A propósito da classificação do Fado como Património Imaterial da Humanidade, lembrei-me de um texto que escrevi para o Delito de Opinião, respondendo ao amável convite do Pedro Correia, e que tornei a publicar aqui no Andanças. O seu título era Herança Islâmica e eu citava o lindíssimo livro de Adalberto Alves, Em busca da Lisboa Árabe (Edições CTT, 2007).
Adalberto Alves fala-nos no drama vivido pelos últimos mouros em terras portuguesas, depois de D. Manuel I decretar, em 1496, a expulsão do reino de todos os que não se convertessem à fé católica. Muitos conseguiram simular uma integração, mas ficaram sujeitos às mais variadas atribulações, no que constituiu um dos maiores dramas da História da Península do século XVI. Como nos diz o autor na obra referida: “transformados em marginais, rufiões e desclassificados, ébrios de fatalidade, frequentavam ainda Alfama e Mouraria vagueando como fantasmas gastos, sob a pálida memória dos seus antepassados”; “inventam um género musical e com ele cantam o seu fado”; “ao percorrermos certas alfurjas esquecidas de Lisboa antiga, parece sentirmos ainda como que os ecos longínquos desses fados esquecidos, onde o árabe se enroupava em português para exprimir o lamento dos humilhados do destino.”
No livro, é ainda reproduzida, na página 147, uma fotografia do autor na companhia de Amália Rodrigues, que, como Adalberto Alves nos diz, “estava intimamente convicta da parentela entre o fado e a música árabe, que muito apreciava”.
Eu sei que esta teoria é polémica, mas eu acredito nela. E seria bom que os portugueses, a propósito desta classificação, se lembrassem dos mouros; se lembrassem de que a herança islâmica é muito forte no nosso país; referissem que essa herança terá tido mais importância para a formação do nosso carácter do que o que se costuma aceitar; referissem que, se não fossem os mouros, talvez não existisse o Fado.
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27 de novembro de 2011
5 de outubro de 2011
Cerco e Conquista de Lisboa X
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| Lisboa mourisca, por Martins Barata |
D. Afonso Henriques negociou a entrega de Lisboa com o alcaide mouro e fez questão de que não se vertesse mais sangue. Mas a população moura foi expulsa das suas casas e obrigada a entregar todos os seus haveres aos conquistadores cristãos.
Esta era a segunda noite em que ninguém dormia na casa de Aischa.
Haviam passado a anterior aterrorizados, enquanto os cruzados saqueavam a cidade. Felizmente, não tinham vindo todos, o que poupou algumas casas à loucura. Uns quantos ainda tentaram arrombar a porta de Malik Ibn Danaf, mas nessa altura já a milícia punha fim à matança, permitindo que Aischa e os seus ficassem pelo susto. O que os levava a pensar que a sua família, por alguma razão, se encontrava sob a protecção especial de Alá, pois fora uma das poucas que sobrevivera completa ao cerco.
Nesta noite, de 23 para 24 de Outubro, reuniam todos os seus pertences, para que o mercador e os seus dois filhos os fossem depositar aos pés dos novos senhores de Lušbūna. Como ficara acordado entre o rei português e o alcaide, um contingente de trezentos cristãos ocuparia pacificamente a al-qasbâ, logo pela manhã, a fim de confiscar todos os haveres dos mouros e dos judeus. A cidade seria em seguida inspeccionada e, se algo mais fosse encontrado, sem ter sido entregue ou declarado, o dono da casa onde fosse feito o achado pagaria com a vida.
(...)
De tarde, vieram quatro cristãos armados inspeccionar a casa. A família e a criadagem estavam reunidas no jardim e, apesar de as vestes das mulheres serem de linho grosseiro ou de burel e de os véus só lhes deixarem ver os olhos, os soldados miraram-nas cheios de cobiça.
(...)
Antes de mandarem a família embora, os ocupantes informaram ainda que os cristãos pertencentes à criadagem eram livres de ficarem na cidade. A maioria, no entanto, não tencionava desligar-se da família do mercador. Sem posses, receavam ficar entregues à sua sorte. Eram moçárabes e os portugueses vindos do norte olhavam-nos com desconfiança. Além disso, sabiam que o seu patrão receberia a ajuda do irmão rico de Batalyaws.
Aischa sentia-se capaz de matar os quatro estranhos, que olhavam trocistas para aquela que fora uma das famílias mais ricas de Lušbūna e que agora se afastava, depauperada e de cabeça baixa. Nem sequer o seu único burro de carga que sobrevivera ao cerco podiam levar. Transportavam eles próprios a escassa roupa e algumas peças de louça barata, com que tinham sido autorizados a ficar.
Malik Ibn Danaf e os seus juntaram-se aos outros, judeus incluídos, que se dirigiam com as suas trouxas às portas ocidentais de Lušbūna. Mas, enquanto os judeus saíam pela bâb al-hadîd, a Porta do Ferro, a fim de ocupar o seu bairro a sudoeste da cidade que haviam deixado no início do cerco, os muçulmanos dirigiam-se à bâb al-khawkha, na intenção de se aquartelarem nas casas vazias do bairro de Alcamim, pois grande parte dos seus habitantes havia perecido. Muitos mouros tencionavam partir, mas para alguns as perspectivas noutro lado não seriam melhores do que as que ali teriam.
3 de outubro de 2011
Cerco e Conquista de Lisboa IX
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| Ilustração de Jorge Miguel |
D. Afonso Henriques negociou a rendição com o alcaide mouro de Lisboa. Não haveria saque, os habitantes muçulmanos e judeus deveriam sair da cidade, aquartelando-se fora de muros, e não se verteria mais sangue. O alcaide e o seu genro eram autorizados a manter as suas posses. O rei português adivinhava problemas, pois sabia que os cruzados não prescindiriam do saque.
Apesar do sucesso desta conversa, Afonso regressou ao acampamento preocupado. Receava a reacção dos cruzados, assim que soubessem que ele não satisfaria algumas das suas exigências. Os ânimos tinham estado exaltados nas últimas horas e começava-se novamente a falar no tesouro, que estaria enterrado na cidade.
A reacção não se fez esperar. Alemães e flamengos insistiam em que os portugueses pouco tinham contribuído para a vitória, o que, no seu entender, não dava ao rei o direito de negociar sozinho com os mouros, roubando-lhes aquilo que lhes prometera. Muitos deles entraram nessa noite em Lisboa e espalharam o horror, saqueando, matando e violando.
