Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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19 de abril de 2026

12 de abril de 2026

Rapidinhas de História #51

NACIONALISMO ANACRÓNICO (3)

Sob o título de “conde da Galiza”, D. Raimundo, casado com a infanta D. Urraca, tornou-se responsável por um território que ia desde a costa norte galega até ao rio Tejo. 


 

  

18 de dezembro de 2025

O desmoronar de mitos ("mais vale tarde do que nunca")

Através da RTP-Play, vi ontem o primeiro episódio da série "Visita Guiada" dedicado a D. Afonso Henriques e que, na televisão portuguesa, foi transmitido a 6 de outubro passado. Com a colaboração do Professor e Historiador Luís Carlos Amaral, da Universidade do Porto, vi com satisfação confirmadas muitas das informações que vou divulgando nas minhas Rapidinhas de História.

As quatro mais importantes:

1 - A ligação de D. Teresa à nobreza galega não possuía apenas um aspeto sentimental. D. Teresa seguia um plano ambicioso: pretendia reconstituir o antigo reino da Galiza, que pertencera a seu tio Garcia, e que incluía os condados Portucalense e o de Coimbra. D. Teresa entendia que este reino fazia parte da sua herança.

2 - D. Afonso Henriques recebeu de seus pais um condado organizado e forte, situação conseguida ao longo de trinta e quatro anos: governo conjunto de D. Teresa e D. Henrique - dezoito anos; governo de D. Teresa viúva - dezasseis anos.

3 - Não está historicamente provado que, à altura de São Mamede, já houvesse um projeto de reino português.

4 - Em Zamora, em 1143, o imperador Afonso VII, primo de Afonso Henriques, não o libertou da ligação vassálica, ou seja, ficou comprometida a independência de Portugal.

Muito mais haveria a dizer sobre a desmontagem de vários mitos que duraram séculos e que o Estado Novo realçou e divulgou (e se se têm mantido para além dele).

Quem tiver interesse, pode ver este episódio aqui:
https://www.rtp.pt/play/p14841/e879958/visita-guiada

30 de março de 2025

Rapidinhas de História #24

A MUI COBIÇADA GALIZA (4)


 

Nota: as Rapidinhas de História vão fazer uma pausa. Regressam daqui a algumas semanas, com mais informações históricas sobre o período da formação de Portugal, informações recolhidas em estudos e teses que me foram postos recentemente à disposição.

11 de agosto de 2019

O Pacto Sucessório





Venho hoje falar de um documento um pouco polémico, pois paira sobre ele o espectro da falsificação, embora actualmente se considere poder ser verdadeiro. De qualquer maneira, trata-se de um assunto em aberto e que, na minha opinião, tem a sua relevância. Estou a falar de um Pacto Sucessório secreto, que terá sido firmado entre os condes D. Raimundo e D. Henrique, à revelia do sogro Afonso VI, decidindo como dividiriam a herança depois da morte deste e por mim já aqui referido. Não se sabe a data exacta em que terá sido firmado, o historiador Charles Bishko situa-o entre 14 de Maio e 22 de Setembro de 1105, ou seja, durante o Verão. Nada melhor do que o mês de Agosto para o relembrar.

Nos arquivos portugueses, não existe cópia do documento, mas a versão que terá sido enviada ao abade de Cluny encontra-se na Bibliothèque Nationale de France. O Professor Abel Estefânio, da Universidade do Porto, publicou dois estudos sobre o assunto, na Medievalista online. No primeiro, O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, em 2011, duvida da sua autenticidade. Porém, no segundo, Proposta de aclaração do “pacto sucessório” à luz de novos dados, três anos depois, admite que possa ser verdadeiro.

Manuscrito do “pacto sucessório”, Recueil de Chartes de CLUNY, Bibliothèque Nationale de France, Département des manuscrits, Colecção Baluze nº 86, f. 470.



Atentemos às palavras com que o Professor Abel Estefânio abre o segundo estudo:

«Quando o estudei pela primeira vez, pareceu-me que se tratava de um falso histórico e apresentei essa hipótese num artigo publicado em 2011 na revista Medievalista (…) Todavia, como não o pude afirmar categoricamente, não dei o assunto por encerrado. Havia, desde logo, que considerar a nota que o Professor José Mattoso elaborou sobre o meu estudo, com o contributo do Professor Arnaldo do Espírito Santo relativamente ao argumento linguístico. Perante a ausência de sinais evidentes do uso de um latim clássico que denuncie um falsário da época moderna, o Dire(c)tor da Medievalista considerou que se impunha um exame mais aprofundado».

