Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

3 de dezembro de 2018

Contos do Portugal Profundo - e uma história brasileira (4)





«Mastigou e atropelou a missa matinal, o que de resto não notaram a Pulquéria Beata e a Isaulinda da Meã, uma surda que nem molho de carqueja e a outra decrépita, ambas empenhadas em ganharem a vida eterna pela via da oração, assistiam à missa rezando o terço tão concentradas, que nem a queda do altar-mor as desviaria da devoção. É latim! Diriam com ar sabedor, se inquiridas a respeito.
A sua verdadeira testemunha, para além do Cristo no altar, que de braços abertos parecia simultaneamente fazer um gesto de resignação impotente a estes atropelos e admirar o panorama que dali abarcava, foi a serra que se avistava pela porta escancarada da igreja. Assim, controlava o evoluir do estado do tempo, enquanto se extasiava com o espectáculo sempre renovado daquela beleza agreste».


In "O Padre Bento", António Luiz Pacheco, conto incluído na coletânea Portugal Profundo


Os Contos do Portugal Profundo reúnem nove escritores que se conheceram no blogue Horas Extraordinárias, sendo um deles a anfitriã Maria do Rosário Pedreira.

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1 de dezembro de 2018

Calendário da UZ (13)

«O sorriso da Georgia é atento e confiante de que o Natal, a ideia de Natal, é para todos».




«Os cães são como riem. Há uma única forma de rir de que não são capazes. O sorriso deles nunca é amarelo. É sempre sincero».

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26 de novembro de 2018

Contos do Portugal Profundo - e uma história brasileira (3)



«Conheci a Amélia na igreja matriz, numa ocasião em que aguardava vez para me ajoelhar no confessionário, onde o padre, oculto por detrás do biombo, ouvia os desabafos e mandava varrer os pecados com rezas e penitências. Amélia, nessa altura uma serva do Senhor anónima, sentou-se a meu lado, recatadamente, aproveitando o lugar desocupado por uma velhinha que cheirava a alho, talvez para afugentar o Diabo. Cansado de olhar o crucifixo, desviei o olhar para a direita. Amélia dirigiu o seu olhar para a esquerda, trocou o Cristo por mim. Reparei que era uma jovem da minha idade, com rosto angélico quase escondido por um lenço azul-escuro. Parecia a Imaculada. Um espasmo repentino encostou a minha mão à dela, pousada no banco de madeira como uma pombinha branca. Um êxtase místico vibrou-me todo, como se estivesse de mão dada com o Espírito Santo. Uma descarga elétrica uniu ambas as mãos, os dedos entrelaçaram-se, falaram com eloquência muda, e então eu e Amélia compreendemos que o amor ao primeiro contacto de mãos era uma bênção de Deus, querendo unir dois santinhos que mereciam a felicidade eterna».

In "Este Caso Não o Contarei Ao Custódio", de António Breda Carvalho, conto incluído na coletânea Portugal Profundo.

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10 de novembro de 2018

Politicamentes


Detesto o politicamente correto. Assim como detesto o politicamente incorreto.
Detesto que haja quem se julga lutador contra o sistema apenas por dizer que é politicamente incorreto.
Desteto que já não se possa ter opinião, sem que nos apelidem de politicamente corretos ou incorretos.
Detesto que muita gente, antes de dizer se concorda ou discorda de uma opinião, pense primeiro se esta é politicamente correta ou incorreta, para concordar ou discordar baseada nesse juízo - ou seja, não é a opinião em si que está em causa, mas a sua etiqueta.
Detesto visões simplistas, principalmente, quando se trata de problemas complexos: há insegurança, criminalidade? Vamos dar uma arma a cada cidadão e resolve-se o problema!
Detesto que haja ídolos políticos apenas porque se apelidam de politicamente incorretos.

Ser do contra condiciona tanto como o seu contrário, ou seja, o politicamente incorreto condiciona tanto como o politicamente correto.
É politicamente correto, ou incorreto, ser contra alguém politicamente incorreto? E o seu contrário?

