobra para refletir. Mas é pena que, na maior parte das reflexões, a atitude de Deus não seja identificada com a de muitos pais. Podiam evitar-se infelicidades e até crimes. Seria para isso que o autor nos tentava chamar a atenção?

 

Nota: o título deste postal foi inspirado no título de um capítulo do meu romance Dom Dinis, a quem chamaram o Lavrador. Sim, também o nosso rei-poeta, um rei caracterizado como justo e culto, nunca conseguiu estabilizar a sua relação com o irmão mais novo. Chegaram mesmo a guerrear-se.

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10 de janeiro de 2024

Neve

Apesar de ser no Norte do país, a zona onde vivo não é a mais fria da Alemanha, pois beneficia da influência do Mar do Norte. Já se sabe que as chamadas zonas continentais são mais de extremos. É raro, por aqui, haver as grandes camadas de neve que se conhecem dos Alpes, ou de outras zonas montanhosas da Europa Central, por ironia, bastante a sul de Hamburgo. Vivo numa região plana, semelhante aos Países Baixos. Também no Norte da Alemanha se têm de construir diques, mas mais por causa do rio Elba. Sendo já muito largo, a partir de Hamburgo, ele estender-se-ia sem controlo pelas planuras do seu caminho até à foz, a cerca de 90 km desta cidade portuária.

Isto não quer dizer, claro, que não seja frio. As temperaturas negativas são normais, nesta altura do ano, mas raramente descem abaixo dos -5ºC, ao contrário do que acontece nas montanhas a sul. Costuma, porém, haver pouca neve. Muitas vezes, estamos abaixo de zero, sem neve, nem geada, uma situação interessante, em que o solo congela. Quem tem jardim, pode verificar isso perfeitamente.

Por acaso, neste Outono/Inverno, tem havido bastante neve. Sei que também está frio em Portugal, mas, como na maioria do nosso país não há neve, nem congelam os lagos dos parques, resolvi partilhar algumas imagens que tenho captado, em Stade, nos últimos tempos, e que reuni neste vídeo. Viel Spaß!


 

24 de dezembro de 2023

23 de dezembro de 2023

Livros que mudam as nossas vidas

 

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Entre a primeira publicação deste romance histórico e a sua tradução em português contam-se vinte e nove anos. O da esquerda foi por mim comprado em Londres, em 1996. A edição portuguesa é recente, de Outubro passado.

Nos meus primeiros anos na Alemanha, a fim de continuar a praticar o inglês, o meu marido costumava oferecer-me livros neste idioma. Um dia, chegou a casa com o romance histórico The Reckoning. Eu nunca tinha ouvido falar da autora. E, depois deste livro, decidi ler tudo quanto ela tivesse escrito.

No dito ano de 1996, aproveitei uma breve estadia em Londres para entrar numa enorme livraria e comprar todos os seis romances (em edições de bolso da Penguin) de Sharon Kay Penman que lá encontrei (na altura, a autora publicava como Sharon Penman). Escolhi uma grande filial de uma conhecida rede inglesa de livrarias para precisamente aumentar a possibilidade de encontrar diferentes livros da autora.

Os romances de Sharon Kay Penman influenciaram grandemente a minha vida. Em primeiro lugar, convenci o meu marido a passar uma semana de férias no País de Gales, depois de ler a sua trilogia sobre os últimos tempos dessa nação como Principado independente e a sua conquista pelo rei inglês (séculos XIII, XIV). A autora escreve de maneira tão fascinante sobre todo o processo, que me pôs com uma vontade irresistível de ir conhecer essas paragens.

A maior influência exercida por Sharon Kay Penman em mim foi, porém, a minha resolução em escrever romances históricos. Ela provocou uma verdadeira odisseia na minha vida, na procura pormenorizada de factos históricos, durante anos e sem grandes meios, a fim de escrever romances sobre os dois mais importantes reis da nossa época medieval: D. Afonso Henriques e D. Dinis. E acabei igualmente por escrever, já em 2018, sobre D. Teresa.

Sharon Kay Penman, falecida em 2021, não estava ao nível de um Nobel, mas possuía grande sensibilidade, levando-nos a apaixonar-nos pelas suas personagens, fazendo das suas lutas as nossas lutas, alegrando-nos, sofrendo e mesmo chorando junto com elas. Pouco mais se pode exigir de uma escritora, ou escritor.