Afonso fervia na sua fúria. Ainda mais, quando soube que, aqueles que não davam largas aos seus instintos mais ferozes intra-muros, tinham o desplante de pretender atacar o acampamento português! Mandou chamar Arnulf de Aarschot e Christian de Gistell, que surgiram acompanhados de um prelado flamengo. Vendo-se numa situação crítica, D. Afonso Henriques optou por uma solução radical, lançando um ultimato aos cruzados, dando o tudo por tudo.
Estabeleceu-se um silêncio perplexo. Afonso respirou fundo, controlando a sua fúria. Urgia pôr fim àquela situação, que ameaçava a vitória. Um ataque dos cruzados ao acampamento português seria o início de uma catástrofe. As hostes cristãs envolver-se-iam em lutas sangrentas, das quais só sairia um vencedor: a mourama!
O rei só viu um caminho para sair desta crise, um caminho deveras arriscado:
- Se não fordes capazes de acabar com os motins, partirei, ainda antes do nascer do sol, com todo o meu exército, abandonando-vos à vossa sorte. Que eu prefiro prescindir de Lisboa, a quebrar os acordos firmados com o alcaide!
Depois da tradução, Christian e Arnulf fixaram-no assombrados. O semblante de Afonso mantinha-se impassível, fazendo-os acreditar que ele realmente renunciaria a Lisboa, caso não pudesse manter a palavra dada. Na verdade, Afonso perguntava-se se teria ido longe demais.
Os cruzados aceitam, por fim, subjugar-se ao monarca português.
Aos estrangeiros assomava-se arriscado ficarem entregues a si próprios perante os mouros, que lhes poderiam tornar a fechar as portas da cidade, forçando-os a partir para a Terra Santa de mãos a abanar. E os que haviam decidido ficar em Portugal sonhavam com os senhorios que o monarca lhes prometera.
Todos os cruzados juraram, no dia seguinte, 23 de Outubro, fidelidade a D. Afonso Henriques e aceitaram o acordo que ele havia estabelecido com o alcaide. Porém, a devastação, que muitos deles haviam provocado na noite anterior, já ninguém podia emendar. Inúmeros moçárabes, até o seu bispo, pereceram às espadas dos cruzados em fúria. Assim mataram eles os seus irmãos de fé, que tinham vivido em paz sob a regência dos muçulmanos.
Um tesouro não foi encontrado.
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15 de setembro de 2011
Cerco e Conquista de Lisboa VIII
O ponto de viragem nos acontecimentos acabou por acontecer já em meados de Outubro, quando os cruzados alemães e flamengos alcançaram os fundamentos das muralhas do lado oriental, através de um túnel que os muçulmanos não lograram destruir. Um ataque foi preparado.
Junto com Arnulf de Aarschot e Christian de Gistell, Afonso e os seus barões posicionaram-se no cimo da colina oriental, de maneira a poderem observar os acontecimentos, que decorreriam na zona do arrabalde, entre as portas al-maqbara e al-hamā.
Os ingleses e franceses já tinham começado o seu ataque no lado ocidental, fazendo com que os mouros concentrassem aí forças, e os cruzados flamengos e alemães esperavam que o fogo, por baixo dos fundamentos ocos da muralha, tivesse o efeito desejado.
Todos observavam suspensos as muralhas que se erguiam no cimo do morro, por detrás do arrabalde... Até que estas, debaixo de um grande estrondo, ruíram, abrindo uma brecha de uns quinze passos de largura. Lançando os seus berros de guerreiros, os cruzados precipitaram-se colina acima. Só quando a nuvem de pó e terra, provocada pelo ruir dos muros, se começou a dissipar, é que o rei e os seus acompanhantes puderam seguir as lutas sangrentas que se travavam.
A esperança depressa se desvaneceu. O estrondo da queda das muralhas tinha feito ruir muitas das casas de taipa do arrabalde vazio e, por entre as vielas estreitas, os destroços dificultavam o escalar do cerro. Os mouros, apesar de terem que defender a brecha, encontravam-se na posição mais alta e lograram, mais uma vez, pôr os cruzados em fuga.
- Outro combate perdido - murmurou Afonso entre dentes. Mas, sentindo a frustração à sua volta, disse alto: - Este ataque serviu para enfraquecer ainda mais o inimigo. Que há-de vergar os joelhos! Todos sabemos que receia a vinda do Inverno.
- Mais do que nós? - retorquiu Arnulf de Aarschot irónico.
Depois de ter obtido a tradução destas palavras, o rei replicou, antes de lhe virar as costas:
- Em vez de me lançardes olhares descontentes e palavras pessimistas, devíeis rezar para que eu tenha razão.
Seria por falta de preces que os acontecimentos continuavam a correr em desfavor do monarca português? Apesar de várias ofensivas por parte dos cruzados na zona do arrabalde oriental, os mouros conseguiram tapar a brecha nas muralhas com uma paliçada de madeira.
A 19 de Outubro, a tão esperada torre de assédio ficou finalmente pronta. Coberta pelas peles húmidas, foi deslocada à volta da torre albarrã, na ponta sudoeste de Lisboa. O seu objectivo era novamente o cimo das muralhas por sobre o pequeno postigo que dava acesso à praia.
Os atiradores de arco ingleses, no alto do engenho, apoiados pelos seus companheiros das naus, conseguiram uma primeira vitória: os mouros posicionados na torre albarrã precipitaram-se por sobre o passadiço muralhado, refugiando-se na cidade.
Não obstante, a torre dos ingleses deslocava-se a passo de caracol, por sobre a areia. Talvez por isso os mouros tenham arriscado um ataque através do postigo. Saíram para a praia e caíram em cima dos cruzados, dando início a uma das lutas mais ferozes do cerco. Sabres penetravam nos corpos, machados abriam crânios e, misturada com o sangue, a areia transformava-se numa massa vermelha e pegajosa, envolvendo os cadáveres, sobre os quais os combatentes tropeçavam.
Passado o primeiro momento de surpresa, os cruzados ganharam vantagem e forçaram os mouros a recuar. Destes, os que conseguiram alcançar o interior das muralhas, logo trancaram o postigo, deixando os seus companheiros à mercê dos cristãos, que, atacados pela febre da chacina, só descansaram quando já não havia um único mouro vivo.
Porém, e apesar de imune às setas incendiárias, só dois dias mais tarde, a 21 de Outubro, a torre móvel alcançou as muralhas.
- Os soldados preparam-se para lançar a ponte que ligará o cimo da torre ao adarve - informou um mensageiro. - A invasão da cidade pode acontecer a qualquer momento.
Mas logo surgiram perante o rei e os seus barões guerreiros ingleses aos berros. Falavam todos ao mesmo tempo, gesticulando como doidos. Afonso exigiu a presença de Hervey de Glanville, que, com a ajuda de um tradutor, informou que os mouros tinham baixado as suas armas, assim que a ponte de ligação tocara o cimo dos muros e antes que um só único cruzado pudesse saltar para o adarve. Os infiéis solicitavam tréguas. Mas só negociariam com Ibn Errik!
