Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

21 de março de 2026

Para lá do Marão... (4)

Nesta interminável sequência de grandiosidade das «Terras de Bragança», muitas das coisas que por aqui vou trazendo são fruto do acaso ou, por vezes, «a pedido de várias famílias». Será esta incursão representativa do último caso. Tudo por responsabilidade da magnífica Algoso e do seu não menos magnífico castelo. O que conduziu a Balsamão e ao seu convento, território que, não obstante se localizar na soberba freguesia de Chacim, no concelho de Macedo, tem uma umbilical ligação a Algoso. “Atãu’e, bota lá mais uas palabrecas, pr’ós qui’u quijerim”…
 
De facto, durante meio século, os Marianos de Balsamão marcaram presença por Algoso, no Convento de Santo António, entre a segunda metade do séc. XVIII e a primeira metade do séc. XIX. Quando as ordens religiosas masculinas foram extintas, após um decreto dessa primeira metade do séc. XIX, os seus bens, ou foram «arrebanhados», ou vendidos em hasta pública ou, particularmente no que respeito dizia a «bens menores», como paramentos, vasos sagrados ou algumas pinturas, foram transferidos para a igreja paroquial respectiva. O que aconteceria com alguns bens, que foram depositados na Igreja de S. Sebastião de Algoso. Aqui destacando, particularmente, um: a magnífica tela de «Nossa Senhora da Imaculada Conceição». Pintura que, há não muitos anos, se encontrava «esquecida» na sacristia da igreja, e cuja autoria será de um dos mais renomados pintores portugueses do séc. XVIII. É a incúria com que, muitas vezes, por desconhecimento, tratamos o nosso valioso património…
 
Pintor esse que também deixou magnífica obra pelo Convento de Balsamão. Assim como o fizeram outros destacados pintores do séc. XVIII. Balsamão, como alguém deixava em comentário, está envolto em lendas. Todavia, Balsamão é muito mais do que lendas. Mas tanto mais!!! Talvez muitos não o saibam, Balsamão tem uma ocupação, quase contínua, desde há cerca de 2000 anos. Pois por lá existiu um povoado fortificado pré-romano, com toda a probabilidade dos nossos antepassados Zelas. Povoado esse que também teve ocupação Romana. E que, ao que tudo aponta, terá sido a sede de um dos «pagi» Suevos e, posterirmente, centro de cunhagem de moeda Visigoda. “Ah peis é”!
 

Rui Rendeiro Sousa 17.jpg

Balsamão guarda muito mais do que História Religiosa. Aliás, as lendas sobre Mouros não passam disso mesmo, de lendas. Que os ditos Mouros pouco ou nada quiseram saber destas terras. Por isso, Chacim, por exemplo, nada tem a ver com a «chacina» que lhe apontam. Caso assim fosse, mais «Chacim» havendo, um dos quais no Minho, e mais uns quantos por Espanha, muitas «chacinas» teria havido. Pelo contrário, o nome «Chacim» é um antropónimo, ou seja, o nome derivado de uma pessoa. Assim como «Balsamão» o é. Mas isso não interessa para aqui…

Rui Rendeiro Sousa 15.jpg

Balsamão que aldeia foi, alcandorada no alto do Monte Carrascal, popularmente chamado Monte do Caramouro. E até teve um castelo, cujo perímetro ainda é possível verificar (e não, não é a torre que por lá há, que essa é de construção contemporânea). Um castelo que, conjuntamente com o de Algoso, foi um dos tomados, no início do séc. XIII, aquando das incursões de Afonso IX de Leão, que deixaram as nossas terras «a ferro e fogo». Outras histórias… Assim como outras histórias levaram ao abandono da povoação de Balsamão, que ainda no séc. XIV existia como tal, pois o nosso D. Dinis andou «às turras» com um dos filhos do «último Braganção», por causa dos direitos sobre a dita povoação. Depois seria abandonada…

Por lá deve ter permanecido uma pequena capela em honra a Santa Maria. A qual, mais tarde, tomaria o nome de Nossa Senhora de Balsamão, em honra à povoação entretanto desaparecida. Capela essa cuja primeira referência documental à sua efectiva existência é do séc. XVI, quando uma das muitas «desgraçadas» vítimas da «santa» Inquisição, aí foi obrigada a ir em penitência para limpar os seus «pecados judeus». Posteriormente, seria um eremitério, por lá tendo assentado uma ordem religiosa. Só já no séc. XVIII é que chegariam os Marianos, de lá expulsos, tal como em Algoso, no séc. XIX. Em boa hora regressariam no séc. XX.
 

