Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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7 de abril de 2026

As marionetas loiras de Trump

Trump tinha quatro marionetas loiras. Agora, só tem duas. E, ou muito me engano, ou elas continuarão a diminuir.

 

As marionetas de Trump só fazem e dizem o que ele lhes comanda. Não significa, porém, que estejam nos seus cargos contrariadas. Por alguma razão, veneram Trump, buscam o seu elogio e dá-lhes um gozo enorme serem desagradáveis, na maneira como tratam os seus interlocutores.

 

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Imagem Instagram

 

Mas Pam Bondi falhou. Mostrou bastante nervosismo, quando questionada pela Comissão de Justiça da Câmara, a 11 de Fevereiro passado. Várias vezes lhe faltaram os argumentos, socorrendo-se do chavão ser Trump o "melhor Presidente que os Estados Unidos já tiveram". Além disso, cometeu uma gaffe monumental, ao segurar os seus papéis de maneira a ser possível ler o conteúdo. Numa das páginas, tinha o "Histórico de Busca de Jayapal Pramila", com os documentos do caso Epstein que foram revistos por esta congressista democrata. E vários congressistas deste partido exigiram, no dia seguinte, a investigação do que consideram ser “espionagem” pelo governo das suas pesquisas do caso Epstein.

 

Na altura, Trump defendeu Pam Bondi. Surpreendeu-me, confesso. E pensei que o presidente tivesse decidido dar-lhe uma segunda oportunidade, na próxima sessão, a acontecer neste mês de abril. Mas não. Ele apenas quis calar as vozes críticas, na altura. Trump tinha já o seu plano delineado e, aproveitando a semana santa, incluiu-a numa série de demissões. 

 

Karoline Leavitt parece estar de pedra e cal. É exímia, tanto a desconversar, como a insultar. Bem ao gosto de Trump. É uma espécie de "Rita Matias à americana", se bem que, no caso luso, se trate de uma política calculista, pronta a atacar o poder no seu partido, mal Ventura deixe de servir. Karoline Leavitt não tem aspirações dessas. Adora servir o seu ídolo.

 

A terceira loira, neste grupo de quatro, é a doce pastora evangélica Paula White-Cain, que elevou o pedófilo Trump ao nível de Cristo, num almoço de Páscoa. Bem, ela só é doce aparentemente, pois, na verdade, é uma fundamentalista religiosa, capaz de manipular tão bem, ou ainda melhor, do que qualquer aiatola. Mas depois da comparação exagerada, levando a Casa Branca a apagar o vídeo do seu discurso, não sei... Irá Trump deixá-la cair, apesar de ser sua colaboradora há vários anos? Veremos!

 

E perguntam-me vocês: quem é a quarta loira? Bem, a quarta loira, na verdade, não existe. Ou melhor, existia, mas foi apagada. Literalmente! Pelo menos, já não a encontro no Instagram, onde tinha mais de um milhão de seguidores.

 

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Imagem Instagram

Chamava-se Jessica Foster, era militar e influenciadora,  “a apoteose das fantasias do movimento MAGA, tudo concentrado num único canal, mas é obviamente IA: não há rasto que leve à origem das imagens, não há um historial sobre ela e há falhas visíveis”, afirmou Sam Gregory, director executivo da Witness — uma organização que investiga vídeos e deepfakes. 

 

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Imagem Instagram

Um produto da IA, sem estar assinalado como tal, enganando os seus seguidores, que acreditavam piamente na sua existência. Surgia sempre de uniforme e junto de políticos conhecidos.

 

E para que servem estas loiras?

 

Primeiro, servem para disfarçar a misoginia de Trump. O presidente machista pode assim mostrar que põe mulheres em cargos de responsabilidade, enquanto as controla como marionetas. E ai delas que o desiludam (como já vimos).

 

Segundo, elas têm de ser bonitas e loiras, a fim de capatarem um determinado público: homens conservadores e patriotas, o núcleo duro dos votantes de Trump.

 

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Imagem Instagram

Terceiro, cumprem o racismo norte-americano. Trump escolhe loiras também por serem o melhor garante de genes exclusivamente brancos. Há racismo em todo o lado, é certo. Mas a mentalidade norte-americana, no que à cor da pele diz respeito, difere da europeia.