Sempre me entristeceu o facto de os seus livros não estarem traduzidos em português. Foi, por isso, uma agradável surpresa tomar conhecimento deste. O título Quando Cristo e os seus Santos Adormeceram é uma frase tirada de uma crónica medieval, sobre o período em questão: Never before had there been greater wretchedness in the country…And they said openly that Christ and His saints slept (The Peterborough Chronicle).

Os acontecimentos relatados nestas mais de 700 páginas são contemporâneos do nosso Afonso Henriques. No século XII, a Inglaterra foi devastada por uma guerra civil durante dezanove anos. O único filho varão de Henrique I morreu jovem, ao afundar-se a sua embarcação na travessia do Canal da Mancha. Henrique I nomeou sucessora a filha Matilda, conhecida como imperatriz Maude por ter sido casada com o imperador germânico Henrique V. Matilda enviuvou muito cedo e regressou a Inglaterra. Mas, por ser mulher, foi o seu primo Stephen quem acabou por ser coroado, depois do falecimento do rei.

A imperatriz Maude nunca se conformou. Ela e o rei Stephen digladiaram-se numa sangrenta e longa guerra civil (que decorria ainda por alturas da Conquista de Lisboa, a razão por não terem saído de Inglaterra tantos cruzados como seria de esperar). Matilda nunca conseguiu alcançar o trono, mas foi o filho do seu segundo casamento quem o herdou, dando início a uma das mais conhecidas dinastias da História. Henrique II, marido de Leonor da Aquitânia e pai dos famosos Ricardo Coração de Leão e João Sem-Terra, foi o primeiro rei Plantageneta. O seu pai francês era conhecido por esse título, aliás, uma alcunha, pois, verdadeiramente, ele era conde de Anjou.

A edição portuguesa foi traduzida por Elsa T. S. Vieira e publicada pela Kathartika.

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Feliz Natal

6 de outubro de 2023

No país dos mamarrachos

 

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Imagem: Nelson Garrido

A polémica, felizmente, não durou muito. O povo decidiu, os ânimos serenaram. E ainda bem. Salvo raras exceções (como quando glorificam ditadores) as estátuas não devem ser removidas de ânimo leve.

Dito isto, e porque tenho uma ligação afetiva com a cidade do Porto, a minha opinião sobre o objeto da discórdia é: feia! Mas não é por causa do nu, ou de incitar ao assédio (não adianta vir com esses argumentos nos comentários). É simplesmente grosseira. O Camilo está péssimo, destituído de dignidade. Parece um avozinho caquético, deslumbrado por uma menina nua, aproximando-se dela, com o pretexto de a proteger do frio. É isso que me vem à cabeça, quando olho para a estátua.

Além disso, não tem nada a ver, mesmo nada, com o romance Amor de Perdição. Nem sequer com o conjunto da obra de Camilo, ou com a sua vida. Camilo não era nenhum D. Juan, ou Casanova. A sua relação com Ana Plácido causou polémica por se tratar de adultério e os dois terem ido parar ao calabouço. Superado esse período negro, porém, eles levaram uma vida normalíssima.

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Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, com um dos filhos – Imagem Rádio Portuense

E, se Camilo não era nenhum Casanova, Ana Plácido estava longe de ser uma Vénus. A que se acrescenta o facto de não ter sido muito mais nova do que ele, como sugere a estátua (para quem a identifica com a figura feminina). Cerca de seis anos separavam os seus nascimentos. E envelheceram juntos, como a maior parte dos casais.

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Camilo e Ana Plácido já "entradotes" – Imagem Museu Virtual do Tribunal da Relação do Porto

Diz o autor da estátua que a menina representa as musas de Camilo. Todos os artistas têm as suas inspirações. Mas o nosso escritor das musas é o Luís Vaz (e fico-me por aqui, para não rimar), que, tendo vivido numa época mais recuada, sobre a qual as informações são escassas, convida mais à criação de lendas e mitos.

No fundo, esta estátua não passa de um mamarracho. O povo decidiu bem? Decidiu. Há tantos mamarrachos espalhados pelo nosso país, que não se justifica o trabalho de remoção de um deles.

Camilo merecia melhor? Oh sim, merecia! Mas já Cristo nos disse: «Um profeta é respeitado em qualquer lugar, menos na sua terra, entre os seus parentes e pela sua própria família» (Marcos 6:4).

