Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

11 de agosto de 2019

O Pacto Sucessório





Venho hoje falar de um documento um pouco polémico, pois paira sobre ele o espectro da falsificação, embora actualmente se considere poder ser verdadeiro. De qualquer maneira, trata-se de um assunto em aberto e que, na minha opinião, tem a sua relevância. Estou a falar de um Pacto Sucessório secreto, que terá sido firmado entre os condes D. Raimundo e D. Henrique, à revelia do sogro Afonso VI, decidindo como dividiriam a herança depois da morte deste e por mim já aqui referido. Não se sabe a data exacta em que terá sido firmado, o historiador Charles Bishko situa-o entre 14 de Maio e 22 de Setembro de 1105, ou seja, durante o Verão. Nada melhor do que o mês de Agosto para o relembrar.

Nos arquivos portugueses, não existe cópia do documento, mas a versão que terá sido enviada ao abade de Cluny encontra-se na Bibliothèque Nationale de France. O Professor Abel Estefânio, da Universidade do Porto, publicou dois estudos sobre o assunto, na Medievalista online. No primeiro, O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, em 2011, duvida da sua autenticidade. Porém, no segundo, Proposta de aclaração do “pacto sucessório” à luz de novos dados, três anos depois, admite que possa ser verdadeiro.

Manuscrito do “pacto sucessório”, Recueil de Chartes de CLUNY, Bibliothèque Nationale de France, Département des manuscrits, Colecção Baluze nº 86, f. 470.



Atentemos às palavras com que o Professor Abel Estefânio abre o segundo estudo:

«Quando o estudei pela primeira vez, pareceu-me que se tratava de um falso histórico e apresentei essa hipótese num artigo publicado em 2011 na revista Medievalista (…) Todavia, como não o pude afirmar categoricamente, não dei o assunto por encerrado. Havia, desde logo, que considerar a nota que o Professor José Mattoso elaborou sobre o meu estudo, com o contributo do Professor Arnaldo do Espírito Santo relativamente ao argumento linguístico. Perante a ausência de sinais evidentes do uso de um latim clássico que denuncie um falsário da época moderna, o Dire(c)tor da Medievalista considerou que se impunha um exame mais aprofundado».

Na minha opinião, é verosímil que os condes D. Raimundo e D. Henrique tenham firmado este pacto. Recordemos a situação! D. Afonso VI, sentindo a morte a aproximar-se e angustiado por não ter herdeiro varão, nomeia seu sucessor o filho que teve da moura Zaida, baptizando-o de infante Sancho. Podemos imaginar a revolta que sentiu a sua única filha legítima, D. Urraca, e também o genro D. Raimundo, sobretudo por, neste mesmo ano de 1105, a 1 de Março, ter nascido o filho do casal.

Raimundo terá recorrido ao abade Hugo de Cluny. A fim de conseguir guerreiros para a Reconquista, Afonso VI seguira, durante anos, uma política pró-francesa, ligada à Ordem Cluniacense, nomeando muitos prelados estrangeiros para as dioceses hispânicas, fazendo-lhes riquíssimas doações e dotando-os de privilégios, assim como aos nobres que os acompanhavam. Foi neste contexto que surgiram Raimundo e Henrique na Hispânia. O conde portucalense era inclusive sobrinho-neto do abade Hugo. Os cluniacenses introduziram, na Península, o culto romano, ditado pela reforma gregoriana, em detrimento do velho rito hispânico, ou moçárabe.

Afonso VI de Galiza, Leão e Castela Catedral Sant
Miniatura representando Afonso VI, rei de Leão, Castela e Galiza (1047-1109). Tumbo A da catedral de Santiago de Compostela.

A fim de poder nomear Sancho seu sucessor, porém, o imperador Afonso VI executou um verdadeiro volte-face, pois o velho clero hispânico prontificou-se a baptizar a moura Zaida e a legitimar o filho desta. Alarmado por Raimundo, o abade Hugo de Cluny enviou à Hispânia um seu representante, Dalmácio Geret, na presença do qual Raimundo e Henrique terão firmado o pacto sucessório.

O documento não costuma ser mencionado na nossa historiografia. A hipótese de falsificação não é o único motivo, já que, mesmo sendo verdadeiro, há quem o considere irrelevante. Tanto Raimundo, como o infante Sancho, viriam a falecer antes de Afonso VI, o primeiro dois anos depois de ter assinado o pacto e o segundo no ano seguinte, em 1108, na batalha de Uclés.

Na minha opinião, porém, que vejo boas razões para que seja autêntico, ele foi fundamental na política tão criticada de D. Teresa. Mas comecemos pelo princípio!

Ao casar com D. Urraca, D. Raimundo tornou-se conde da Galiza e, nas suas posses, incluía-se o condado Portucalense que, nessa altura, ia até ao Tejo, pois Afonso VI tinha recebido Santarém e Lisboa do rei mouro de Badajoz, que se pôs sob a protecção do imperador. Raimundo, porém, não conseguiu segurar Lisboa, provocando a ira do sogro. Ao casar a filha Teresa com Henrique, Afonso VI pôs nas mãos deste o condado Portucalense, confinando Raimundo à Galiza. Henrique, porém, permaneceu vassalo do cunhado, situação que o pacto confirma. A carta endereçada ao abade de Cluny começa assim:

Ao senhor e reverendíssimo abade de Cluny, Hugo, e a toda a congregação de S. Pedro, o conde Raimundo, o seu filho e o conde Henrique, seu vassalo, desejam saúde e amor em Cristo (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p. 13).

A nossa historiografia tende a divulgar a versão de que o interesse de D. Teresa pela Galiza se deveu ao seu envolvimento com a família de Trava. Ora, este pacto secreto, assinado pelo marido, sete anos antes de morrer, mostra que a Galiza fazia parte das ambições do conde portucalense. D. Teresa deu-lhe seguimento. Nas suas lutas com a irmã Urraca, ela reclamou sempre a Galiza para si. E o próprio Afonso Henriques passou os cinco anos a seguir à Batalha de São Mamede a tentar conquistar território galego. Foi essa a sua primeira medida, depois de se tornar no líder incontestado do condado Portucalense. Só depois de sucessivas derrotas, perdendo os territórios galegos conquistados, ele se virou para o Sul.

