Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

31 de outubro de 2026

Texto da Rapidinha #65

O CONDE D. HENRIQUE (9)

Vimos então que os cunhados Raimundo e Henrique decidiram, num pacto secreto, a divisão da herança do sogro, depois da morte deste.

De facto, Afonso VI estava velho e doente e morreria cerca de quatro anos mais tarde. Porém, antes desta, houve duas mortes que, novamente, trocaram os passos a estes protagonistas da História.

A primeira, foi a morte inesperada do próprio Raimundo, a 20 de setembro de 1107, cerca de dois anos depois de assinado o pacto. Politicamente, esta morte não teve grande impacto no casal Henrique/Teresa. A descendência de Afonso VI estava decidida: o infante D. Sancho seria o próximo imperador da Hispânia.

Não tinha, porém, passado ainda um ano sobre a morte de Raimundo, quando se deu mais uma viragem, esta sim, modificando a História de toda a Península Ibérica: o infante D. Sancho morreu, com apenas quinze anos.

O pai nomeara-o responsável pela defesa de Toledo, apesar de ele ser ainda tão jovem. E o rapaz pereceu na Batalha de Uclés, na sequência de um ataque sarraceno.

O imperador perdeu o seu único filho varão. E o conde D. Henrique era agora o seu único genro. D. Urraca, a herdeira legítima, nascera com um problema para aquela época: era mulher!

Henrique elevou a fasquia das suas ambições. Só assim se compreende o gravíssimo enfrentamento que o opôs ao monarca [Afonso VI], pouco antes da morte deste. (1)

O “nosso” conde D. Henrique, esse homem que a nossa historiografia apresenta como um modelo de virtudes, tudo fez para evitar que o sogro nomeasse a própria filha como herdeira Por isso, se deu um gravíssimo enfrentamento (1) entre ele e Afonso VI.

Como vemos, Henrique não pensava sequer em elevar o seu condado Portucalense a reino e tornar-se independente. Henrique pretendia reinar sobre Leão e Castela, pretendia o lugar de imperador de toda a Hispânia.

 

(1) TERESA, A CONDESSA-RAINHA, Luís Carlos Amaral e Mário Jorge Barroca, Temas e Debates 2020, p. 161 


 

24 de outubro de 2026

Texto da Rapidinha #64

 


D. Raimundo conde da Galiza, de Zósimo - Trabajo propio, CC BY-SA 4.0,

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=113777675

 

No vídeo anterior, vimos que Henrique se declarou vassalo de Raimundo, no Pacto Sucessório, firmado em 1105. No que respeita à recompensa que o primeiro deveria receber do segundo, o texto é, porém, confuso.

Num primeiro momento, parece que D. Henrique teria aspirações ao senhorio de Toledo e, caso o cunhado não pudesse, ou não estivesse disposto, a concedê-lo, substituía-o pela Galiza.

Mas não seria o contrário?

Inclino-me para esta hipótese. Por várias razões.

Em primeiro lugar, Raimundo era conde da Galiza há quinze anos. Não abriria facilmente mão deste território, o que torna estranho propor tal doação por iniciativa própria.

Em segundo lugar, conceder a um vassalo o senhorio de uma cidade situada nas terras do suserano (neste caso, Toledo) era prática habitual na Idade Média. Era mesmo uma confirmação, tanto da benevolência do suserano, como da fidelidade e da obediência do vassalo. Ou seja, seria mais ao gosto de Raimundo.

Em terceiro lugar, era mais lógico um interesse de Henrique pela Galiza. Desde logo, pela proximidade territorial entre a Galiza e o condado Portucalense. E, não obstante o prestígio de Toledo, tratava-se “apenas” de uma cidade. Ora, a Galiza era um reino!

Conclusão: é perfeitamente possível que o interesse de Henrique pela Galiza tivesse criado um impasse, pois a ideia não agradaria a Raimundo. E este tentou compensar com a doação da mais prestigiosa cidade da Hispânia: Toledo. Henrique terá, no entanto, insistido no seu desagrado. E o moderador Dalmácio Geret poderá então ter sugerido uma solução provisória: «Toledo ou a Galiza».

17 de outubro de 2026

Texto da Rapidinha #63

 


 Cópia do "Pacto Sucessório", existente na Biblioteca Nacional de França

 

Vamos então ver em que consistiu o Pacto Sucessório, firmado na presença de Dalmácio Geret, o enviado do poderoso abade D. Hugo de Cluny, em 1105.

A versão existente na Biblioteca Nacional de França foi a enviada a D. Hugo, acompanhada de uma carta, cujo início passo a citar:

Ao senhor e reverendíssimo abade de Cluny, Hugo, e a toda a congregação de S. Pedro, o conde Raimundo, o seu filho e o conde Henrique, familiar, desejam saúde e amor em Cristo.(1)

De notar a referência ao filho de Raimundo, o pequeno Afonso Raimundes, nascido nesse mesmo ano. Raimundo quis vincar a existência de um sucessor legítimo, um neto legítimo, do imperador Afonso VI.

O conteúdo geral do pacto consiste no seguinte: Raimundo tomaria conta das possessões do sogro depois da morte deste, ou seja, as terras de Leão e Castela. Henrique comprometia-se a defender com fidelidade e aumentar para ti [Raimundo] toda esta terra do rei Afonso (1).

De notar: Henrique declara-se vassalo de Raimundo. E seria recompensado.

No que diz respeito à recompensa, o texto do pacto é, porém, um pouco confuso.

Primeiro, Raimundo compromete-se a dar a Henrique o senhorio de Toledo e toda a terra que lhe pertence (1). Mais abaixo, contudo, numa garantia que o conde Raimundo fez na mão do senhor Dalmácio Geret (1) lê-se o seguinte:

Se eu, conde Raimundo, não puder dar Toledo a ti, conde Henrique, tal como prometi, dar-te-ei a Galiza com a condição de que tu me ajudes a conquistar toda a terra de Leão e de Castela (1)

Como interpretar esta passagem? Teria D. Henrique aspirações ao senhorio de Toledo e, caso o cunhado não pudesse, ou não estivesse disposto a concedê-lo, substituía-o pela Galiza?

Ou seria o contrário?

 

(1) Teresa, a condessa-rainha, Luís Carlos Amaral e Mário Jorge Barroca (Temas e Debates 2020) - pp. 331/332