«Não se pode ser justo, se não se for humano».
Luc de Clapiers Vauvenargues
Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
24 de agosto de 2015
22 de agosto de 2015
Entrevista de Yanis Varoufakis ao semanário alemão “Die Zeit” (4)
Die
Zeit: Quer dizer que os outros políticos mentem, quando dizem
que a Grécia é a principal responsável pela sua própria situação?
Varoufakis: Pode
dizê-lo assim. Eu abstenho-me de comentar. Quando entrei na política, jurei a
mim mesmo: se começar a pensar como um político, demito-me. Não me dobrarei a
pretexto de uma carreira política. Se dizer a verdade significa que sou
afastado do governo, ou expulso do partido, ou que tenho de ir para a cadeia,
então será assim.
Die
Zeit: Você exagera. Além disso, na questão da crise grega, há
surpreendentemente muitas verdades.
Varoufakis: Eu
também não digo que tenho razão em tudo.
Talvez
ele dê cursos sobre a melhor maneira de rodear as questões…
Nota:
a entrevista foi publicada a 30 de Julho de 2015; a tradução e o comentário são
de minha autoria.
20 de agosto de 2015
Entrevista de Yanis Varoufakis ao semanário alemão “Die Zeit” (3)
Die
Zeit: Como definiria a sua relação com Wolfgang Schäuble?
Varoufakis: Era
excelente.
Die
Zeit: Não acreditamos.
Varoufakis: No
nosso primeiro encontro, no seu escritório em Berlim, a atmosfera estava
bastante gelada. Mas, derreteu, passado algum tempo e, mais tarde, Wolfgang e
eu tivemos conversas muito agradáveis.
Agora
é que estragaste tudo, Yanis! Isso de ser muito tu cá, tu lá com alguém que
muitos chamam de nazi será um bico-de-obra, mesmo para as tuas fãs…
Nota:
a entrevista foi publicada a 30 de Julho de 2015; a tradução e o comentário são
de minha autoria.
18 de agosto de 2015
Lessons from a Sheep Dog
Cheguei
a este pequeno livro por acaso. Foi-me oferecido pelo meu marido, por sua vez, atraído
pelo título e pela capa. Sobre o autor, Phillip Keller, não encontrei muito na
internet, a não ser que nasceu no Quénia, em 1920, filho de missionários
(brancos), e que escreveu vários pequenos livros sobre a religião cristã,
nomeadamente, sobre como encontrar Deus na Natureza, tendo, por base, a sua
profissão de pastor. Também foi fotógrafo do mundo animal.
Neste pequeno livro,
não obstante as, por vezes, fastidiosas lições sobre a Bíblia, nota-se o enorme
respeito que Phillip Keller votava à Criação Divina. Através da sua relação com
a cadela pastora Lass, uma Border Collie,
o autor faz um paralelo com a relação entre Deus e os humanos.
O
livro cativou-me pela sua ternura. Phillip Keller, com vinte e poucos anos,
acabava de se mudar de África para uma região inóspita do Canadá, na costa
oeste, e adquirira um rebanho. Na sua procura por um bom cão pastor, deu com
uma Border Collie mal tratada, num
exíguo pátio de traseiras, na cidade mais próxima. A cadela, com
cerca de dois anos, era mantida acorrentada por os seus donos não saberem lidar
com a sua energia. Quando a soltavam, ela corria e atacava
tudo o que se movesse, incluindo crianças de bicicleta.
Embora
Lass o recebesse agressiva, Phillip Keller ficou com ela, mais por piedade do
que por convencimento de que o animal lhe pudesse ser útil. E quase se
arrependeu. Lass estava tão traumatizada, desconfiava tanto de humanos, que
parecia impossível fazer algo dela. Manteve-a igualmente presa, durante algum
tempo, para que ela não fugisse, mas Lass recusava-se a comer. Quando começou a
ficar perigosamente magra, o dono soltou-a… E ela desapareceu na floresta.
Phillip
procurou-a durante dias, perguntou nas quintas das redondezas… Em vão. Até que a
viu no cimo de um rochedo, observando-o com as suas ovelhas. Levou-lhe comida, mas
ela logo tornou a fugir. Phillip deixou a tijela da comida em cima do rochedo e
constatou, na manhã seguinte, que estava vazia. Na sua sensibilidade,
compreendeu que nada deveria forçar: ou Lass vinha ter com ele de forma
voluntária, ou nada feito. Todos os dias ia deixar comida ao rochedo e todas as
manhãs dava com a tijela vazia.
Um dia, estando a observar o pôr-do-sol no mar, no cimo de uma escarpa, com as ovelhas à sua volta, sentiu um narizito canino, muito tímido, a tocar nas suas mãos, atrás das costas. Phillip Keller designa esse momento como um dos mais bonitos da sua vida. E eu classifico essa cena como uma das mais comoventes que já li! Pela paciência revelada pelo humano e pelo ganhar de confiança de uma criatura traumatizada. Um momento, apenas, um toquezinho, que nos marca para sempre.
Um dia, estando a observar o pôr-do-sol no mar, no cimo de uma escarpa, com as ovelhas à sua volta, sentiu um narizito canino, muito tímido, a tocar nas suas mãos, atrás das costas. Phillip Keller designa esse momento como um dos mais bonitos da sua vida. E eu classifico essa cena como uma das mais comoventes que já li! Pela paciência revelada pelo humano e pelo ganhar de confiança de uma criatura traumatizada. Um momento, apenas, um toquezinho, que nos marca para sempre.
Phillip
e Lass tornaram-se grandes amigos, revelando-se a cadela indispensável para o
sucesso da quinta. Além de guardar e defender o rebanho de animais selvagens,
Lass era exímia em reunir as ovelhas, que se espalhavam, ou se perdiam, nas
redondezas, aprendendo a interpretar todos os comandos e sinais que o dono lhe
transmitia.
Claro que esta linda história de amizade me encantou. Para o próprio autor,
o mais importante foi, nas suas palavras, «o que Deus lhe ensinou através do trabalho
com esse animal maravilhoso». O paralelo que ele estabelece com a relação entre
Deus e os humanos, e que não é de desprezar, está bem patente nesta passagem:
«Deus depara
connosco, muitas vezes, como eu deparei com Lass: no local errado, presos em fanatismo
e teimosia, caídos em mãos erradas e mal tratados por um amo sem coração.
Esta
importante verdade espiritual foi-me revelada naquela tarde, em que fui buscar
a Lass, enquanto a dona não parava de reclamar sobre o comportamento mentecapto da
sua Collie. Ela não fazia ideia do
que um animal tão maravilhoso precisava, a fim de revelar as qualidades que lhe
permitiam desempenhar uma atividade específica. Nada sabia, nem estava
interessada em saber, sobre o desperdício de tão grande potencial daquela
criatura de Deus.
A
cadela, presa pela corrente e encolhida no pó, tornou-se, para mim, na imagem
do destino de tantos homens e mulheres, que estarão dotados de qualidades
específicas, mas que se encontram nas mãos erradas. Pessoas presas no desespero
dos anos e das oportunidades perdidos».
Mesmo os
leitores que abominam qualquer religiosidade hão de ver a beleza de sentimentos incluída nestas
palavras…
Nota:
li o livro em alemão, com o título Was
mein Hirtenhund mich lehrte, sendo a tradução do excerto de minha autoria. A versão
inglesa pode ser adquirida na Amazon.
Por acaso, gosto mais da capa alemã, que apresenta uma verdadeira Border Collie:
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