Se eu, conde Raimundo, não puder dar Toledo a ti, conde Henrique, tal como prometi, dar-te-ei a Galiza com a condição de que tu me ajudes a conquistar toda a terra de Leão e de Castela (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p.22).

Esta passagem, do texto do pacto, é um pouco enigmática, pois dá a ideia de que D. Henrique teria aspirações ao senhorio de Toledo e que o cunhado não estava disposto a concedê-lo, substituindo-o pela Galiza. Ou seria o contrário? Inclino-me para a segunda hipótese. Não vejo que interesse D. Henrique pudesse ter por Toledo, tão longe das suas posses, apesar de se tratar de uma cidade de grande prestígio, antiga capital do reino visigótico. Contudo, depois da morte do imperador, Toledo nunca foi motivo de conflito com a rainha D. Urraca. Já a Galiza sim! Além disso, à data do pacto, D. Raimundo era conde da Galiza há cerca de quinze anos, não penso que facilmente abrisse mão desse território. E relembremos ainda que, dar, a um vassalo, o senhorio de uma cidade situada nas terras do suserano, era prática habitual na Idade Média. Podemos, por isso, admitir que a ideia de Toledo terá sido de Raimundo, como recompensa pela ajuda do cunhado. Henrique, porém, estaria mais interessado no reino da Galiza, criando um impasse. Com a moderação de Dalmácio Geret, ter-se-á tentado uma solução provisória, do estilo: «Toledo ou a Galiza».

Defendo, portanto, a importância do pacto, ao mostrar que a luta pela Galiza não se baseou num capricho de D. Teresa, por ter um amante galego. Fazia parte de uma estratégia política iniciada pelo conde D. Henrique, seguida pela sua viúva e também pelo filho de ambos, num primeiro momento: formar um reino na faixa oeste da Península, que iria desde a costa norte galega até onde as conquistas a Sul o permitissem.

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Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos (Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol.  6v.)


25 de julho de 2019

Efemérides históricas ao tempo da formação de Portugal (3)

Faz hoje 880 anos que se deu a Batalha de Ourique.

Batalha de Ourique Jorge Colaço.JPG

Ainda existe bastante mistério à volta desta batalha, o que alimenta o mito. Não há, porém, dúvida de que ela foi importantíssima para D. Afonso Henriques e a unidade portuguesa. Foi a partir desse dia que ele passou a intitular-se rei, considerando Portugal um reino. Também foi a partir desta altura que o seu nome começou a ser temido no Al-Andalus (a Hispânia muçulmana). Por outro lado, relembremos algo que muita gente não considera: D. Afonso Henriques não conquistou, a 25 de Julho de 1139, um palmo de terra que fosse!

Este último aspeto foi aliás motivo de discussão sobre o local da Batalha: se Portugal acabava a algumas dezenas de quilómetros a sul de Coimbra (embora não houvesse fronteira definida entre Coimbra e Santarém; o castelo de Leiria situava-se em território hostil, constantemente ameaçado) como se foi dar uma batalha entre portugueses e muçulmanos em pleno Alentejo?

Hoje, parece ponto assento que a batalha terá surgido na sequência de um fossado com grande raio de acção. Era costume a realização de fossados de parte a parte, as tropas avançavam devastando e depredando, reunindo espólio, incluindo pessoas (que serviriam como escravos) e animais. Reunindo as suas forças em Coimbra, o rei português avançou em direcção ao Tejo, que cruzou a leste de Santarém, e continuou a avançar, atravessando o Guadiana e aventurando-se até perto de Sevilha. Por onde passava, deixava um rastro de destruição atrás de si. E não encontrou praticamente resistência, o que pode explicar o ter-se aventurado tão longe.

Em Abril, Afonso VII, o primo de Afonso Henriques, iniciara um cerco a Oreja, a nordeste de Toledo. Os governadores almorávidas de Córdova e de Sevilha reuniram um grande exército, a fim de lhe fazer frente, o que explica que os portugueses pudessem avançar facilmente e levando o Professor Miguel Gomes Martins (De Ourique a Aljubarrota, A Esfera dos Livros 2011) a considerar que os dois primos tivessem combinado as suas ações.

De Ourique a Aljubarrota.jpg

Fosse como fosse. No regresso, Afonso Henriques terá cruzado o Guadiana perto de Mértola, continuando depois para oeste, a fim de evitar a cidade de Beja. Os danos provocados pela sua ofensiva devem, porém, ter sido de tal ordem, que o governador de Córdova decidiu afastar-se de Toledo, a fim de ir cortar o caminho aos portugueses. E assim se defrontaram os dois exércitos no Campo de Ourique, «uma vasta área delimitada pelas serras do Cercal e de Grândola a oeste, pela serra algarvia a sul e pelo Guadiana terminal a leste» (Miguel Gomes Martins, na obra citada).

Pouco se sabe sobre a constituição das duas hostes. As fontes portuguesas são escassas e, o que também é estranho, esta campanha não é mencionada em qualquer fonte muçulmana. Parece, no entanto, que o exército mouro era muito maior do que o cristão, a «Vita Theotonii» (Vida de S. Teotónio) refere que Afonso Henriques «derrotou cinco reis dos infiéis». Os historiadores atuais vêem algum exagero nestas palavras, se bem que, muitas vezes, os almorávidas se intitulavam de reis, sendo meros governadores de pequenas cidades.

«Terá sido nos momentos que antecederam a batalha que teve lugar o célebre episódio (…) da aclamação de Afonso Henriques (…) Erguido de pé sobre o seu escudo - à maneira germânica - pelos seus guerreiros, o príncipe, então com 30 anos, convertia-se, aos olhos dos que iriam lutar a seu lado, em rei». Este episódio (considerado “coerente e verosímil” por José Mattoso) teve certamente «um efeito profundamente moralizador no seio dos combatentes portucalenses» (Miguel Gomes Martins 2011).

