Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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25 de abril de 2019

Abril no feminino?


Estava eu sem inspiração nenhuma para escrever sobre o 25 de Abril, quando deparei com um post da jornalista Helena Ferro de Gouveia no Facebook:

«Mulheres de Abril
A história da Revolução ainda é contada no masculino deixando na sombra aquelas que foram chamadas de “companheiras na sombra”. Seja Maria Barroso, a retaguarda familiar de Soares, sejam as mulheres no partido comunista, sejam escritoras, artistas, professoras, sejam as mulheres de alguns movimentos católicos, sejam as mulheres-mães-noivas-namoradas dos que combateram na guerra colonial ou dos que pensaram o derrube do regime.
Mesmo após o fim da ditadura, no período quente, elas não viveram tempos fáceis. A escritora Maria Teresa Horta recorda que ajudou a organizar uma manifestação de luta pelos direitos das mulheres. Nessa manifestação previa-se a queima de símbolos da opressão feminina: vassouras, grinaldas de noiva… Porém, centenas de homens juntaram-se em redor das mulheres e começaram a bater-lhes. "Eram murros, despiam as mulheres, tentavam violá-las", conta a escritora.
Quarenta e cinco anos depois de Abril muito mudou para as mulheres em matéria de direitos e liberdades, há ainda um longo caminho a percorrer para mudar mentalidades e falta cumprir a igualdade. E foi também para isso que se fez Abril.»

Interessa-me o papel da mulher nos vários momentos da História e comecei a ler Mulheres da Clandestinidade, de Vanessa de Almeida. O que mais me surpreendeu, até agora, foi a forma de como as mulheres comunistas eram discriminadas no próprio partido, um partido que, já durante o salazarismo, fazia da igualdade uma das suas bandeiras.

Porém, os nossos comunistas não são caso único. Vi, há tempos, um documentário na TV alemã sobre as mulheres do Kremlin e fiquei igualmente abismada como elas eram usadas, mas “escondidas”, a fim de dar protagonismo aos homens. Muito poucos saberão o nome das mulheres que estiveram ao lado de personalidades como Lenine ou Estaline, por exemplo. Ainda hoje, a Rússia não lida bem com a figura da “primeira dama” (para não falar de uma mulher à frente dos destinos da nação). Nesse programa, dizia-se que Raíssa Gorbachev foi muito criticada por constantemente surgir ao lado do marido. Putin surge sempre sozinho. É verdade que se separou da mulher, mas, mesmo quando ainda eram casados, a sua actuação era idêntica. Ou alguém se lembra da mulher de Putin?

Regressando à nossa Revolução: é sabido que o 25 de Abril abalou os costumes, porquanto o vendaval causado pelos chaimites de Salgueiro Maia coincidiu com a revisão da Concordata, por parte do Vaticano, permitindo o divórcio civil para casais unidos pela Igreja. Mesmo sendo criança (entre os oito e os doze anos, se englobarmos o Verão Quente e o período que se lhe seguiu), não fiquei indiferente à confusão de certos adultos, perante tanta liberdade. Há uns anos, escrevi as minhas memórias do 25 de Abril, que acabei por misturar com comentários da adulta que hoje sou. Ainda não consegui publicá-las em livro, mas não resisto a transcrever um pequeno excerto:

«Muitos pais de família romperam com as amarras que os haviam levado ao casamento apenas para terem sexo à disposição. Partiram à procura das Emanuelles* e das gargantas fundas*, o que aliás está longe de implicar que as tenham encontrado. Sá Carneiro acabou por personalizar esta nova ordem, ao divorciar-se para se juntar a outra mulher. É curioso constatar que foi um homem de direita, que muitos apelidavam ainda de fascista, que acabou por se tornar na personificação da nova ordem.
Porém, o desaparecer de muitas convenções sociais e de outras fachadas foi, em parte, aparente. À semelhança de outros momentos da História, as liberdades a nível individual eram pensadas sobretudo para os homens. Naqueles anos imediatos ao 25 de Abril, ainda não se aceitava bem a ideia de que a esposa, a mãe divorciada, que ficava com os filhos a seu cargo, fosse à procura de novo parceiro. Ela própria se escusava a tal comportamento. A sua atitude de protesto passava, paradoxalmente, pela defesa dos valores tradicionais».