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11 de setembro de 2011
Cerco e Conquista de Lisboa VI
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| Ilustração de Jorge Miguel |
Uma cena de A Cruz de Esmeraldas, quando já se passava fome na cidade:
Aischa não conseguia adormecer. Esperou que as outras mulheres se deitassem para se escapulir para o jardim. Chegada ao repuxo, que, nestes tempos, não era posto a funcionar, sentou-se no chão, encostada à fonte de pedra, e deixou correr as lágrimas.
Este dia de início de Setembro tinha sido um dos mais difíceis, desde que o cerco começara. Não que os cruzados tivessem levado a cabo algum ataque mais forte, mas Abdalah morrera, sem parar de balbuciar que o fim do mundo estava próximo.
(...)
(...)
Abdalah morrera na certeza de que se reencontraria com o seu pai, no Paraíso de Alá, onde reviveria o esplendor do califado de al-Andalus. Mas Aischa arrepiava-se, ao pensar que o cadáver seria devorado pelo fogo, sem lhe fazerem o funeral. Esta era, no entanto, a melhor solução, pois o almocavar estava inalcançável.
Nem todos os cadáveres, porém, tinham tal destino. Morria tanta gente, que era impossível queimá-los todos e havia, além disso, o medo de incêndios. Assim se iam os corpos empilhando pelas ruas, lançando o seu odor pestilento. Doenças iam-se espalhando, o número de feridos em combate aumentava de dia para dia e houvera necessidade de improvisar um hospital na mesquita aljama. Agora, havia quem dissesse que seria melhor levar para lá também os cadáveres, a fim de evitar a propagação de mais doenças. Aischa, porém, atormentava-se com a ideia de que se chegasse ao ponto em que ninguém se prontificasse a ir tratar dos doentes que lá estavam, devido ao cheiro, deixando-os para lá a agonizar.
Também ela e a sua família se arriscavam a morrer de fome. As refeições eram cada vez mais parcas. O pai dela possuía burros de carga e dois cavalos, mas nenhuns animais de criação. Sempre comprara a carne de cabrito, a mais apreciada entre os mouros, aos aldeões das redondezas. Muitos desses pastores haviam procurado protecção entre as muralhas, trazendo alguns animais, mas já quase não havia nenhum. Também as galinhas desapareceriam antes de começar o Inverno e os pescadores não podiam sair para deitar as suas redes ao rio.
Ainda se poderiam alimentar dos burros ou dos cavalos, em último caso de cães e gatos. Já havia quem o fizesse e o estômago de Aischa revoltava-se perante tal pensamento. Felizmente, eles ainda tinham alguns grãos de trigo, frutos secos e azeite na cave, mas já eram racionados, o que não causava apenas problemas na alimentação. Os candis que antigamente se encontravam por toda a casa em nichos nas paredes, iluminando os quartos, corredores e até o jardim, limitavam-se agora às divisões onde estivessem pessoas.
Os dias iam ficando mais pequenos, a escuridão, a tristeza e a pestilência apoderavam-se de Lušbūna, outrora a cidade-luz.
Aischa chorou até não ter mais lágrimas. Se não fosse tão tarde, iria buscar o seu alaúde e cantaria a melancolia que lhe atormentava a alma. Assim, fechou os olhos e começou a compor em silêncio uma cantiga sobre a Lušbūna que desaparecia: a multidão a regatear preços no suq, à sombra das coberturas de pano ou das esteiras de esparto, que se estendiam entre as casas, protegendo as ruelas do sol abrasador; o aroma da canela e dos cominhos, vindos de outras terras do Islão, através do Mar Mediterrâneo; o peixe prateado nos cestos dos pescadores; as lojas dos prateiros e dos ourives, das sedas e brocados, junto à bâb al-hammā…
Viu-se no meio da loja movimentada do pai, que lhe dizia:
- Precisas de tecidos? Escolhe o que quiseres, minha filha!
A frescura das sedas deslizava-lhe por entre os dedos…
Um sopro de vento fez-lhe chegar um odor pestilento às narinas, um gemido de dor fez-se ouvir ao longe, trazendo a moça de volta à realidade, ao seu canto escuro. Lušbūna nunca mais será a mesma, pensou, e eu não tornarei a ser feliz. Mais vale morrer antes que os cruzados tomem a cidade e comecem a saquear, a matar os homens, a violar as mulheres…
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| Lisboa Mourisca, por Martins Barata |
2 de setembro de 2011
Cerco e Conquista de Lisboa IV
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| Ilustração de Jorge Miguel |
Os habitantes que restavam no bairro de Alcamim tentavam defender-se de uma tentativa de assalto perpetrada por alguns cruzados, arremessando pedras dos terraços das suas casas. O arrabalde ocidental era conhecido como bairro de Alcamim, devido à sua igreja de Santa Maria de Alcamim, uma santa moçárabe.
- Os cruzados - perguntou Aischa - não saberão que os habitantes do bairro são cristãos como eles?
- Ora - retorquiu Amir, - o que sabem estes homens, vindos de tão longe, sobre a realidade aqui na nossa Lušbūna?
- Os portugueses bem sabem o que são moçárabes - replicou ela furiosa. - Ibn Errik não é o comandante deste cerco? Porque consente ele numa coisa destas?
- Não me parece que seja um ataque planeado. Pelos vistos, os majus mal podiam esperar para usarem as suas armas e lançaram-se ao bairro já meio desabitado.
Nisto, alguns mouros atreveram-se a uma surtida pela bâb al-khawkha, pois urgia defender os al-hurî, celeiros subterrâneos localizados no flanco da encosta da alcáçova. Mouros e moçárabes pareciam estar em vantagem devido à sua situação, por sobre a encosta. Mas cada vez mais cruzados se aventuravam pelas ruelas íngremes de Alcamim. Alguns lograram mesmo atingir a linha de cintura defensiva da alcáçova, um caminho que, começando na bâb al-khawkha, circundava o monte do castelo pelo poente e norte. Os atacados viram-se assim igualmente cercados pelo lado de cima.
Ao constatarem que os al-hurî e as suas preciosas reservas estavam perdidos, os mouros apressaram-se a regressar à segurança das muralhas, logo fechando a bâb al-khawkha e barrando a entrada à maior parte dos habitantes de Alcamim, que tentava agora desesperadamente fugir. Iniciaram-se combates sangrentos pelas ruelas do arrabalde. Os moçárabes serviam-se de adagas, punhais, ou mesmo de pedras.