Quanto à tática, Miguel Gomes Martins é de opinião de que a cavalaria pesada cristã (em contraste com os ginetes, os cavaleiros leves e ágeis dos muçulmanos) deve ter conseguido romper e desorganizar as linhas inimigas com grande sucesso. A derrota terá tido um grande impacto no seio dos almorávidas, já que o mesmo governador de Córdova, no ano seguinte, levou a cabo um fossado, no âmbito do qual atacou e arrasou o castelo de Leiria. E, em 1144, foi a vez de Soure.

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Cavaleiros muçulmanos representados na capa de Reconquista Cristã, de Pedro Gomes Barbosa (Ésquilo 2008).

A verdade é que Afonso Henriques não mais deixou de se intitular rei, obtendo, em 1143, a confirmação do primo, em Zamora, embora não devesse ter sido quebrado o laço de vassalagem (que aliás nunca foi oficializado em cerimónia, permanecendo ambígua a relação entre os primos). A verdade é que o nosso primeiro rei enviou, dois meses depois da Conferência de Zamora, uma carta dirigida ao papa, prometendo-lhe vassalagem e solicitando que o libertasse do jugo do imperador da Hispânia.




Nota: texto publicado originalmente aqui.

7 de julho de 2019

"Portugal-Krimis"

Krimi é a interessante palavra que na Alemanha se usa para livro policial. Portugal-Krimis são policiais portugueses. Estão na moda, aqui no país da Sra. Merkel. Estranho, não é? Não há notícia de livros portugueses com sucesso na Alemanha. Além disso, não se escrevem muitos policiais made in Portugal. Pois é, estes passam-se em Portugal, mas são escritos por… alemães!

São um sucesso editorial e muito recomendados agora para a época de férias. Por acaso, o meu marido já leu um deles: Lost in Fuseta.

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O autor, um alemão com o pseudónimo Gil Ribeiro, brinca com a palavra Lost, pois o seu investigador chama-se Leander Lost, um alemão que, na sequência de um intercâmbio policial (nem sei se isso existe), é colocado na Fuseta. Ou seja, a tradução directa do título não é “Perdido na Fuseta”, embora o Leander Lost se sinta muitas vezes perdido. Este investigador tem o síndrome de Asperger, o que o torna num polícia muito especial: tem uma memória fotográfica (muito útil, na sua profissão), não sabe mentir (o que, por vezes, é desvantajoso) e encara os acontecimentos destituído de emoção (o que lhe permite manter o sangue-frio em certas situações). Lost in Fuseta é a primeira aventura de Leander Lost por terras algarvias, mas a série já vai, entretanto, no terceiro volume.

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Tod in Porto (“Morte no Porto”), é o segundo caso do inspector Fonseca e da sua equipa da Judiciária. O autor é um alemão que vive há vários anos em Portugal e usa o pseudónimo Mario Lima (na Alemanha não se põem acentos).

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Mord auf Portugiesich (“Assassínio em Português”) passa-se numa pequena aldeia no Norte de Portugal (junto à costa) e tem a assinatura da jornalista alemã free-lancer Heidi van Elderen.

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Fado Fatal (dispensa tradução), outro policial situado no Porto, de Hanne Holms. Esta autora já publicou um Krimi passado na Toscana e outro em Maiorca. Agora, pelos vistos, foi a vez de Portugal.

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Letzte Spur Algarve (“Última pista: Algarve”), de Carolina Conrad, conta a aventura de uma jornalista alemã, filha de portugueses, chamada Anabela Silva, que resolveu mudar-se para a aldeia de origem dos seus pais (no interior algarvio). Trata-se de uma jornalista muito curiosa e logo se vê envolvida numa investigação policial comandada pelo comissário João Almeida. Parece que o enredo é apimentado com um caso amoroso entre os dois.

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Portugiesisches Blut (“Sangue Português“ - assinalado como "Lissabon-Krimi), de Luis Sellano, é a quarta aventura de um alemão, Henrik Falkner, que vive em Lisboa. Luis Sellano é (já adivinharam; e sem acento) o pseudónimo do autor alemão.

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Madeirasturm (“Tempestade na Madeira”, ou "Tempestade madeirense") tem autoria de Joyce Summer, o pseudónimo de uma autora de Hamburgo. Criou o comissário madeirense Ávila e este é o seu segundo caso.

Nota: texto originalmente publicado aqui.


30 de junho de 2019

Feira do Livro de Braga

De 28 de junho a 14 de julho, as "Memórias de Dona Teresa" poderão ser encontradas na Feira do Livro de Braga, stand nº 11, da Poética Edições.





«- Senta-te a meu lado, Teresa - dizia minha tia Urraca, nos serões longos de Estio, quando já tínhamos os olhos cansados de bordar, provocando ciúme nas minhas duas irmãs. - Já te falei da cidade de Viseu? Já te contei que foi junto às suas muralhas que teu bisavô, Afonso V de Leão, encontrou a morte, trespassado por uma flecha dos infiéis?
Tantas vezes ouvi aquelas narrativas, que Viseu se me tornou uma cidade de fantasia que eu ansiava conhecer, a cidade ligada, desde tempos mui antigos, à meninice de infantes leoneses que ali foram criados.
- Não havia, na Hispânia, memória de soberano tão poderoso como Dom Fernando, "O Magno" - dizia ela, o olhar brilhante pousado no horizonte. - Nunca estes reinos viram tão excelso par real, como meus queridos pais, Dom Fernando e Dona Sancha!
Sentada a seu lado, eu venerava-a, junto com meus gloriosos avós paternos, envolvida pelo doce aroma dos jasmins da alcáçova toledana, que hoje recordo como se do Paraíso se tratasse».


In "Memórias de Dona Teresa"






20 de junho de 2019

Efemérides Históricas ao Tempo da Formação de Portugal (2)

A 20 de Junho de 1120, D. Teresa refugiou-se no castelo de Lanhoso e a meia-irmã D. Urraca montou-lhe cerco.

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Castelo de Lanhoso - esta torre, a sua "imagem de marca" actual, ainda não existia ao tempo de D. Teresa.
Foto © Horst Neumann

Trata-se de uma época muito conflituosa, cheia de intrigas e golpes, nos quais estavam envolvidas mais duas importantes personalidades: o conde galego Pedro Froilaz de Trava e o arcebispo de Santiago de Compostela, Diego Gelmírez.

