Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

10 de outubro de 2026

Texto da Rapidinha #62

 

D. Raimundo conde da Galiza, de Zósimo - Trabajo propio, CC BY-SA 4.0,

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=113777675

 

Vamos então falar do Pacto Sucessório, firmado entre os condes D. Raimundo e D. Henrique, no verão de 1105 (1)

Não existe cópia deste documento nos arquivos portugueses. E a versão existente na Biblioteca Nacional de França não está datada. O documento é, porém, considerado verdadeiro. Enquadra-se perfeitamente na conjuntura ibérica de 1105.

Afonso VI revolucionou as relações familiares, ao nomear o filho de Zaida seu sucessor. E D. Raimundo resolveu agir. Era conde da Galiza, casado com a única filha legítima do imperador e tornara-se pai, nesse ano, de um filho varão.

Raimundo logrou obter o apoio de um dos clérigos mais influentes em toda a Europa: D. Hugo, abade de Cluny, tio-avô de Henrique. Não custa aceitar que o abade de Cluny preferisse ver o pequeno Afonso Raimundes como herdeiro do imperador Afonso VI, em detrimento do sucessor recentemente nomeado: o infante Sancho.

A mãe de Sancho era muçulmana. No entanto, Zaida ter-se-á convertido ao cristianismo, adotando o nome de Isabel e casando com Afonso VI, legitimando o filho.

D. Hugo de Cluny não aprovou a atuação dos clérigos hispânicos envolvidos neste caso. E chegou ao ponto de “apadrinhar”, digamos assim, a realização do pacto secreto, que era uma verdadeira traição ao imperador.

O poderoso abade enviou à Hispânia um seu representante, Dalmácio Geret. E foi na presença deste que os dois cunhados Raimundo e Henrique firmaram o Pacto Sucessório, do qual falarei no próximo vídeo.

 

(1) Data considerada verosímil por Luís Carlos Amaral e Mário Jorge Barroca, in TERESA, A CONDESSA-RAINHA, Temas e Debates 2020, p. 42.

 

4 de outubro de 2026

Rapidinhas de História #61

O CONDE D. HENRIQUE (5)

HENRIQUE E RAIMUNDO FIRMAM UM PACTO SECRETO


 

Texto da Rapidinha #61

O CONDE D. HENRIQUE (5)

HENRIQUE E RAIMUNDO FIRMAM UM PACTO SECRETO

"Pacto Sucessório”, Recueil de Chartes de CLUNY,

Bibliothèque Nationale de France, Département des manuscrits, Colecção Baluze nº 86, f. 470 
 
 
Já vimos que, nos primeiros sete a oito anos de casamento, Henrique e Teresa permaneceram fiéis ao imperador de toda a Hispânia. Mas o contexto sociopolítico mudou radicalmente, nos primeiros anos do século XII.

Não se sabe exatamente a data, mas Afonso VI, que já não era novo, e receoso por ter uma única filha legítima, resolveu nomear seu sucessor um filho que tinha da barregã Zaida. Ora, esse filho, ainda criança, passa a ser o infante D. Sancho, herdeiro do império do pai.

Em princípio, esta decisão não afetaria grandemente o casal Henrique/Teresa. Mas pode-se imaginar o impacto que teve no casal Raimundo/Urraca. D. Urraca era a única legítima, filha da rainha D. Constança. Podemos imaginar a sua revolta. E, depois de lhe nascer o filho Afonso Raimundes, a 1 de março de 1105, o casal resolveu agir.

Raimundo e Urraca solicitaram a cooperação de Henrique e Teresa.

É difícil de dizer que tipo de relação tinham os dois casais. Sabemos que as irmãs, depois de viúvas, se guerrearam. Mas isto aconteceu mais tarde, numa situação completamente diferente.

E, mesmo pondo a hipótese de os quatro não morrerem de amores uns pelos outros, Henrique resolveu cooperar. E porquê? Porque, pela primeira vez, se lhe apresentou a possibilidade de expandir o seu poder para lá do condado Portucalense.

Os dois, Henrique e Raimundo, estabeleceram um pacto secreto, à revelia do sogro, onde determinavam como deveriam ser divididas as possessões de Afonso VI, depois da morte deste.

Uma verdadeira traição ao sogro. E um dos pactuantes era um homem que a nossa historiografia destituiu de qualquer mácula. Mais: uma traição que nem pode ser justificada com a vontade de libertar o condado Portucalense do jugo leonês. D. Henrique tinha outras ambições.

Como nos dizem Amaral e Barroca, o pacto revela as enormes aspirações que alimentavam D. Raimundo e D. Henrique. (1)

No próximo vídeo, veremos em que consistia.


(1)  TERESA, A CONDESSA-RAINHA, Luís Carlos Amaral e Mário Jorge Barroca (2020), p. 160

27 de setembro de 2026

Rapidinhas de História #60

O CONDE D. HENRIQUE (4)

Nos primeiros sete ou oito anos de casamento, D. Henrique e D. Teresa viveram em concordância com a sua condição de vassalos, cooperando com o rei de Leão.


 

26 de setembro de 2026

Texto da Rapidinha #60

 

Guimarães - Portugal
© 2009 H. Neumann
 
 

Hoje, vamos atentar à primeira fase da vida em comum de D. Henrique e D. Teresa.

Nos primeiros sete ou oito anos de casamento, o casal viveu em concordância com a sua condição de vassalos, cooperando com o rei de Leão, intitulado imperador de toda a Hispânia. Apesar de terem organizado e engrandecido o condado, não há, para este período, indícios de que pretendessem independência.

Isto faz todo o sentido, se analisarmos aspetos pessoais e familiares de D. Henrique.

Ele era um nobre de grande linhagem: bisneto de Roberto II, rei de França; sobrinho-neto de D. Hugo, o famoso abade de Cluny; neto do duque Roberto I de Borgonha e de Hélie de Semur, a irmã do abade D. Hugo; irmão de dois duques de Borgonha; e sobrinho da rainha D. Constança de Leão e Castela.

Como vemos, ele pertencia à alta nobreza. Mas a época medieval tem as suas particularidades. E Henrique, sendo o mais novo de seis irmãos, não tinha direito a qualquer herança. Nada mais lhe restava do que ir em busca de fortuna e glória. D. Henrique foi realmente um desses aventureiros medievais.

Como sabemos, foi bem recompensado, ao casar com uma filha de Afonso VI, tornando-se, através dela, conde de Portucale. Por isso, é lógico que, numa primeira fase, ele cumprisse o papel de genro agradecido e dedicado, não lhe passando pela cabeça revoltar-se contra o sogro.

Esta situação vai mudar. Mas não motivado por aquilo que se costuma pensar.