Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

28 de maio de 2021

A Tia Júlia e o Escrevedor


 

Apesar de alguns contornos trágicos (explicarei mais à frente), este é um divertido livro do vencedor do Prémio Nobel de 2010. Divertido será parco atributo para uma obra irónica, muitas vezes auto-irónica, e onde se articulam tantos temas dignos de reflexão, mas o facto é que me diverti muito ao lê-la.

É um romance com elementos autobiográficos. Encontramos Mario Vargas Llosa com dezoito anos, estudante de Direito, em Lima. Apesar de a família ter grande planos para ele (há de tornar-se jurista ou político famoso), Marito, ou Varguitas (como lhe chamam) pouco liga ao curso, pois o seu grande sonho é tornar-se escritor. O seu trabalho numa estação radiofónica, onde prepara os noticiários, é-lhe igualmente mais importante do que os estudos, enquanto se vai ensaiando na escrita de contos, que aliás nada impressionam quem o ouve lê-los. Por isso, ele modifica-os constantemente, acabando por deitar os manuscritos ao lixo.

A dita estação de rádio contrata o boliviano Pedro Camacho, um dos mais famosos criadores de radionovelas da América Latina, sendo aquelas um grande entretenimento familiar, na altura (anos 1950). Varguitas é um apaixonado pela literatura e já leu vários clássicos. Por isso, e apesar da sua juventude, tem consciência de que os guiões radionovelescos não possuem qualidade literária. Mesmo assim, Pedro Camacho fascina-o.

Esta fascinação baseia-se na capacidade criativa do boliviano e na sua dedicação à criação dos folhetins. O homem passa a vida a escrever, quase nem dorme. Escreve os guiões de várias radionovelas ao mesmo tempo, dá instruções aos atores, durante as gravações, e alcança um sucesso enorme entre os ouvintes com os seus enredos intrincados e, alguns, extremamente trágicos. Daí, a tal nota trágica deste romance, pois Vargas Llosa alterna, capítulo a capítulo, a sua própria história com os enredos do criador boliviano.

Nas suas conversas com Pedro Camacho, Varguitas ouve-o atentamente a explicar em que consiste a sua "grande arte", quais devem ser as estratégias a seguir e os pontos a considerar por um criador de enredos. Apesar do tom irónico usado por Vargas Llosa, em momento algum ele põe em causa o genuíno interesse do jovem (ele próprio) pelo "escrevedor" de radionovelas, mostrando uma atitude descomplexada, dando mesmo a entender que algumas indicações dadas por Pedro Camacho lhe foram úteis na sua vida de escritor (que outro vencedor de Nobel confessaria tal coisa?).

Porém, ainda mais empolgante que as radionovelas, se revela a vida de Varguitas, que se apaixona por uma tia divorciada e catorze anos mais velha do que ele. Na verdade, ela é apenas irmã de uma sua tia por casamento, mas, na mentalidade sul-americana da altura, eles são, para todos os efeitos, parentes chegados. Divorciada de fresco, causando incómodo na família, a tia Júlia, bonita e elegante nos seus trinta e poucos anos, passa uma temporada em Lima, em casa da irmã e do marido desta, os tios de Marito, onde ele almoça frequentemente. O jovem já não via a tia Júlia desde a infância e a atração entre eles é imediata.

Os dois acabam por iniciar um namoro que, ao ser descoberto, causa grande escândalo. Perdidamente apaixonado, Varguitas, apesar do medo que tem do pai (por ele confessado) e de ser menor (até aos vinte e um anos), acaba por pedir a tia em casamento. E ela aceita. Ora, Marito não pode casar sem autorização expressa do temido progenitor e, na procura de um alcaide que feche os olhos a tal requesito, a tia Júlia e ele vivem uma série de peripécias que nada ficam a dever aos enredos radionovelescos de Pedro Camacho.

Vargas Llosa faz assim um interessante paralelo entre essa época da sua vida e os guiões de Pedro Camacho, numa espécie de homenagem a esses criadores de radionovelas, dos quais já ninguém se lembra, mas que entretiveram as famílias durante décadas. Além disso, e depois de chegar à conclusão de que «toda a gente sem excepção podia ser tema de conto» (p. 224), Vargas Llosa intui que a vida real, a fonte de inspiração de qualquer escritor, ou "escrevedor", pode enveredar por caminhos tão absurdos e intrincados como um enredo de folhetim. Tudo depende da maneira como se escreve.

Já agora, não resisto a transcrever esta passagem hilariante (entre muitas outras), em que Varguitas entrevista um famoso toureiro venezuelano para a estação radiofónica onde trabalha (p. 225):

«Na manhã seguinte, horas antes de tomar o avião, entrevistei-o num salãozinho do Hotel Bolívar. Deixou-me perplexo comprovar que era menos inteligente que os touros que lidava e quase tão incapaz como eles de expressar-se através da palavra. Não conseguia construir uma frase coerente, nunca acertava nos tempos verbais, a sua maneira de coordenar as ideias fazia pensar em tumores, em afasia, em homens-macacos. A forma era não menos extraordinária que o fundo: falava com uma pronúncia infeliz, feita de diminutivos e apócopes, que matizava, durante os seus frequentes vazios mentais, com grunhidos zoológicos».


24 de maio de 2021

Patriarcado

A propósito da dominância dos homens sobre os outros seres humanos e sua consequente impunidade, lembrei-me de algumas histórias passadas na aldeia de origem do meu pai, perdida nos montes transmontanos, no concelho de Macedo de Cavaleiros. Das que conheço, escolhi quatro, todas passadas durante a primeira metade, ou meados, do século XX. Achei interessante apresentar testemunhos deste contexto especial, porque, devido ao isolamento da aldeia até aos anos 1980, a justiça raramente lá chegava. Era um mundo fechado. E este acaba por ser um retrato da nossa província, pois em todo o lado haveria casos semelhantes. 

1 - Um pastor passava o verão com o rebanho no monte, não ia dormir a casa meses a fio. Uma sua filha costumava ir levar-lhe a comida, todos os dias, começou a fazê-lo com cerca de dez anos, uma caminhada de várias horas, tanto a ida, como a volta. Quando tinha 12 ou 13 anos, engravidou do pai. Aquele era um tempo cheio de superstições, o fruto resultante de uma relação incestuosa era considerada diabólica, ou coisa parecida, e a miúda foi escondida/isolada durante toda a gravidez. Não consta que o pai dela sofresse restrições ou censuras. O meu pai, que me contou esta história, também não faz ideia do que foi feito ao bebé. Só sabe que desapareceu.

