Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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28 de janeiro de 2024

Teu irmão, teu rival

Outro dia, li uma publicação no Facebook sobre um tema que me é caro: a rivalidade entre irmãos. O foco eram os irmãos alemães Rudolf Dassler (1896 – 1974) e Adolf Dassler (1900 – 1978), fundadores da Adidas e da Puma (Adidas vem do nome pelo qual o irmão mais novo era conhecido na família: “Adi”, de Adolf, a que se juntaram as três primeiras letras do apelido: “das” de Dassler). Apesar de não ter havido nenhum crime, eles foram comparados a Caim e Abel, por causa da rivalidade que marcou a sua relação. Começaram aliás por fundar a Adidas juntos, mas haveriam de se separar, completamente incompatíveis (daí a fundação da Puma, por Rudolf Dassler).

Nessa menção a Caim e Abel, Paulo Marques, o autor do postal, dizia: “trágica e tristemente, foi entre dois irmãos que se deu o primeiro homicídio da história da humanidade”. Na minha opinião, porém, e num contexto criminal, o acontecimento não é, nem especialmente trágico, nem especialmente triste. Vejo-o como um símbolo muito forte, como o são praticamente todos os acontecimentos relatados na Bíblia. Sejamos crentes, ou não, a sua leitura despoleta (ou “espoleta”, para os mais puristas) reflexões sem fim. A Bíblia é a história da condição humana: conflitos, lutas, ciúmes, traições, tristezas, alegrias, desesperos, obediência cega, heroicidades e, last but not least, a nossa impotência perante as forças da Natureza, venham elas em forma de dilúvio, secas, pragas ou outras, independentemente de acreditarmos, ou não, serem baseadas em castigos divinos.

O crime de Caim sobre Abel é, por isso, um símbolo fortíssimo, ao lado de tantos outros. Irmãos eram, são e serão sempre rivais. Mesmo que se deem bem, há sempre algo por resolver, algo de inquieto, desconfortável, na base do seu "amor". E os pais são os principais responsáveis por essa instabilidade latente. As comparações, as preferências, a vontade de irritar um deles e elogiar o outro (sempre os mesmos, nisso, os pais não alternam), tudo isso, levado ao extremo, pode desembocar numa grande tragédia. Tudo depende da intensidade que os pais põem nessas suas, digamos, inconstâncias. O carácter inato dos irmãos representa um papel bem mais pequeno, pois é, acima de tudo, manipulado pelos pais (mesmo que inconscientemente).

Acham que estou a exagerar? Vamos então à Bíblia! O que gerou tão grande ódio em Caim? A diferença com que Deus o tratou, em relação ao irmão. Sem ser explicada a razão, Deus preferiu as oferendas de Abel, desprezando as de Caim, apesar de este tentar, por todos os meios, agradar-Lhe. Sim, os pais biológicos eram Adão e Eva, mas, na Bíblia, Deus é definido, inclusive por Jesus Cristo, como o Pai por excelência, o Pai da Humanidade.

No seu romance Caim, Saramago mostra compaixão pelo assassino, levado a exercer um crime por Aquele que devia ser o símbolo máximo da Justiça. Porém, na Bíblia, assim como na vida real, ninguém quer saber das razões que levam um irmão a odiar outro. O insatisfeito, aquele que reclama, é sempre apelidado de ciumento, invejoso, violento e sabe-se mais lá o quê. Parece ser-nos mais confortável enchê-lo de epítetos negativos, vê-lo como uma figura fraca, reles, desprezível. Sim, é muito confortável. Dá-nos a ilusão de sermos superiores, justos, cândidos.

Podemos perguntarmo-nos qual a razão de Deus ser tão injusto, neste episódio. Como já o disse acima, temos motivos de sobra para refletir. Mas é pena que, na maior parte das reflexões, a atitude de Deus não seja identificada com a de muitos pais. Podiam evitar-se infelicidades e até crimes. Seria para isso que o autor nos tentava chamar a atenção?

