Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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26 de março de 2026

O fiasco do século

Ao grande e orgulhoso povo do Irão, digo-vos que a hora da vossa liberdade está a chegar. Abriguem-se, não saiam de casa, é muito perigoso, bombas vão cair em todo o lado. Quando terminarmos de derrubar o vosso Governo, ele será vosso para o ocuparem.

Estas foram palavras de Donald Trump, a 28 de fevereiro passado, ao anunciar o ataque militar ao Irão. Antes disso, com o povo iraniano a revoltar-se e a ser dizimado, Trump encorajou esse mesmo povo a resistir e a lutar, prometendo-lhes apoio, que a ajuda não tardaria. Quantos iranianos e iranianas, que não planeavam sair à rua, o fizeram, despois destas palavras? E quantas dessas pessoas morreram e/ou foram torturadas?

 

Já aqui o disse e torno a dizer: Trump está a marimbar-se para os Direitos Humanos, para a liberdade, para a democracia, para o povo iraniano e… para as mulheres de cabeça coberta. Nada lhe podia ser tão indiferente. A única coisa que talvez incomode Trump, é não lhes poder apreciar o cabelo. Trump é um psicopata pedófilo, misógino e machista.

 

Aliás, as muçulmanas de cabeça coberta, ou, ainda melhor, de burca, dão muito jeito aos misóginos ocidentais. É vê-los a defenderem acirradamente os direitos das mulheres, a igualdade, a emancipação… Enfim, mais uma maneira de se servirem delas e de iludirem as ocidentais, que se deviam envergonhar de ainda serem feministas. Simplesmente lamentável.

 

Estamos a ver os resultados dos ataques ao Irão: além das inevitáveis destruição e mortandade, temos a inflação galopante a aumentar o fosso entre ricos e pobres, a iminência de uma crise petrolífera sem precendentes, Trump metido num beco sem saída e… o povo iraniano mais oprimido do que nunca! Nem sequer sabemos a que escala estão a ser torturados e executados.

 

Intitulei este post de “fiasco do século”. Mas não, não me estava a referir à guerra contra o Irão. Estava a referir-me a Trump himself. Já há apoiantes dele a caírem na realidade, a darem conta da sua retórica balofa. As palavras de Trump são como farófias inchadas, claras em castelo que, metidas na boca, se transformam em nada, numa fracção de segundo. Trump diz e desdiz-se, confunde, desrespeita as leis, provoca o caos, espalha o ódio. E, na Casa Branca, os pastores evangélicos rezam por ele, de mãos pousadas nele em profunda veneração, enquanto o seu Ministro da Guerra afirma ser o ataque ao Irão vontade de Deus.

 

Leão XIV 01.jpg

Imagem Instagram (vaticannewspt)

 

Acreditar em Trump é a mesma coisa que acreditar no Pai Natal. Ilusão infantil, de quem julga possível vivermos num mundo ideal, onde não haja crime, nem pobreza, nem gente diferente a vaguear pelas nossas ruas (porque ser diferente é sinónimo de ser perigoso), onde as famílias e as “pessoas de bem” vivam em paz e harmonia.

 

Esse mundo não existe, nem nunca irá existir. Mas o mundo tem épocas, em que, no seu conjunto, é mais, ou menos, perigoso. Neste momento, o mundo é um lugar muito perigoso. E isso o devemos, em larga escala, ao fiasco deste século: Donald Trump.

 

Não é messias quem quer. Muito menos um criminoso. Messias, só houve um! Devíamos ler e refletir mais vezes sobre as palavras do verdadeiro e único Messias.

11 de janeiro de 2023

Resistência em alemão (5)

 Willi Graf

Willi Graf - Placa de homenagem na casa onde nasce

Placa de homenagem a Willi Graf com foto, na casa onde nasceu

Wilhelm „Willi“ Graf nasceu a 2 de janeiro de 1918 em Euskirchen, mas a família mudou-se para Saarbrücken quatro anos depois, onde o pai Gerhard Graf tomou conta de uma quinta pertencente à paróquia de São João. A família era muito ligada à Igreja, Willi Graf ajudou à missa e pertenceu a uma organização de Juventude Católica chamada Bund Neudeutschland, proibida assim que o Partido Nazi alcançou o poder. Em 1934, Willi Graf ingressou numa outra organização católica, a Grauer Orden, abertamente crítica do regime e também proibida, mas que sobreviveu vários anos na clandestinidade, dividida em pequenas unidades regionais.