2 - Uma mulher, à volta de quarenta anos, acabou por morrer devido aos maus tratos infligidos pelo marido e deixou seis filhos entre os dois e os dezasseis anos. O homem ficou impune e tornou a casar. A sua segunda mulher não quis os filhos do primeiro casamento, só ficou com a mais pequena, de dois ou três anos. Os outros foram simplesmente abandonados. Os padrinhos dos dois meninos levaram-nos para as suas casas. Das meninas ninguém quis saber. O pai das crianças ficou impune também por este crime, ninguém o denunciou às autoridades. A filha mais velha, de dezasseis anos, tinha um namorado, com quem ficou a viver, e levou consigo uma das irmãs. Mas eram muito pobres, não podiam ter mais ninguém a cargo deles. Outra irmã, de doze anos, foi trabalhar numa pensão, em Macedo de Cavaleiros. Acabou por casar aos quinze com um cliente dessa pensão. A mais nova, que ficou em casa do pai e da madrasta, era sujeita a muitos maus tratos por esta. Uma vez, deu-lhe tal tareia e deixou-a tão pisada (a menina tinha três anos!), que duas senhoras da aldeia, ricas e moradoras em Lisboa, tiveram pena dela e levaram-na consigo (foi assim que me contaram, não sei mais pormenores). Pelos vistos, não se deram com ela e acabaram por a entregar à Santa Casa. A miúda fugiu, em adolescente, e terá enveredado por uma vida de prostituição.

3 - Numa casa rica da aldeia, faziam-se serões de fado, a que assistiam várias famílias, também a do meu pai, criança, à altura. Cantavam e dançavam. Um dos cantores/tocadores de guitarra fugiu para Angola com uma das mulheres que costumavam participar nesses serões. Ela era casada e deixou duas filhas de seis e oito anos com o pai. Poucos dias depois de a mãe desaparecer, a mais velha surgiu morta. Estranhou-se muito este caso, pois não se conheciam doenças à miúda. Passados mais alguns dias, surgiu morta a mais nova. Desconfiou-se do pai. Mas ninguém o denunciou às autoridades, não foi aberto nenhum inquérito. As meninas foram enterradas e o pai continuou a sua vida. Tornou a casar e a formar família.

4 - Um homem de outra aldeia foi trabalhar para a do meu pai como sapateiro. Deixou a mulher e os filhos na sua aldeia de origem e engraçou com outra, na localidade de acolhimento. Começou a assediá-la, mas ela recusou-o sempre. Até que a paciência dele se esgotou. Um dia de manhã, foi a casa dela munido de um machado e começou a agredi-la. A vizinha deu conta e foi ajudar a amiga. Acabou por morrer com uma machadada. Entretanto, surgiu mais gente, o homem acabou por ser controlado e a mulher que ele tencionara matar sobreviveu, apesar dos muitos ferimentos infligidos. O assassino cumpriu pena, não havia como ignorar o seu ato. A mulher que ele matou deixou seis ou sete filhos, o mais novo tinha quatro anos.

Camilo Castelo Branco também nos fala da violência que, no seu tempo, imperava nas relações humanas. Da leitura de Amor de Perdição, não foi o caso amoroso que retive, mas sim, a violência extrema no seio das famílias e a forma vergonhosa como as filhas eram tratadas:

«- Vais hoje dar a mão de esposa a teu primo Baltasar, minha filha. É preciso que te deixes cegamente levar pela mão de teu pai. Logo que deres este passo difícil, conhecerás que a tua felicidade é daquelas que precisam ser impostas pela violência. Mas repara, minha querida filha, que a violência de um pai é sempre amor (p.33)».

«Não sofras com paciência», diz Simão numa das suas cartas a Teresa, «luta com heroísmo. A submissão é uma ignomínia, quando o poder paternal é uma afronta» (p. 67).

«Que a não desejava morta, mas, se Deus a levasse, morreria mais tranquilo, e com a sua honra sem mancha»  (p. 103).

 

Nota: a paginação diz respeito à versão ebook, disponível no Projecto Adamastor.

23 de maio de 2021

Pentecostes

«Afonso cumpriu o ritual dos cavaleiros da alta nobreza, guerreiros divinos ao serviço de Deus, purificando o corpo e a alma: jejuou um dia inteiro e passou a noite em vigília na igreja de São Salvador de Zamora, estando a catedral ainda a ser construída.

Meu filho armou-se a si próprio cavaleiro, tomando pela sua mão as armas que se encontravam sobre o altar, benzidas pelo bispo Bernardo de Périgord, realçando assim a sua condição de infante, filho de rainha, neto de imperador. Foi uma cerimónia parca de testemunhas, mas mui intensa para nós, imbuídos do espírito de Henrique, que parecia pairar sobre nossas cabeças como as línguas de fogo do Espírito Santo sobre as dos apóstolos».

 In Memórias de Dona Teresa (Poética Edições 2018) 

 


 

Nota: embora não se saiba a data da investidura de D. Afonso Henriques, muitos historiadores apontam para o Pentecostes (altura preferida, naquele tempo), dos anos 1125 ou 1126.

17 de maio de 2021

Eu também

«Quando tinha 12 anos fui assediada por um vizinho. Um homem com idade para ser meu avô dirigiu-me palavras obscenas, propostas porcas. Sem que me tivesse apercebido, a mulher desse homem também ouviu o seu assédio e confrontou-me dias depois, acusou-me de lhe provocar o marido, dirigiu-me palavras que uma mulher não deve ter para com uma menina. Dele tive medo, mas ela fez-me sentir culpada, suja. Uma mulher com idade para ser minha avó preferiu atacar-me, a mim, uma menina que nem era ainda uma mulher, que enfrentar a realidade de estar casada com um pedófilo, um predador».

«Tinha treze anos quando comecei a ser assediada e nada me preparou para o choque. Na escola todos os rapazes apalpavam as maminhas e os rabos e os genitais de todas as raparigas e levantavam-lhes a saia. Os professores e auxiliares que viam isto - e isto acontecia mais ou menos em todos os intervalos - nunca fizeram nada. Hoje em dia surpreende-me a rapidez com que todos, raparigas e rapazes, aceitámos que este assédio era “normal”».