Rui Rendeiro Sousa 14.jpg

Balsamão é muito mais do que devoção ou a casa-mãe dos Marianos em Portugal. Balsamão é um sítio mágico, onde se captam umas inigualáveis energias. E até tem um museu fantástico, uma igreja que assoberba os sentidos, quer pelo seu tecto, quer pelos vestígios de pinturas murais que ainda lá moram. E até tem uma subida que encantará qualquer um, com as suas capelas a bordejarem o caminho. E até se comem por lá uns acepipes de «fazer chorar por mais», acompanhados de uma simpatia e de uma arte de bem receber incomparáveis. Mas eu sou suspeito para falar…

Rui Rendeiro Sousa 13.jpg

Porque Balsamão é uma marca indesmentível na minha vida, por lá foi decidido baptizar os filhos. Por lá, a deslumbrar os sentidos, corre o Azibo, que é muito mais do que a “barraige”. Só quem já experimentou dar uns mergulhos no «Poço dos Paus» é que sabe do que falo. Ou quem já estendeu a manta para um piquenique nas imediações da «Ponte da Paradinha» saberá o que quero transmitir. Ponte medieval essa que terá sido construída pelos Hospitalários, para melhor fazerem o seu trajecto entre a Comenda de São Cristóvão de Malta e a de São Sebastião de Algoso. Sempre a ligação entre as «minhas» terras e Algoso, daí o fascínio. Algoso e a sua Comenda Hospitalária que também foram detentoras, por via da Comenda de São Cristóvão, de vastos direitos sobre outras aldeias do meu concelho, na sua região noroeste, nomeadamente as magníficas Lamalonga, Vilarinho de Agrochão, Nozelos e Ala.

Tudo isso por doações feitas pelos «nossos» Bragançãos, que a «cartilha» diz que foram os reis a fazer. Havendo agora outra «cartilha» que até quer fazer de Balsamão, e de outras terras que Hospitalárias foram, território Templário. Mas isso são outras «batalhas»… E já me “ztendi co iz’tu’e, q’ou quandu impeçu a butare faladura” sobre as nossas terras, tanto que têm, nunca mais se me “fetch’á matraca”. “Zculpim qualquera cousinha, pode sere?”…

Rui Rendeiro Sousa 16.jpg


8 de março de 2026

Rapidinhas de História #48

A MISOGINIA NOS ESCRITOS MEDIEVAIS (11)

Existe um grande contraste entre o conteúdo das crónicas medievais e a actuação de D. Teresa.

"Nada nos autoriza a distinguir D. Teresa de D. Henrique".

(historiadores Luís Carlos Amaral e Mário Jorge Barroca)

 


 

 

1 de março de 2026

22 de fevereiro de 2026

Rapidinhas de História #46

INDEPENDÊNCIA (5)

O processo de independência de Portugal foi "uma evolução na longa duração".

(as palavras entre aspas pertencem à historiadora Maria João Branco)

 

 


16 de fevereiro de 2026

Para lá do Marão... (3)

Pauliteiros e Caretos estiveram relacionados com manifestações religiosas e é interessante verificar o esforço da Igreja, noutros tempos, em conciliar hábitos pagãos com ritos católicos.

Regressando a uma das particularidades que transformam esta região num tal de território único: os Pauliteiros. “Dize que”… Pelo menos a partir do longínquo século XIII, os tais «dançadores da dança dos paus», ou, mais recentemente, «bailadores», como bem fui advertido, passaram a integrar, oficialmente, as manifestações religiosas, especialmente as «procissões do Corpo de Deus», ou aquelas que festejavam o «santo da terra». Isto porque a Igreja, bem ao jeito de «se não consegues vencer o inimigo, junta-te a ele», ao não ter tido a capacidade para eliminar as celebrações de carácter profano, tal como também acontecia com os «mascarados», optou por integrá-las nas suas celebrações.
 
Assim sendo, passaram a ser vulgares as referências à presença de «mascarados», «tamborileiros», «gaiteiros» e «dançadores», nas manifestações de carácter religioso. No entanto, particularmente no que respeitava aos «mascarados», isso terá dado azo a excessos, nomeadamente a ajustes de contas em plena procissão! “De bêz’im quandu’e”, lá aparecia um devoto que não terminava a procissão… O que acabaria por redundar na proibição de «mascarados», quer por instruções eclesiásticas, quer por decretos régios. Prosseguiria, no entanto, a presença dos elementos musicais, assim o justificam, entre outra documentação, alguns «livros de contas» de confrarias ou irmandades. Embora fossem surgindo Pastorais dos Bispos a tentar limitar os excessos, particularmente os cometidos no interior dos espaços sagrados.
 