Na minha opinião, é verosímil que os condes D. Raimundo e D. Henrique tenham firmado este pacto. Recordemos a situação! D. Afonso VI, sentindo a morte a aproximar-se e angustiado por não ter herdeiro varão, nomeia seu sucessor o filho que teve da moura Zaida, baptizando-o de infante Sancho. Podemos imaginar a revolta que sentiu a sua única filha legítima, D. Urraca, e também o genro D. Raimundo, sobretudo por, neste mesmo ano de 1105, a 1 de Março, ter nascido o filho do casal.

Raimundo terá recorrido ao abade Hugo de Cluny. A fim de conseguir guerreiros para a Reconquista, Afonso VI seguira, durante anos, uma política pró-francesa, ligada à Ordem Cluniacense, nomeando muitos prelados estrangeiros para as dioceses hispânicas, fazendo-lhes riquíssimas doações e dotando-os de privilégios, assim como aos nobres que os acompanhavam. Foi neste contexto que surgiram Raimundo e Henrique na Hispânia. O conde portucalense era inclusive sobrinho-neto do abade Hugo. Os cluniacenses introduziram, na Península, o culto romano, ditado pela reforma gregoriana, em detrimento do velho rito hispânico, ou moçárabe.

Afonso VI de Galiza, Leão e Castela Catedral Sant
Miniatura representando Afonso VI, rei de Leão, Castela e Galiza (1047-1109). Tumbo A da catedral de Santiago de Compostela.

A fim de poder nomear Sancho seu sucessor, porém, o imperador Afonso VI executou um verdadeiro volte-face, pois o velho clero hispânico prontificou-se a baptizar a moura Zaida e a legitimar o filho desta. Alarmado por Raimundo, o abade Hugo de Cluny enviou à Hispânia um seu representante, Dalmácio Geret, na presença do qual Raimundo e Henrique terão firmado o pacto sucessório.

O documento não costuma ser mencionado na nossa historiografia. A hipótese de falsificação não é o único motivo, já que, mesmo sendo verdadeiro, há quem o considere irrelevante. Tanto Raimundo, como o infante Sancho, viriam a falecer antes de Afonso VI, o primeiro dois anos depois de ter assinado o pacto e o segundo no ano seguinte, em 1108, na batalha de Uclés.

Na minha opinião, porém, que vejo boas razões para que seja autêntico, ele foi fundamental na política tão criticada de D. Teresa. Mas comecemos pelo princípio!

Ao casar com D. Urraca, D. Raimundo tornou-se conde da Galiza e, nas suas posses, incluía-se o condado Portucalense que, nessa altura, ia até ao Tejo, pois Afonso VI tinha recebido Santarém e Lisboa do rei mouro de Badajoz, que se pôs sob a protecção do imperador. Raimundo, porém, não conseguiu segurar Lisboa, provocando a ira do sogro. Ao casar a filha Teresa com Henrique, Afonso VI pôs nas mãos deste o condado Portucalense, confinando Raimundo à Galiza. Henrique, porém, permaneceu vassalo do cunhado, situação que o pacto confirma. A carta endereçada ao abade de Cluny começa assim:

Ao senhor e reverendíssimo abade de Cluny, Hugo, e a toda a congregação de S. Pedro, o conde Raimundo, o seu filho e o conde Henrique, seu vassalo, desejam saúde e amor em Cristo (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p. 13).

A nossa historiografia tende a divulgar a versão de que o interesse de D. Teresa pela Galiza se deveu ao seu envolvimento com a família de Trava. Ora, este pacto secreto, assinado pelo marido, sete anos antes de morrer, mostra que a Galiza fazia parte das ambições do conde portucalense. D. Teresa deu-lhe seguimento. Nas suas lutas com a irmã Urraca, ela reclamou sempre a Galiza para si. E o próprio Afonso Henriques passou os cinco anos a seguir à Batalha de São Mamede a tentar conquistar território galego. Foi essa a sua primeira medida, depois de se tornar no líder incontestado do condado Portucalense. Só depois de sucessivas derrotas, perdendo os territórios galegos conquistados, ele se virou para o Sul.