«Quando comecei a sair regularmente à noite, acho que nunca me senti tão insistentemente tocada, agarrada, ignorada quando dizia que não, que não queria conversar, que não queria dançar, que não queria um copo, etc. Era como se os homens, muitos homens, achassem que tinham o direito de dispor do meu tempo, do meu corpo, de mim. E na mesma medida em que achavam que tinham esse direito, achavam que eu não tinha o direito de lhes dizer não».

«Na verdade, foi com a chegada das minhas filhas à adolescência que percebi a violência das situações por que passei. Reagi sempre com desprezo ou distância, soube defender-me, pelo que nunca me vi como uma vítima. Mas fui assediada várias vezes em contexto laboral. E não quero que as minhas filhas, ou qualquer mulher, ou qualquer homem, continuem a encarar essa situação como uma fatalidade».

«O café está vazio. Sou o único cliente. Atrás do balcão, um empregado, jovem, aproxima-se da colega que arruma as chávenas sobre a máquina do café e passa as costas da mão devagar pelo braço nu da empregada. Ela sobressalta-se, olha-o com medo e foge para o outro extremo do balcão sem dizer uma palavra. Ele vai atrás dela, a rir, divertido, com uma mão agarra-a pelo pulso e força a outra mão através das mãos da rapariga para lhe acariciar de novo o braço. A empregada treme de confusão, de medo e de raiva e sacode as mãos, impotente, com lágrimas nos olhos mas sem querer gritar para não fazer escândalo. Levanto-me da mesa e aproximo-me do balcão. O empregado sorri-me cúmplice, entre homens, sem largar a rapariga, pensando que eu quero apreciar mais de perto o espectáculo e continua a deslizar a mão pelo braço da rapariga. Quando lhe digo para parar, hesita, considera a hipótese de me confrontar e acaba por largar a colega murmurando qualquer coisa do género “Era uma brincadeira… Não estava a fazer nada…”».

«Entrei num café com um amigo de família, bastante mais velho. Senti que tinha uma pedra no sapato a magoar-me. Parei. Apoiei-me na porta. Sacudi o pé algumas vezes. Comecei a ouvir os risos dos muitos homens que estavam lá dentro, frases de uns para outros, senti o calor a subir-me à cara antes sequer de perceber porquê. Até que ouvi, voz gritada, para garantir que chegava a mim e a todos: «Esta aqui quando crescer vai dar uma bela égua. Quero ver é quem a consegue montar.» Gargalhadas. Eu tinha oito anos».

«Tinha doze anos, vinha das aulas. Eram cerca das 18h 15m, mas era Inverno e já estava escuro. Abri a porta do prédio onde morava, uma porta de madeira, sem qualquer vidro. Portas destas eram mais ou menos comuns, nos anos 1970. Entrei e, quando já estava quase a fechar a porta, alguém a travou, do lado de fora. Pensei ser alguém a querer entrar no prédio por boas razões, deixei a porta aberta e dirigi-me às escadas. De repente, fui agarrada pelas costas. Totalmente confusa, dei conta de que estava a ser toda apalpada. Quis gritar e não consegui, assim como não consegui libertar-me. Senti um medo de morte, estava a entrar em pânico, quando fui largada. Senti a pessoa a afastar-se e olhei instintivamente para trás. Vi um rapaz com o sexo erecto fora das calças. Quando me viu a olhar para ele, apontou para o sexo. Subi as escadas a tremer (não havia elevador) e com o coração aos saltos, apesar de ele ter desaparecido. Não contei a ninguém, tive vergonha. E muito medo de que me culpassem - porque não fechaste a porta? Porque não gritaste? Porque não lhe deste um murro? etc., etc. Mas como pode uma miúda de doze anos estar preparada para um ataque destes?».

«Tinha 11 anos. Um velho vizinho do prédio "amigo" do meu pai, ouvia-me a entrar no elevador e como morava no andar de baixo, entrava lá dentro. Apalpava-me, um dia voltei-me e apertou-me o pescoço e ameaçou fazer mal aos meus pais».

Estes são relatos partilhados num grupo do Facebook. Um dos relatos é meu. As mulheres sentem-se encorajadas ao constatar que outras o fazem, surgem cada vez mais a dizerem «eu também». Há igualmente relatos de homens que assistiram a cenas de assédio e se revoltaram (como mostra o exemplo) e são muito bem-vindos. Os ataques, assédios e abusos acontecem em qualquer idade, mas escolhi propositadamente meninas, na sua maioria, para que todos se dêem conta, quão cedo nos mostram que são livres de nos intimidarem e usarem o nosso corpo. E com que impunidade o fazem.

Todas as mulheres já foram molestadas e assediadas, independentemente da maneira como se vestem, ou como se maquilham (ou não maquilham). Muitos homens até preferem as discretas e tímidas por serem mais susceptíveis de não reagir. As que dizem que não se importam, por ser “normal”, apenas recalcam o mal-estar e contribuem para a impunidade dos agressores. A maior falácia, na educação das meninas, é dizerem-lhes que nada de mal lhes acontece, se não usarem roupas provocantes e não derem nas vistas. Não digam isso às vossas filhas e netas! É mentira!

Muitas vezes me dizem estar a cumprir «agenda de esquerda», com textos deste tipo. Mas esta não é uma luta de esquerda, é uma luta de todos os lados. Pela mudança de mentalidades.

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Uma parte muito relevante da sociedade, talvez a maior parte, ainda não consegue compreender o que se passa verdadeiramente quando uma mulher se sente assediada ou à beira de um assédio num contexto laboral. Essa circunstância desrespeita o mais profundo da sua dignidade, põe em causa direitos fundamentais básicos e inibe o seu pleno desenvolvimento como pessoa.

 

Não se trata de direitos das mulheres, não são coisas do “mulherio”.

Trata-se de Direitos Humanos!

15 de maio de 2021

O solidéu do papa

A 15 de maio de 1982, depois de ter visitado o Santuário de Nossa Senhora do Sameiro, em Braga, o papa João Paulo II viajou de helicóptero até ao Porto, onde presidiu a uma missa celebrada junto à Câmara Municipal, na Avenida dos Aliados.

Esta é a versão oficial. Na verdade, o helicóptero que transportava Sua Santidade não aterrou no Porto. Aterrou em Vila Nova de Gaia. Mais precisamente, no Quartel do Regimento de Artilharia Nº 5 do Exército Português, a cerca de duzentos metros do apartamento onde eu morava com os meus pais e o meu irmão.