É delicioso examinar a imensa documentação eclesiástica. Somos aí confrontados com realidades bastante distintas daquelas que conhecemos na actualidade. De repente, recordo-me da alusão que é feita aos abusos que eram cometidos dentro de igrejas ou de sacristias, onde se comia e festejava, noite dentro! Ou onde se dormia, «tudo ao monte e fé em Deus»… E outras coisas ainda mais mundanas… Mais tarde, alegando que os tocadores e dançadores distraíam os fiéis, foi mesmo proibida a sua presença em manifestações religiosas. Coisas do «arco da velha»…
 
A chegada de novos ventos, traria o regresso dos «Pauliteiros» às celebrações religiosas, voltando a misturar-se o profano com o sagrado. Assim como os «Caretos», especialmente nas festividades associadas ao Santo Estêvão, passariam a voltar a ter papel determinante. E muito haveria para dizer sobre as «Festas dos Rapazes», mas ficará para a altura própria. Como o haveria em relação a um incontável número de tradições populares que a chegada da «velha senhora» acabaria por castrar, algumas «matando» de irreversível forma, outras tendo tornado moribundas. O fenómeno da emigração também contribuiria, definitivamente, para esse abandono de milenares tradições, enraizadas na memória popular. Felizmente, resta a documentação para as relembrar. E, felizmente ainda, nas décadas mais recentes vem-se assistindo ao resgatar de muitas delas.
 
Entretanto, a propósito desta junção entre festas pagãs e festas religiosas, subitamente me lembrei de outro aspecto. Que também incluía a presença de «mascarados», «tocadores» e «dançadores»: as antigas procissões a locais de culto pagão.
 
A nossa história colectiva é fabulosa! Por isso há sempre mais uma «carta na manga»… E não se esgotam, acreditem! Mas também não gosto que os textos fiquem muito longos… Como tal, já cá virei trazendo, para os interessados, outros temas, começando pelas antigas procissões… e as capelas no alto dos montes. E outras “cousas, pur’i”…

15 de fevereiro de 2026

12 de fevereiro de 2026

Para lá do Marão... (2)

Texto de autoria de Rui Rendeiro Sousa, partilhado (assim como a imagem) no grupo Memórias... e outras coisas - BRAGANÇA:

Irei principiar esta nova incursão por uma afirmação que poderá gerar polémica. Que me perdoem os meus amigos Mirandeses, antecipadamente me penitenciando, igualmente, perante os meus amigos Mirandelenses… Em simultâneo me desculpem os meus amigos Podentinos, neste caso particular porque até tenho, com muito orgulho, costelas de Podence.
 
Os Pauliteiros são tão de Miranda, como as alheiras são de Mirandela (ou o folar é de Valpaços, só para sair do âmbito geográfico bragançano). Ou, daqui por cinquenta ou cem anos, dado o patamar superior que atingiram os «meus» Caretos de Podence (e muito bem, que “munta proa” tenho nisso!), algum estudioso venha a tomar como exclusivas estas três acepções: os Pauliteiros são de Miranda, as Alheiras são de Mirandela, os Caretos são de Podence. O que não é bem verdade… Ou seja, os Pauliteiros são, efectivamente, de uma região, a que ocupada foi pelos Zelas, a antiga «Civitas Zoelarum», assim como os Caretos o são. Já quanto ao Folar ou às Alheiras, são de todos…
 
Não me irei deter no Marketing, nem nos acasos da História, nem nas campanhas que alguns municípios, «puxando a brasa à sua sardinha», tão bem souberam impor. Assim como imposto foi o nome de um idioma, parte fazendo de um «sistema» Ásturo-Leonês Ocidental, com a exclusiva designação de «Mirandés». Nada me move contra ele, antes pelo contrário, até fiz questão de o aprender, tendo uma especial afeição pelo «Mirandés». Mas também fiz questão de aprender o Asturianu, que por lá não há sectarismos, não havendo «Oviedês», ou «Gijonês» ou «Avilês», é uno, regulado pela «Academia de la Llingua Asturiana». Assim como na Galiza há uma língua una, o Galego, com variantes regionais, mas não havendo o «Corunhês» ou o «Ourensês», só para mencionar duas das suas províncias.
 