Tal como a meia-irmã, D. Urraca, como mulher, teve muita dificuldade em fazer valer a sua autoridade, apesar de ser a única herdeira legítima de D. Afonso VI. O facto de ter cumprido a última vontade de seu pai, casando com o rei D. Afonso I de Aragão e Navarra, piorou a situação da rainha, pois, no caso de o casal ter filho varão, esse príncipe deveria herdar Leão e Castela e o meio-irmão, Afonso Raimundes, filho do falecido D. Raimundo, herdaria apenas a Galiza. Assim determinara o imperador Afonso VI, logo provocando o protesto do conde galego Pedro Froilaz de Trava, Aio de Afonso Raimundes, que considerava o seu protegido o único herdeiro do avô. Depois da morte do imperador, o conde galego, assim como o bispo Gelmírez, apressaram-se a coroar Afonso, de apenas seis anos, como rei da Galiza, num primeiro sinal da autoridade que assistia ao pequeno.

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe

Esta coroação complicou a vida de D. Urraca, pois, durante a menoridade do filho, teve de aceitar a regência de Pedro Froilaz de Trava sobre a Galiza. Não teve aliás filhos com Afonso I de Aragão e o casamento chegou mesmo a ser dissolvido pela Igreja. Porém, quando o filho atingiu a maioridade, que, nesta altura, se dava pelos catorze ou quinze anos, o conde galego instou-o a ocupar o trono de Toledo, a fim de tomar o lugar de seu avô, apesar de a mãe ainda ser viva. Não estando disposta a prescindir dos seus direitos, D. Urraca envolveu-se em contendas com Pedro Froilaz de Trava e o arcebispo de Santiago de Compostela.

Os dois galegos eram amigos, unidos na defesa do seu protegido, mas, com o tempo, começaram a desentender-se. D. Urraca aproveitou para aprofundar o fosso entre eles, entrando, em 1120, com um exército na Galiza. Instalou-se em Santiago de Compostela, onde doou um importante feudo à igreja daquela cidade, favorecendo o arcebispo. Esta doação debilitava a família de Trava, o que indignou o conde Pedro Froilaz.

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Em seguida, aconteceu, porém, algo que hoje não se sabe bem explicar: D. Urraca penetrou no condado Portucalense, arrasando culturas, incendiando e depredando. Terá sido por influência do arcebispo Diego Gelmírez, que pretendia acabar com o estatuto arqui-episcopal de Braga? Nesse caso, será difícil de explicar que D. Urraca tenha feito, a 17 de Junho, uma importante doação à igreja de Braga, na presença do arcebispo D. Paio Mendes.

O certo é que, na sequência da incursão da meia-irmã, D. Teresa teve receio de ser destituída do governo do condado e refugiou-se no castelo de Lanhoso, um dos melhores de Entre Douro e Minho. Situado no cimo de um maciço rochoso com quase trezentos metros de altura, o castelo permitia vigiar as redondezas num raio de dezenas de milhas. Devido ao terreno acidentado, o seu acesso fazia-se apenas por um itinerário e as suas muralhas eram reforçadas por cinco torreões, dois dos quais ladeavam a única porta de entrada, voltada a Sul. Além disso, o seu interior albergava uma estrutura palaciana.

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Pormenor do recinto actual do castelo de Póvoa de Lanhoso.
Foto © Horst Neumann

A partir daqui, não há certezas sobre o que aconteceu. A versão mais conhecida é que as irmãs se reconciliaram, nas chamadas «pazes de Lanhoso», jurando-se amizade e tendo D. Teresa prestado vassalagem à irmã, que instituiu, a seu favor, «os senhorios de Zamora, Orense, Salamanca, Toro e Ávila» (Mateus, 2005). Certo é que o cerco foi de pouca dura. E, regressada a Compostela, D. Urraca mandou prender o arcebispo Gelmírez e confiscou-lhe todos os castelos! O que terá gerado este volte-face?

Na opinião de Mateus (2005), terá havido intriga de Fernão Peres de Trava, o filho mais novo do conde Pedro Froilaz. Este é um interessante e fulcral episódio, pois talvez marque o início da relação entre Fernão Peres e D. Teresa. Mas como entraram os dois em contacto? Terá Fernão Peres procurado D. Teresa em Lanhoso? Teriam os dois, nessa altura, combinado apoderarem-se da Galiza (que D. Teresa considerava fazer parte da sua herança) e urdido uma intriga, a fim de pôr D. Urraca novamente contra o arcebispo Gelmírez? Neste caso, é possível que nem tenham existido as «pazes de Lanhoso», rejeitando a hipótese de D. Teresa ter prestado vassalagem a D. Urraca.

O mais certo é nunca virmos a saber o que realmente aconteceu. No entanto, o episódio de Lanhoso teve importância fulcral no futuro de D. Teresa, já que a sua ligação a Fernão Peres de Trava, permitindo a ingerência deste no governo do condado Portucalense, afastou de si os barões que veriam no filho, Afonso Henriques, o melhor meio de afastar a influência galega.

Nota: texto originalmente publicado aqui.

 

7 de junho de 2019

O Implacável Cerco de Almada




A ação deste romance situa-se nos anos de 1383/84, logo a seguir à morte de D. Fernando I, causando uma grave crise de sucessão. D. Fernando I deixou apenas uma filha, D. Beatriz, casada com D. João I de Castela. Por isso, se sentia o monarca castelhano com direito à coroa portuguesa. Foi na sequência destes acontecimentos que D. João Mestre de Avis se declarou rei de Portugal e, como sabemos, a crise só se resolveria com a Batalha de Aljubarrota, em 1385.

Neste romance, D. João I de Castela surge, em 1384, com a sua armada, no Tejo, cercando Lisboa e Almada ao mesmo tempo, a fim de impor a sua autoridade. O autor, António da Costa Neves, faz um bom retrato da época, através da sua personagem principal, João Galo, baseada num tabelião que existiu historicamente. Aqui, João Galo tem apenas 13/14 anos e é filho do regedor Afonso Galo, que faz parte do concelho da vila de Almada. Numa nota inicial, o autor esclarece que não tem a certeza desta relação familiar. Tomou, no entanto, esta opção, em prole do enredo, o que é legítimo, num romancista.