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Imagem Open House Porto

É conhecida a imagem da igreja e do antigo mosteiro (hoje quartel) da Serra do Pilar, no alto do morro sobranceiro ao rio Douro, de onde se tem uma das melhores vistas sobre a ponte de D. Luís, a cidade velha do Porto e a Ribeira (porto medieval). À altura da visita de João Paulo II, o lanço do muro do Regimento de Artilharia Nº 5 que dá para a Rampa do Infante Santo estava ainda pintalgado de vários círculos vermelhos, assinalando as marcas das balas disparadas a mando do brigadeiro Pires Veloso, em Outubro de 1975, contra os SUV, que controlavam o RASP (abreviatura pela qual era conhecido o Quartel da Serra do Pilar, nessa altura). Durante horas, ouvimos, de nossa casa, as descargas de G3 e da restante artilharia pesada. Mas isto será assunto para outro postal.

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Entrada do Quartel da Serra do Pilar, na Rua Rodrigues de Freitas, © 2011 Horst Neumann

A 15 de maio de 1982, as euforias não eram revolucionárias. Depois de ter aterrado no Quartel da Serra do Pilar, João Paulo II transferiu-se para um descapotável. Desceu a Rua Rodrigues de Freitas e, chegado à Avenida da República, virou à direita, em direção à ponte D. Luís. Por trás das grades de segurança, milhares de pessoas ladeavam o lanço final da avenida que conduz à ponte. Eu fazia parte dessa turba, juntamente com duas amigas. Tínhamos entre dezasseis e dezassete anos.

João Paulo surgiu, finalmente, a acenar à multidão. Quando passou por nós, algo insólito aconteceu: o solidéu voou-lhe da cabeça e aterrou no meio da avenida. Fiquei especada a olhar para o adereço papal, nem sequer me estiquei para seguir o carro até ele desaparecer de vista. Passada a comitiva, lá jazia o solidéu, ninguém lhe parecia ligar. E atingiu-me uma grande vontade de o ir buscar, esgueirando-me por entre as grades. Mas hesitei, as forças policiais vigiavam a multidão que começava a dispersar.

Custava-me, porém, sair dali sem me apossar da relíquia (e mal sabia eu que João Paulo II seria canonizado vinte e três anos mais tarde). Informei as duas amigas das minhas intenções, em busca de solidariedade. Sempre era diferente irmos as três buscar o solidéu, do que uma sozinha. Mas elas alegaram que seríamos admoestadas pela polícia. Repliquei que nenhum dos polícias parecia reparar na peça caída no meio da rua, encontravam-se de costas para ela, concentrados na multidão. Mas as duas mantiveram-se firmes. Se alguém tentasse passar as barreiras de segurança, eles com certeza atuariam.

Fiquei numa hesitação entre o ir e não ir. E o receio, aliado à falta de apoio, acabou por vencer.

Não nego que tivesse sido a melhor decisão. Mas ainda hoje encaro a possibilidade de ter sido bem sucedida, pelo que estaria na posse de uma verdadeira relíquia.

Quem terá ficado com o precioso objecto? Terá sido devolvido ao papa?

Uma coisa é certa: até sairmos dali, o solidéu permaneceu caído no meio da avenida.

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Solidéu papal - imagem Wikipedia

11 de maio de 2021

O Padre Costa de Trancoso

 

O autor deste livro, o historiador Santos Costa, teve a amabilidade de mo oferecer e enviar para a Alemanha. Baseia-se numa lenda de Trancoso: o padre Francisco da Costa terá tido 299 filhos de 53 mulheres! Há um processo com estes dados e com sentença de 1487, arquivado na Torre do Tombo. Duvida-se, porém, da sua autenticidade, ou dos dados lá apresentados, pois será difícil um único homem ter tantos filhos de tantas mulheres, nas quais se incluem uma tia do sacerdote, cinco irmãs e a própria mãe.

De qualquer maneira, vale a pena ler. As lendas fazem parte do nosso património cultural. E o autor prova conhecimento da época e usa linguagem apropriada. Para quem se interessa pelos tempos medievais, um livro destes lê-se com prazer e é sempre fonte de inspiração. O meu sentido agradecimento e os meus parabéns a Santos Costa.

O padre em questão teve sentença pesada:

«Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou».

(Torre do Tombo, Armário 5, Maço 7)

No entanto, acabou por obter o perdão de D. João II «por ter contribuído para o povoamento da Beira Alta». Se bem que eu me pergunte quantos filhos terá realmente tido. E, desses, quantos terão sobrevivido à infância, numa época de grande taxa de mortalidade infantil?

Li algures que perdões destes aconteciam. Não esqueçamos que a sociedade era patriarcal, ou seja, as mulheres não eram muito tidas em conta e um crime sexual acabava por atribuir a culpa a elas. Sinceramente, custa-me a acreditar que todas estas relações se teriam dado por mútuo acordo (se não foram tantas como se diz, teriam sido muitas, há sempre um fundo de verdade nas lendas). Ou seja, o padre terá violado muitas dessas mulheres, incluindo a mãe e as irmãs. Terá, no mínimo, manipulado, para que elas se sujeitassem, no que vai dar à mesma coisa. Sabe-se, hoje, que muitos abusos sexuais perpetrados por elementos da Igreja estão intimamente ligados à manipulação espiritual. Os clérigos utilizam a sua superioridade religiosa e (suposta) moral em chantagens e ameaças, a fim de submeterem as suas vítimas. E um padre do século XV não teria o menor prurido em o fazer.

Dito isto, e o autor vai-me desculpar, mas, e não obstante a qualidade da escrita e o ambiente medieval, não me caiu bem a simpatia pelo sacerdote e as suas "fraquezas" (melhor seria dizer psicopatias). Aqui e ali surge alguma censura, mas muito ténue e condescendente, do tipo da usada com crianças que se lambuzaram com algum doce que não deveriam comer. Que se pensasse, no século XV, que ele, coitado, se deixou levar pelo demo, é algo que não se pode mudar e temos de aceitar. Mas, infelizmente, é um tipo de posição que ainda se aceita, hoje em dia. Tive ocasião de o verificar, fazendo uma pequena pesquisa sobre comentários ao livro.

Não posso igualmente deixar de referir palavras transcritas na contra-capa e que terão sido proferidas, ou escritas, por Aquilino Ribeiro:

«Não será Trancoso? (...) O nome é assim patusco. Olhe contaram-me que era de lá o nosso Nostradamus e um padre raro, único, um padre em que pelos vistos encarnou o génio da espécie».