* Expressões baseadas em títulos de filmes mais ou menos pornográficos que, na altura, se mantiveram meses (talvez até anos) em exibição nos cinemas e se transformaram em verdadeiros símbolos da nova era.

Nota: texto originalmente publicado aqui.


15 de janeiro de 2018

Recordando Francisco Sá Carneiro

Do Boletim da Assembleia da República COMUNICAR, Janeiro 2018:

«Na sessão de 15 de janeiro de 1972 da Assembleia Nacional, Francisco Sá Carneiro, Deputado da denominada Ala Liberal, denuncia a atuação da Direção-Geral de Segurança como atentatória dos direitos humanos, referindo diversas queixas por “prisões e buscas sem mandados”, pelos “métodos de interrogatórios praticados, durante os quais se não admite a presença de advogado dos suspeitos presos”, assim como pelo regime prisional da Cadeia de Caxias.

O Deputado exige o respeito da legalidade, com a presença de advogado nos interrogatórios, garantia do tratamento justo das pessoas, preservando-as de qualquer “coação física e moral”, e, simultaneamente, da própria credibilidade das autoridades instrutórias. Sá Carneiro refere que se trata apenas de defender o cumprimento da lei, pois a “investigação não é, não pode nunca ser, obtenção de confissões”.
(...)
Por entre interrupções e apartes, Sá Carneiro prossegue solicitando o fim das detenções de pessoas sem culpa formada em “crimes contra a segurança do Estado”».

Um ano mais tarde, Sá Carneiro apresentou um projeto de lei de amnistia dos presos políticos, sobre o qual a Comissão de Política e Administração Geral e Local emitiu o seguinte parecer:

«“Passando à Apreciação do Projeto de Lei apresentado pelo Senhor Deputado Francisco Sá Carneiro, foi o mesmo unanimemente considerado, pelos membros presentes à reunião da Comissão de Política e Administração Geral e Local, como gravemente inconveniente.”»

Francisco Sá Carneiro renunciou, assim, ao seu mandato. 
Depois da Revolução, seria o primeiro Secretário-Geral do Partido Popular Democrático, do qual foi cofundador. Viria a ser Primeiro-Ministro num governo liderado pela coligação AD, mas faleceu a 4 de dezembro de 1980, num desastre de aviação, com apenas 46 anos.

Quem quiser ler mais sobre a intervenção de Francisco Sá Carneiro, na sessão de 15 de janeiro de 1972, pode fazê-lo aqui:

http://app.parlamento.pt/COMUNICAR/Artigo.aspx?ID=1112

 
   

6 de abril de 2017

Convite!


Helena Tavares conhece Leonel Moreira, membro das Brigadas Revolucionárias, no efervescente meio estudantil de 1973/74. Os dois envolvem-se numa relação amorosa e acabam presos em Caxias, nas vésperas da revolução.

É deste livro que se vai falar, no dia 20 de Abril, pelas 18h 30m, na UNICEPE.


25 de abril de 2016

Faces da Revolução


Enfim, não havia como recuar. Restava-lhe tentar compor as coisas de maneira a que o resto da família não sofresse as consequências do comportamento da filha. O facto de outros filhos de boas famílias se deixarem igualmente envolver em ações subversivas dava-lhe um certo conforto, sentia-se menos sozinho, mais compreendido. Talvez devesse dirigir-se aos seus antigos contactos da PIDE, explicar-lhes que era vítima de uma filha desmiolada e que fazia questão de que ela fosse tratada com toda a dureza. Talvez até se oferecesse para ir a Caxias dar-lhe umas bordoadas.
Começaria por se desculpar perante o Professor Marcelo Caetano, não deixando margem para dúvidas de que lhe saíra na rifa uma «filha má», apesar do empenho que ele pusera na sua educação. Dedicou vários dias à escrita da carta, relendo e corrigindo, até ela lhe parecer perfeita. Depois, num serão de quarta-feira, aproveitou o facto de a mulher e o filho estarem a ver televisão, para se posicionar no meio da sala e ler-lhes a missiva, deixando claro ao miúdo, ainda a acabar o liceu, a vergonha que a irmã fazia toda a família passar.
Apesar de o rapaz se mostrar enfastiado por aquela interrupção de um jogo de futebol, nada disse. Jogava-se a segunda mão da meia-final da Taça das Taças, com participação portuguesa: o Sporting Clube de Portugal enfrentava o Magdeburgo, da República Democrática Alemã. O rapaz nem sequer perguntou ao pai se não se interessava pelo jogo. Por um lado, receava-o; por outro, mantinha-se a leste do assunto, não mostrando a mínima emoção pelo destino da irmã.
Ao jantar, apercebendo-se de que o Sporting falhara a final, ao não conseguir marcar um segundo golo, o pai iniciou uma divagação sobre o desempenho das equipas portuguesas em taças europeias. A esposa e o filho comeram no mais completo dos silêncios.
Em seguida, viu um pouco de televisão, tornou ao escritório e datou finalmente a carta: «24 de Abril de 1974». Enfiou-a, cheio de brio, num envelope, que endereçou ao Presidente do Conselho de Ministros. No dia seguinte, metê-la-ia no correio.
Olhou para o relógio. Eram quase onze horas. Ligou o rádio para ouvir as notícias. Passava, mais uma vez, a canção interpretada por Paulo de Carvalho, que representara Portugal no Festival da Eurovisão, havia quase duas semanas. Não ligava a cantorias, mal sabia distinguir as canções umas das outras. Mas, por acaso, conhecia alguns versos de E Depois do Adeus, tantas vezes a ouvia…

