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4 de setembro de 2014
Os Azares de Valdemar Sorte Grande
A personagem principal deste romance, natural da Figueira da Foz, nasceu a 25 de abril de 1874, uma escolha interessante por parte do autor, já que pretende retratar o tempo da passagem da Monarquia à República. Sorte Grande, como a própria personagem explica, não é alcunha, o pai chama-se Rodolfo Marques Grande e a mãe Ana Roda da Sorte. Sendo filho de pescador, Valdemar não tem praticamente hipóteses de subir na vida. Mas põe-se com ideias. Primeiro, porque lhe elogiam a inteligência na escola, aprende muito bem a ler e a escrever e descobre gosto pelos livros. Segundo, porque a sua mãe e, mais tarde, a sua irmã, trabalham no palacete Vila-Real, propriedade do barão local. Tanto o barão, como a esposa, gostam do seu jeito e da sua esperteza (e também a filha de ambos, que se torna na grande paixão do rapaz). O convívio naquela alta roda abre-lhe o apetite, Valdemar decide ser alguém na vida
Irá, porém, encontrar muitos obstáculos. O primeiro é livrar-se do seminário. Com o seu jeito para os estudos, tanto os pais, como os barões de Vila-Real, assim como o pároco local, são de opinião de que ele deve ser padre. Valdemar devia ter aprendido logo a lição: os ricos podem achar-lhe piada, mas não o admitem no seu meio, ao seu nível. Ser padre é o destino mais indicado para um filho de pescador com algum cérebro, um destino que consideram mais do que privilegiado. Ao recusar tal benesse, Valdemar compromete toda a sua vida. Ele possui, porém, força de vontade. A seguir a cada derrota, torna a levantar a cabeça e é isso que o torna simpático, aos olhos do leitor. À medida que o enredo avança, contudo, vai-se tornando cada vez mais oportunista, perdendo os escrúpulos. Mas não vou revelar mais pormenores.
O romance, no seu estilo irónico, um pouco cínico, prendeu-me do princípio ao fim. Penso que fazem falta livros destes em Portugal, livros que sabem entreter, sem menosprezar a qualidade. António Breda Carvalho constrói muito bem o evoluir do carácter da sua personagem. Valdemar embrenha-se na política, os tempos a partir de 1910 são propícios a quem procura a sua oportunidade. Mas é claro que a ideologia partidária passa para um plano secundário, bem atrás dos interesses pessoais dos seus protagonistas.
Além das peripécias de Valdemar, o leitor é presenteado com um bom retrato da Figueira da Foz daquela época e, no fundo, de todo o país. António Tavares, vereador do Pelouro da Cultura da Câmara da Figueira da Foz e finalista do último Prémio LeYa, escreve, no prefácio: «Mais do que um figueirense, Valdemar é um homem de um certo Portugal, num período que vai do fim da Regeneração à I República. Pobre e rude como o país, usa a sua esperteza de "comediante" para sobreviver aos maus momentos».
Publiquei dois excertos aqui.
Nota: Este romance teve Menção Honrosa do Prémio Literário João Gaspar Simões 2013. Publiquei igualmente uma opinião sobre o romance O Fotógrafo da Madeira, do mesmo autor, vencedor da edição de 2010 do mesmo Prémio Literário.
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Os Azares de Valdemar Sorte Grande
29 de agosto de 2014
Excerto (1)
«Ganhou o caciquismo. Fez-se uma lista de cidadãos republicanos influentes para agir neste sentido, que contemplava um conjunto bem definido de ações: promessas de emprego, abertura de caminhos vicinais, contratos de negócios, etc. e tal.
Outro republicano, não menos ilustre, propôs subornar o presidente da comissão eleitoral para não registar no caderno elelitoral alguns cidadãos reconhecidamente votantes no partido inimigo. Alguém respondeu que esta proposta já tinha barbas e que só dava bronca nas mesas eleitorais e má imagem ao partido.
Outro, também ilustre, achava uma rica ideia canalizar determinada verba para a compra de votos aos eleitores perfilados nos outros partidos, tal como faziam os pretos (regeneradores) e os brancos (progressistas). Esta ideia era tão velha como o mar, mas foi a que mais adorei; e rezei para que alguém, preto ou branco, se lembrasse de comprar o meu voto. Em tempo de crise todos os reais são poucos, e eu poderia comprar mais um fato».
In "Os Azares de Valdemar Sorte Grande", António Breda Carvalho
Nota: esta cena passa-se pouco depois da implantação da República em Portugal, quando se preparam eleições.
17 de agosto de 2014
Excerto (2)
«Encostado à amurada do forte, reconheci no mar revolto, a uma distância de trezentos metros, a cor azul dos remos da embarcação de Rodolfo, onde ele e mais três homens lutavam contra as vagas que os queriam engolir. Subindo e descendo no mar côncavo, as ondas vigorosas empurravam cruelmente a indefesa Salmoura na direção do forte. Os pescadores lutavam tenazmente no interior do barco, afogados em água, e certamente também em choro que eu não ouvia e em lágrimas que não via. Quis saltar o paredão, descer aos rochedos junto à rebentação das ondas, agarrado à esperança de poder salvar o meu pai quando a embarcação se estoirasse num frémito de tábuas, ossos e sangue».
In "Os Azares de Valdemar Sorte Grande", António Breda Carvalho (Chiado Editora)
In "Os Azares de Valdemar Sorte Grande", António Breda Carvalho (Chiado Editora)
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