Sendo filho de um notável de Almada, o jovem João Galo mantém-se informado sobre os acontecimentos, que o leitor vê através dos seus olhos. Como disse, a época e a sua linguagem estão bem caracterizadas, assim como a vida do jovem, cujas incertezas e insegurança próprias da adolescência se misturam com os acontecimentos históricos.

Houve, porém, um aspeto que não me pareceu muito credível. João Galo atravessa várias vezes o Tejo, num pequeno barco, esgueirando-se por entre as galés castelhanas, acompanhado do seu futuro sogro (na época, um jovem de 14 anos poderia perfeitamente estar de casamento marcado), a fim de se inteirarem da situação em Lisboa. É certo que eles saem sempre de Almada às escondidas, ao escurecer, ou de manhã muito cedo, disfarçados de pescadores de alguma aldeia próxima (fazem-se ao rio num ponto afastado da vila), a quem os castelhanos não dão grande importância. Pergunto-me, porém, se tal seria possível, já que a finalidade de um cerco era levar os sitiados a morrer de fome. E mesmo que os castelhanos não os considerassem habitantes de Almada, deixá-los-iam andar à vontade?

Não obstante, trata-se de uma boa leitura para quem se interesse pela época e por este tema, em particular.


4 de junho de 2019

Ajudar quem quer desistir

Foto © Horst Neumann


O jornal católico que assino (na Alemanha), dedicou, há algumas semanas, uma edição ao suicídio (nº 18, 15-05-2019). Achei interessantíssimo, acima de tudo, porque informava como devemos reagir, caso desconfiemos que alguém que nos está próximo, ou que conhecemos, corre o risco de se suicidar. É um tema muito difícil de ser abordado e muitos de nós não o fazem pela simples razão de não saber como. Também há quem pense que o melhor é ignorar, pois receia que, ao referir o assunto, encoraje ainda mais a pessoa a levar a cabo as suas intenções.

No entanto, o contrário é válido: os psicólogos consultados foram unânimes a afirmar que ninguém deve ter medo de provocar o suicídio, pelo facto de o referir. É muito mais eficaz abordar a pessoa diretamente. Por exemplo: «Sentes-te tão desesperado, que achas que deves desistir? Encaras a possibilidade de pôr um fim a tudo? Como te posso ajudar?»

Quem pensa em suicidar-se, costuma enviar sinais. Anda angustiado, sem esperança, desesperado; deixa de cultivar as suas amizades, ou de exercer os seus hobbies; queixa-se de ser um fardo para os outros; ou diz mesmo que pretende acabar com a vida. Quem assim age, precisa de quem o ouça, de quem o leve a sério e lhe providencie ajuda profissional. Ignorar, na esperança de que passe, é o maior erro.

Outro grande erro é tentar menorizar os problemas de quem sofre: “isso não é nada”; “há quem esteja bem pior”; “isso passa”; “tens de te animar”; “pensas que a minha vida também é fácil?”. Atitudes destas são de evitar ao máximo, pois a pessoa sente que não é levada a sério, o que a deixa ainda mais amargurada, mais fechada.

A parte mais interessante no tratamento deste tema, foi, para mim, uma entrevista a uma senhora que faz trabalho voluntário numa linha do tipo “SOS Voz Amiga”, da qual traduzo algumas passagens:


Imagine que está de serviço na linha e alguém telefona a dizer: “estou desesperado, vou matar-me”. O que faz?


Em primeiro lugar, tento estabelecer um contacto, alcançar a pessoa em todos os sentidos.

E como o faz?

Pergunto: “Quer contar-me o que o deixa assim tão desesperado? O que está por trás disso?”. Depois, conforme o que me contam, valorizo a luta dessa pessoa, valorizo o seu sofrimento, a sua dor. Digo, por exemplo: “eu sei o que tem de aguentar; sei como é difícil levantar-se todos os dias e tentar viver normalmente, ignorando o sofrimento da depressão”. Com expressões deste género, consigo o contacto. O meu interlocutor ganha confiança em mim e solta-se. No decorrer da conversa, digo: “diz-me que não quer continuar a viver e eu consigo compreender. Mas o que seria necessário para que dissesse que tornaria a tentar? Pode sempre suicidar-se, no fim, terá sempre essa opção. Mas vamos primeiro ver: o que é ainda possível? Tem talvez um sonho na sua vida, alguma coisa que gostaria de fazer? Repare: luta todos os dias contra a sua depressão, sem avançar. Não concebe empregar essa energia para atingir algo com que sempre sonhou?”. Tento não dar conselhos, mas sim avaliar quais as possibilidades que a pessoa ainda tem, ir ao encontro dos seus desejos, dos motivos que a podem levar a mudar de ideias.
  
Não relativiza.


Nunca. A pessoa iria imediatamente sentir que não é levada a sério. Mantenho-me compreensiva e expresso as minhas emoções com sinceridade, por mais abalada que fique. Lembro-me de um caso de um homem que me disse que era o bastardo da família, que sempre fizeram questão de lho dizer, pois ele era o resultado de uma relação extraconjugal de sua mãe. O seu pai [marido da mãe] arrancava-o da cama três vezes por semana, começou a fazê-lo quando ele tinha três ou quatro anos, metia-o no carro, levava-o para um sítio ermo e dizia-lhe que lhe dava um tiro e que depois se suicidava da mesma maneira. Nunca o fez, mas o homem revivia o cenário constantemente.

Isso é horrível. Como reage?

Com sinceridade. Digo: “Isso que me está a contar abala-me imenso; até me pergunto como tem conseguido sobreviver”.

Nunca relativizar ou desvalorizar.

Exatamente. E tento então ver onde estão as possibilidades. Pergunto: “como tem aguentado esse fardo? O que lhe deu força? A sua fé? A sua avó? Um amigo? Tem de haver alguma coisa.” Faço perguntas. E não dou conselhos, apenas sugestões, em função do que me dizem.

