O CONDE D. HENRIQUE (5)
HENRIQUE E RAIMUNDO FIRMAM UM PACTO SECRETO
& outras que tais (pois nem só de "medievalidades" vive a Mulher)
Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
O CONDE D. HENRIQUE (5)
HENRIQUE E RAIMUNDO FIRMAM UM PACTO SECRETO
O CONDE D. HENRIQUE (5)
HENRIQUE E RAIMUNDO FIRMAM UM PACTO SECRETO
"Pacto Sucessório”, Recueil de Chartes de CLUNY,
Bibliothèque Nationale de France, Département des manuscrits, Colecção Baluze nº 86, f. 470Não se sabe exatamente a data, mas Afonso VI, que já não era novo, e receoso por ter uma única filha legítima, resolveu nomear seu sucessor um filho que tinha da barregã Zaida. Ora, esse filho, ainda criança, passa a ser o infante D. Sancho, herdeiro do império do pai.
Em princípio, esta decisão não afetaria grandemente o casal Henrique/Teresa. Mas pode-se imaginar o impacto que teve no casal Raimundo/Urraca. D. Urraca era a única legítima, filha da rainha D. Constança. Podemos imaginar a sua revolta. E, depois de lhe nascer o filho Afonso Raimundes, a 1 de março de 1105, o casal resolveu agir.
Raimundo e Urraca solicitaram a cooperação de Henrique e Teresa.
É difícil de dizer que tipo de relação tinham os dois casais. Sabemos que as irmãs, depois de viúvas, se guerrearam. Mas isto aconteceu mais tarde, numa situação completamente diferente.
E, mesmo pondo a hipótese de os quatro não morrerem de amores uns pelos outros, Henrique resolveu cooperar. E porquê? Porque, pela primeira vez, se lhe apresentou a possibilidade de expandir o seu poder para lá do condado Portucalense.
Os dois, Henrique e Raimundo, estabeleceram um pacto secreto, à revelia do sogro, onde determinavam como deveriam ser divididas as possessões de Afonso VI, depois da morte deste.
Uma verdadeira traição ao sogro. E um dos pactuantes era um homem que a nossa historiografia destituiu de qualquer mácula. Mais: uma traição que nem pode ser justificada com a vontade de libertar o condado Portucalense do jugo leonês. D. Henrique tinha outras ambições.
Como nos dizem Amaral e Barroca, o pacto revela as enormes aspirações que alimentavam D. Raimundo e D. Henrique. (1)
No próximo vídeo, veremos em que consistia.
O CONDE D. HENRIQUE (4)
Nos primeiros sete ou oito anos de casamento, D. Henrique e D. Teresa viveram em concordância com a sua condição de vassalos, cooperando com o rei de Leão.
Hoje, vamos atentar à primeira fase da vida em comum de D. Henrique e D. Teresa.
Nos primeiros sete ou oito anos de casamento, o casal viveu em concordância com a sua condição de vassalos, cooperando com o rei de Leão, intitulado imperador de toda a Hispânia. Apesar de terem organizado e engrandecido o condado, não há, para este período, indícios de que pretendessem independência.
Isto faz todo o sentido, se analisarmos aspetos pessoais e familiares de D. Henrique.
Ele era um nobre de grande linhagem: bisneto de Roberto II, rei de França; sobrinho-neto de D. Hugo, o famoso abade de Cluny; neto do duque Roberto I de Borgonha e de Hélie de Semur, a irmã do abade D. Hugo; irmão de dois duques de Borgonha; e sobrinho da rainha D. Constança de Leão e Castela.
Como vemos, ele pertencia à alta nobreza. Mas a época medieval tem as suas particularidades. E Henrique, sendo o mais novo de seis irmãos, não tinha direito a qualquer herança. Nada mais lhe restava do que ir em busca de fortuna e glória. D. Henrique foi realmente um desses aventureiros medievais.
Como sabemos, foi bem recompensado, ao casar com uma filha de Afonso VI, tornando-se, através dela, conde de Portucale. Por isso, é lógico que, numa primeira fase, ele cumprisse o papel de genro agradecido e dedicado, não lhe passando pela cabeça revoltar-se contra o sogro.
Esta situação vai mudar. Mas não motivado por aquilo que se costuma pensar.
D. Henrique e D. Teresa - Ilustração de Carlos Alberto Santos
Os objetivos e desígnios de D. Henrique e D. Teresa não foram sempre os mesmos. Ou seja, eles não seguiram a mesma política, desde que casaram, até à morte de D. Henrique.
Durante esses dezassete anos, houve várias fases:
Primeira fase, de 1095, o ano do casamento, a 1105, o ano da assinatura do Pacto Sucessório por Henrique e Raimundo
Segunda fase até 1107, o ano da morte de Raimundo
A partir daqui os acontecimentos precipitaram-se.
Terceira fase, até 1108, o ano da morte do infante Sancho
Quarta fase, até 1109, o ano da morte do imperador Afonso VI
E finalmente uma quinta fase, até 1112, o ano da morte do conde D. Henrique
Ora, como vemos, deu-se uma série de acontecimentos importantíssimos, todos eles provocando viragens nas ambições e nos objetivos do par Henrique/Teresa. Tudo isto é ignorado na nossa historiografia, centrada na fundação de Portugal, como se esse plano se tivesse iniciado com o casamento de Henrique e Teresa e culminado em Afonso Henriques.
Estes acontecimentos são igualmente importantíssimos para compreender a atuação de D. Teresa, depois de enviuvar. Na verdade, foi principalmente ela quem lançou Afonso Henriques para a fundação de Portugal.