 

1 de outubro de 2023

Comemorações dos 900 anos do Foral de Viseu

Depois de tão grande ausência, regresso com mais publicidade. Neste caso, porém, o evento já passou. No passado dia 23 de setembro, estive em Viseu para falar dessa grande mulher que foi Dona Teresa.

 


Os meus agradecimentos à Câmara Municipal de Viseu, na pessoa da Dra. Dora Mariano, Chefe da Divisão Cultural, e à Dra. Liliana Tavares, dirigente da Rede de Museus Municipais.

Aqui vai um momento da conversa:


 

Em breve regressarei para finalmente pôr as leituras em dia.

2 de fevereiro de 2023

Momento publicitário (2ª parte)

E deixo aqui o link da RTP Play para o 10º episódio da série documental Duplas à Portuguesa, transmitido ontem. É dedicado à dupla Afonso Henriques e Egas Moniz.

Infelizmente, não tem direitos de transmissão para o estrangeiro, só poderei ver o programa no próximo dia 7, na RTP Internacional.

https://www.rtp.pt/programa/tv/p42647/e10

24 de janeiro de 2023

Momento publicitário

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Não sei se já ouviram falar na série documental Duplas à Portuguesa, que costuma passar na RTP2, às quartas-feiras, pelas 22:50 horas. O 10º episódio, dedicado à dupla D. Afonso Henriques/Egas Moniz, vai para o ar no próximo dia 1 de fevereiro.

A 13 de julho de 2021, desloquei-me ao Museu Soares dos Reis, no Porto, a fim de ser entrevistada sobre essa dupla, para essa mesma série. A entrevista durou cerca de uma hora, mas deduzo que apenas alguns momentos serão mostrados, pois são entrevistadas várias pessoas sobre cada tema (isto, no caso de terem aproveitado alguma coisa da minha entrevista).

E era isto. Se pudessem ver, agradecia.

 

11 de janeiro de 2023

Resistência em alemão (5)

 Willi Graf

Willi Graf - Placa de homenagem na casa onde nasce

Placa de homenagem a Willi Graf com foto, na casa onde nasceu

Wilhelm „Willi“ Graf nasceu a 2 de janeiro de 1918 em Euskirchen, mas a família mudou-se para Saarbrücken quatro anos depois, onde o pai Gerhard Graf tomou conta de uma quinta pertencente à paróquia de São João. A família era muito ligada à Igreja, Willi Graf ajudou à missa e pertenceu a uma organização de Juventude Católica chamada Bund Neudeutschland, proibida assim que o Partido Nazi alcançou o poder. Em 1934, Willi Graf ingressou numa outra organização católica, a Grauer Orden, abertamente crítica do regime e também proibida, mas que sobreviveu vários anos na clandestinidade, dividida em pequenas unidades regionais.

Willi Graf recusou ingressar na Juventude Hitleriana, apesar de o terem ameaçado de, nesse caso, não lhe permitirem acabar o liceu. Também não se deixou convencer, quando lhe propuseram que ingressasse apenas para manter as aparências. O jovem manteve-se firme nas suas convicções e conseguiu concluir os estudos liceais, de maneira a poder iniciar o curso de Medicina, em Bona, no outono de 1937.

Em 1938, foi preso, junto com outros elementos da Grauer Orden. Algumas semanas mais tarde, porém, beneficiou de uma amnistia na sequência da anexação da Áustria. Quando rebentou a guerra, foi alistado. Serviu a Wehrmacht (exército alemão) até 1942 como socorrista e médico auxiliar na Bélgica, França, Jugoslávia e União Soviética, assistindo a muitas atrocidades. Segundo a sua irmã Anneliese, estas experiências despertaram nele a convicção de que teria de agir.

Willi Graf Soldado.JPG

https://www.literaturland-saar.de/themen/willi-graf-briefe-tagebuecher/willi-graf-briefe-und-tagebuecher/

Em abril de 1942, foi transferido, junto com os seus colegas de curso, para a Universidade Ludwig-Maximilian, em Munique, onde entrou em contacto com Hans e Sophie Scholl, tornando-se num elemento ativo do grupo Weiße Rose. Na primeira metade de Fevereiro de 1943, além da distribuição dos folhetos, Willi Graf, Hans Scholl e Alexander Schmorell pintaram em vários edifícios de Munique palavras de ordem, como “Abaixo Hitler” e “Hitler assassino em massa”.