E como é consigo? Como supera a desilusão, quando alguém desliga, a meio da conversa, deixando-a com a sensação de que não evitará o suicídio?

Aceito, simplesmente. E procuro distanciar-me, digo-me: a decisão de desligar foi do outro. Tentei dar o meu melhor, fazer o que estava dentro das minhas possibilidades. Se não chegou, não há nada que eu possa fazer para alterar esse estado de coisas.


Acrescento que esta senhora teve uma formação de dois anos, antes de começar a atender pessoas em desespero.

Nota: a tradução é minha, do alemão; o publicado é um resumo da entrevista que li.

Texto originalmente publicado aqui.

 

29 de maio de 2019

Efemérides históricas ao tempo da formação de Portugal (1)

Faz hoje 911 anos que morreu um infante hispânico com apenas quinze anos de idade, de seu nome Sancho. E que importância pode ter um acontecimento destes para Portugal, ocorrido numa altura em que o nosso país ainda nem existia (talvez D. Afonso Henriques ainda nem fosse nascido)?

Na verdade, esta morte modificou o curso da História hispânica de forma radical. Caso o jovem Sancho tivesse sucedido a seu pai, seria até provável que o reino de Portugal nunca se tivesse formado. Estamos a falar do único filho varão do imperador D. Afonso VI, pai de D. Teresa e avô de D. Afonso Henriques.

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Afonso VI de Galiza, Leão e Castela, imagem daqui, sem indicação de data e autor

Num certo aspeto, a história de vida de D. Afonso VI, rei de Leão Castela e Galiza, o que lhe valeu o título de imperador, assemelha-se à de Henrique VIII de Inglaterra, que haveria de nascer quase quatro séculos depois da sua morte: esperou, durante toda a sua vida, por um herdeiro varão. Apesar de ter casado cinco vezes, nasceu-lhe apenas uma criança legítima: a infanta D. Urraca, a conhecida meia-irmã de D. Teresa.

À medida que envelhecia, D. Afonso VI via-se incapaz de se conformar com este destino e, no início do século XII, terá casado com Zaida, a sua barregã moura, legitimando assim o filho de ambos. Zaida ter-se-ia convertido ao Cristianismo, sendo batizada com o nome de Isabel, tendo o seu filho adquirido o nome de Sancho (não sabemos como anteriormente se chamaria). Este casamento do imperador não é consensual, entre os historiadores, pois não há forma de o provar. A ter sido celebrado, foi-o de forma muito discreta. No entanto, encontram-se referências a uma “rainha Isabel”, em alguns documentos coevos, e o Professor Abel Estefânio, da Universidade do Porto, refere, num seu artigo na revista Medievalista online, que “é pela autoridade do bispo Paio de Oviedo que somos informados de Zaida que «babtizata Helisabeth fuit vocitata»”.

Do que não há qualquer dúvida é que D. Afonso VI, nos primeiros anos do século XII, decidiu apontar esse seu filho, nascido em 1093, como seu sucessor legítimo, apelidando-o de «infante Sancho». O jovem passou a confirmar os documentos oficiais da corte, em conjunto com sua mãe, a tal «rainha Isabel».

Podemos imaginar o impacto que esta medida causou na corte, nomeadamente em sua filha legítima Urraca e seu genro Raimundo, mas também no casal Henrique-Teresa. Esse impacto foi de tal ordem, que levou os dois genros a esquecerem as suas rivalidades, a fim de firmarem, às escondidas do sogro, um Pacto Sucessório, acontecimento praticamente desconhecido da nossa historiografia, mas onde os dois decidiam como seria dividida a herança do imperador, passando por cima do infante Sancho.

O vendaval durou, porém, apenas meia dúzia de anos. O conde D. Raimundo faleceu, de repente, ainda antes do sogro. E o jovem Sancho, nomeado, com apenas quinze anos, responsável pela defesa de Toledo, acabou por perecer na Batalha de Uclés, a 29 de Maio de 1108, na sequência de um ataque sarraceno.

D. Afonso VI, velho, doente e minado pelo desgosto, morreria apenas cerca de um ano mais tarde. Antes disso, porém, reuniu Cortes em Toledo e anunciou a filha Urraca sua sucessora, ao que aliás se opôs o genro Henrique. Este acontecimento originou o rompimento do conde portucalense com o sogro, que o baniu da corte, considerando-o traidor.

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Urraca I de Leão e Castela - Pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada na Prefeitura de Leão, Wikipedia

Como sabemos, também D. Henrique acabou por morrer prematuramente, tornando-se as meias-irmãs Urraca e Teresa as principais protagonistas da História Ibérica durante mais de uma década. Ora, se o infante Sancho tivesse, de facto, sucedido a seu pai, não se teriam verificado as lutas pelo poder entre as duas irmãs, rivalidades que foram fundamentais para a formação do reino português.


Texto publicado originalmente aqui.


29 de abril de 2019

Contos do Portugal Profundo (9)



«Ela insistiu e foi ainda mais longe na descodificação que fazia da natureza humana. Falou do medo, da impotência, da solidão, da perda... Metia-se com ele, talvez por sentir que ele fingia não ser grande adversário. E era verdade. Naquele momento estava ali sentado, com a mesma sensação de estar a assistir a uma peça de teatro ou a um filme. E como sabia que o silêncio era de ouro nos momentos em que a arte se confundia com a vida, não perturbava nem um pouco o "monólogo" de Eva...»

In "Despedidas à Francesa Num Outro Portugal", de Luís Alves Milheiro

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25 de abril de 2019

Abril no feminino?


