Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

13 agosto 2011

Abuso sexual em lares da Igreja Católica

Já aqui falei do Jornal Católico do bispado de Hildesheim, que assino desde Fevereiro passado. Acima de tudo, interessa-me saber se a Igreja Católica ainda tem algo para oferecer à sociedade.

Fui agradavelmente surpreendida. Ao contrário do que acontece em Portugal, a Igreja Católica alemã faz um grande esforço por mostrar a sua utilidade. E vai conseguindo. Desde problemas de racismo, à pobreza, exclusão social e novas maneiras de celebrar as missas, tem sido muito interventiva, até quando se trata de defender os direitos dos animais, ou o ambiente, coisa de que nunca me apercebi, no nosso país. Além disso, o jornal aborda temas normalmente incómodos, como o abuso sexual em lares católicos.

Impressionou-me muito o testemunho de Rudolf Kastelik e gostaria de o partilhar aqui, mostrar como essas vivências perseguem as suas vítimas uma vida inteira. Rudolf Kastelik viveu, entre os 5 e os 19 anos, em oito lares diferentes. Porque mudou tantas vezes de sítio e porque é que, às vezes, o seu irmão gémeo vivia com ele e, outras, não, não sabe. Mas, em todos os lares, uns piores, outros melhores, ele foi vítima de abusos sexuais. Além disso, viu-se sujeito a regras absurdas de educação, baseadas na violência e na humilhação.

Rudolf Kastelik recalcou estas vivências durante 50 anos, não falou disso a ninguém, nem sequer à sua mulher, com medo de que não acreditassem nele, de que não o levassem a sério. Muitas pessoas reagem com frases do tipo: "deixa lá, já passou, esquece", menorizando os problemas. Ainda para mais, quando a maior parte dos responsáveis pelos abusos já faleceram. Kastelik contrapõe: "Hitler também está morto. Deveremos, por isso, ignorar as atrocidades que cometeu?"

Rudolf Kastelik tem sofrido, a vida inteira, de pesadelos, fobias e ataques de pânico. Quando, recentemente, começaram a surgir as notícias sobre o abuso sexual nos lares, ele viu-se confrontado com o seu passado. Começou a fazer psicoterapia e a escrever um livro autobiográfico, em que relata a sua história. Nessas alturas, vem tudo ao de cima, sente-se como se estivesse a viver tudo, mais uma vez. Por isso, não consegue escrever mais do que uma hora por dia e nunca o faz à noite, pois os fantasmas perseguem-no no seu sono.

Rudolf Kastelik ainda espera algo da Igreja, hoje em dia? Sim, nas suas próprias palavras, o mais importante é que o levem a sério e acreditem nele. Tem procurado o contacto com as instituições onde esteve e fala com os actuais responsáveis sobre o assunto. Parece ser esta a solução que ele encontrou para lidar com o problema, consciente de que a cura para o seu mal é impossível, a única esperança consiste no alívio dos sintomas.

3 comentários:

João Raposo disse...

Estava a imaginar um comentário para este seu post e lembrei-me que já o havia escrito. Ei-lo. É um extracto das "Conversas com a Carolina":
“Acredito nos homens que acreditam em Deus”. Quanto mais não fosse, por esta razão, porque há seres humanos que acreditam, é intolerável qualquer acto que gratuitamente ofenda o fundamento da sua fé, que ofenda o Deus em que acreditam, porque tal acto é uma ofensa a quem tem fé. Já o mesmo não posso dizer acerca de representantes da religião, seja ela qual for, quando se pronunciam contra actos ou práticas com as quais não estão em acordo, porque, colocando-se no plano terreno, ficam sujeitos à crítica que as suas posições suscitarem. Mas é necessário nunca confundir as opiniões dos homens ou mulheres que se afirmam representantes da fé, com o verdadeiro fundamento dessa fé, que é sempre transcendente ao humano.

antonio ganhão disse...

A Igreja é constituída pelos seus crentes e carregará sempre os seus pecados, não existe outra forma de se estar em comunidade, se não caminhando e procurando corrigir as nossas falhas.

Evanir disse...

Muitas Vezes Deus Tira Alguem Que
Amamos Tanto.
Mais Esse Mesmo Deus Traz Alguem
Que Aprendemos Amar..
Por Isso NÃo Devemos Chorar
Pelo Que Nos Foi Tirado
E Sim ..Aprender A Amar O
QUE Nos Foi Dado ..
Nada Que È Nosso Vai Embora Para Sempre.
A Você Com Muito carinho um
feliz Domingo (DIA DOS PAIS)
Beijos No Coração.
Evanir