Quando, a 18 de Fevereiro, os irmãos Scholl foram descobertos a distribuir os folhetos e entregues à Gestapo, Willi Graf e a sua irmã Anneliese foram igualmente presos, passadas poucas horas. Anneliese, porém, nada tinha a ver com o Weiße Rose (nem sequer sabia que o irmão pertencia ao grupo) e foi libertada. Ele foi condenado à morte a 19 de abril de 1943, mas, ao contrário dos irmãos Scholl e de Christoph Probst, a sentença não foi imediatamente cumprida. Durante seis longos meses, a Gestapo submeteu-o repetidamente a interrogatórios, na esperança de conseguir extorquir-lhe nomes de outros “traidores”. Willi Graf acabou por ser executado pela guilhotina a 12 de outubro de 1943. Foi sepultado em Munique, mas, a pedido da família, os seus restos mortais foram trasladados para Saarbrücken, onde, a 4 de novembro de 1946, foram depositados num túmulo de honra, no cemitério de São João.

Em 1999, Willi Graf foi inserido no Martirológio Católico do século XX. A 27 de dezembro de 2017, a diocese de Munique-Freising anunciou considerar a sua beatificação e a 1 de novembro de 2018, foi inaugurado o sino Willi Graf na Igreja de Santa Elisabete, em Saarbrücken.

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https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=74050872

Além de vários liceus e ruas, têm o nome de Willi Graf: um lar de estudantes em Munique, um lar de idosos em Saarbrücken, um centro de formação para famílias em Neuss e um centro de convívio para jovens em Ludwigshafen am Rhein.

Terminada a guerra, a irmã Anneliese Knoop-Graf dedicou-se intensivamente a analisar a vida, o pensamento e a acão de Willi Graf, através dos diários dele, entre outras fontes. O seu trabalho em prol do estudo da resistência alemã ao nazismo valeu-lhe um doutoramento Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Karlsruhe. Anneliese Knoop-Graf também instituiu o Prémio Willi Graf no Liceu Irmãos Scholl de Münster, conferido anualmente a finalistas que se destaquem pelo seu desempenho.

28 de dezembro de 2022

Resistência em alemão (4)

 Christoph Probst

Sophie Scholl, Hans Scholl, Christoph Probst - Fot

Foto: George (Jürgen) Wittenstein/akg-images

Nesta fotografia, além dos irmãos Hans e Sophie Scholl, encontra-se o seu amigo e companheiro de luta do grupo “Rosa Branca” Christoph Probst (à direita). Esta fotografia acabou por ser premonitória, pois os três foram presos e executados no mesmo dia.

Christoph Hermann Ananda Probst nasceu em Novembro de 1919, filho de Hermann Probst, um engenheiro químico com ligações ao meio artístico, nomeadamente, com artistas proscritos pelo regime nazi. Hermann Probst era igualmente um estudioso do sânscrito e da filosofia indiana. O filho cresceu assim num meio valorizador da liberdade cultural e religiosa.

O destino de Christoph Probst foi particularmente trágico. Estudante de Medicina na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, dava ideias para a criação dos folhetos distribuídos clandestinamente pelo grupo "Rosa Branca". Mantinha-se, porém, afastado de um envolvimento mais comprometedor. Só por ocasião da Batalha de Estalinegrado, se decidiu a escrever ele próprio um texto, que deveria constar do sétimo folheto. Nunca chegaria a ser imprimido. Quando os irmãos Scholl foram descobertos a distribuir o sexto panfleto, Hans tinha no bolso o rascunho de Christoph Probst, contendo, entre outras frases de repúdio pelo nazismo: “Hitler e o seu regime têm de cair para que a Alemanha possa continuar a viver” (Hitler und sein Regime muss fallen, damit Deutschland weiter lebt).

Christoph Probst foi preso de imediato e, apesar de as atas dos interrogatórios provarem que Hans e Sophie tudo fizeram para tentar ilibar o amigo, assumindo a responsabilidade de todas as ações da “Rosa Branca”, ele viria a ser executado, pela guilhotina, apenas quatro dias depois, tal como eles. A tragicidade do seu destino, porém, não se resume a esta série de acasos infelizes. Casara em 1940, com apenas 21 anos, e já era pai, a razão porque se mantivera cauteloso em relação à sua participação na “Rosa Branca”. Quando foi executado, a 22 de Fevereiro de 1943, tinha dois filhos e uma filha, esta com apenas quatro semanas de vida. Herta Dohrn, a sua jovem mulher, encontrava-se ainda no hospital, devido a complicações desse último parto.

