O CONDE D. HENRIQUE (3)
Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
O CONDE D. HENRIQUE - 2
O conde D. Henrique é visto como o “pré-fundador” do reino português. Ou seja, ele teria preparado o caminho que seu filho viria a percorrer.
Os factos históricos, porém, não confirmam esta versão. A historiadora Maria João Branco diz-nos que essa reputação de «pré-fundador» do reino português foi difundida, sobretudo, pelos historiadores portugueses de meados do século XX. (1)
Ela recorda, porém, algo que tem sido descurado na nossa historiografia: o grande protagonismo assumido por D. Henrique “durante as guerras entre a rainha Urraca e seu marido Afonso, o "Batalhador". As opções políticas que D. Henrique tomou nessa luta parecem falar-nos de ambições ainda mais abrangentes (2), ou seja, não se limitavam ao condado Portucalense.
Nos primeiros dez a doze anos de casamento, não há indícios de que D. Henrique pretendesse quebrar a vassalagem que devia ao sogro. Ou seja, não aspirava à independência do condado Portucalense. E, a partir de 1107, ele estaria mais interessado em lhe suceder como imperador, ou em se apossar de parte da sua herança.
Isto mostra que não podemos ver este período da História de forma simplista. Entre os primeiros anos do século XII e a morte de D. Henrique, em 1112, a Península Ibérica viveu grandes convulsões, desembocando numa situação política caótica, em que os acontecimentos se sucediam a uma velocidade vertiginosa.
O casal Henrique / Teresa foi arrastado nesse vendaval e as suas ambições mudaram várias vezes. Ou seja, D. Henrique e D. Teresa não tiveram sempre os mesmos desígnios e objetivos, desde o seu casamento, até à morte de D. Henrique. Não houve, digamos, uma linha reta, um fio condutor sem desvios.
Temos aqui ainda muito assunto para as próximas semanas.
(1) e (2) p. 2, Antes da independência de Portugal, Maria João Branco
Documento da propriedade do Círculo de Leitores, cedido a Maria João Violante Branco para disponibilização no RUN (Repositório da Universidade Nova de Lisboa) e no portal académico Academia.edu
As ambições do conde D. Henrique não se limitavam ao condado Portucalense
O CONDE D. HENRIQUE - 1
Vou iniciar esta nova temporada das Rapidinhas de História com o conde D. Henrique.
O conde D. Henrique é uma personalidade muito interessante, porque, no nosso imaginário coletivo, ele é visto como uma espécie de “avô da nação”. Ao mesmo tempo, há um grande desconhecimento sobre ele e a sua vida.
Segundo os historiadores Amaral e Barroca, na terra futura de Portugal, o tempo e a memória dos homens encarregaram-se de o revestir de grandes virtudes, construindo uma personagem ideal, o verdadeiro percursor da independência nacional. (1)
Como é hábito em personagens míticas, muito do que se costuma contar sobre D. Henrique não corresponde à verdade. Para dar um exemplo, há quem diga que ele conquistou territórios aos mouros. Na realidade, foi o contrário: ele perdeu território para os mouros.
O condado Portucalense que D. Teresa trouxe, ao casar com ele, incluía Santarém. Em 1111, porém, os muçulmanos reconquistaram Santarém e a fronteira recuou, grosso-modo, ao rio Mondego. E por ali ficou.
A imagem que ainda hoje vigora dos pais de Afonso Henriques foi a descrita por Alexandre Herculano. E Herculano não se desviou muito da narrativa medieval, reforçando-a e legitimando-a (2)
Como já vimos, a narrativa medieval é muito desfavorável a D. Teresa. D. Henrique, pelo contrário, é sempre descrito como um guerreiro forte e leal, inspirador de temor e reverência (3)
Esta visão fez dos pais de Afonso Henriques dois polos opostos: D. Henrique, o homem, o guerreiro valente e justo; D. Teresa, a mulher, apenas uma política ardilosa (4). Esta é uma visão medieval, reforçada por um historiador do século XIX e já não faz o menor sentido no século XXI.
Veremos nos próximos vídeos o que nos dizem os factos históricos em relação a D. Henrique.
(1) p. 168, Teresa, a condessa-rainha, Luís Carlos Amaral e Mário Jorge Barroca, Temas e Debates 2020
(2) p. 104 - nota 232; (3) p. 105 e (4) p. 105, Fernão Peres de Trava e seus cavaleiros: um estudo sobre os rituais de investidura cavaleiresca atribuídos pelo Livro do Deão e pelo Livro de Linhagens do Conde D. Pedro a Fernão Peres de Trava, João Paulo Martins Ferreira, publicado em Guarecer, Revista Eletrónica de Estudos Medievais, nº 5, 2020 DOI: https://doi.org/10.21747/21839301/gua5a4
Afinal, quem foi o conde D. Henrique?
Vamos descobrir em catorze episódios.
NACIONALISMO ANACRÓNICO (8)
O principal objetivo de D. Teresa era tornar-se independente do poder central hispânico, um aspeto ignorado e mesmo distorcido na nossa historiografia tradicional.
Com este vídeo, as Rapidinhas despedem-se para férias. Voltarão em setembro ou outubro.
NACIONALISMO ANACRÓNICO (7)
A. de Almeida Fernandes iguala a Batalha de São Mamede à Restauração de 1640, dizendo que, na primeira, o povo, ao lado da nobreza, jogou igualmente haveres e vidas. Mas não há fontes históricas que façam referência ao envolvimento do povo, em São Mamede.
NACIONALISMO ANACRÓNICO (6)
A maneira como as famílias portucalenses e galegas estavam ligadas mostra-nos como é inadequado apresentar o contexto da Batalha de São Mamede de forma simples, do género: portucalenses “patriotas” de um lado, “estrangeiros” ou “estrangeirados” do outro.
NACIONALISMO ANACRÓNICO (5)
A "Crónica dos Godos" foi escrita em fins do século XII, ou mesmo no século XIII. Como nos diz o Professor Luís Carlos Amaral, num dos episódios de Visita Guiada, dedicados a D. Afonso Henriques, o autor desta crónica já conhecia "o filme todo" sobre a vida do nosso primeiro rei e utilizou expressões anacrónicas, em relação à Batalha de São Mamede. Essas expressões foram repetidas ao longo dos séculos, sem qualquer sentido crítico, sendo ainda utilizadas por A. de Almeida Fernandes, em 1978.
NACIONALISMO ANACRÓNICO (4)
Depois da morte do imperador Afonso VI, a relação entre o condado Portucalense e a Galiza ficou por resolver.
NACIONALISMO ANACRÓNICO (3)
Sob o título de “conde da Galiza”, D. Raimundo, casado com a infanta D. Urraca, tornou-se responsável por um território que ia desde a costa norte galega até ao rio Tejo.
A MISOGINIA NOS ESCRITOS MEDIEVAIS (11)
Existe um grande contraste entre o conteúdo das crónicas medievais e a actuação de D. Teresa.
"Nada nos autoriza a distinguir D. Teresa de D. Henrique".
(historiadores Luís Carlos Amaral e Mário Jorge Barroca)
A MISOGINIA NOS ESCRITOS MEDIEVAIS (10)
Em relação às mulheres, também Herculano adotou e propagou a visão medieval.
INDEPENDÊNCIA (5)
O processo de independência de Portugal foi "uma evolução na longa duração".
(as palavras entre aspas pertencem à historiadora Maria João Branco)
INDEPENDÊNCIA (4)
Não se pode "colar uma data precisa" à independência de Portugal.
(historiadora Maria João Branco)