Willi Graf recusou ingressar na Juventude Hitleriana, apesar de o terem ameaçado de, nesse caso, não lhe permitirem acabar o liceu. Também não se deixou convencer, quando lhe propuseram que ingressasse apenas para manter as aparências. O jovem manteve-se firme nas suas convicções e conseguiu concluir os estudos liceais, de maneira a poder iniciar o curso de Medicina, em Bona, no outono de 1937.

Em 1938, foi preso, junto com outros elementos da Grauer Orden. Algumas semanas mais tarde, porém, beneficiou de uma amnistia na sequência da anexação da Áustria. Quando rebentou a guerra, foi alistado. Serviu a Wehrmacht (exército alemão) até 1942 como socorrista e médico auxiliar na Bélgica, França, Jugoslávia e União Soviética, assistindo a muitas atrocidades. Segundo a sua irmã Anneliese, estas experiências despertaram nele a convicção de que teria de agir.

Willi Graf Soldado.JPG

https://www.literaturland-saar.de/themen/willi-graf-briefe-tagebuecher/willi-graf-briefe-und-tagebuecher/

Em abril de 1942, foi transferido, junto com os seus colegas de curso, para a Universidade Ludwig-Maximilian, em Munique, onde entrou em contacto com Hans e Sophie Scholl, tornando-se num elemento ativo do grupo Weiße Rose. Na primeira metade de Fevereiro de 1943, além da distribuição dos folhetos, Willi Graf, Hans Scholl e Alexander Schmorell pintaram em vários edifícios de Munique palavras de ordem, como “Abaixo Hitler” e “Hitler assassino em massa”.

Quando, a 18 de Fevereiro, os irmãos Scholl foram descobertos a distribuir os folhetos e entregues à Gestapo, Willi Graf e a sua irmã Anneliese foram igualmente presos, passadas poucas horas. Anneliese, porém, nada tinha a ver com o Weiße Rose (nem sequer sabia que o irmão pertencia ao grupo) e foi libertada. Ele foi condenado à morte a 19 de abril de 1943, mas, ao contrário dos irmãos Scholl e de Christoph Probst, a sentença não foi imediatamente cumprida. Durante seis longos meses, a Gestapo submeteu-o repetidamente a interrogatórios, na esperança de conseguir extorquir-lhe nomes de outros “traidores”. Willi Graf acabou por ser executado pela guilhotina a 12 de outubro de 1943. Foi sepultado em Munique, mas, a pedido da família, os seus restos mortais foram trasladados para Saarbrücken, onde, a 4 de novembro de 1946, foram depositados num túmulo de honra, no cemitério de São João.

Em 1999, Willi Graf foi inserido no Martirológio Católico do século XX. A 27 de dezembro de 2017, a diocese de Munique-Freising anunciou considerar a sua beatificação e a 1 de novembro de 2018, foi inaugurado o sino Willi Graf na Igreja de Santa Elisabete, em Saarbrücken.

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https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=74050872

Além de vários liceus e ruas, têm o nome de Willi Graf: um lar de estudantes em Munique, um lar de idosos em Saarbrücken, um centro de formação para famílias em Neuss e um centro de convívio para jovens em Ludwigshafen am Rhein.

Terminada a guerra, a irmã Anneliese Knoop-Graf dedicou-se intensivamente a analisar a vida, o pensamento e a acão de Willi Graf, através dos diários dele, entre outras fontes. O seu trabalho em prol do estudo da resistência alemã ao nazismo valeu-lhe um doutoramento Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Karlsruhe. Anneliese Knoop-Graf também instituiu o Prémio Willi Graf no Liceu Irmãos Scholl de Münster, conferido anualmente a finalistas que se destaquem pelo seu desempenho.

28 de dezembro de 2022

Resistência em alemão (4)

 Christoph Probst

Sophie Scholl, Hans Scholl, Christoph Probst - Fot

Foto: George (Jürgen) Wittenstein/akg-images

Nesta fotografia, além dos irmãos Hans e Sophie Scholl, encontra-se o seu amigo e companheiro de luta do grupo “Rosa Branca” Christoph Probst (à direita). Esta fotografia acabou por ser premonitória, pois os três foram presos e executados no mesmo dia.

Christoph Hermann Ananda Probst nasceu em Novembro de 1919, filho de Hermann Probst, um engenheiro químico com ligações ao meio artístico, nomeadamente, com artistas proscritos pelo regime nazi. Hermann Probst era igualmente um estudioso do sânscrito e da filosofia indiana. O filho cresceu assim num meio valorizador da liberdade cultural e religiosa.

