Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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18 de novembro de 2016

Morte de Dona Constança

- Que se passa?
Isabel respondeu num sussurro:
- Tive um sonho…
- Um pesadelo?
- Não sei… Uma mensagem… Ou uma premonição…
Mais uma? Dinis fez esforço por vencer o enfado, pois haveria uma razão forte que a trouxera ali, numa noite tão fria. Acabou por dizer:
- Sentai-vos e contai-me o que vos atormenta!
Isabel assim fez. Depois de pousar a vela sobre a mesinha ao lado da cama, iniciou o seu relato:
- Há cerca de uma semana, andando para os lados da Azambuja, deparei com um eremita à beira da estrada. Parecia muito perturbado e eu desmontei da minha mula e perguntei-lhe se havia mister do meu auxílio. Ele não respondeu, limitou-se a fixar-me numa tristeza infinita. Já tratei de muitos enfermos e assisti a muitas aflições, mas nunca vira olhos tão tristes. Insisti na minha pergunta. Depois de me fixar durante mais alguns momentos, ele abanou a cabeça e afastou-se de mim sem uma palavra.
Isabel baixou a cabeça e prosseguiu:
- Não mais olvidei aquele olhar. Passado uns dias, tornei ao local, a fim de o procurar. Mas não o encontrei. Perguntei por ele nas aldeias da região, descrevendo-o o melhor que podia. Ninguém parecia conhecê-lo. Indicaram-me alguns eremitas que por ali viviam e fui ter com eles. Mas nenhum era o que eu havia visto. O homem parecia ter-se esfumado, ou sido engolido pela terra… Tentei olvidá-lo. Mas hoje…
Começou a tremer mais violentamente:
- Sonhei com ele…
- Ora, ficastes impressionada com a sua figura…
- No sonho, ele falou comigo. E disse-me… - Olhou-o, muito trágica: - Que Constança havia morrido!

A 18 de Novembro de 1313 morreu a rainha Dona Constança de Castela, antiga infanta portuguesa, filha de Dom Dinis e Dona Isabel, com apenas 23 anos.

Constança 1.jpg
Para mais informações sobre Dona Constança ver o texto publicado a propósito do seu nascimento.

Nota: não encontrei nenhuma representação de Dona Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem d'As Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança que descrevo no meu romance.
 

Dom Dinis Papel (1).JPG

O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook, por exemplo, na LeYa Online, na Wook, na Kobo e na Amazon (pagamento em euros); Amazon (pagamento em dólares).

No Brasil, está disponível na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura.

Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.

12 de setembro de 2016

Tratado de Alcanices

Selo comemorativo (circulou de 12-09-1997 a 30-09-2001)

12 de Setembro é uma data muito importante na História de Portugal. Foi neste dia, no ano de 1297, que se definiram novas fronteiras entre Portugal e Castela, no Tratado de Alcanices, fronteiras que sofreram alterações mínimas nos últimos 719 anos, o que faz de Portugal um caso único na Europa. Foi através do Tratado de Alcanices que Moura, Serpa, Noudar e Mourão foram incluídas no território português, além de alguns lugares de Ribacoa, como Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal.



O Tratado de Alcanices, celebrado entre Dom Dinis e Dom Fernando IV, sob a tutela da mãe deste, Dona Maria de Molina, pois o rei castelhano tinha apenas onze anos, serviu ainda para estabelecer um duplo consórcio:

- o infante Dom Afonso de Portugal, futuro rei Afonso IV, desposaria Dona Beatriz de Castela, irmã de Fernando IV. O infante português tinha, à altura, apenas seis anos, a infanta castelhana era um pouco mais nova. Casariam em Maio de 1309.
- a infanta Dona Constança de Portugal, de sete anos, ficou prometida ao próprio rei Fernando IV de Castela.

Em casos destes era costume as noivas mudarem-se para o seu novo lar, a fim de serem criadas pelos sogros, pelo que Dom Dinis e Dona Isabel trocaram a filha Constança pela infanta castelhana. Dona Maria de Molina e Dona Isabel prometeram-se cuidar da filha alheia como se da própria se tratasse.

Solicitaram-se dispendiosas bulas de dispensa de parentesco ao papa, pois os infantes castelhanos eram primos de Dom Dinis, tendo sido o pai deles, o falecido Sancho IV de Castela, tio do rei português.

Também se solicitaram bulas de legitimação do jovem rei Fernando IV e de seus irmãos, já que o casamento dos pais nunca havia sido legitimado, igualmente por parentesco. Fernando IV foi, durante muito tempo, contestado na sua condição de soberano por tios e primos e manteve-se no trono não só devido ao pulso firme de sua mãe Maria de Molina, mas também com a ajuda de Dom Dinis.

