![]() |
| Egas Moniz na corte de D. Afonso VII |
Todos nós conhecemos a lenda de D. Egas Moniz de Ribadouro, que se apresentou, junto com a família, a el-rei D. Afonso VII, primo de D. Afonso Henriques, com uma corda à volta do pescoço, para que o monarca pudesse fazer justiça. Egas Moniz via-se impossibilitado de manter a sua palavra, ao prometer a D. Afonso VII, por altura do cerco a Guimarães, que o primo lhe prestaria vassalagem.
Durante muitos séculos, acreditou-se que este acontecimento fosse verídico. Na verdade, terá sido obra de um trovador da corte de D. Afonso III, pai de D. Dinis, chamado João Soares Coelho. Na segunda metade do século XIII, a família de Ribadouro estava extinta, mas João Soares Coelho era descendente dela por linha bastarda. A fim de honrar o seu antepassado, criou um cantar épico, a Gesta de Egas Moniz, onde se contava o episódio. Este entranhou-se no imaginário colectivo e foi incluído nas crónicas medievais, como se de um facto se tratasse.
De facto, a lenda (como todas as lendas, baseada em acontecimentos verídicos) apresenta algumas incongruências. Está historicamente provado que existiu o cerco a Guimarães, no Outono de 1127. O que fica por dizer é que, nessa altura, era D. Teresa quem regia sobre o Condado Portucalense, pois ainda não se tinha dado a batalha de São Mamede! Afonso Henriques, com cerca de dezoito anos, era um jovem infante (por sua mãe se intitular rainha), que não tinha ainda travado nenhuma batalha, nem feito uma conquista que fosse!
![]() |
| D. Teresa |
D. Teresa hesitava em prestar vassalagem ao sobrinho. E o jovem monarca, andando pela Galiza, terá resolvido cercar Guimarães, a fim de pressionar a tia, que estaria em Coimbra. Não se sabe se exigiu a vassalagem ao primo, mas talvez tencionasse puxá-lo para o seu lado, isolando a mãe.
E terá alcançado o seu objectivo! Afonso Henriques começou por oferecer resistência, pois houve alguns dias de combates (terão sido os seus primeiros combates "a sério"). Mas cedo constatou que travava uma luta inglória. Talvez fosse Egas Moniz, quem negociou uma solução com el-rei. Foi essa a minha opção, afinal, há uma lenda a seguir:
- São por demais conhecidas as intenções rebeldes dos senhores portucalenses.
- E é vosso primo o regente do Condado?
- Não. Mas chegou-me aos ouvidos que ele é venerado pelos mais poderosos. E que se intitula infante, ou mesmo príncipe! Com que direito? Ele será, no máximo, um conde, e isso, só quando substituir a sua mãe. Ficará, para sempre, um vassalo da coroa leonesa, como o seu pai antes dele. É isso mesmo que eu quero que fique claro entre nós.
Aclarando a garganta, Egas retorquiu, num tom que denunciava intimidade:
- Aqui entre nós, alteza, vosso primo é um jovem inteligente, de bom coração, a quem meu irmão Ermígio e eu próprio demos uma educação esmerada. Mas é também orgulhoso e, desculpai-me a franqueza, teimoso que nem um asno! Reconheço que a política interna do Condado Portucalense passa por uma fase confusa. Mas lembro que a regente é sua mãe. Vosso primo, no fundo, não tem autoridade para assumir a submissão de vassalagem. O que quer dizer que, mesmo que ele vos preste agora homenagem, poderia, mais tarde, anular a validade de tal juramento.
- Há uma certa verdade nas vossas palavras, D. Egas Moniz - replicou o rei pensativo, tamborilando com as pontas dos dedos no braço do cadeirão. Depois, declarou: - Fiquemos, então, por uma prova da sua amizade!
- Prova de amizade, alteza?
- Exactamente. A fim de me assegurar a sua colaboração em tempos futuros.
- E de que maneira seria dada essa prova?
- Tenho que regressar à Galiza, onde deixei casos pendentes. Gostaria que meu primo me acompanhasse, para que nos conhecêssemos melhor e para que ele subscrevesse os meus diplomas.
Egas respirou fundo e perguntou:
- Se eu vos prometer que ele irá convosco, poreis fim ao cerco?
- Imediatamente.
- Dou-vos, então, a minha palavra, meu rei e senhor.
Na já aqui falada biografia do nosso primeiro rei, o Prof. Mattoso prova que ele confirmou, com a sua assinatura, três importantes diplomas de D. Afonso VII, lavrados a 13 de Novembro de 1127, em Santiago de Compostela (pouco depois do cerco a Guimarães). O que até terá agradado a Afonso Henriques:
Afonso achava agora perceber o que levara seu primo a pôr cerco a Guimarães. D. Teresa insistia em considerar a Galiza como sua parte da herança, o que, com certeza, causava valentes dores de cabeça a Afonso VII. Ora, se este conseguisse captar a amizade do infante, que representava o futuro do Condado Portucalense, matava dois coelhos com uma cajadada: livrava-se das exigências da tia e assegurava um colaborador!
Por seu lado, Afonso só tinha a ganhar com esta história: convencia o primo das suas boas intenções, sem, ao mesmo tempo, lhe prestar vassalagem, pois ainda não possuía autoridade para tal. Uma simples promessa de amizade não tinha qualquer valor legal. Além disso, o facto de el-rei se contentar com uma solução que salvava a honra das partes, sem resolver o problema de fundo, agradava a Afonso, fazia-o sentir-se em vantagem neste primeiro contacto entre eles, sem a interferência de terceiros.
Afonso Henriques terá, mais tarde, posto Egas Moniz em dificuldades, ao não levar a sério esta "prova de amizade". Depois de São Mamede, conquistou territórios galegos, mandando mesmo construir um castelo em Celmes, desafiando o poder do primo.