Sem negar o grande talento literário de Aquilino Ribeiro, ele, pelos vistos, esqueceu-se de que também as mulheres faziam parte da sua espécie. E é notório que se estava a marimbar para os métodos de sedução do tal «génio»!

Salvaguardar património cultural português, sim! Mas o padre Costa de Trancoso devia ser um símbolo do abuso de poder de certos clérigos, a fim de cometerem crimes sexuais, em vez de ser apontado como um «génio» digno de admiração e inveja. Enquanto assim for, as feministas têm ainda muito trabalho pela frente.


30 de abril de 2021

O assassinato nunca prescreve ("Mord verjährt nie")

 

Prescrição de assassinato (1).jpg

No passado dia 17 de Abril, o canal alemão ZDF transmitiu um policial sobre a tentativa de resolução de um assassinato acontecido há trinta anos ("30 Jahre", no texto em baixo).

 

Prescrição de Assassinato (2).jpg

Tratava-se de um telefilme, mas, na Alemanha, investigações deste tipo não são ficcionais. O assassinato nunca prescreve. Sobretudo, quando existem meios de identificar um assassino, mesmo passada uma eternidade sobre o crime (como a descodificação do ADN). Já em Portugal, não se investiga um assassinato que tenha ocorrido há quinze anos ou mais. Porque, se os crimes não prescrevem, a possibilidade de instauração ou continuação de um processo penal ou ainda, noutros casos, a execução da sanção aplicada, prescrevem.

 

Vem isto a propósito de mais um policial de Mario Lima, o pseudónimo de um escritor alemão que vive em Portugal e do qual já por duas vezes falei aqui. Neste seu terceiro livro, cujo título Die Mauern von Porto é um pouco difícil de traduzir (talvez “Emparedadas no Porto”), ele ocupa-se precisamente com a prescrição de um assassinato.

 

Die Mauern von Porto.jpeg

Um incêndio num prédio do Bairro da Sé, mais precisamente, na Rua da Bainharia, provoca estragos numa casa ao lado, vazia há várias décadas. Bombeiros e polícia penetram na casa, a fim de melhor avaliarem os estragos e, na mansarda, deparam com uma parede que, tudo indica, foi levantada à pressa e não tem qualquer passagem para o resto da divisão. Resolve-se mandar deitar a parede abaixo e surgem dois esqueletos, um deles ainda com restos de roupa.

 

A PJ é acionada e os exames de peritagem revelam tratar-se dos restos mortais de duas mulheres, mais precisamente, de uma adulta e de uma jovem de treze ou catorze anos. Porém, quando a equipa do inspector Fonseca se prepara para investigar o caso, a peritagem revela ainda que, apesar de os restos mortais indiciarem morte violenta, o crime terá acontecido há cerca de vinte anos. É um duro golpe, principalmente, para as duas investigadoras da equipa, que logo suspeitam que se trataria de mãe e filha e são firmes no pressuposto de que a culpa nunca prescreve.

 

Nunca me tinha ocupado do assunto e confesso que não sabia que um assassinato prescreve ao fim de quinze anos. O que são quinze anos? Nada! Neste livro, através de uma agente que é inserida na equipa do inspetor Fonseca depois de ter trabalhado no departamento de combate à corrupção, o autor aflora ainda a prescrição de crimes de corrupção, alguns já ao fim de dois anos, assim como o enriquecimento ilícito de pessoas à frente de uma Fundação. E não é esquecido o facto de estas leis favorecerem os poderosos e os ricos, que, além de terem influência, estão em condições de contratarem advogados capazes de protelarem a investigação, até que os crimes prescrevam. Como se vê, Mario Lima aborda um tema bem atual. Já por isso, se aconselha a tradução deste seu livro.

 

À equipa do inspetor Fonseca vai ser dada enfim a possibilidade de encontrar o culpado, pois um crime perpetrado há um tempo não tão longo assim despoleta acontecimentos fatais. O assassino fica nervoso com a descoberta dos esqueletos das suas vítimas. E há quem ainda não tenha digerido o desaparecimento de duas familiares, embora lhe tenha sido dada uma explicação plausível para a ausência delas. Porém, há sempre dúvidas que não se esclarecem, causando discussões, chantagens. E, numa hora de aperto, um assassino bem pode cometer novo crime...

 

Excelente policial de Mario Lima, que criou uma bela equipa de investigadores da PJ e que, como de costume, descreve na perfeição a atmosfera da cidade do Porto.

25 de abril de 2021

Uma bomba a iluminar a noite do Marão


 

A 2 de abril de 1976, o padre Maximino Barbosa de Sousa (conhecido por padre Max), de trinta e três anos, e a estudante Maria de Lurdes Correia, de dezanove, foram assassinados com uma bomba colocada no carro do sacerdote. Os dois regressavam a casa, depois de terem dado aulas noturnas, na Cumieira (Santa Marta de Penaguião).

Os principais suspeitos deste crime foram agentes do Movimento Democrático de Libertação de Portugal, um grupo terrorista de direita do tempo do PREC, mas, num julgamento de 1999 (!), não foram feitas condenações por falta de provas concretas.

O padre Max era candidato pela UDP às eleições de 25 de abril de 1976, o que incomodava muita gente em Vila Real e região adjacente, predominantemente de direita. Além de professor no liceu da capital de distrito, o padre Max dava aulas noturnas, gratuitas, em várias aldeias, ajudando muitos jovens sem posses a alargar as suas habilitações para lá do ensino primário. Também a estudante Maria de Lurdes Correia dava aulas e explicações, em regime de voluntariado.

O padre Max era popular entre a juventude da zona, entusiasmando muitos com as suas ideias políticas, o que não agradava aos poderosos, nem à maior parte dos habitantes de índole muito conservadora. O facto de ele se fazer acompanhar frequentemente por raparigas estudantes, que o ajudavam nos seus projetos de alfabetização, também era motivo de crítica e de suspeita. Logo a seguir ao atentado, se ouviram rumores de que ele teria uma relação com Maria de Lurdes Correia, estando ela inclusive grávida, e o assassino seria um namorado, ou ex, da jovem. Tentava-se assim empurrar o assassinato para o lote dos crimes passionais. Estes rumores levaram à exumação do corpo de Maria de Lurdes, provando-se que não só a gravidez era infundada, como a jovem era virgem!