Estava eu sem inspiração nenhuma para escrever sobre o 25 de Abril, quando deparei com um post da jornalista Helena Ferro de Gouveia no Facebook:

«Mulheres de Abril
A história da Revolução ainda é contada no masculino deixando na sombra aquelas que foram chamadas de “companheiras na sombra”. Seja Maria Barroso, a retaguarda familiar de Soares, sejam as mulheres no partido comunista, sejam escritoras, artistas, professoras, sejam as mulheres de alguns movimentos católicos, sejam as mulheres-mães-noivas-namoradas dos que combateram na guerra colonial ou dos que pensaram o derrube do regime.
Mesmo após o fim da ditadura, no período quente, elas não viveram tempos fáceis. A escritora Maria Teresa Horta recorda que ajudou a organizar uma manifestação de luta pelos direitos das mulheres. Nessa manifestação previa-se a queima de símbolos da opressão feminina: vassouras, grinaldas de noiva… Porém, centenas de homens juntaram-se em redor das mulheres e começaram a bater-lhes. "Eram murros, despiam as mulheres, tentavam violá-las", conta a escritora.
Quarenta e cinco anos depois de Abril muito mudou para as mulheres em matéria de direitos e liberdades, há ainda um longo caminho a percorrer para mudar mentalidades e falta cumprir a igualdade. E foi também para isso que se fez Abril.»

Interessa-me o papel da mulher nos vários momentos da História e comecei a ler Mulheres da Clandestinidade, de Vanessa de Almeida. O que mais me surpreendeu, até agora, foi a forma de como as mulheres comunistas eram discriminadas no próprio partido, um partido que, já durante o salazarismo, fazia da igualdade uma das suas bandeiras.

Porém, os nossos comunistas não são caso único. Vi, há tempos, um documentário na TV alemã sobre as mulheres do Kremlin e fiquei igualmente abismada como elas eram usadas, mas “escondidas”, a fim de dar protagonismo aos homens. Muito poucos saberão o nome das mulheres que estiveram ao lado de personalidades como Lenine ou Estaline, por exemplo. Ainda hoje, a Rússia não lida bem com a figura da “primeira dama” (para não falar de uma mulher à frente dos destinos da nação). Nesse programa, dizia-se que Raíssa Gorbachev foi muito criticada por constantemente surgir ao lado do marido. Putin surge sempre sozinho. É verdade que se separou da mulher, mas, mesmo quando ainda eram casados, a sua actuação era idêntica. Ou alguém se lembra da mulher de Putin?

Regressando à nossa Revolução: é sabido que o 25 de Abril abalou os costumes, porquanto o vendaval causado pelos chaimites de Salgueiro Maia coincidiu com a revisão da Concordata, por parte do Vaticano, permitindo o divórcio civil para casais unidos pela Igreja. Mesmo sendo criança (entre os oito e os doze anos, se englobarmos o Verão Quente e o período que se lhe seguiu), não fiquei indiferente à confusão de certos adultos, perante tanta liberdade. Há uns anos, escrevi as minhas memórias do 25 de Abril, que acabei por misturar com comentários da adulta que hoje sou. Ainda não consegui publicá-las em livro, mas não resisto a transcrever um pequeno excerto:

«Muitos pais de família romperam com as amarras que os haviam levado ao casamento apenas para terem sexo à disposição. Partiram à procura das Emanuelles* e das gargantas fundas*, o que aliás está longe de implicar que as tenham encontrado. Sá Carneiro acabou por personalizar esta nova ordem, ao divorciar-se para se juntar a outra mulher. É curioso constatar que foi um homem de direita, que muitos apelidavam ainda de fascista, que acabou por se tornar na personificação da nova ordem.
Porém, o desaparecer de muitas convenções sociais e de outras fachadas foi, em parte, aparente. À semelhança de outros momentos da História, as liberdades a nível individual eram pensadas sobretudo para os homens. Naqueles anos imediatos ao 25 de Abril, ainda não se aceitava bem a ideia de que a esposa, a mãe divorciada, que ficava com os filhos a seu cargo, fosse à procura de novo parceiro. Ela própria se escusava a tal comportamento. A sua atitude de protesto passava, paradoxalmente, pela defesa dos valores tradicionais».


* Expressões baseadas em títulos de filmes mais ou menos pornográficos que, na altura, se mantiveram meses (talvez até anos) em exibição nos cinemas e se transformaram em verdadeiros símbolos da nova era.

Nota: texto originalmente publicado aqui.


16 de abril de 2019

A Igreja Católica em crise



Sou assinante de um jornal católico alemão semanal, o KirchenZeitung, ou KiZ, na sua abreviatura oficial, pertencente ao bispado de Hildesheim. Nos últimos tempos, traz um ou mais artigos sobre o abuso sexual de menores dentro da Igreja Católica em quase todas as suas edições. Há quem ache que é demais e apele a que se deixe o assunto em paz. Já se admitiu que o problema existe. Não chega? Até porque, felizmente, os clérigos abusadores não são a maioria.   

Surdo a tais apelos, o KiZ insiste no assunto. E eu aplaudo. Porque é disso mesmo que os prevaricadores estão à espera: que, depois de se fazer uma balbúrdia à volta do assunto, o caso adormeça e eles possam voltar a maltratar as suas vítimas na paz do Senhor. Como sempre foi, durante séculos e séculos. Uma teia impenetrável de prevaricadores e coniventes, que abafam os crimes, que nunca castigam os criminosos, levando a Igreja de Cristo a esta situação incomportável: protecção dos criminosos, em vez de protecção das vítimas! Dizia, há tempos, uma colaboradora desse jornal: é inadmissível que um padre que o deixe de ser, a fim de se casar, seja tratado de forma mais dura pela sua Igreja, do que aqueles que abusam sexualmente de crianças!

 
Tenho lido relatos incríveis de antigas vítimas. Também há mulheres, mas a maioria parece ser homens. Em todo o caso, trata-se de pessoas que, só aparentemente, levam uma vida normal, pois não se livram de depressões, insónias, ataques de pânico e tentativas de suicídio durante toda a sua vida. Pessoas com asco de si próprias. Pessoas que tornam a recordar coisas que julgavam esquecidas, por exemplo, quando têm filhos, levando-as a cair novamente num poço escuro e frio, chegando a ficar com medo de tocar nas crianças (as suas crianças) de forma imprópria.