Se eu, conde Raimundo, não puder dar Toledo a ti, conde Henrique, tal como prometi, dar-te-ei a Galiza com a condição de que tu me ajudes a conquistar toda a terra de Leão e de Castela (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p.22).

Esta passagem, do texto do pacto, é um pouco enigmática, pois dá a ideia de que D. Henrique teria aspirações ao senhorio de Toledo e que o cunhado não estava disposto a concedê-lo, substituindo-o pela Galiza. Ou seria o contrário? Inclino-me para a segunda hipótese. Não vejo que interesse D. Henrique pudesse ter por Toledo, tão longe das suas posses, apesar de se tratar de uma cidade de grande prestígio, antiga capital do reino visigótico. Contudo, depois da morte do imperador, Toledo nunca foi motivo de conflito com a rainha D. Urraca. Já a Galiza sim! Além disso, à data do pacto, D. Raimundo era conde da Galiza há cerca de quinze anos, não penso que facilmente abrisse mão desse território. E relembremos ainda que, dar, a um vassalo, o senhorio de uma cidade situada nas terras do suserano, era prática habitual na Idade Média. Podemos, por isso, admitir que a ideia de Toledo terá sido de Raimundo, como recompensa pela ajuda do cunhado. Henrique, porém, estaria mais interessado no reino da Galiza, criando um impasse. Com a moderação de Dalmácio Geret, ter-se-á tentado uma solução provisória, do estilo: «Toledo ou a Galiza».

Defendo, portanto, a importância do pacto, ao mostrar que a luta pela Galiza não se baseou num capricho de D. Teresa, por ter um amante galego. Fazia parte de uma estratégia política iniciada pelo conde D. Henrique, seguida pela sua viúva e também pelo filho de ambos, num primeiro momento: formar um reino na faixa oeste da Península, que iria desde a costa norte galega até onde as conquistas a Sul o permitissem.

Teresa, Bermudo e Urraca.JPG
Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos (Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol.  6v.)


29 de maio de 2019

Efemérides históricas ao tempo da formação de Portugal (1)

Faz hoje 911 anos que morreu um infante hispânico com apenas quinze anos de idade, de seu nome Sancho. E que importância pode ter um acontecimento destes para Portugal, ocorrido numa altura em que o nosso país ainda nem existia (talvez D. Afonso Henriques ainda nem fosse nascido)?

Na verdade, esta morte modificou o curso da História hispânica de forma radical. Caso o jovem Sancho tivesse sucedido a seu pai, seria até provável que o reino de Portugal nunca se tivesse formado. Estamos a falar do único filho varão do imperador D. Afonso VI, pai de D. Teresa e avô de D. Afonso Henriques.

Afonso VI de Galiza, Leão e Castela.jpg
Afonso VI de Galiza, Leão e Castela, imagem daqui, sem indicação de data e autor

Num certo aspeto, a história de vida de D. Afonso VI, rei de Leão Castela e Galiza, o que lhe valeu o título de imperador, assemelha-se à de Henrique VIII de Inglaterra, que haveria de nascer quase quatro séculos depois da sua morte: esperou, durante toda a sua vida, por um herdeiro varão. Apesar de ter casado cinco vezes, nasceu-lhe apenas uma criança legítima: a infanta D. Urraca, a conhecida meia-irmã de D. Teresa.

À medida que envelhecia, D. Afonso VI via-se incapaz de se conformar com este destino e, no início do século XII, terá casado com Zaida, a sua barregã moura, legitimando assim o filho de ambos. Zaida ter-se-ia convertido ao Cristianismo, sendo batizada com o nome de Isabel, tendo o seu filho adquirido o nome de Sancho (não sabemos como anteriormente se chamaria). Este casamento do imperador não é consensual, entre os historiadores, pois não há forma de o provar. A ter sido celebrado, foi-o de forma muito discreta. No entanto, encontram-se referências a uma “rainha Isabel”, em alguns documentos coevos, e o Professor Abel Estefânio, da Universidade do Porto, refere, num seu artigo na revista Medievalista online, que “é pela autoridade do bispo Paio de Oviedo que somos informados de Zaida que «babtizata Helisabeth fuit vocitata»”.

Do que não há qualquer dúvida é que D. Afonso VI, nos primeiros anos do século XII, decidiu apontar esse seu filho, nascido em 1093, como seu sucessor legítimo, apelidando-o de «infante Sancho». O jovem passou a confirmar os documentos oficiais da corte, em conjunto com sua mãe, a tal «rainha Isabel».