Depois do julgamento de 1999, e (supostamente) não havendo provas, o processo foi arquivado. Daniela Costa pega nos factos para criar um enredo que tente explicar o que realmente se passou. Como diz o texto da contracapa: «a chuva, a bomba, a morte e a noite no Marão são factos. A narrativa é uma hipótese».

Este livro é um marco importante contra o esquecimento.


23 de abril de 2021

Afinal, quem fundou a Universidade?

  

A editora Clube do Autor publicou, há cerca de um mês, um romance histórico com o título “A Herança de D. Dinis”, de Maria Antonieta Costa. No texto promocional, pode ler-se:

O testamento de D. Dinis é a prova de que o monarca alcançou uma riqueza extraordinária. Como teria sido possível acumular tantos bens em apenas vinte e cinco anos, o tempo do seu reinado, entre 1299 e 1325?

A segunda frase é extremamente infeliz. Dela se depreende que o reinado de D. Dinis durou apenas vinte e cinco anos, iniciando-se em 1299. Sendo assim, gostaria de perguntar aos responsáveis por estas linhas (que, segundo a autora, fazem parte do texto da contra-capa), qual o monarca responsável por nada menos do que sessenta cartas de foral concedidas entre 1279 e 1298; quem presidiu às Cortes reunidas por quatro vezes, entre 1285 e 1291 (Lisboa 1285, Guimarães 1288, Lisboa 1289, Coimbra 1291); quem fundou a cidade de Vila Real em 1289; quem fundou o Mosteiro de Odivelas em Fevereiro de 1295; quem assinou o Tratado de Alcanices, a 12 de Setembro de 1297, no qual se definiram as fronteiras definitivas entre Portugal e Castela.

E afinal, quem fundou a Universidade, em 1290?

O reinado de D. Dinis durou quase quarenta e seis anos. Iniciou-se a 16 de Fevereiro de 1279, data da morte de seu pai D. Afonso III, e findou a 7 de Janeiro de 1325, com a sua própria morte. Seria demais pedir maior rigor, ao escrever sobre romances deste tipo?

 

Nota: gostaria de salientar que, antes da publicação de um livro, a editora mostra a contra-capa ao escritor, que pode solicitar alterações ao texto.

21 de abril de 2021

Memórias de Dona Teresa - excertos (1)

 

«Em pequena, poucos momentos de liberdade tive, desde cedo confinada ao recolhimento, à oração, aos bordados e outros lavores. Raramente ousava correr como um moço pelos montes do Bierzo, com a minha melhor companheira, uma cadela, da qual me contaram eu me ter afeiçoado com apenas três anos, sendo a bicha ainda cachorra. Dei-lhe o nome de Loba e asinha me ultrapassou em altura, pois era de raça pastora. Impunha respeito, mas foi sempre mui branda comigo, seguindo-me para todo o lado. Quiçá sentia que eu houvesse mister de amparo e, não tendo rebanho para cuidar, a mim se dedicou.

Torno a descer as pálpebras, a fim de volver a essa infância e me confortar no olhar da cadela, que me dava tudo o que buscava: compreensão, afeto, fidelidade. A Loba consolava-me nos dias mais amargurados e solitários, curava-me o corpo e a alma doridos das tareias e dos ralhos, que me quebravam a alegria de viver».

 


 À venda na livraria online da Poética:

 https://poeticalivros.com/collections/ficcao/products/memorias-de-dona-teresa

 

19 de abril de 2021

Capitães da Areia


 

Trata-se de um clássico de Jorge Amado e, por isso, de qualidade inegável. Não obstante, irei fazer algumas críticas.

Mas vamos, primeiro, aos elogios. O maior de todos é o tratamento literário de um tema raro, apesar de relevante: as crianças que vivem na rua. Todos lamentamos haver sem-abrigo, porém, costumamos pensar apenas em adultos. Quando esses sem-abrigo são menores entregues a si mesmo, o caso torna-se ainda mais grave. Escusado será dizer que crianças, nesta situação, só sobrevivem recorrendo ao roubo ou à vigarice, pelo menos, em certos países. Estes expedientes tornam-se uma forma de vida, as crianças e os jovens crescem na convicção de que é, de alguma maneira, legítimo roubar quem tenha mais do que eles. Escusado será dizer que, uma vez adultos (se lá chegarem), não terão noção do que é, ou não, errado.

Jorge Amado também é muito claro na sua mensagem: a crueldade destas crianças surge, não só por uma questão de sobrevivência, mas também porque não conhecem o amor, o carinho, uma família que as ampare e as faça sentir gente. Sendo assim, os métodos considerados de correção, baseados na violência e na tortura, em vez de corrigirem, provocam o contrário, pois semeiam a revolta e o desejo de vingança. A descrição do orfanato, para onde se enviam estas crianças, caso caiam nas mãos da "justiça", é quase insuportável. Penso ser esta uma mensagem importantíssima, também para outras situações da vida: a violência gera revolta e crueldade. Só o amor cura e educa!

Gostaria ainda de referir haver um padre bom, neste romance, na verdade, a única pessoa que realmente tenta ajudar os rapazes, apesar da crítica à Igreja Católica enquanto sistema.

Agora, duas críticas minhas à obra:

- Penso ser uma pena este livro se concentrar quase exclusivamente nas crianças-rapazes. Melhor do que nada, dirão alguns. É verdade. Mas a mocinha que, a certa altura, surge a partilhar o destino dos Capitães da Areia, não pode representar o destino abrangente de meninas na sua situação. Ela é protegida por dois dos rapazes, ou seja, não é violada (embora muitos deles assim o desejem), nem cai na prostituição, a fim de ganhar dinheiro, como é o destino mais comum. Por isso, este livro não descreve, de maneira nenhuma, a vida de meninas de rua.

- O tom do livro não é constante. Faço esta crítica apenas por se tratar de um autor, por muitos considerado ter sido digno de um Nobel. "Capitães da Areia" oscila entre literatura juvenil e literatura de adultos. O tom varia, por vezes, de capítulo para capítulo, ao ponto de o leitor se perguntar se está a ler sempre o mesmo livro (pelo menos, assim me aconteceu). Esperava mais coerência de um nome com o peso de Jorge Amado.