 

Em 2020, Antonio Banderas foi nomeado para um Óscar, pela sua prestação no filme Dor e Glória, de Pedro Almodóvar. Quando se soube da sua nomeação, houve uma polémica, na imprensa norte-americana, sobre se o nomeado era, ou não, uma "pessoa de cor"! O próprio Antonio Banderas disse, numa entrevista, que li há alguns anos (e não sei onde) que, quando chegou a Hollywood, lhe disseram para não alimentar grandes esperanças porque... não era branco! Era um "brown man"! Por acaso, ele tornou a aflorar o assunto, há dias, numa entrevista ao The Times.

 

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Imagem Instagram

Isto quer dizer que também um ator português, em Hollywood, é um "brown man". Imagino o que terão dito de Joaquim de Almeida, que é tão moreno como o Banderas. O "brown man" Ventura sabe disto? E nunca reclamou?

 

“I don’t think Antonio Banderas qualifies as a person of color. I think he’s a wonderful person and a wonderful actor, but he’s European,” said Claudia Puig, president of the Los Angeles Film Critics Association, echoing common refrains heard initially online. “Yes, he is Hispanic, because he’s from Spain, but he’s not from Latin America, so he’s not Latino.”


A explicação desta senhora, embora bem intencionada, roça o patético. Mas que fique claro: é-me indiferente a cor de pele de cada um, ou uma. Quis apenas dar um exemplo do racismo latente nos EUA e da sua ignorância em relação a outras nações e seus povos. 

 

Se já fosse possível, não duvido que Trump poria também criações da IA em todas as funções, nas quais ele pensa poderem ser exercidas por mulheres. As humanas podem falhar.

 

Enfim, sempre as pode substituir por homens, como o amazing Todd Blanche, nas palavras da própria Pam Bondi.

26 de março de 2026

O fiasco do século

Ao grande e orgulhoso povo do Irão, digo-vos que a hora da vossa liberdade está a chegar. Abriguem-se, não saiam de casa, é muito perigoso, bombas vão cair em todo o lado. Quando terminarmos de derrubar o vosso Governo, ele será vosso para o ocuparem.

Estas foram palavras de Donald Trump, a 28 de fevereiro passado, ao anunciar o ataque militar ao Irão. Antes disso, com o povo iraniano a revoltar-se e a ser dizimado, Trump encorajou esse mesmo povo a resistir e a lutar, prometendo-lhes apoio, que a ajuda não tardaria. Quantos iranianos e iranianas, que não planeavam sair à rua, o fizeram, despois destas palavras? E quantas dessas pessoas morreram e/ou foram torturadas?

 

Já aqui o disse e torno a dizer: Trump está a marimbar-se para os Direitos Humanos, para a liberdade, para a democracia, para o povo iraniano e… para as mulheres de cabeça coberta. Nada lhe podia ser tão indiferente. A única coisa que talvez incomode Trump, é não lhes poder apreciar o cabelo. Trump é um psicopata pedófilo, misógino e machista.

 

Aliás, as muçulmanas de cabeça coberta, ou, ainda melhor, de burca, dão muito jeito aos misóginos ocidentais. É vê-los a defenderem acirradamente os direitos das mulheres, a igualdade, a emancipação… Enfim, mais uma maneira de se servirem delas e de iludirem as ocidentais, que se deviam envergonhar de ainda serem feministas. Simplesmente lamentável.

 

Estamos a ver os resultados dos ataques ao Irão: além das inevitáveis destruição e mortandade, temos a inflação galopante a aumentar o fosso entre ricos e pobres, a iminência de uma crise petrolífera sem precendentes, Trump metido num beco sem saída e… o povo iraniano mais oprimido do que nunca! Nem sequer sabemos a que escala estão a ser torturados e executados.

 

Intitulei este post de “fiasco do século”. Mas não, não me estava a referir à guerra contra o Irão. Estava a referir-me a Trump himself. Já há apoiantes dele a caírem na realidade, a darem conta da sua retórica balofa. As palavras de Trump são como farófias inchadas, claras em castelo que, metidas na boca, se transformam em nada, numa fracção de segundo. Trump diz e desdiz-se, confunde, desrespeita as leis, provoca o caos, espalha o ódio. E, na Casa Branca, os pastores evangélicos rezam por ele, de mãos pousadas nele em profunda veneração, enquanto o seu Ministro da Guerra afirma ser o ataque ao Irão vontade de Deus.