Tratado Alcanices.jpg
Tratado de Alcanices (versão portuguesa arquivada na Torre do Tombo)


Da parte castelhana, o dinheiro para as bulas só foi disponibilizado quatro anos mais tarde, em Junho de 1301, depois das Cortes de Burgos/Zamora. Os bispos de Lisboa e do Porto acompanharam o arcebispo de Toledo a Roma e, em Setembro de 1301, Bonifácio VIII outorgou as bulas que foram solenemente publicadas na catedral de Burgos a 7 Dezembro de 1301.

O casamento do rei Fernando IV com Dona Constança de Portugal realizou-se em Janeiro de 1302, fazendo da infanta portuguesa rainha de Castela. Durou apenas dez anos, terminando com a morte súbita de Fernando IV, a três meses do seu 27º aniversário, já tendo nascido o seu herdeiro, o futuro Afonso XI de Castela, neto de Dom Dinis e de Dona Isabel. Dona Constança morreu pouco tempo depois com apenas 23 anos, vítima de uma febre.


Dom Dinis Série (1).JPG

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13 de agosto de 2016

Foral de Vila Nova de Gaia e Afonso XI de Castela


Verifica-se hoje o 728º aniversário do foral de Vila Nova de Gaia, concedido por el-rei Dom Dinis.


A 13 de Agosto de 1311, nasceu o infante Dom Afonso de Castela, futuro Dom Afonso XI. Este monarca castelhano foi o primeiro neto varão de Dom Dinis e de Dona Isabel, pois sua mãe era Dona Constança de Portugal. O par real português já tinha aliás uma neta, de nome Leonor.

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1 de maio de 2016

Casamento de Dom Afonso IV


Foi em Maio de 1309 (não se sabe o dia), que o futuro rei Dom Afonso IV, filho de Dom Dinis, casou com a infanta Dona Beatriz de Castela. Dom Afonso e Dona Beatriz foram os pais de Dom Pedro I, que ficaria conhecido pelo seu amor trágico por Inês de Castro (tendo ficado seu pai com a “fama” de ter mandado assassinar a amante do filho, embora não exista certeza histórica).

À altura do seu casamento, Dom Afonso tinha dezoito anos e a sua noiva dezasseis ou dezassete. Os dois conheciam-se desde crianças, Dona Beatriz foi criada pelos sogros Dom Dinis e Dona Isabel. A infanta castelhana tinha vindo para a corte portuguesa na sequência do Tratado de Alcanices, celebrado a 12 de Setembro de 1297, no qual se definiram definitivamente as fronteiras entre Portugal e Castela e se estabeleceu um duplo consórcio: além do de Dom Afonso e de Dona Beatriz, ficou estipulado que o rei Fernando IV de Castela, que à altura tinha apenas onze ou doze anos, casaria com a infanta Dona Constança de Portugal.

Era costume que noivas ainda crianças fossem criadas pelos sogros e o casal Dom Dinis/Dona Isabel trocou a filha com a rainha viúva castelhana Dona Maria de Molina. Dona Beatriz veio para Portugal com apenas cinco anos, enquanto Dona Constança, de sete, foi viver para a corte castelhana.

Para que este duplo consórcio se concretizasse, foi necessário solicitar dispendiosas bulas de dispensa de parentesco ao papa, já que os nubentes eram parentes próximos. Dom Fernando IV e Dona Beatriz eram filhos do falecido rei de Castela, Dom Sancho IV, tio de Dom Dinis.

O facto de Dom Afonso IV e Dona Beatriz terem crescido juntos parece ter dado bom resultado, pois este monarca, não obstante a tradição lhe ter conferido um temperamento irascível, é um caso raro na historiografia portuguesa: não se lhe conhecem barregãs nem filhos ilegítimos. O casal teve sete filhos, mas apenas três chegaram à idade adulta, porquanto a mais nova, Leonor, que casou com Dom Pedro IV de Aragão, morreu com apenas vinte anos.





Ebook à venda na LeYa Online e na Wook.


3 de janeiro de 2016

Infanta Dona Constança de Portugal, Rainha de Leão e Castela



Ver nota no final

A 3 de Janeiro de 1290 nasceu a infanta Dona Constança de Portugal, a primeira filha de Dom Dinis e de Dona Isabel. O casal teve apenas mais um filho, o futuro rei Dom Afonso IV, que nasceu cerca de um ano mais tarde.

Apesar de nascida em berço de oiro e se ter tornado rainha, a infanta Dona Constança não terá sido muito feliz na sua curta vida, como acontecia a muitas donzelas da época medieval. Foi obrigada a separar-se dos pais com apenas sete anos, por ocasião do Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297, pois estava prometida em casamento ao rei Fernando IV de Leão e Castela. Em casos destes, era habitual que a noiva fosse criada pelos sogros.

Fernando IV tinha apenas doze anos, à altura do Tratado de Alcañices, mas era rei por morte de seu pai Sancho IV. Sua mãe, Maria de Molina, exerceu a regência durante a sua menoridade.