- Este espectáculo não é para os teus olhos - disse Amir à sua noiva. - Anda, vamos...
- Não te preocupes comigo! Nada me arrancaria daqui agora. Tenho de ver no que dá esta refrega!
O rapaz observava-a espantado, mas ela quase não notou, concentrada nos acontecimentos. Até que bradou:
- Muitos moçárabes conseguem fugir, circundam o monte.
A moça nem esperou pela reacção do noivo, desatou a correr pelo adarve, entrando na alcáçova. Amir corria atrás dela. Passaram a curva na ponta noroeste, onde a couraça, o lanço de escadas fortificadas, fazia a ligação à torre albarrã. Continuaram até à torre na ponta nordeste, onde Amir constatou:
- Os fugitivos aproximam-se do almocavar!
- E não os podemos ajudar? - Na sua fúria, Aischa dirigiu-se aos soldados que estavam de guarda naquela torre: - Porque não se torna a abrir uma das portas, a fim de deixar entrar os coitados?
- Seria arriscado demais - respondeu um dos homens. - Muitos cruzados poderiam aproveitar a oportunidade para se infiltrarem na al-qasbâ.
- Os perseguidores não são tantos como isso - insistiu ela. - A maior parte parece ter ficado no bairro de Alcamim, a fim de saquear as casas e os al-hurî.
- Além disso - acrescentou Amir, apoiando-a, - os moçárabes parecem levar a melhor nos combates junto ao almocavar, põem muitos dos majus em fuga. Bem se podia abrir uma porta, enquanto não surgem mais...
- Tarde demais - retorquiu o soldado, apontando para a encosta da colina do acampamento português.
Aischa olhou para a sua esquerda e os seus olhos dilataram-se ao aperceber-se de que os homens de Ibn Errik vinham em ajuda dos seus aliados. E foi ali, junto ao almocavar, o cemitério islâmico onde estava enterrada a sua mãe, que deram o golpe de misericórdia naquele punhado de fugitivos moçárabes.
26 de março de 2011
Batalha de Ourique V - A Vitória
Com os almorávidas desgastados e assustados com o poder de Ibn Errik (assim denominavam Afonso Henriques), o comandante Ibn 'Umar só viu uma possibilidade de dar a volta à situação: acabar com o próprio rei português.
Mas Ibn’Umar reagiu! Começou a juntar cavaleiros à sua volta, com um único intuito: acabar com o próprio Ibn Errik. O comandante almorávida, que não acreditava em “golpes de magia”, cedo notou que o soberano era a fonte da força dos seus homens. Aniquilando Ibn Errik, o exército português soçobraria!
Com a cota de malha cheia de sangue dos adversários, Afonso manejava a sua espada como se o cansaço lhe fosse um fenómeno desconhecido. Nesta febre de matança, não se apercebeu das movimentações de Ibn’Umar. E o almorávida aproximou-se perigosamente dele.
Ao ouvir berros, Afonso viu três cavaleiros, entre eles Mendo Moniz, passarem a seu lado a grande velocidade, de espada no ar e gritando como possessos, precipitando-se sobre o grupo dos sarracenos. Logo atrás vinham Lourenço, o Sousão e o Braganção com mais quatro. Mas, para os três primeiros, esta ajuda chegou tarde demais, Afonso viu Mendo Moniz agonizando em cima da sua montada, com uma flecha espetada na barriga. Não tardou a cair por terra.
No rosto do irmão Egas Moniz desenhava-se o desgosto e o horror e o recém-aclamado rei reagiu impulsivo. Depois de murmurar: “Não me abandoneis, meu pai”, avançou, de espada em punho, ao encontro de Ibn’Umar. Porém, o Espadeiro atravessou-se-lhe no caminho, berrando:
- Quereis que os portugueses percam o seu rei, no próprio dia em que o aclamaram? Mantende-vos ao lado de meu pai, que não está mais em condições de combater! Eu tudo farei para vos proteger aos dois.
Com a ajuda do meio-irmão Soeiro e do Sousão, o Espadeiro organizou uma nova guarda de cavaleiros à volta de Afonso e Egas Moniz e conseguiu afastá-los do perigo. Faltava Fernando Mendes, o Braganção, que Afonso já não via em lado nenhum. Em vez disso, viu a fúria nos olhos de Ibn’Umar, antes de este abandonar o campo de batalha, ao notar que não tinha hipóteses de aniquilar Ibn Errik com as próprias mãos.
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| Batalha de Ourique |
O exército português tinha sofrido muitas baixas e o cerco montado à volta dos almorávidas apresentava muitas brechas. Mas a batalha estava ganha. Os mouros sobreviventes batiam em retirada, tentando salvar a pele. Logo se iniciaram as perseguições e o saque do acampamento inimigo. Ibn’Umar, porém, logrou escapar à ferocidade dos guerreiros portugueses.
Fizeram-se ao caminho de regresso, atravessaram o Tejo, passaram em Leiria. E, em todo o lado, contavam como tinham ganho a batalha de Ourique, a 25 de Julho daquele ano de 1139, contra um exército três vezes maior do que o deles, comandado por cinco reis mouros.
Afonso fez uma entrada triunfal em Coimbra, não havia memória de tantas riquezas e tantos mouros cativos juntos. Davam-se vivas a el-rei de Portugal e dizia-se que Jesus Cristo lhe aparecera na noite anterior à batalha, a fim de lhe prometer a vitória e dotar os portugueses de força divina.
O reencontro com a sua amada Châmoa Gomes não foi a única alegria que Afonso sentiu ao chegar à alcáçova. Deparou com D. João Peculiar, acabado de regressar de Roma, onde assistira ao Concílio de Latrão, presidido por Inocêncio II. O novo arcebispo de Braga, além de ter aprofundado as suas relações com o cardeal Guido de Vico e o cisterciense Bernardo de Claraval, recebera, das mãos do Papa, o pálio: a insígnia da sua dignidade arquiepiscopal.
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| Cinco escudetes dispostos em forma de cruz |
Depois da aclamação em Ourique, Afonso Henriques não mais deixou de usar o título de rei. Estava aberto o caminho para o reconhecimento oficial do reino, para o qual, aliás, D. João Peculiar, o arcebispo de Braga, muito contribuiu. O Prof. José Mattoso diz-nos mesmo que Afonso Henriques não teria conseguido alcançar os seus objectivos sem a preciosa ajuda desse prelado. Se Afonso Henriques representava a demonstração de poder e força, D. João Peculiar era a astúcia em pessoa e um excelente diplomata.