Quanto às variantes do Leonês, não estão reguladas… Ou seja, aprendi uma língua que já foi falada no meu concelho (e noutros), nos quais subsiste com variantes dialectais, que mais correctamente deveria ser designada através de um nome genérico, tal como acontece com os ditos Asturianu ou Galego. Até poderia ser «Trasmontanês Oriental». Porque, de facto, é tão «Mirandês», como poderia ser «Vinhaês», «Bragancês», «Vimiosês», «Mogadourês» ou «Macedês»… Quem dúvidas tiver, faça o favor… de se pronunciar em «queimarês pestanês»… Nota adicional, para que dúvidas não restem: “tengo muita proua ne l Mirandés”! “E tamém tânhu munta proa na faladura q’aprendi co a nh’ábó Maria”! E talvez o «Mirandês» tivesse outro protagonismo e outra visibilidade se olhado fosse como ele, efectiva e historicamente é: um idioma que foi falado numa região abrangente. Assim, parece não passar de uma curiosidade em vias de extinção (o que muito me custa!).
 
Mas regressemos aos Pauliteiros… Os quais, históricos registos, são tão de Miranda como de… Vinhais, Bragança, Vimioso, Mogadouro ou Macedo! Ou seja, da região que era abarcada pelos Zelas (os «Zoelae» da literatura clássica)! Por isso ainda subsistem, no meu concelho, os Pauliteiros de Salselas! Já tendo havido outros… Por isso, também, por Bragança, já houve os Pauliteiros de São Pedro dos Sarracenos! E já houve mais…
 
«Pauliteiros» que é uma designação contemporânea, que nos documentais registos eram «apenas» Dançadores. “Ó depeis”, à custa dos paus, ou dos palitos ou paulitos, ficou mais engraçado adoptarem esse nome. Que por território espanhol correspondente ao antigo território Zela, não há «Paloteros» ou coisa do género, há, simplesmente, «danzadores» e «danzadoras» da… «danza do paloteo». Cujas características são «iguaizinhas», com algumas variantes, às dos nossos «Pauliteiros». Que o magnífico Marketing fez, exclusivamente, tal como o «Mirandés», de… Miranda. É bonito, mas é falacioso, e retira-nos o conceito de região.
 
Como escreve um ilustríssimo autor, corroborando observações de outro insigne autor Mirandês, apesar de, em Portugal, os Pauliteiros estarem associados a Miranda do Douro e ao seu concelho, eles subsistem como elemento da cultura popular noutras regiões do distrito de Bragança. Porque se trata disso mesmo, tal como os Caretos, um «elemento da cultura popular», da cultura de um Povo, não de uma região específica! Bastará, para os que dúvidas tiverem, consultar a extensa documentação existente desde a Idade Média. Sei que dá “muntu trabalhinhu’e”, mas vale bem a pena! E até se poderá recuar a mais ancestrais tempos, nos quais viveram aos nossos antepassados Zelas, mais os seus vizinhos «Vacceos», ambos indicados como tendo origem celta. De onde, com muita probabilidade, provirá a tal de «dança dos paus», que de uma «dança guerreira» parece tratar-se. E os ditos Zelas, não foram exclusivos de Miranda…
 
Como estas incursões têm tendência para se alongar, tanta é a informação que subsiste sobre a nossa região, já cá virei noutra ocasião com mais «polémica»… Esperando não ser excomungado ou crucificado, especialmente pelos meus amigos que dizem, e muito bem, “proua an ser Mirandés”...
 
(Foto: Pauliteiros de Salselas)
 

Rui Rendeiro Sousa 11.jpg

7 de fevereiro de 2026

Para lá do Marão... (1)

 Texto de autoria de Rui Rendeiro Sousa, partilhado (assim como a imagem) no grupo Memórias... e outras coisas - BRAGANÇA:

Muitos já terão ouvido falar de Zelas (ou Zoelas, nalgumas versões). Já por aqui trouxe esses «nossos avós» para demonstrar o quão diferentes somos. Nomeadamente pela forma como os autores clássicos Romanos os classificaram como Ástures, ou como os Romanos integraram o seu território, a «Civitas Zoelarum», no «Conventus Asturicensis». No actual distrito de Bragança ocupariam, genericamente, os chamados concelhos da Terra Fria, e ainda uma grande parte do concelho de Macedo de Cavaleiros, bem como as zonas mais a norte dos concelhos de Mirandela, Alfândega da Fé e Freixo de Espada à Cinta. “E q’é que tem iz’tu a bêre cum Caretus e Pauliteirus’e?”…
 