 

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Imagem Instagram (vaticannewspt)

 

Acreditar em Trump é a mesma coisa que acreditar no Pai Natal. Ilusão infantil, de quem julga possível vivermos num mundo ideal, onde não haja crime, nem pobreza, nem gente diferente a vaguear pelas nossas ruas (porque ser diferente é sinónimo de ser perigoso), onde as famílias e as “pessoas de bem” vivam em paz e harmonia.

 

Esse mundo não existe, nem nunca irá existir. Mas o mundo tem épocas, em que, no seu conjunto, é mais, ou menos, perigoso. Neste momento, o mundo é um lugar muito perigoso. E isso o devemos, em larga escala, ao fiasco deste século: Donald Trump.

 

Não é messias quem quer. Muito menos um criminoso. Messias, só houve um! Devíamos ler e refletir mais vezes sobre as palavras do verdadeiro e único Messias.

28 de outubro de 2020

«Para eles, Trump é um Messias»

 Excertos de uma entrevista dada pelo sociólogo norte-americano Philip Gorski, Professor na Universidade de Yale, à edição de 11 de outubro de 2020 do Jornal Católico da diocese alemã de Hildesheim, em que se analisa o apoio incondicional dado a Trump pelos evangélicos norte-americanos:

Qual a razão de muitos evangélicos serem apoiantes incondicionais de Trump?

Para eles, o essencial é a proibição do aborto e do casamento entre homossexuais. Até podem criticar a política migrante de Trump, ou não aprovar o comportamento pessoal do Presidente - no fim, tudo isto é secundário. Aqueles dois temas estão acima de quaisquer outros.

Porque consideram eles esses temas tão mais importantes do que outros temas cristãos, como a justiça social, o clima, ou a proteção dos refugiados?

Isso explica-se, em parte, do ponto de vista psicológico. Muitos temas políticos permanecem abstratos para certos conservadores norte-americanos, como impostos, alianças internacionais ou proteção do ambiente. Têm dificuldades em estabelecer uma relação com questões desse tipo. Já no que concerne ao aborto ou ao casamento homossexual, estabelecem, de imediato, uma ligação emocional, porque veem aí uma ameaça aos seus valores familiares tradicionais. O casamento monogâmico e heterossexual é, para eles, muito central - pretendem manter a sociedade limpa de todos os comportamentos que não se coadunem com estes seus valores. Os Republicanos vêm propagando a ameaça a estes valores familiares nos últimos anos, a fim de espetar uma cunha entre os conservadores católicos e o Partido Democrata.

Como se explica que especialmente os evangélicos brancos se sintam ameaçados?

Para eles, os Estados Unidos da América são uma nação branca e cristã, fundada por Protestantes brancos e prósperos. Sentem esta identidade ameaçada pela secularização, pela imigração e pelos não-cristãos. Sentem-se realmente como o grupo mais ameaçado e perseguido dos EUA. E consideram necessitar de um protetor forte e impiedoso, que os defenda a todo o custo.

E esse protetor é Trump?

Exatamente. Muitos acreditam mesmo que Trump é um enviado de Deus, um instrumento de Deus. Trump é, para eles, um Messias. Comparam-no ao rei Ciro do Velho Testamento, que libertou os israelitas do cativeiro babilónico. Muitos evangélicos leva a Bíblia à letra e estabelecem permanentemente paralelos entre a política atual e o Apocalipse. Consideram estar no meio de uma luta entre o Bem e o Mal. Eles, os evangélicos, estão naturalmente do lado do Bem - os seus opositores políticos e culturais corporizam o Mal.

E Trump sustenta essa sua crença?

Sim, Ele vê o mundo tal como eles: divide-o entre amigo e inimigo, Mal e Bem. O seu princípio é olho por olho, dente por dente (…) Ficaria surpreendido se me dissessem que ele, em toda a sua vida, tivesse mais de uma hora de leitura da Bíblia. Mas, como todos os demagogos, ele possui grande capacidade de sentir como o público reage à sua pessoa e de escolher os temas que provocam a reação mais forte.

Quão importante é para os eleitores cristãos a manutenção da democracia?

Não tão importante como se possa pensar. Sobretudo os brancos evangélicos e muitos católicos conservadores vão tomando uma direção cada vez mais autoritária. Eles consideram inclusive a democracia ser um obstáculo que os impede de alcançar os seus fins políticos. Muitos dizem abertamente desejarem uma ditadura.