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24 de março de 2011
Batalha de Ourique IV - O Combate
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| José Filipe Photo |
Na manhã de 25 de Julho de 1139, Afonso Henriques tinha, pela frente, um exército muçulmano muito maior do que o seu. Por outro lado, sabia que o seu futuro como rei de Portugal dependia da vitória. Segundo Miguel Sanches de Baêna (Grandes Enigmas da História de Portugal - Vol. I, Ésquilo 2008) a sua estratégia baseou-se em mandar à frente os cavaleiros vilãos dos concelhos portugueses, a fim de irem desgastando os lançadores de dardos e flechas muçulmanos. Embora não tão bem armados como a cavalaria pesada dos barões nortenhos, os cavaleiros vilãos eram mais leves e destros.
Afonso adiou o mais possível o início das hostilidades, esperando que aquela guerra de nervos desgastasse também o inimigo. Quando finalmente mandou os cavaleiros vilãos avançar, estes precipitaram-se em direcção à infantaria almorávida, que começou a lançar os seus dardos, acompanhados de nuvens de flechas e virotes. Mas também os cavaleiros vilãos disparavam os seus arcos, a galope, ganhando assim as suas flechas mais velocidade. E, ao chegarem à linha de alcance dos projécteis mouros, fizeram meia-volta, com grande rapidez, e recuaram.
Antes de chegarem ao local onde se encontrava o príncipe com os seus cavaleiros, tornaram a mudar de direcção e a repetir o ataque anterior. Afonso notava como esta ofensiva na base do ataca/recua desgastava a infantaria almorávida, provocando grandes baixas e surpreendendo Ibn’Umar e os seus comandantes.
Claro que também a cavalaria pesada dos barões do norte entrou em acção, porém, numa altura em que as tropas muçulmanas já estariam desgastadas e sofrido grandes baixas. O comandante almorávida Ibn 'Umar tentou dar a volta à situação, mas Afonso Henriques possuía outros trunfos. Aqui, permiti-me uma liberdade, a fim de destacar os Templários, Ordem de Cavalaria sempre muito ligada ao nosso primeiro rei. Fizeram a sua aparição, quando os muçulmanos já não contavam com mais ninguém. Estes lembravam ainda a estranha cerimónia, de que se tinham apercebido, antes do início da batalha, ou seja, a aclamação de Afonso Henriques como rei de Portugal:
Claro que também a cavalaria pesada dos barões do norte entrou em acção, porém, numa altura em que as tropas muçulmanas já estariam desgastadas e sofrido grandes baixas. O comandante almorávida Ibn 'Umar tentou dar a volta à situação, mas Afonso Henriques possuía outros trunfos. Aqui, permiti-me uma liberdade, a fim de destacar os Templários, Ordem de Cavalaria sempre muito ligada ao nosso primeiro rei. Fizeram a sua aparição, quando os muçulmanos já não contavam com mais ninguém. Estes lembravam ainda a estranha cerimónia, de que se tinham apercebido, antes do início da batalha, ou seja, a aclamação de Afonso Henriques como rei de Portugal:
Afonso fez então uso do ardil que reservara para o fim. Os Templários, até aí despercebidos pelos mouros, avançaram a toda a força, cercando o exército inimigo, antes que este tivesse tempo de recuar. As hostes sarracenas, vendo-se rodeadas pelos cavaleiros da cruz, que pareciam surgir do nada, começaram a desesperar. A verdade é que muitos dos almorávidas tinham avançado para a batalha já assustados. A estranha cerimónia que tinham notado no cimo do outeiro do acampamento cristão, aos primeiros raios de sol, tinha-os posto nervosos. Logo correra pelo seu acampamento o rumor de que Ibn Errik, que muitos consideravam ser o próprio diabo, invocava forças e espíritos obscuros.
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| Combate |
E aqueles cavaleiros da cruz, surgidos de repente, eram a prova do “golpe de magia” daquele demónio. Assim encurralados, em pânico, os almorávidas, embora em maior número, tornaram-se presa fácil para os cristãos. Faltava-lhes a força para aguentarem os embates das armas contra os seus escudos redondos e os portugueses, que pareciam realmente dotados de forças sobrenaturais, serviam-se dos seus machados e das suas maças, decepavam braços e mãos, esmagavam crânios e ombros. Cercados por todos os lados, os almorávidas e as suas montadas agonizavam, manchando de sangue a terra dos campos de Ourique. Afonso e os seus homens não conheciam perdão, só parariam à morte do último mouro.
22 de março de 2011
Batalha de Ourique III - O Combate
Que a Batalha de Ourique se deu a 25 de Julho de 1139 e que as tropas portuguesas, lideradas por Afonso Henriques, aclamado rei nesse dia, embora em menor número, venceram a peleja, parece não oferecer margem para dúvidas. Porém, e para variar, pouco se sabe da estratégia usada e de como decorreu o combate, pois não nos chegou nenhuma descrição pormenorizada.
Eu segui a versão de Miguel Sanches de Baêna, explanada nos Grandes Enigmas da História de Portugal - Vol. I, Ésquilo 2008.
Embora baseadas nessa versão, as citações que se seguem são do meu romance:
Temos, assim, de um lado, cavaleiros pesados, com mais força de impacto, e, do outro, cavaleiros leves, com mais poder de manobra. Os cavaleiros pesados cristãos europeus correspondiam à nobreza, mas, em Portugal, existia outro tipo: os cavaleiros vilãos. Tratava-se de proprietários de terras com algumas posses, que lhes permitiam sustentar cavalo e comprar armamento. Estavam organizados em concelhos, territórios que não pertenciam a nenhum senhor nobre, e que tinham o seu centro na vila (daí, o nome de "vilãos"). Não raro, eram vistos com desprezo pelos nobres, por andarem mal armados. Porém, por isso mesmo, eram mais leves e destros. Além disso, estavam habituados a fossados em terras de mouros e a combates de fronteira, ou seja, conheciam as formas de luta dos muçulmanos.
Segundo Miguel Sanches de Baêna, em Ourique, Afonso Henriques terá apostado na destreza e na experiência dos seus cavaleiros vilãos, embora tal provocasse o desagrado dos seus barões:
Eu segui a versão de Miguel Sanches de Baêna, explanada nos Grandes Enigmas da História de Portugal - Vol. I, Ésquilo 2008.
Embora baseadas nessa versão, as citações que se seguem são do meu romance:
O cavaleiro cristão, com o seu armamento pesado e o forte cavalo normando, introduzido na Hispânia pelos francos, montava à brida, com loros compridos, as pernas esticadas para a frente e a lança firme, ou sobre mão, a fim de aguentar impactos e, ao mesmo tempo, apoiar-se na carga de grande violência.