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Wikipedia

Momentos antes da sua execução, Christoph Probst foi, a seu pedido, baptizado catolicamente e está incluído no Martirológio alemão do século XX, publicação a cargo da Conferência Episcopal deste país. Além disso, consta igualmente da Neue Deutsche Biographie (NDB), uma publicação da Comissão Histórica da Academia Bávara das Ciências (Bayerische Akademie der Wissenschaften), que reúne biografias dignas de nota. As entradas são de autoria diversa; a de Christoph Probst é do seu filho mais velho, Michael Probst, nascido em 1940 (falecido 2010).

Além de algumas placas de homenagem, em diversos locais (como na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique), Christoph Probst dá o nome a várias ruas e a três liceus (o que, aliás, comparado com os irmãos Scholl - cerca de duzentos liceus - soa a pouco).

14 de dezembro de 2022

Resistência em alemão (3)

 Alexander Schmorell

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Wikipedia

Alexander Schmorell nasceu em Setembro de 1917 em Orenburg, cidade russa perto da fronteira com o Cazaquistão. Tinha, porém, nacionalidade alemã, pois descendia de uma família da Prússia Oriental (território hoje dividido entre a Rússia e a Polónia). A sua mãe russa era filha de um padre ortodoxo e Alexander foi batizado na Igreja Ortodoxa. A senhora morreu, porém, quando o filho tinha apenas dois anos e, em 1921, Alexander acabou por ir com o pai médico e a sua segunda mulher para Munique.

Em 1935, conheceu Christoph Probst no liceu, que, tal como ele, haveria de pertencer ao grupo “Rosa Branca”. Em 1937, entrou para o serviço militar e, em 1938, participou na anexação da Áustria e na invasão da Checoslováquia. Já nessa altura terá entrado em conflito com a ideologia nazi.

Cumprido o serviço militar, e apesar de ser mais inclinado para as artes (pintura e escultura), iniciou, por influência do pai, o curso de Medicina em Hamburgo. Nas férias de Verão de 1940, teve de cumprir serviço como socorrista na frente francesa e, regressado à Alemanha, encetou os seus estudos em Munique, na Universidade Ludwig-Maximilian, onde conheceu Hans Scholl.

Tornou-se num dos principais membros do grupo “Rosa Branca”, tendo dividido com Hans Scholl a autoria de quatro folhetos, criados e distribuídos entre Maio e Julho de 1942. Nesta altura, os dois foram novamente mobilizados, desta vez, na frente do Leste, e, depois do seu regresso a Munique, o tom dos seus textos contra o regime nazi endureceram. Além disso, procuraram aumentar o seu raio de ação, também com a ajuda do Professor Kurt Huber, tentando contactos com Berlim. Alexander Schmorell distribuiu panfletos igualmente em várias cidades austríacas e, junto com Hans Scholl, pintou palavras de ordem como “Abaixo Hitler” e “Liberdade” em muros e paredes de Munique.

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Placa de homenagem a Alexander Schmorell na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique

Depois da detenção dos irmãos Scholl e de Christoph Probst, Alexander Schmorell tentou, em vão, fugir para a Suíça com um passaporte falso. Nada mais lhe restou do que regressar a Munique, onde havia já um mandado de detenção em seu nome, com uma recompensa de 1000 marcos. A 24 de Fevereiro de 1943, o dia do enterro dos seus amigos executados, foi reconhecido num abrigo de ataque aéreo e detido, após denúncia. Condenado à morte por decapitação a 19 de Abril de 1943, foi executado a 13 de Julho seguinte, com vinte e cinco anos de idade.