É duro ouvir um homem de sessenta anos dizer que se martirizou com pensamentos de pecado, ao lembrar-se de como regozijou ao saber que o padre, que abusara dele durante dois anos, ia ser transferido para outra paróquia. Na festa de despedida, toda a gente estava triste, por aquele padre tão simpático se ir embora. E ele, um miúdo de 11 ou 12 anos, estava feliz. E censurou-se por isso! É duro ler como bispos regiam autênticas redes de troca de menores. É duro ler como um padre, ganhando a confiança de uma família, a ponto de fazerem férias juntos, abusasse do miúdo, que dormia com ele, enquanto os pais dormiam no quarto ao lado, pensando que o filho não poderia estar entregue em melhores mãos.

Este último caso ilustra como a Igreja tem responsabilidades acrescidas. O Papa Francisco desiludiu no seu discurso de encerramento do encontro extraordinário de bispos em Roma, a fim de debater o assunto, há cerca de dois meses, ao relembrar que abusos sexuais a menores acontecem em todos os lugares onde adultos estão em contacto com crianças e jovens, como clubes desportivos, colónias de férias, lares, etc. Esta relativização caiu mal a muita gente, pois não se pode comparar o prestígio de um clérigo, representante de Deus na Terra, com o de um treinador de ginástica. Além disso, aconteça onde acontecer este crime, não pode ser nunca menorizado ou relativizado. Muitos se perguntam o que levou um Papa, normalmente tão acutilante e corajoso, ficar-se por discurso tão modesto. Por isso, escolhi a fotografia acima para ilustrar este post (igualmente copiada do KiZ): o Papa mostra-se abatido e encolhido, como se o peso que carrega nos ombros se tenha tornado demais para ele.

Numa altura de falta de padres e de igrejas quase vazias, escândalos deste tipo minam a confiança na instituição milenar. Não há dúvida de que a Igreja vive uma grande crise e só resolverá o problema com uma grande reforma. Alguns bispos alemães dão os primeiros passos, apesar de sofrerem a contestação de muitos dos seus pares. O novo bispo de Hildesheim, por exemplo, afirmou, numa entrevista, que a ganância do poder está inscrita no DNA da Igreja. Foi naturalmente muito contestado. Mas também apoiado. Porque ele pôs o dedo na ferida. Os abusos impunes de menores só se tornaram possíveis, porque a Igreja se transformou num clube de homens que se protegem uns aos outros, a fim de manterem o seu poder.

O bispo Heiner Wilmer não se deixa intimidar e constituiu uma comissão que deverá investigar os casos de abuso sexual no seu bispado entre os anos 1957 e 1982, o tempo de regência de um bispo muito querido e conceituado, mas que se desconfia que fazia parte de uma rede de troca de rapazinhos, algo que caiu como uma bomba entre os católicos alemães que se lembram dele, até agora, com muita saudade. Os elementos da comissão investigadora não são clérigos, nem estão particularmente relacionados com a Igreja, a fim de garantir a sua independência. E o bispo Heiner Wilmer prometeu pôr todos os arquivos à disposição dos investigadores. Este é um dos problemas, quando se trata de investigar: a retenção de informação por parte da Igreja.

Quatro pessoas fazem parte da comissão: dois psicólogos, que se encarregarão de entrevistar possíveis vítimas e outras testemunhas; um procurador-geral reformado que, durante quinze anos, presidiu a uma comissão que investigou crimes nazis em Ludwisburg, e a antiga Ministra da Justiça da Baixa Saxónia (um Land alemão) que presidirá à comissão (informações tiradas do Kiz nº 14, de 07 de Abril passado).

O facto de estar uma mulher à frente desta comissão não é por acaso. O bispo Heiner Wilmer é de opinião de que a Igreja Católica só tem a ganhar envolvendo mulheres nos seus assuntos. Mais: ele considera ser essencial a participação de mulheres na reforma que se exige, não excluindo a sua ordenação.

Foi com agrado que, apesar das críticas que lhe são feitas, constatei haver colegas seus a seguir-lhe o exemplo. No último KiZ (nº 15, de 14 de Abril), li que o bispo de Osnabrück, Franz-Joseph Bode, considera a discussão do papel da mulher na Igreja como urgente, central e inevitável. Na sua opinião, a Igreja Católica está a desmoronar e só pode recuperar a confiança, quando mulheres e homens trabalharem em conjunto. Li igualmente com muito agrado que o bispo de Limburg, Georg Bätzing, pretende igualmente constituir uma comissão, a fim de investigar os abusos sexuais no seu bispado nos últimos setenta anos. A comissão será constituída por duas pessoas não ligadas à Igreja e terão de ser um homem e uma mulher.

Não se trata, aqui, de quotas ou de calar críticas. Trata-se, acima de tudo, de enquadrar mulheres nos meandros da Igreja, quebrando o monopólio dos homens que se apoiam e protegem mutuamente. Desejo muito que isso aconteça. Não porque as mulheres sejam, em geral, melhores do que os homens, mas porque a sua presença quebrará a irmandade masculina. Além disso, a sua opinião deve ser ouvida. Os homens são apenas metade da Humanidade. Nos dias de hoje, não há razão para que sejam apenas eles a decidirem sobre assuntos que digam respeito a toda a Humanidade. Na verdade, impressiona-me que tal procedimento tenha funcionado durante milénios!

Sigo tudo isto com grande interesse, não para atacar a Igreja Católica, mas numa grande esperança de que ela se consiga renovar. A Igreja enfrenta um dos maiores desafios da sua História e urge redefinir o seu papel. Para que serve, hoje em dia? Apenas para baptizados, comunhões, casamentos e funerais? Não podemos esquecer as suas tão necessárias missões caritativas espalhadas pelo mundo. E a Igreja Católica alemã tem-se concentrado noutras causas: o apoio aos refugiados (nos últimos anos, entraram cerca de dois milhões, neste país) e a ecologia. Sim, a preservação do ambiente, aliada à causa animal, tem-se tornado, cada vez mais, uma causa da Igreja. A razão? Proteger a Criação Divina.

Seria bom que a Igreja portuguesa lhe seguisse o exemplo, fomentando o debate sobre temas polémicos e se deixasse de dogmas ultrapassados, a fim de se dedicar a causas realmente importantes.

Nota: texto publicado originalmente aqui