Fernando IV e sua mãe Maria de Molina*
O casamento foi celebrado em Janeiro de 1302, tinha a noiva doze anos e o noivo dezassete. Fernando IV, porém, morreria subitamente dez anos mais tarde. Constança escreveu aos pais a pedir proteção para o filho Afonso, o novo rei, de apenas um ano.

A cena política de Castela tornou a agitar-se, despertando lutas pela sucessão do trono. Levantava-se o problema da tutoria do pequeno rei e da regência do reino e a situação tornou-se insuportável para a frágil rainha, incapaz de lidar com as intrigas. Passou uma fase muito confusa, cortando inclusivamente relações com a sogra que a criara.

Sobre isto, dois excertos do meu romance:



No início do Outono, chegou à corte um apelo desesperado de Constança. O pequeno rei, de apenas dois anos, encontrava-se em Toro, com a avó, que, ofendida com a nora, a proibia de ver o filho! No seu desespero, Constança suplicava o apoio do pai para levar o tio Juan a exigir a custódia completa do filho, contra Maria de Molina!

Dinis censurou Isabel por ter arrastado a filha para o tio aragonês e a rainha, mortificada, escreveu a Constança, pedindo-lhe que viesse ter com eles. A filha, porém, respondeu que tentaria fazer as pazes com a sogra, esperando que esta a autorizasse a entrar em Toro.




- Que se passa? 
Isabel respondeu num sussurro:
- Tive um sonho…
- Um pesadelo?
- Não sei… Uma mensagem… Ou uma premonição…
Mais uma? Dinis fez esforço por vencer o enfado, pois haveria uma razão forte que a trouxera ali, numa noite tão fria. Acabou por dizer:
- Sentai-vos e contai-me o que vos atormenta!
Depois de pousar a vela sobre a mesinha ao lado da cama, Isabel iniciou o seu relato:
- Há cerca de uma semana, andando para os lados da Azambuja, deparei com um eremita à beira da estrada. Parecia muito perturbado e eu desmontei da minha mula e perguntei-lhe se havia mister do meu auxílio. Ele não respondeu, limitou-se a fixar-me numa tristeza infinita. Já tratei de muitos enfermos e assisti a muitas aflições, mas nunca vira olhos tão tristes. Insisti na minha pergunta. Depois de me fixar durante mais alguns momentos, ele abanou a cabeça e afastou-se de mim sem uma palavra.
Isabel baixou a cabeça e prosseguiu:
- Não mais olvidei aquele olhar. Passado uns dias, tornei ao local, a fim de o procurar. Mas não o encontrei. Perguntei por ele nas aldeias da região, descrevendo-o o melhor que podia. Ninguém parecia conhecê-lo. Indicaram-me alguns eremitas que por ali viviam e fui ter com eles. Mas nenhum era o que eu havia visto. O homem parecia ter-se esfumado, ou sido engolido pela terra… Tentei olvidá-lo. Mas hoje…
Começou a tremer mais violentamente:
- Sonhei com ele…
- Ora, ficastes impressionada com a sua figura…
- No sonho, ele falou comigo. E disse-me… - Olhou-o, muito trágica: - Que Constança havia morrido!


Constança faleceu a 18 de Novembro, com apenas 23 anos, vítima de uma febre que a levou em três dias. Sem ter feito as pazes com a sogra, sem ver os pais uma última vez, nem sequer o filho de dois anos.



Também a 3 de Janeiro, mas no ano de 1312, dá-se um acontecimento, à primeira vista, corriqueiro, mas que se revelaria de importância, pois avolumou as discórdias entre Dom Dinis e o seu herdeiro: a sentença do tribunal régio no processo dos herdeiros do 1º conde de Barcelos Dom João Afonso Telo.

A sentença favoreceu Afonso Sanches, um dos genros do falecido e filho ilegítimo de Dom Dinis, que é nomeado mordomo-mor do pai. O outro genro, Dom Martim Gil de Riba de Vizela, apesar de ter sucedido ao sogro no título, tornando-se no 2º conde de Barcelos, foi muito prejudicado nas partilhas. A sentença chocou-o tanto, que se exilou em Castela, morrendo antes do fim do ano. O seu testamento referia que nenhum dos seus bens fosse parar às mãos do cunhado Afonso Sanches, o que, por decisão régia, acabaria por acontecer!

O escandaloso favorecimento do filho bastardo Afonso Sanches, por parte de Dom Dinis, terá sido uma das razões para a revolta do príncipe herdeiro Afonso, revolta que desembocou numa guerra civil, amargurando os últimos anos de vida do rei Poeta e Lavrador.

Afonso IV, filho de D. Dinis



Nota: não encontrei nenhuma representação de Dona Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem d'As Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança que descrevo no meu romance D. Dinis, a quem chamaram o Lavrador.

* Pintura de Antonio Gisbert Pérez, 1863