Alexander Schmorell foi incluído na lista dos Novos Mártires da Igreja Ortodoxa Russa no estrangeiro, em Novembro de 1981. Em 2007, esta Igreja decidiu canonizá-lo, processo que se concluiu com a respetiva cerimónia, a 4 de Fevereiro de 2012, em Munique. O dia da sua morte, 13 de Julho, é o dia do Santo Alexandre de Munique, nesta liturgia

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Orthpedia

30 de novembro de 2022

Rsistência em alemão (2)

Sophie Scholl

As memórias de Traudl Junge, secretária de Hitler, serviram de base ao filme A Queda (Der Untergang), no qual o falecido Bruno Ganz interpreta o ditador nazi. No início de 1945, Traudl Junge foi uma das colaboradoras do Führer admitida no bunker construído por baixo da chancelaria do III Reich. No filme, ela é interpretada pela atriz Alexandra Maria Lara.

Terminada a guerra, os Aliados ilibaram-na de culpas, muito devido à sua idade. Traudl Junge tinha 22 anos, quando começou a trabalhar para Hitler, e 25, quando a guerra terminou. Pouco antes da sua morte, vi partes de uma entrevista sua, na televisão. Dizia ela que, durante muito tempo, assim acreditara ter sido: Hitler sempre fora simpático com ela, nova demais para tomar verdadeira consciência do carácter e das atrocidades cometidas em nome dele. Um dia, porém, numa placa de homenagem a Sophie Scholl, não conseguiu desviar o olhar da data de nascimento: 9 de Maio de 1921. Traudl Junge, nascida a 16 de Março de 1920, era um ano mais velha. E, pela primeira vez, aceitou aquilo que se esforçava por recalcar: a idade não pode servir de desculpa, ou pretexto, para fechar os olhos.

Sophie Scholl, Hans Scholl, Christoph Probst - Fot

Sophie Scholl com o irmão Hans (à esquerda) e Christoph Probst

Foto: George (Jürgen) Wittenstein/akg-images

À semelhança do seu irmão Hans, dois anos e meio mais velho, Sophia Magdalena „Sophie“ Scholl começou por se agradar do ideal comunitário propagado pelo partido nazi e ingressou, com treze anos, na BDM, uma organização de raparigas equivalente à Juventude Hitleriana. Os pais nunca simpatizaram com o regime de Hitler e não viam com bons olhos estas opções dos filhos. Mas deram-lhes liberdade de escolha. Passados dois anos, depois de terem conhecido as organizações por dentro, tanto o filho, como a filha, lhes viraram as costas.

A leitura das obras de Santo Agostinho de Hipona parece terem sido essenciais para uma nova orientação na vida de Sophie Scholl, em defesa dos valores cristãos. E, em Maio de 1942, ingressou nos cursos de Biologia e Filosofia na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, onde o irmão estudava Medicina. Assim entrou ela em contacto com opositores do nazismo.

Sophie ingressou no grupo “Rosa Branca” (Weiße Rose), participando na criação e distribuição dos folhetos, apesar de o irmão ter tentado afastá-la da oposição ativa ao regime. O sucesso do grupo, alargando os seus contactos e fazendo chegar os seus escritos a outras cidades, chamou a atenção da Gestapo. A temida polícia política iniciou uma averiguação quanto à origem dos escritos e, em Fevereiro de 1943, já desconfiava do meio estudantil de Munique.

A 18 desse mês, um funcionário da Universidade Ludwig-Maximilian descobriu os irmãos Scholl a distribuírem os panfletos. Depois de serem interrogados pela reitoria da Universidade, foram entregues à Gestapo. Das atas do interrogatório, consta que Sophie Scholl tudo terá feito para garantir serem ela e o irmão os mais altos responsáveis pelos textos distribuídos, a fim de proteger outros membros do grupo.

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Fotografia da Gestapo de Sophie Scholl, tirada depois da sua captura a 18 de Fevereiro de 1943

Os dois foram condenados à morte apenas quatro dias depois e a sentença, por decapitação (guilhotina), executada nesse mesmo 22 de Fevereiro de 1943. Sophie Scholl não tinha ainda completado os 22 anos.

Os irmãos Scholl, mas principalmente Sophie, já serviram de inspiração a vários filmes, livros, peças de teatro e exposições. Na Alemanha, há inúmeras ruas e praças com o seu nome, assim como quase duzentos liceus.