Conheço, no distrito, mais de três dezenas de manifestações relacionadas com Mascarados e Chocalhadas. Grosso modo, todas se situam nos concelhos que faziam parte da… «Civitas Zoelarum»! Ou seja, os concelhos de Vinhais, Bragança, Vimioso, Miranda do Douro, Mogadouro, as extensões centro-norte e sudeste do concelho de Macedo de Cavaleiros, mais as manifestações em Torre de Dona Chama, a norte de Mirandela, a confinar com o concelho de Macedo, e as de Alfândega da Fé e Sambade, também a lindar com o concelho Macedense. Há, ainda, uma referência histórica à sua existência no norte do concelho de Freixo de Espada à Cinta, onde confronta com o de Mogadouro.
 
Porém, o território dos Zelas ultrapassava os actuais limites do distrito, estendendo-se para as regiões da Sanabria, Aliste, Sayago, até Zamora. Regiões essas onde subsistem cerca de duas dezenas de manifestações de Mascarados e Chocalhadas! Sempre com as chamadas «Festas de Inverno» como matriz, sejam elas no período de Natal, ou no período do Entrudo. Não há coincidências…
 
Na actualidade, muitos encararão os Caretos apenas como uma curiosidade etnográfica, acrescida da dimensão adquirida pelo Entrudo Chocalheiro e, consequentemente, pelos Caretos de Podence, elevados a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Mas os Caretos, e o fenómeno das Mascaradas e das Chocalhadas são muito mais do que isso. São uma das representações maiores de um Povo que é, de facto, diferente. Fazem parte do seu ADN! Um Povo que soube, com maiores ou menores obstáculos, manter tradições milenares, que esta coisa das máscaras e dos rituais encontram reminiscências em muito recuados tempos.
 
A referência documental mais antiga que encontrei até hoje, a referir, especificamente, Caretos, é de inícios do séc. XVIII. Emboras as menções a mascaradas e chocalhadas, bem como à quebra de regras, especialmente no Entrudo, abundem desde a Idade Média. Curiosamente, essa menção é oriunda de uma povoação na qual já não existem Caretos, nem memórias há de terem existido. Porém, a documentação não mente, especialmente a provinda de eclesiásticos mundos. Acervo a partir do qual se percebem realidades muito distintas daquelas que conhecemos. Hoje será inconcebível a ideia de que os Caretos participavam em procissões… Ou que entravam em igrejas… Ou que os próprios padres participavam nas manifestações burlescas do Povo… Entre tantas outras coisas... Mas assim era!
 
Assim como o era o universo inseparável entre os Caretos e… os Pauliteiros. Parece que onde andavam estes a tocar e a dançar, Caretos andavam pelo meio. Aliás, ainda subsistem algumas manifestações onde se preserva essa ancestral ligação entre Pauliteiros e Mascarados. Mas sobre Pauliteiros e Zelas já cá virei noutra ocasião. Que isto de sermos «Leoneses» tem muito que se lhe diga…
 

Rui Rendeiro de Sousa 10.jpg

27 de janeiro de 2026

Um ano com D. Dinis (74)

HÁBITOS RELIGIOSOS

Faz hoje 719 anos que o bispo de Lisboa, D. João Martins de Soalhães, colaborador de D. Dinis desde o início do reinado, reuniu um sínodo, procurando a formação do clero paroquial, a fim de prestigiar o ministério. Igualmente se procurou promover o matrimónio religioso, erradicar a bigamia e inculcar a prática da confissão anual ao respetivo pároco.

A necessidade de reunir um sínodo, a fim de tratar destes assuntos, é elucidativa em relação a alguns costumes medievais portugueses, o que vem contradizer a imagem medieval de profundos hábitos religiosos e morais.

Na verdade, o povo estava ainda muito ligado a ritos pagãos. E o casamento religioso só quase se verificava no seio da nobreza. Entre o povo, dominavam as relações de facto.

A Igreja tentava, desde o século XI, moralizar os costumes. Mas só para o fim da Idade Média (segunda metade do século XIII e todo o século XIV) as práticas e os sacramentos se começaram a generalizar.

 

MulherIV.jpg

 Imagem Codex Manesse

 

Com este post, dou por findo o ano dedicado a D. Dinis, iniciado a 30 de Janeiro de 2025. Encontram todos os posts na "pasta" umanocomddinis. Obrigada pela vossa atenção e pelos comentários.