Mas o exército de Ibn’Umar era quase três vezes maior do que o dele, não seria fácil destruir a sua formação, por mais demolidora que a carga fosse. Além disso, os mouros do Andalus tinham desenvolvido estratégias capazes de quebrar a violência de tais impactos. Os seus exímios lançadores de dardos e os não menos habilidosos archeiros posicionavam-se na primeira linha. Nuvens de flechas flagelavam a cavalaria cristã, mantendo-a à distância, e, assim que esta mostrava sinais de desgaste, a infantaria muçulmana criava intervalos na sua formação, a fim de deixar passar a sua cavalaria, que caía então sobre os cristãos desorganizados.
A leveza dos cavaleiros almorávidas revelava-se vantajosa neste tipo de táctica. Montavam à gineta, com loros curtos e ferro de boca em bridão, tirando partido da flexibilidade e da destreza dos seus cavalos árabes. Embora também usassem cotas de malha, os chamados lorigões, os seus escudos redondos eram mais pequenos e mais leves do que os oblongos dos cristãos, apelidados de cometa. Atacavam, fugiam, voltavam a atacar, em manobras que o cavaleiro pesado não conseguia acompanhar. Além disso, esgrimiam os dardos curtos, as espadas e os sabres com grande destreza.
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| Terras de Santiago |
Temos, assim, de um lado, cavaleiros pesados, com mais força de impacto, e, do outro, cavaleiros leves, com mais poder de manobra. Os cavaleiros pesados cristãos europeus correspondiam à nobreza, mas, em Portugal, existia outro tipo: os cavaleiros vilãos. Tratava-se de proprietários de terras com algumas posses, que lhes permitiam sustentar cavalo e comprar armamento. Estavam organizados em concelhos, territórios que não pertenciam a nenhum senhor nobre, e que tinham o seu centro na vila (daí, o nome de "vilãos"). Não raro, eram vistos com desprezo pelos nobres, por andarem mal armados. Porém, por isso mesmo, eram mais leves e destros. Além disso, estavam habituados a fossados em terras de mouros e a combates de fronteira, ou seja, conheciam as formas de luta dos muçulmanos.
Segundo Miguel Sanches de Baêna, em Ourique, Afonso Henriques terá apostado na destreza e na experiência dos seus cavaleiros vilãos, embora tal provocasse o desagrado dos seus barões:
Afonso acrescentou:
- Os cavaleiros vilãos de Coimbra e dos outros concelhos formam uma cavalaria bem mais ligeira do que nós.
Olhavam-no siderado. Fernando Mendes, o Braganção, não se conteve:
- Pudera! Faltam-lhes os recursos, andam mal armados e mal amanhados. Muitos deles nem sequer têm lorigão!
O príncipe conhecia o desprezo com que a nobreza nortenha tratava os cavaleiros sem pergaminhos. Mas ele, que lhes admirava a coragem e a astúcia, ripostou:
- Aprenderam as técnicas de construção dos arcos e das bestas dos infiéis e treinaram o seu uso a cavalo. Também as suas montadas dispõem de grande poder de manobra, são o resultado de cruzamentos com as raças árabes. É desses archeiros velozes a cavalo que nós precisamos, para dar cabo da infantaria de Ibn’Umar!
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Batalha de Ourique,
Citando Afonso I,
D. Afonso Henriques,
Mouros
19 de março de 2011
Batalha de Ourique II - A Aclamação
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| etc... |
O futuro do nosso primeiro rei jogou-se na Batalha de Ourique, atrevo-me mesmo a dizer que o "verdadeiro" Afonso Henriques, como hoje o conhecemos, nasceu naquele dia. Foi a partir de Ourique que começaram a cursar os rumores sobre a sua "força sobrenatural", entre os muçulmanos hispânicos. O que me leva a concluir que a sua aclamação de rei não se deu por acaso, terá sido uma manobra astuta, o que aliás confirma que muito do seu sucesso se baseou nas suas inteligência e astúcia, não só na força bruta.
Diz-nos a lenda que o exército inimigo era comandado por cinco reis mouros. Mais uma vez, deparamo-nos com dificuldades de interpretação. O império almorávida, que regia sobre o al-andalus, encontrava-se em decadência, ameaçado pelos almóadas. Muitos governadores de cidades consideravam-se independentes do poder central, formavam os chamados reinos taifas e intitulavam-se de reis, embora estivessem longe de possuir o poder de um verdadeiro monarca.
De qualquer maneira, parece não haver dúvidas de que o exército mouro era muito maior do que o de Afonso Henriques, mais do dobro, talvez o triplo. Eu aproveitei a lenda:
Ao cair da noite, o príncipe estava reunido com os seus comandantes, quando os espiões moçárabes regressaram. Os homens apresentaram-se tão hesitantes, que ele perguntou:
- Não conseguistes misturar-vos com os soldados mouros?
- Conseguimos D. Afonso... Mas aquilo que ouvimos, enche-nos de medo. Ibn’Umar, rei de Granada e de Córdova, veio em pessoa reunir as hostes que restavam em Badajoz, Évora, Beja e Silves. Já para não falar dos reforços de além-mar. Entretanto, até se lhe juntou Abu Zakariya, o rei de Santarém. O que faz deles cinco reis juntos!
Os senhores entreolharam-se siderados. Afonso retorquiu impassível:
- De que tamanho é o exército de Ibn’Umar?
- Mais de cinco mil homens.
Os barões desataram num burburinho inquieto. Afonso calou-os com um gesto e fez sinal ao espião para que continuasse:
- Cortam-nos o caminho até ao Guadiana. Ibn’Umar tomou providências para que a zona entre Beja e o rio fosse igualmente vigiada. Diz-se que ele pretende acabar com Ibn Errik o mais depressa possível, pois anseia partir para Aurélia com os reforços, a fim de fazer frente ao imperador.
A lenda diz igualmente que Jesus Cristo terá surgido a Afonso Henriques, na noite anterior à batalha, e lhe prometeu a vitória. Talvez este aspecto sirva para explicar como é que homens assustados e em muito menor número do que o inimigo conseguiram vencer a peleja. No meu livro, Cristo não aparece ao nosso primeiro rei, mas este não deixa de receber "inspiração divina". Não revelo aqui, porém, qual, há-de haver razão para que queiram ler o romance ;-)
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| Terras de Santiago |
O que parece não oferecer qualquer dúvida é o facto de Afonso Henriques ter sido aclamado rei pelas suas hostes, naquela manhã. O que terá funcionado a nível psicológico. Apercebendo-se de que os seus homens receavam o numeroso exército inimigo, Afonso Henriques, consciente de que naquela batalha se jogava o tudo e o nada, terá apostado na força psicológica, através de um ritual, pondo em prática aquilo que já muitos desejavam: a transformação do condado em reino e a sua aclamação como rei de Portugal.