16 de novembro de 2022

Resistência em alemão (1)

Hans Scholl

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Direitos: C.H. Beck Verlag in "Flamme sein" von Robert Zoske

Em tempos conturbados, muito por causa de uma guerra em solo europeu, começo uma série sobre alemães que se opuseram ao nazismo, pois, embora haja conhecimento de alguns exemplos, penso ser, no geral, algo pouco conhecido fora da Alemanha. E é sempre bom relembrar exemplos de quem reage ao populismo/fascismo, mesmo que, num primeiro momento (em alguns casos) se deixasse ir na onda de quem promete soluções simples para problemas complicados, em nome de uma pretensa salvaguarda de valores.

Ao estudar este assunto, surpreendeu-me que muitos desses resistentes fossem prelados, Católicos e Protestantes, apesar de a Igreja ser acusada (com razão) de ter sido demasiado passiva, durante a 2ª Guerra Mundial. Mas houve, de facto, quem levantasse a voz em nome dos princípios cristãos, também muitos leigos. É o caso de Hans Fritz Scholl.

Os irmãos Scholl (Hans e Sophie) são dos mais conhecidos opositores ao nazismo, principalmente, Sophie Scholl, sobre a qual já se rodaram filmes e escreveram livros. Mas começo pelo irmão, pois ele foi um dos fundadores da “Rosa Branca” (Weiße Rose), um movimento estudantil baseado em princípios cristãos e humanistas, surgido em Junho de 1942, na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique. Passado um ano, estava já aniquilado e os seus principais membros executados pelo regime nazi.

Sophie Scholl, Hans Scholl, Christoph Probst - Fot

Da esquerda para a direita: Hans Scholl, Sophie Scholl, Christoph Probst (os primeiros a serem executados)

Foto: George (Jürgen) Wittenstein/akg-images

O grupo clandestino “Rosa Branca” escrevia, imprimia e distribuía folhetos, nos quais dava conhecimento dos crimes do regime e apelava à oposição. As primeiras distribuições resumiam-se à região de Munique, depois, arranjaram quem o fizesse também noutras cidades. Pouco antes de o grupo ter sido descoberto, andava em contactos com outros grupos oposicionistas, tentando alargar a sua influência até à capital Berlim e a focos de oposição no próprio exército. Ao todo, imprimiram seis folhetos, cuja tiragem foi aumentando, chegando aos 9000 exemplares.

Hans Scholl, nascido em Setembro de 1918, entrou, com doze anos, para um grupo de jovens católicos. Antes de completar os quinze, e contra a vontade do pai, juntou-se à Juventude Hitleriana (a 15 de Abril de 1933). Dois anos mais tarde, porém, sentia-se já incomodado com o radicalismo e o princípio da obediência cega dos membros dessa organização juvenil.

Ao começar a estudar Medicina na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, em 1939, Hans Scholl entrou em contacto com Professores, Assistentes e estudantes que se regiam por princípios éticos cristãos e criticavam o regime. O ponto de viragem definitivo deu-se quando, nas férias, foi enviado como socorrista para a frente francesa, vivências que lhe consolidaram a forte oposição ao nazismo e à guerra por este iniciada.

Outras influências contribuíram para a sua transformação, como as mensagens do escritor Thomas Mann difundidas pela BBC, ou as pregações do bispo de Münster, Clemens August Graf von Galen, que denunciava a execução de doentes mentais pelo regime e apelava à oposição. Em Fevereiro de 1942, Hans Scholl começou a organizar fóruns de discussão com um pequeno e selecionado grupo de estudantes.

Já depois de o grupo “Rosa Branca” ter distribuído quatro folhetos, Hans Scholl e Alexander Schmorell (um outro membro) foram enviados como soldados para a frente leste. Nessas quinze semanas, os jovens foram confrontados com vários horrores, incluindo a maneira como os judeus eram tratados no Gueto de Varsóvia. Depois do seu regresso a Munique, em Novembro de 1942, Hans intensificou o tom usado nos folhetos, apelando à luta organizada contra o NSDAP (Partido Nazi), principalmente, depois da Batalha de Estalinegrado.

A 18 de Fevereiro de 1943 Hans e a irmã Sophie foram descobertos a distribuir os folhetos por um funcionário da Universidade que os entregou à Gestapo. Depois de quatro dias de interrogatório, foram condenados à morte por decapitação. A sentença foi executada ainda nesse dia (22 de Fevereiro). Diz-se que as últimas palavras de Hans Scholl foram “viva a liberdade” (Es lebe die Freiheit). Tinha 24 anos.

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Imagem da página do Liceu "Irmãos Scholl", em Waldkirch