7 de abril de 2021

O meu animal e eu

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A forsythia, ou forsítia, anuncia a Primavera, na Alemanha. Floresce cedo, num amarelo vivo, fazendo lembrar a luz do sol e dando cor a uma paisagem ainda despida. É um arbusto abundante, por aqui, pois aguenta frio, neve e gelo, mas também calor e alguma falta de chuva, no verão.

Temos algumas forsítias no nosso jardim. Esta, ainda pequena, tem um significado especial para nós: as cinzas da nossa cadela Lucy foram espalhadas à sua volta, debaixo das pedrinhas. E lembrei-me de um texto que escrevi em alemão, sobre a Lucy, cerca de dois meses antes da sua morte. Foi escrito com a intenção de participar num passatempo organizado pelo jornal local de Stade, no verão de 2019, intitulado Mein Tier und ich (“O meu animal e eu”).

Vivíamos uma altura difícil, em que prescindíamos voluntariamente de coisas que gostaríamos de fazer, mal sabendo que, num futuro próximo, seríamos obrigados a prescindir de muito mais. Infelizmente, acabei por me distrair com o prazo e não cheguei sequer a enviar o texto.

Fui agora procurá-lo, já nem me lembrava bem do que tinha escrito. E resolvi traduzir para português as palavras gravadas a 11 de agosto de 2019, quando, apesar das restrições que nos impúnhamos, ainda íamos ao restaurante, visitávamos parentes e amigos e atuávamos com o nosso coro:

«A nossa Lucy tem 15 anos e 9 meses, está surda e quase cega. Mas isto nem é o pior. O coração dela está muito enfraquecido, o que lhe provoca desmaios. Estes podem acontecer a qualquer momento, também a meio da noite e, por vezes, fazem-na ganir alto, acordando-nos em sobressalto.

A Lucy tem, porém, ainda qualidade de vida. Recuperada dos desmaios, readquire a sua alegria habitual. Come muito bem, não prescinde dos seus pequenos passeios e continua interessada em tudo o que se passa dentro de casa.

Estamos muito presos, nem sequer podemos sair nas férias. A Lucy já não aguentaria uma viagem e, deixá-la aos cuidados de alguém, está fora de questão. Ela veio para nossa casa com apenas oito semanas de vida, não conheceu outra família. Além disso, a sua situação exige cuidados especiais. Os comprimidos têm de ser dados a horas certas, os seus desmaios não são fáceis de aguentar e, como toma um diurético, a fim de não acumular líquido nos pulmões, a bexiga funciona com frequência. Tem de se conhecer muito bem o ritmo dela e andar muito atento.

Antigamente, a Lucy era uma cadelinha muito activa e acompanhava-nos nas férias. Conhece meia Europa, viajou muitas vezes de carro entre a Alemanha e Portugal. Mas também nos acompanhou noutros passeios: caminhadas no Parque Nacional do Harz, no vale do Rio Mosela, pelos montes luxemburgueses, além de várias vezes ter andado no ferry-boat do Lago Constança entre a Alemanha, a Suíça e a Áustria.

Agora, que nada disto é possível, não a deixamos sozinha e tentamos tornar-lhe tão agradável quanto possível o tempo que lhe resta. Na sua fragilidade, ela confia totalmente em nós. E uma confiança destas não deve ser nunca traída».

2015-05-18 Macedo - Beim Frühstück 09.JPG


1 de abril de 2021

Diz que é a mais antiga do mundo...

… mas é a prostituição uma profissão? É o serviço sexual comparável a outro tipo de serviço? O princípio que justifica a existência do negócio do sexo é medieval: a aceitação de um mal necessário. De um lado, as mulheres “puras”, com a função de serem esposas e mães; do outro lado, as meretrizes, que se usam para não se “fazer mal” às primeiras. Sinceramente, como pode uma sociedade que apregoa a igualdade conviver pacificamente com tal discriminação?

De há uns anos para cá, tenho formado uma opinião sobre este assunto, que se confirmou, depois de ter visto um documentário transmitido pelo 3sat, um canal público alemão ligado ao ZDF, dedicado à cultura, ao documentário e ao debate de temas sociais (excluindo os fait-divers políticos e desportivos). Nesse documentário, comparava-se o sistema alemão, que legalizou a prostituição em 2002, com o sueco, que proibiu, em 1999, a compra de serviço sexual. Dizem os suecos que a prática da prostituição não é compatível com a dignidade humana.

Prostitutas inscritas na Segurança Social, com direito a serviço médico, subsídio de desemprego e reforma - que maravilha! A sociedade fica descansada, considera resolvido um problema tão incómodo. A realidade, porém, é muito diferente. A Alemanha tornou-se num verdadeiro centro de tráfico humano, as mulheres circulam por toda a Europa, tornaram-se num produto de compra e venda entre os donos dos bordeis.

Das cerca de 400.000 pessoas que se prostituem (um número que se calcula e cuja esmagadora maioria são mulheres), apenas 40.400 estão legalizadas. Passados quase vinte anos sobre a aprovação da lei, 90% das prostitutas na Alemanha continuam desprovidas de Segurança Social e de qualquer tipo de direitos e apoios. Não exercem a actividade por escolha própria e são mantidas à custa de muita violência, qualquer tentativa de desistência é resolvida com espancamentos e/ou chantagens. Muitas dessas mulheres nem sequer sabem falar alemão, vêm do Leste europeu pela mão de traficantes, não conhecem os seus direitos, os bordeis onde trabalham não estão legalizados, são exploradas e violentadas. Vêem-se num beco sem saída, não sabem a quem pedir ajuda e acabam por quebrar ao ponto de nada lhes interessar, de nem sequer saberem se querem desistir ou continuar. Sentem-se lixo.

As prostitutas que escolhem a sua profissão e a exercem, muitas vezes, por conta própria, é uma minoria irrisória. As assistentes sociais que lidam com o problema resumem a questão da seguinte maneira: 50% das prostitutas são viciadas em droga e sujeitam-se para pagarem o vício; a outra metade são raparigas e mulheres com um historial de abusos desde a infância, vidas cheias de violência e/ou de pobreza extrema. Jovens nesta situação são muito fáceis de manipular e acreditam nos traficantes, que lhes garantem uma mudança de vida num país rico.

Os clientes, por seu lado, não estão interessados em saber se a prostituta o faz obrigada ou por vontade própria. Eles não fazem ideia do que as mulheres sofrem, nem da complexidade das suas vidas. Pagam por um serviço e sentem-se no direito de o exigir.