O destino de Christoph Probst foi particularmente trágico. Estudante de Medicina na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, dava ideias para a criação dos folhetos distribuídos clandestinamente pelo grupo "Rosa Branca". Mantinha-se, porém, afastado de um envolvimento mais comprometedor. Só por ocasião da Batalha de Estalinegrado, se decidiu a escrever ele próprio um texto, que deveria constar do sétimo folheto. Nunca chegaria a ser imprimido. Quando os irmãos Scholl foram descobertos a distribuir o sexto panfleto, Hans tinha no bolso o rascunho de Christoph Probst, contendo, entre outras frases de repúdio pelo nazismo: “Hitler e o seu regime têm de cair para que a Alemanha possa continuar a viver” (Hitler und sein Regime muss fallen, damit Deutschland weiter lebt).

Christoph Probst foi preso de imediato e, apesar de as atas dos interrogatórios provarem que Hans e Sophie tudo fizeram para tentar ilibar o amigo, assumindo a responsabilidade de todas as ações da “Rosa Branca”, ele viria a ser executado, pela guilhotina, apenas quatro dias depois, tal como eles. A tragicidade do seu destino, porém, não se resume a esta série de acasos infelizes. Casara em 1940, com apenas 21 anos, e já era pai, a razão porque se mantivera cauteloso em relação à sua participação na “Rosa Branca”. Quando foi executado, a 22 de Fevereiro de 1943, tinha dois filhos e uma filha, esta com apenas quatro semanas de vida. Herta Dohrn, a sua jovem mulher, encontrava-se ainda no hospital, devido a complicações desse último parto.

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Wikipedia

Momentos antes da sua execução, Christoph Probst foi, a seu pedido, baptizado catolicamente e está incluído no Martirológio alemão do século XX, publicação a cargo da Conferência Episcopal deste país. Além disso, consta igualmente da Neue Deutsche Biographie (NDB), uma publicação da Comissão Histórica da Academia Bávara das Ciências (Bayerische Akademie der Wissenschaften), que reúne biografias dignas de nota. As entradas são de autoria diversa; a de Christoph Probst é do seu filho mais velho, Michael Probst, nascido em 1940 (falecido 2010).

Além de algumas placas de homenagem, em diversos locais (como na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique), Christoph Probst dá o nome a várias ruas e a três liceus (o que, aliás, comparado com os irmãos Scholl - cerca de duzentos liceus - soa a pouco).

14 de dezembro de 2022

Resistência em alemão (3)

 Alexander Schmorell

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Wikipedia

Alexander Schmorell nasceu em Setembro de 1917 em Orenburg, cidade russa perto da fronteira com o Cazaquistão. Tinha, porém, nacionalidade alemã, pois descendia de uma família da Prússia Oriental (território hoje dividido entre a Rússia e a Polónia). A sua mãe russa era filha de um padre ortodoxo e Alexander foi batizado na Igreja Ortodoxa. A senhora morreu, porém, quando o filho tinha apenas dois anos e, em 1921, Alexander acabou por ir com o pai médico e a sua segunda mulher para Munique.

Em 1935, conheceu Christoph Probst no liceu, que, tal como ele, haveria de pertencer ao grupo “Rosa Branca”. Em 1937, entrou para o serviço militar e, em 1938, participou na anexação da Áustria e na invasão da Checoslováquia. Já nessa altura terá entrado em conflito com a ideologia nazi.

Cumprido o serviço militar, e apesar de ser mais inclinado para as artes (pintura e escultura), iniciou, por influência do pai, o curso de Medicina em Hamburgo. Nas férias de Verão de 1940, teve de cumprir serviço como socorrista na frente francesa e, regressado à Alemanha, encetou os seus estudos em Munique, na Universidade Ludwig-Maximilian, onde conheceu Hans Scholl.

Tornou-se num dos principais membros do grupo “Rosa Branca”, tendo dividido com Hans Scholl a autoria de quatro folhetos, criados e distribuídos entre Maio e Julho de 1942. Nesta altura, os dois foram novamente mobilizados, desta vez, na frente do Leste, e, depois do seu regresso a Munique, o tom dos seus textos contra o regime nazi endureceram. Além disso, procuraram aumentar o seu raio de ação, também com a ajuda do Professor Kurt Huber, tentando contactos com Berlim. Alexander Schmorell distribuiu panfletos igualmente em várias cidades austríacas e, junto com Hans Scholl, pintou palavras de ordem como “Abaixo Hitler” e “Liberdade” em muros e paredes de Munique.