Os primeiros raios de sol iluminavam o cimo do outeiro, onde se tinham juntado todos os guerreiros, a fim de assistirem à cerimónia, naquela manhã de 25 de Julho de 1139, dia de Santiago Mata-Mouros. Afonso Henriques, já armado para a batalha, ostentava o seu pavês, o escudo que usava em cerimónias solenes, adornado com as suas armas: escudetes azuis em forma de cruz. Deu-o para as mãos de Egas Moniz, que o pousou no chão. Afonso pôs-se então em cima do pavês e desembainhou a sua espada. Assim foi erguido, por vários dos seus cavaleiros.
O hábito de aclamação de um rei em cima do seu escudo era um antigo costume visigótico, uma aclamação guerreira que dispensava a coroação litúrgica. E quando os soldados o viram a ser erguido sobre o pavês, de espada em punho, jubilaram:
- Viva el-rei D. Afonso de Portugal!
Afonso pediu silêncio e falou-lhes:
- Nada temei, bravos guerreiros! Somos menos do que o inimigo, mas a vitória está-nos garantida. - A sua voz, já de si poderosa, troava cada vez mais forte: - Porque para esta nossa primeira batalha contra os infiéis, sem ajudas, seja de quem for, a protecção divina foi-me pessoalmente garantida!
Já nenhum dos soldados duvidava que a força daquela voz vinha directamente dos céus. Afonso bradava, sem que se notasse que fizesse pausas para respirar:
- O povo de Portucale, ou Portugal, foi, é e será sempre capaz de lutar sozinho pelos seus interesses. Aqui vos prometo, bravos guerreiros de Portugal: tudo aquilo que viermos a conquistar à mourama, há-de pertencer só a nós! Nada entregaremos de bandeja ao imperador Afonso VII!
Os homens responderam em uníssono, como se um maestro os dirigisse:
- Viva el-rei D. Afonso de Portugal!
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Citando Afonso I,
D. Afonso Henriques,
Mouros
15 de março de 2011
Batalha de Ourique - Os Preliminares
À semelhança de vários aspectos da vida de Afonso Henriques, a Batalha de Ourique levanta problemas aos historiadores, a começar pelo próprio local em que se terá dado. O nome parece não deixar margem para dúvidas. Porém, à altura, a fronteira sul do Condado Portucalense ainda não chegava ao Tejo. Apesar de já ter mandado construir o castelo de Leiria e colocado um posto de vigia em Tomar, Afonso Henriques ainda não tinha feito nada daquilo pelo que haveria de se tornar famoso: a conquista de territórios aos mouros. Como é que se explica, assim, uma batalha em pleno Baixo Alentejo?
Baseado no Dr. José Saraiva, o Prof. Freitas do Amaral considera a hipótese do "«Campo de Ourique», junto à nascente do rio Lis, na freguesia das Cortes, concelho de Leiria - que fica situada a cerca de oito quilómetros a sul da cidade de Leiria" (Biografia de D. Afonso Henriques, 5ª Edição, Bertrand Editora 2000, página 81).
No entanto, o Prof. Mattoso, na biografia já aqui citada, considera verosímil a localização no Baixo Alentejo, baseado nas razias e nos fossados que as populações de fronteira levavam a cabo, em terras de mouros. Muitas vezes, os monarcas hispânicos embarcavam nessa prática, organizando expedições de grande envergadura, sem o intuito de conquista, mas tão-só de intimidação e saque. Também os muçulmanos usavam esse tipo de estratégia, numa demonstração de força, de parte a parte.
Afonso Henriques regia, há mais de dez anos, sobre o Condado Portucalense, mas ainda mal se tinha dado a conhecer aos muçulmanos, já que passara aquele tempo tentando intimidar o primo, D. Afonso VII. Depois de perder os territórios galegos conquistados (ver Tratado de Tui), o nosso primeiro rei terá sentido necessidade de mudar de estratégia, virando-se para sul.
O ano de 1139 era favorável. Os almorávidas, a casta bebere que dominava o al-andalus (assim se chamava a Hispânia islâmica) tinham problemas com os seus rivais, os almóadas. Tashufin, o filho do emir almorávida, teve de ir em ajuda do pai, ao Norte de África, deixando Ibn 'Umar, governador de Córdova e Granada, a substituí-lo. D. Afonso VII aproveitou esse momento vulnerável para cercar a cidade de Aurélia e Afonso Henriques para organizar uma grande expedição de saque, a sul do Tejo.
No regresso, terão atravessado o Guadiana perto de Mértola, dirigindo-se para oeste, a fim de contornarem Beja. Aventuraram-se, talvez, longe demais e foram interceptados pelos mouros:
Baseado no Dr. José Saraiva, o Prof. Freitas do Amaral considera a hipótese do "«Campo de Ourique», junto à nascente do rio Lis, na freguesia das Cortes, concelho de Leiria - que fica situada a cerca de oito quilómetros a sul da cidade de Leiria" (Biografia de D. Afonso Henriques, 5ª Edição, Bertrand Editora 2000, página 81).
No entanto, o Prof. Mattoso, na biografia já aqui citada, considera verosímil a localização no Baixo Alentejo, baseado nas razias e nos fossados que as populações de fronteira levavam a cabo, em terras de mouros. Muitas vezes, os monarcas hispânicos embarcavam nessa prática, organizando expedições de grande envergadura, sem o intuito de conquista, mas tão-só de intimidação e saque. Também os muçulmanos usavam esse tipo de estratégia, numa demonstração de força, de parte a parte.
Afonso Henriques regia, há mais de dez anos, sobre o Condado Portucalense, mas ainda mal se tinha dado a conhecer aos muçulmanos, já que passara aquele tempo tentando intimidar o primo, D. Afonso VII. Depois de perder os territórios galegos conquistados (ver Tratado de Tui), o nosso primeiro rei terá sentido necessidade de mudar de estratégia, virando-se para sul.
O ano de 1139 era favorável. Os almorávidas, a casta bebere que dominava o al-andalus (assim se chamava a Hispânia islâmica) tinham problemas com os seus rivais, os almóadas. Tashufin, o filho do emir almorávida, teve de ir em ajuda do pai, ao Norte de África, deixando Ibn 'Umar, governador de Córdova e Granada, a substituí-lo. D. Afonso VII aproveitou esse momento vulnerável para cercar a cidade de Aurélia e Afonso Henriques para organizar uma grande expedição de saque, a sul do Tejo.