Sempre detestei divisões em grupos, baseado no pressuposto: se não és por nós, és contra nós.
Detesto fake news. Mas não é por ser politicamente correta. É simplesmente por não gostar de mentiras.
OK, vão-me dizer que toda a gente mente.
Eu também. Passo a vida a mentir.


8 de novembro de 2018

A Tempestade do IVA

A recusa da Ministra da Cultura em não baixar o IVA das touradas gerou uma tempestade num copo de água. Já estamos habituados a que os defensores deste tipo de espetáculo adotem comportamentos próprios dos populistas, ou seja, em vez de argumentarem, fogem ao assunto, refugiando-se em afirmações e comparações absurdas e/ou ridículas. O pior é quando pessoas que nos habituámos a respeitar adotam também esse tipo de comportamentos. Muito me surpreenderam as palavras de Miguel Sousa Tavares, na sua qualidade de comentador da TVI, uma pessoa que, apesar de ter uma visão diferente da minha, sempre considerei inteligente.

Disse ele que o «deputado do PAN aterroriza mais do que um touro» e, pelos vistos, acha revoltante que um único deputado faça a diferença no Parlamento. Sinceramente, não entendo onde está aqui o problema. Houvesse mais deputados a fazerem a diferença! A maior parte está lá a fazer sala, seria bom que houvesse muitos mais a lutar apaixonada e empenhadamente pelas suas causas, sejam elas quais forem! E o homem afinal aterroriza quem? Criancinhas? Políticos? Comentadores televisivos? Se o Miguel Sousa Tavares tem medo dele, talvez fosse bom questionar-se porquê.

Diz ainda o conhecido comentador que não compreende que uma maioria imponha algo a uma minoria por uma questão de gosto. Em primeiro lugar, fico satisfeita por ele reconhecer que a maioria é contra as touradas. Não se trata, porém, de uma questão de gosto, uma redução que os aficionados gostam de praticar, a fim de menorizar o problema. Os opositores às touradas lutam contra um espetáculo de tortura de animais. Não é uma questão de gosto, é uma questão de ética. Eu até posso aceitar que se matem animais para a nossa alimentação, mas não aceito que sejam mal tratados, muito menos, que sejam torturados para gáudio de uma multidão ávida de ver correr o sangue. É a ética que está em causa, não um gosto pessoal.

Miguel Sousa Tavares ironizou com o facto de as touradas serem transmitidas a horas tardias. Não é por impressionar as crianças, diz ele, é com medo de que as crianças se encantem com tão lindo espetáculo equestre! E então não é possível assistir a uma exibição desse tipo, sem aturar sadismo? Na Alemanha, as crianças e os jovens adoram espetáculos equestres, principalmente, as meninas. Na província alemã, há inúmeras quintas onde se pode aprender a montar e que são frequentadas por uma multidão de raparigas, desde os cinco ou seis anos, miúdas que adoram cavalos e póneis. O CHIO em Aachen (Aix-la-Chapelle, em francês) é um show equestre anual esperado com muita ansiedade, um acontecimento que atrai não apenas famílias alemãs, também muitas estrangeiras, e onde se pode assistir a magníficas exibições, sem o espetáculo degradante da tortura.

Termino com a afirmação mais absurda que ouvi nos últimos tempos: é assim (proibindo as touradas) que nascem os Bolsonaros! Isto é típico de populistas, é uma afirmação bombástica, bem característica de quem não tem argumentos. Trump e o próprio Bolsonaro ficariam orgulhosos de Miguel Sousa Tavares. O que mais me entristece é que esta afirmação nem é dele, mas de uma outra pessoa, que muito admiro: Manuel Alegre! E o mais irónico, no meio disto tudo, é que a maior parte dos aficionados e toureiros portugueses são realmente grandes admiradores de Trump e Bolsonaro!

Pois é, os Bolsonaros estão do outro lado, meus senhores, do vosso! É no que dá adotarem discursos indignos de vós! Defendam as vossas causas, mas defendam-nas com decência, com inteligência, com argumentos, com pés e cabeça!