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei.



© Cristina Torrão





1 de outubro de 2015

A propósito de eleições...


Daqui

           
            Para a Verónica, o primeiro acontecimento relacionado com a revolução digno de nota foram as eleições para a Assembleia Constituinte, as primeiras totalmente livres em Portugal, onde puderam votar todos os cidadãos maiores de idade, homens e mulheres. Oportunamente marcadas para 25 de abril de 1975, foram intensamente vividas, a abstenção não chegou a atingir os 10%.
A Verónica acompanhou a mãe à assembleia de voto. A primeira coisa que viu foi uma enorme fila, pela rua fora. Pessoas que já haviam exercido o seu direito de voto, mas que ainda por ali se quedavam, conversavam animadamente.
A mãe da Verónica colocou-se no fim da fila, a filha a seu lado. À medida que se iam aproximando do edifício, ouviam conversas ainda mais excitadas. Começaram a ter a sensação de que, lá dentro, ralhavam uns com os outros. Quando entraram, constataram que ninguém se entendia!
Os cadernos eleitorais eram folheados de trás para a frente e da frente para trás, em grande azáfama. Pelos vistos, revelava-se difícil encontrar os nomes dos eleitores que se apresentavam. Por vezes, desesperados pela procura infrutífera, os voluntários de serviço sentiam-se tentados a entregar o boletim de voto ao eleitor, sem terem dado baixa do nome. Eram travados pelo presidente da mesa, que gesticulava e berrava: «isto não pode ser assim». Eleitores que já tinham votado surgiam com o boletim ainda aberto, querendo metê-lo na urna, pelo que o homem alertava: «tem de o dobrar! Então? O voto é secreto». Outros, vendo as cabines de voto ocupadas, tencionavam fazer a sua cruz logo ali, em cima da mesa, e o homem via-se aflito para os pôr na ordem. Ainda outros, indignados com os seus berros, berravam-lhe de volta. E havia ainda quem lhe solicitasse: «Ó senhor, diga-me lá onde ponho a cruz para votar na mãozinha dos socialistas!»


 O homem suava as estopinhas. E era um velho conhecido da Verónica: o pai da morenita, o senhor magrinho, que tinha estado preso naquele sítio onde lhe batiam e não lhe davam os óculos e que a Verónica sabia agora ter-se tratado de um calabouço da PIDE.
Os ânimos estavam tão exaltados, que ela ficou com receio de que aquilo desse para o torto, enquanto a mãe se via aflita para que lhe prestassem atenção. Quando finalmente lhe passaram o boletim para as mãos, o pai da morenita não deixou a filha ir para a cabine de voto com ela. A Verónica ficou à espera que ela exercesse o seu direito cívico, impressionada com a aflição do senhor, que não sabia para onde se virar. Estivera preso por pertencer ao Partido Comunista, mas a democracia e a liberdade, naquele momento, também se lhe revelavam complicadas. Pelo menos, ninguém lhe roubava os óculos, apesar de a Verónica ter a impressão de que havia gente com vontade de lhe bater.
Eram as eleições à portuguesa. Premiaram o «socialismo à portuguesa».