Podemos imaginar o impacto que esta medida causou na corte, nomeadamente em sua filha legítima Urraca e seu genro Raimundo, mas também no casal Henrique-Teresa. Esse impacto foi de tal ordem, que levou os dois genros a esquecerem as suas rivalidades, a fim de firmarem, às escondidas do sogro, um Pacto Sucessório, acontecimento praticamente desconhecido da nossa historiografia, mas onde os dois decidiam como seria dividida a herança do imperador, passando por cima do infante Sancho.

O vendaval durou, porém, apenas meia dúzia de anos. O conde D. Raimundo faleceu, de repente, ainda antes do sogro. E o jovem Sancho, nomeado, com apenas quinze anos, responsável pela defesa de Toledo, acabou por perecer na Batalha de Uclés, a 29 de Maio de 1108, na sequência de um ataque sarraceno.

D. Afonso VI, velho, doente e minado pelo desgosto, morreria apenas cerca de um ano mais tarde. Antes disso, porém, reuniu Cortes em Toledo e anunciou a filha Urraca sua sucessora, ao que aliás se opôs o genro Henrique. Este acontecimento originou o rompimento do conde portucalense com o sogro, que o baniu da corte, considerando-o traidor.

Urraca I de Leão e Castela.jpg
Urraca I de Leão e Castela - Pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada na Prefeitura de Leão, Wikipedia

Como sabemos, também D. Henrique acabou por morrer prematuramente, tornando-se as meias-irmãs Urraca e Teresa as principais protagonistas da História Ibérica durante mais de uma década. Ora, se o infante Sancho tivesse, de facto, sucedido a seu pai, não se teriam verificado as lutas pelo poder entre as duas irmãs, rivalidades que foram fundamentais para a formação do reino português.


Texto publicado originalmente aqui.


8 de março de 2018

A Nossa Primeira Grande Mulher


D. Teresa, miniatura medieval de manuscrito gótico do mosteiro de Toxosoutos

A desacreditação de Dona Teresa, iniciada durante a sua vida, perdurou muito para além da sua morte, num contexto de tradição oral e de criação de mitos e lendas que se introduziram no imaginário coletivo e que chegaram a prejudicar a própria investigação histórica moderna.
Na verdade, mais do que Dom Henrique, Dona Teresa preparou o caminho que seu filho Afonso haveria de traçar.

Há um ano, a página Lisbon's Heritage do Facebook, publicou um texto com o título: Terá sido Portugal fundado por uma mulher? E referia que entre documentos régios e particulares, com destaques para as cartas de doação ou de escambo existem várias provas de que D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, surge já com o título de rainha num período compreendido entre 1105 e 1126.

Publico algumas das imagens anexas a esse post:


Carta de delimitação de Penacova e Lorvão datada de 1105. 
É visível a diferenciação de tratamento entre D. Henrique de Borgonha (que ostenta o título de conde) e D. Teresa que surge já como rainha.
 Fonte: Arquivo Nacional da Torre do Tombo: Documentos provenientes do Mosteiro de Lorvão (Coimbra).




 

Referência ao "reinado da infanta D. Teresa de Portucale e Coimbra" numa contenda entre D. Gonçalo Pais, bispo de Coimbra (1109-1127) e Mendo Nunes. 
Documento datado de 26 de Março de 1117.
Fonte: Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Documentos do Cabido da Sé de Coimbra.




Bula "Fratrum Nostrum" emitida pelo papa Pascoal II em 18 de Junho de 1116. 
É visível a referência a D. Teresa como rainha ("T. Regina") e aos bispos portugueses ("portugalensis eps"). 
Fonte: Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Documentos do Cabido da Sé de Coimbra.



 

Carta de doação de Vila Cadima datada de 5 de Maio de 1119. 
Vê-se o selo real de D. Teresa (Tarasia) no fim do documento.
Fonte: Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Documentos do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.



Carta de doação de Souto Seco e Pombeiro datada de Janeiro de 1126. 
No fim do documento observa-se o selo real com os dizeres "Tarasia Regina" (Teresa Rainha). 
Fonte: Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Gavetas.


Informação confidencial: Diz que as memórias de Dona Teresa serão publicadas este ano...