 

21 de janeiro de 2026

Um ano com D. Dinis (73)

TUTORA DOS BASTARDOS

 

Livro Dinis e Isabel.jpg

A 21 de janeiro de 1298, D. Dinis fez de D. Isabel tutora de três dos seus filhos bastardos - Pedro Afonso, Afonso Sanches e Fernando Sanches -, para o caso de morrer antes dela e da maioridade dos filhos. Li algures que tal atitude seria um abuso, só permitido pelas qualidades de santa da rainha. Na verdade, porém, a aceitação de filhos do rei fora do casamento, pela rainha sua esposa, não era tão raro como isso, um pouco por toda a Europa. Dependia muito dos casos e das circunstâncias. Muitos desses filhos, reconhecidos pelo pai, eram educados e integrados na corte. Como vemos, já nesses tempos, a família tradicional nem sempre era o modelo. 

A vida conjugal de D. Dinis e de D. Isabel levanta algumas interrogações. Apesar de terem estado mais de quarenta anos casados, só tiveram dois filhos, nascidos nos primeiros anos da união. Especular sobre as razões, não nos leva a lado nenhum. No entanto, sabendo ser a missão principal de uma rainha gerar o herdeiro do trono e tendo conhecimento da profunda religiosidade de D. Isabel, usei a hipótese, no meu romance, de ela ter optado pelo celibato, depois de ter dado à luz o infante D. Afonso, considerando a sua missão cumprida. Notemos que a infanta D. Constança nasceu apenas um ano antes do irmão. E, depois dele, não veio mais nenhum!

Inverti, assim, um pouco os papéis. Apesar de não lhe agradarem as aventuras do marido, não era propriamente D. Isabel a pessoa mais amargurada, neste casamento. Era, sim, D. Dinis. Ao ver-se casado com uma "santa".

 

Nota: a capa do livro de Mário Domingues serve apenas para representar o casal. É interessante verificar que D. Dinis surge aqui parecido com a reconstrução do seu rosto, feita a partir do seu crâneo.

20 de janeiro de 2026

Manifesto eleoitoral de uma votante PSD

Não é segredo para ninguém que Ventura persegue um único objectivo: ser o líder da "direita" em Portugal. Para isso, ele tem de destruir o PSD!

Ao contrário do que muita gente (do PSD e CDS) diz, tentando justificar o seu voto em Ventura, António José Seguro será muito melhor Presidente para Luís Montenegro. Seguro é uma pessoa democrática, moderada e cumprirá a nossa Constituição, em qualquer circunstância.

Tal como Trump (o seu grande modelo inspirador), Ventura não respeita leis, nem regras. Como Presidente, tudo fará para destruir o governo de Montenegro, a fim de surgir, depois, como o "grande líder", apresentando o seu partido como a única alternativa para pessoas que não se reconheçam nos partidos da esquerda.

A campanha de Ventura, para esta 2ª volta, vai ser suja, falsa, sem escrúpulos. A propaganda chegana já começou, com a divulgação de um texto, supostamente de autoria de Miguel Esteves Cardoso, de apoio a Ventura. Um texto falso! E isto é só o começo.

Como o Sérgio de Almeida Correia já aqui disse, Luís Montenegro comete um grande erro, ao não aconselhar o voto am Seguro. Montenegro devia preocupar-se mais com a franja do eleitorado que oscila entre o PSD e o PS, do que piscar o olho aos radicais. Ele devia dizer claramente que Seguro dá mais garantias de cumprir a Constituição e salvaguardar a democracia. Montenegro devia, acima de tudo, demarcar-se de qualquer forma de extremismo.

Estou com eles:

Apoio a Seguro 04.jpg

Apoio a Seguro 05.jpg

Apoio a Seguro 03.jpg

Apoio a Seguro 01.jpg

Imagens Observador/Instagram

Sérgio de Almeida Correia referiu ainda Rui Moreira, Carlos Carreiras, José Eduardo Martins, António Capucho e Pacheco Pereira terem revelado o seu apoio a Seguro.

Não votei na 1ª volta. Aliás, nunca votei nas presidenciais, desde que estas ficaram acessíveis aos emigrantes. Mas, no dia 8 de Fevereiro, vou fazer 100km (ida e volta) para votar no Consulado de Hamburgo!

Contra a "trumpização" de Portugal!

Pela democracia!

Por um PSD com futuro!

18 de janeiro de 2026

Rapidinhas de História #41

A rainha D. Urraca era comparada a Jezabel.

«quanto mais o poder transparecia, mais o processo de demonização da mulher tinha de ser eficaz»

Maria do Rosário Ferreira (historiadora)