O CONDE D. HENRIQUE (4)
Nos primeiros sete ou oito anos de casamento, D. Henrique e D. Teresa viveram em concordância com a sua condição de vassalos, cooperando com o rei de Leão.
& outras que tais (pois nem só de "medievalidades" vive a Mulher)
Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
O CONDE D. HENRIQUE (4)
Nos primeiros sete ou oito anos de casamento, D. Henrique e D. Teresa viveram em concordância com a sua condição de vassalos, cooperando com o rei de Leão.
Hoje, vamos atentar à primeira fase da vida em comum de D. Henrique e D. Teresa.
Nos primeiros sete ou oito anos de casamento, o casal viveu em concordância com a sua condição de vassalos, cooperando com o rei de Leão, intitulado imperador de toda a Hispânia. Apesar de terem organizado e engrandecido o condado, não há, para este período, indícios de que pretendessem independência.
Isto faz todo o sentido, se analisarmos aspetos pessoais e familiares de D. Henrique.
Ele era um nobre de grande linhagem: bisneto de Roberto II, rei de França; sobrinho-neto de D. Hugo, o famoso abade de Cluny; neto do duque Roberto I de Borgonha e de Hélie de Semur, a irmã do abade D. Hugo; irmão de dois duques de Borgonha; e sobrinho da rainha D. Constança de Leão e Castela.
Como vemos, ele pertencia à alta nobreza. Mas a época medieval tem as suas particularidades. E Henrique, sendo o mais novo de seis irmãos, não tinha direito a qualquer herança. Nada mais lhe restava do que ir em busca de fortuna e glória. D. Henrique foi realmente um desses aventureiros medievais.
Como sabemos, foi bem recompensado, ao casar com uma filha de Afonso VI, tornando-se, através dela, conde de Portucale. Por isso, é lógico que, numa primeira fase, ele cumprisse o papel de genro agradecido e dedicado, não lhe passando pela cabeça revoltar-se contra o sogro.
Esta situação vai mudar. Mas não motivado por aquilo que se costuma pensar.
D. Henrique e D. Teresa - Ilustração de Carlos Alberto Santos
Os objetivos e desígnios de D. Henrique e D. Teresa não foram sempre os mesmos. Ou seja, eles não seguiram a mesma política, desde que casaram, até à morte de D. Henrique.
Durante esses dezassete anos, houve várias fases:
Primeira fase, de 1095, o ano do casamento, a 1105, o ano da assinatura do Pacto Sucessório por Henrique e Raimundo
Segunda fase até 1107, o ano da morte de Raimundo
A partir daqui os acontecimentos precipitaram-se.
Terceira fase, até 1108, o ano da morte do infante Sancho
Quarta fase, até 1109, o ano da morte do imperador Afonso VI
E finalmente uma quinta fase, até 1112, o ano da morte do conde D. Henrique
Ora, como vemos, deu-se uma série de acontecimentos importantíssimos, todos eles provocando viragens nas ambições e nos objetivos do par Henrique/Teresa. Tudo isto é ignorado na nossa historiografia, centrada na fundação de Portugal, como se esse plano se tivesse iniciado com o casamento de Henrique e Teresa e culminado em Afonso Henriques.
Estes acontecimentos são igualmente importantíssimos para compreender a atuação de D. Teresa, depois de enviuvar. Na verdade, foi principalmente ela quem lançou Afonso Henriques para a fundação de Portugal.
O CONDE D. HENRIQUE - 2
O conde D. Henrique é visto como o “pré-fundador” do reino português. Ou seja, ele teria preparado o caminho que seu filho viria a percorrer.
Os factos históricos, porém, não confirmam esta versão. A historiadora Maria João Branco diz-nos que essa reputação de «pré-fundador» do reino português foi difundida, sobretudo, pelos historiadores portugueses de meados do século XX. (1)
Ela recorda, porém, algo que tem sido descurado na nossa historiografia: o grande protagonismo assumido por D. Henrique “durante as guerras entre a rainha Urraca e seu marido Afonso, o "Batalhador". As opções políticas que D. Henrique tomou nessa luta parecem falar-nos de ambições ainda mais abrangentes (2), ou seja, não se limitavam ao condado Portucalense.
Nos primeiros dez a doze anos de casamento, não há indícios de que D. Henrique pretendesse quebrar a vassalagem que devia ao sogro. Ou seja, não aspirava à independência do condado Portucalense. E, a partir de 1107, ele estaria mais interessado em lhe suceder como imperador, ou em se apossar de parte da sua herança.
Isto mostra que não podemos ver este período da História de forma simplista. Entre os primeiros anos do século XII e a morte de D. Henrique, em 1112, a Península Ibérica viveu grandes convulsões, desembocando numa situação política caótica, em que os acontecimentos se sucediam a uma velocidade vertiginosa.
O casal Henrique / Teresa foi arrastado nesse vendaval e as suas ambições mudaram várias vezes. Ou seja, D. Henrique e D. Teresa não tiveram sempre os mesmos desígnios e objetivos, desde o seu casamento, até à morte de D. Henrique. Não houve, digamos, uma linha reta, um fio condutor sem desvios.
Temos aqui ainda muito assunto para as próximas semanas.
(1) e (2) p. 2, Antes da independência de Portugal, Maria João Branco
Documento da propriedade do Círculo de Leitores, cedido a Maria João Violante Branco para disponibilização no RUN (Repositório da Universidade Nova de Lisboa) e no portal académico Academia.edu