Os suecos apostam numa mudança de mentalidades. Na verdade, eles não criminalizaram a prostituição, mas sim a compra do serviço sexual e os donos dos bordeis. Ou seja: a prostituição não é ilegal, mas pagar para ter sexo já o é. Não é a prostituta que comete a ilegalidade, mas sim o cliente, é sobre ele que a lei actua.

Sob o pressuposto de que a prostituição não combina com a dignidade humana, a Suécia aposta numa educação social que considera errado comprar serviço de sexo. Ao mesmo tempo, financiam-se programas que permitem às mulheres mudarem de vida. Nos últimos vinte anos, a prostituição de rua reduziu para metade  e muitos traficantes passaram a evitar este país. Além disso, as assistentes sociais e outras pessoas que apoiam prostitutas e que difundem este novo tipo de educação social (também homens, claro) sentem a mudança das mentalidades e estão convencidas de que a situação continuará a evoluir nesse sentido.

Um ginecologista que colabora com uma instituição de apoio a prostitutas, na cidade alemã de Mannheim, confirmou que as mulheres estão sujeitas a muita violência, a vários tipos de doenças e obrigadas a práticas inaceitáveis. Um ex-inspector da Polícia Judiciária Alemã (Kriminalpolizei), que tinha a seu cargo a investigação do tráfico humano, declarou que é impossível separar este da prostituição e frisou que as mulheres não são vistas como seres humanos, mas como mercadorias oferecidas ao cliente, conforme os gostos deste, além de compradas, vendidas e trocadas entre os donos dos bordeis.

Na Alemanha, há quem lute para que o país adopte o modelo sueco, pois considera que o Estado, ao legalizar a prostituição, está a dizer ao homem que ele tem direito a comprar serviço sexual. A prostituta é estigmatizada, o cliente não (é este pressuposto que os suecos pretendem inverter). A prostituição é extremamente desgastante do ponto de vista físico e psicológico. Ex-prostitutas mostram sintomas semelhantes aos traumatizados de guerra: tendem a depressões, pesadelos, e são praticamente incapazes de fazer uma vida normal.

O documentário encerra com a declaração da deputada do SPD Leny Breymeier: por mais que falemos de igualdade, de participação e capacitação das mulheres em todos os sectores sociais, a nossa sociedade nunca será igualitária, enquanto os homens se sentirem no direito de comprar uma mulher.

 

Nota: o documentário foi rodado em tempo de pandemia, mas os dados reportam-se à era pré-Covid. Apesar do confinamento, continua naturalmente a existir prostituição, mas, sendo ainda mais clandestina, torna-se mais difícil de controlar pelas autoridades e pensa-se que a situação das mulheres piorou.

No caso de passar por aqui alguém que saiba alemão e estiver interessado no tema, pode ver o documentário no seguinte link:

https://www.3sat.de/wissen/wissenschaftsdoku/210304-prostitution-wido-104.html

 

Texto originalmente publicado aqui.

16 de fevereiro de 2021

Rapariga, mulher, outra

 


Há pessoas brancas e pessoas negras, certo? Sim, mas… onde se ordenam os outros matizes? Mesmo sem falar daqueles que apelidamos de peles-vermelhas ou amarelos, sem falar de ciganos ou indianos, há toda uma paleta de cores entre o branco e o negro. Há os mestiços de todas as etnias e feitios, há os mulatos e as mulatas e, entre estes, há mulatos escuros, mulatas claras, mulatos e mulatas propriamente ditos (assim cor de café com leite). Há mulatos quase brancos, há mesmo mulatos que não se distinguem dos brancos. E há brancos morenos, bem mais escuros do que os mulatos, incluindo senhoras brancas da socialite que investem muito num bom bronzeado, durante a época balnear. Andam muitas pessoas pela Europa convencidas de que são brancas e têm antecedentes negros, porque houve famílias negras que, com a miscigenação, se tornaram cada vez mais brancas. Até há louras e louros descendentes de negros sem o saberem.

Mas não é só a cor da pele a tornar difícil ordenar as pessoas. Também o sexo. Há mulheres e homens, certo? Sim, mas… há pessoas que não se sentem nem um nem outro. Há mulheres bissexuais e outras que se sentem atraídas apenas por mulheres. Entre estas, há as que não têm dúvida de que são mulheres, mas outras que se sentem homens e gostariam de mudar de sexo. Mas também há as que gostam de se vestir “à homem”, que adotam atitudes masculinas, mas que se sentem bem sem mudar de sexo. E nem todas as mulheres que gostam de se vestir “à homem” e adotar atitudes masculinas são lésbicas. Também há quem não se consiga decidir. Com os homens é igual.

É justo sermos ordenados e julgados pela nossa cor de pele, ou pelas nossas preferências sexuais, que nem nós sabemos explicar, apenas sabemos que nascemos assim? Este livro de Bernardine Evaristo, vencedor do Man Booker Prize 2019, é, desde já, um dos livros da minha vida. Porque nos torna mais humanos e nos ajuda a compreender muitos fenómenos. É impressionante a maneira como Bernardine Evaristo faz desfilar toda uma série de personagens, com as mais diversas formas de vida, sem julgar, nem ser tendenciosa.

O livro centra-se mais na mulher negra, a última da hierarquia social, aquela que só vem depois de todos os homens e todas as outras mulheres. Mas não pensemos que a autora faz o seu elogio,  apresentando estas mulheres como se não tivessem mácula, ou fossem apenas vítimas da sociedade branca e machista. Bernardine Evaristo mostra-nos igualmente como uma lésbica narcisista pode manipular e subjugar a sua companheira ao melhor estilo machista (independentemente da sua cor). E também nos mostra como os negros podem ser racistas. Não se trata igualmente de um livro de ódio aos homens, mostra-nos inclusive como um homem pode ser a salvação na vida de uma mulher, como lhe pode dar autoestima e proporcionar-lhe uma vida decente, de forma desinteressada e incondicional, depois de essa mulher ter sido discriminada e humilhada no seio da própria família.

Retratos de mulheres fortes e fracas, de lésbicas, bissexuais, transsexuais, heterossexuais e outras que tais, de mulheres negras e brancas, mulatas, mestiças, de brancas, uma delas loura e racista, que não fazem ideia do sangue negro que lhes corre nas veias.

Este livro é um tesouro. É assim que o vejo. Naturalmente, recomendo-o. Abram as vossas mentes! A vida é colorida, não a preto e branco. Somos todas e todos humanos.