 

Nota: o título deste postal foi inspirado no título de um capítulo do meu romance Dom Dinis, a quem chamaram o Lavrador. Sim, também o nosso rei-poeta, um rei caracterizado como justo e culto, nunca conseguiu estabilizar a sua relação com o irmão mais novo. Chegaram mesmo a guerrear-se.

Teu irmão teu rival.jpg

 

25 de fevereiro de 2014

A família tradicional - teoria e realidade

Uma pequena análise histórica mostra-nos que não há uma forma natural de família. Quem vive com quem e quais os papeis atribuídos aos homens, mulheres, crianças e restantes parentes varia muito, conforme a cultura e a época. Clã, tribo, parentela, família, casa - os conceitos que, ao longo da História, serviram para identificar um sistema de humanos a viver sob o mesmo teto variaram muito.

Entre os Sumérios, Egípcios e outros povos da Antiguidade era comum a existência de várias esposas, do que resultavam grandes "famílias" de meios-irmãos, até existia o casamento entre irmãos. À "família" romana pertencia igualmente a criadagem, semelhante ao conceito medieval de "casa". Aos pais e filhos juntavam-se os avós, tias e tios solteiros, criados e outro pessoal. Muitas vezes, a ligação entre pais e filhos nem era muito forte, principalmente entre os nobres. Estava fora de questão uma fidalga amamentar os seus rebentos e existia o costume de enviar as crianças para uma outra casa, a fim de serem educadas. Normalmente, saíam de casa dos pais pelos sete anos, mas podia também ser mais cedo. Em Portugal, o nobre responsável pela educação de um filho de outro fidalgo era o Aio, assim como D. Egas Moniz foi Aio de D. Afonso Henriques.

O conceito atual de "família" só surgiu na França do século XVIII, desenvolvendo-se, no século XIX, com a Revolução Industrial, a família nuclear, englobando pai, mãe e filhos, mais por motivos económicos.

A análise histórica também nos mostra que nem tudo era melhor antigamente, pelo contrário. Durante esses tempos difíceis do século XIX, negligenciavam-se, muitas vezes, crianças mais pequenas, a fim de diminuir o número de bocas a alimentar, assegurando a sobrevivência do resto da família. E todos sabemos que quase não havia casamentos por amor, mas sim por conveniências sociais, económicas, etc.

Um outro aspeto era a frequente inclusão de filhos ilegítimos na família nuclear, o que, ao contrário do que possa parecer, não favorecia um convívio são dessas crianças com os outros membros da família. Os bastardos eram normalmente vistos como um fardo, discriminados e obrigados a executar trabalhos mais duros. Também morriam muitas mulheres de parto, pelo que os homens tornavam a casar, duas, três ou mais vezes, ou seja, eram frequentes as famílias que hoje apelidamos de patchwork. Os enteados, aliás, à semelhança dos ilegítimos, quase nunca eram bem tratados.

Hoje em dia, todos sabemos que a família passa mais tempo separada do que junta: os pais trabalham, os filhos passam o dia nos colégios, escolas ou infantários. E ainda não há muito tempo se proibiam as crianças de "boa casa" de brincarem com filhos de pais separados.

Por tudo isto, talvez fosse bom que a Igreja Católica se adaptasse aos tempos atuais, aceitando novas formas de família. À convicção do arcebispo alemão Gerhard Ludwig Müller de que não se mexe nos dogmas da Igreja, respondeu o cardeal hondurenho Oscar Rodriguez Maradiaga: «o mundo meu irmão, o mundo não é assim. Devias ser mais flexível, ao ouvir as opiniões dos outros, para que não te limtes a dizer não»*.

A doutrina cristã não devia ser uma teoria abstrata, reduzida a uma ideologia. Devia estar ao serviço das pessoas, cumprindo o seu pressuposto de fortificar a sua fé, em vez de as afastar.

* Declarações lidas na KirchenZeitung