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| Em Miniatura |
Com tantos homens armados, Afonso reconquistou Leiria. Atravessaram o Tejo a leste de Santarém, penetrando cada vez mais em zonas a eles estranhas, mesmo às milícias vilãs, que estavam habituadas a fossados e algaras em terras de mouros. Mantendo-se afastados, tanto de Évora como de Badajoz, atacaram e pilharam povoações, devastaram os campos e destruíram as colheitas. Ousaram mesmo atravessar o Guadiana, a sul de Badajoz, continuando os seus ataques sem se distanciarem muito do rio, pois era de evitar a zona de influência de Sevilha.
Julho ia a meio e o cerco do imperador Afonso VII a Aurélia já durava há dois meses. A fim de ir em socorro da cidade assediada, Ibn’Umar, governador de Córdova e Granada, representante de Tashufin, ocupava-se a reunir reforços e a comandar razias em territórios leoneses, numa tentativa de desviar o imperador daquela cidade. As hostes de Afonso viram-se assim livres para se apoderarem de muitos despojos e fazerem cativos, que venderiam ou manteriam como escravos.
No regresso, terão atravessado o Guadiana perto de Mértola, dirigindo-se para oeste, a fim de contornarem Beja. Aventuraram-se, talvez, longe demais e foram interceptados pelos mouros:
A preocupação de Afonso crescia, à medida que o mês de Julho se aproximava do fim, sem que tivessem sequer começado a deslocar-se em direcção ao norte. Aquela região inóspita, a que se chamava os campos de Ourique, deixava-o nervoso. Não havia florestas, onde se pudessem esconder em caso de necessidade, só uma imensa charneca, cujos arbustos o sol transformava em palha. E, quando os batedores, que eram mandados apalpar o terreno, esgotados e suados, se punham a observar a planície, o sol fazia-os ver movimentos e sombras onde estes não existiam.
No meio da sua preocupação, Afonso deu-se consigo a admirar ainda mais a arte dos mouros. Com os seus sistemas de irrigação, como noras e canais, alguns subterrâneos, os infiéis faziam surgir plantações viçosas no meio de zonas desérticas. Mas tais pomares e searas concentravam-se à volta das cidades, precisamente as zonas que o príncipe e os seus homens evitavam.
Afonso estava tão convencido de que a sua expedição já havia chegado aos ouvidos de Ibn’Umar, que, a 24 de Julho, quando o corso se virava finalmente para norte, ali nos campos de Ourique, não se surpreendeu ao ouvir os batedores informá-lo que um exército inimigo lhes cortava o caminho. Os homens relatavam, à beira do pânico, que, além dos estandartes do Andalus, com os versículos do Corão escritos a verde sobre fundo branco, tinham avistado outros com inscrições a negro sobre fundo vermelho, o que provava a existência de reforços de além-mar.
13 de março de 2011
Herança islâmica
Republico o texto que escrevi para o Delito de Opinião, ao aceitar o amável convite do Pedro Correia, concretizado a 4 de Fevereiro passado, agora que, continuando a minha série sobre D. Afonso Henriques, vou entrar na fase em que o nosso primeiro rei inicia os seus combates contra os mouros.
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| D. Afonso Henriques e os Mouros |
Desde que me dediquei à pesquisa histórica medieval, aprendi que devemos aos mouros esta maneira portuguesa de ser, que se costuma resumir na palavra "saudade". E, no entanto, desprezamos a nossa herança islâmica. Tenciono chamar a atenção para esse desprezo a que votamos uma parte importante do nosso passado. Porque quem insiste em esquecer o seu passado, ignora parte da própria identidade.
Embora, nos últimos anos, tenha havido um certo esforço por parte de alguns historiadores e arqueólogos, existem poucas obras profundas sobre o período islamita em terras portuguesas. Quem eram os líderes islâmicos que aqui dominaram durante quatro séculos? Quais os seus contributos para o desenvolvimento das regiões, da cultura, etc., etc.?
Sabe-se, por exemplo, que os mouros possuíam conhecimentos muito mais avançados do que os cristãos. Com as suas invenções, como a nora e outros sistemas de irrigação, que incluíam canais subterrâneos, fizeram florescer a agricultura em regiões inóspitas. Traduziram as obras dos filósofos e médicos gregos da Antiguidade para o árabe e, a partir daqui, para o latim, permitindo à Cristandade entrar em contacto com escritos esquecidos desde o desmoronar do Império Romano. Aliás, tomando o exemplo da Medicina, não se pode comparar o nível dos médicos islâmicos de então com os cristãos, razão pela qual aqueles eram procurados pelos próprios monarcas hispânicos. Que tentavam, ainda, imitar, a todo o custo, o luxo e a grandeza das cortes mouras.
O próprio D. Afonso Henriques teve uma relação de amizade com Ibn Qasî, um líder islâmico originário de Silves. O teor dessa amizade ainda hoje se encontra coberto pela penumbra, pois falta quem se interesse pelo assunto. Ibn Qasî era líder do movimento espiritual sufi, que tinha o seu centro em Mértola.
Muito mais haveria para dizer sobre o tema, mas, como este texto se resume a uma chamada de atenção, refiro um último aspecto: a influência moura em Portugal não acabou com a conquista do Algarve por D. Afonso III. Persistiram as mourarias, os bairros destinados aos mouros, nas cidades mais importantes do reino. Num lindíssimo livro (tanto a nível de texto, como de ilustrações) intitulado Em busca da Lisboa Árabe, publicado pelos CTT em 2007, Adalberto Alves fala-nos no drama vivido pelos últimos mouros em terras portuguesas, depois de D. Manuel I decretar, em 1496, a expulsão do reino de todos os que não se convertessem à fé católica.
Muitos conseguiram simular uma integração, mas ficaram sujeitos às mais variadas atribulações, no que constituiu um dos maiores dramas da História da Península do século XVI. Como nos diz Adalberto Alves, na obra referida: “transformados em marginais, rufiões e desclassificados, ébrios de fatalidade, frequentavam ainda Alfama e Mouraria vagueando como fantasmas gastos, sob a pálida memória dos seus antepassados”; “inventam um género musical e com ele cantam o seu fado”; “ao percorrermos certas alfurjas esquecidas de Lisboa antiga, parece sentirmos ainda como que os ecos longínquos desses fados esquecidos, onde o árabe se enroupava em português para exprimir o lamento dos humilhados do destino.”
No livro, é ainda reproduzida, na página 147, uma fotografia do autor na companhia de Amália Rodrigues, que, como Adalberto Alves nos diz, “estava intimamente convicta da parentela entre o fado e a música árabe, que muito apreciava”.
Para quando estudos sérios (livros, ensaios, programas de televisão) sobre este e outros aspectos da cultura moura em Portugal?
Quando deixaremos nós de desprezar a nossa herança islâmica?
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