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Placa de homenagem a Alexander Schmorell na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique

Depois da detenção dos irmãos Scholl e de Christoph Probst, Alexander Schmorell tentou, em vão, fugir para a Suíça com um passaporte falso. Nada mais lhe restou do que regressar a Munique, onde havia já um mandado de detenção em seu nome, com uma recompensa de 1000 marcos. A 24 de Fevereiro de 1943, o dia do enterro dos seus amigos executados, foi reconhecido num abrigo de ataque aéreo e detido, após denúncia. Condenado à morte por decapitação a 19 de Abril de 1943, foi executado a 13 de Julho seguinte, com vinte e cinco anos de idade.

Alexander Schmorell foi incluído na lista dos Novos Mártires da Igreja Ortodoxa Russa no estrangeiro, em Novembro de 1981. Em 2007, esta Igreja decidiu canonizá-lo, processo que se concluiu com a respetiva cerimónia, a 4 de Fevereiro de 2012, em Munique. O dia da sua morte, 13 de Julho, é o dia do Santo Alexandre de Munique, nesta liturgia

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Orthpedia

30 de novembro de 2022

Rsistência em alemão (2)

Sophie Scholl

As memórias de Traudl Junge, secretária de Hitler, serviram de base ao filme A Queda (Der Untergang), no qual o falecido Bruno Ganz interpreta o ditador nazi. No início de 1945, Traudl Junge foi uma das colaboradoras do Führer admitida no bunker construído por baixo da chancelaria do III Reich. No filme, ela é interpretada pela atriz Alexandra Maria Lara.

Terminada a guerra, os Aliados ilibaram-na de culpas, muito devido à sua idade. Traudl Junge tinha 22 anos, quando começou a trabalhar para Hitler, e 25, quando a guerra terminou. Pouco antes da sua morte, vi partes de uma entrevista sua, na televisão. Dizia ela que, durante muito tempo, assim acreditara ter sido: Hitler sempre fora simpático com ela, nova demais para tomar verdadeira consciência do carácter e das atrocidades cometidas em nome dele. Um dia, porém, numa placa de homenagem a Sophie Scholl, não conseguiu desviar o olhar da data de nascimento: 9 de Maio de 1921. Traudl Junge, nascida a 16 de Março de 1920, era um ano mais velha. E, pela primeira vez, aceitou aquilo que se esforçava por recalcar: a idade não pode servir de desculpa, ou pretexto, para fechar os olhos.

Sophie Scholl, Hans Scholl, Christoph Probst - Fot

Sophie Scholl com o irmão Hans (à esquerda) e Christoph Probst

Foto: George (Jürgen) Wittenstein/akg-images

À semelhança do seu irmão Hans, dois anos e meio mais velho, Sophia Magdalena „Sophie“ Scholl começou por se agradar do ideal comunitário propagado pelo partido nazi e ingressou, com treze anos, na BDM, uma organização de raparigas equivalente à Juventude Hitleriana. Os pais nunca simpatizaram com o regime de Hitler e não viam com bons olhos estas opções dos filhos. Mas deram-lhes liberdade de escolha. Passados dois anos, depois de terem conhecido as organizações por dentro, tanto o filho, como a filha, lhes viraram as costas.

A leitura das obras de Santo Agostinho de Hipona parece terem sido essenciais para uma nova orientação na vida de Sophie Scholl, em defesa dos valores cristãos. E, em Maio de 1942, ingressou nos cursos de Biologia e Filosofia na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, onde o irmão estudava Medicina. Assim entrou ela em contacto com opositores do nazismo.

Sophie ingressou no grupo “Rosa Branca” (Weiße Rose), participando na criação e distribuição dos folhetos, apesar de o irmão ter tentado afastá-la da oposição ativa ao regime. O sucesso do grupo, alargando os seus contactos e fazendo chegar os seus escritos a outras cidades, chamou a atenção da Gestapo. A temida polícia política iniciou uma averiguação quanto à origem dos escritos e, em Fevereiro de 1943, já desconfiava do meio estudantil de Munique.

A 18 desse mês, um funcionário da Universidade Ludwig-Maximilian descobriu os irmãos Scholl a distribuírem os panfletos. Depois de serem interrogados pela reitoria da Universidade, foram entregues à Gestapo. Das atas do interrogatório, consta que Sophie Scholl tudo terá feito para garantir serem ela e o irmão os mais altos responsáveis pelos textos distribuídos, a fim de proteger outros membros do grupo.

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Fotografia da Gestapo de Sophie Scholl, tirada depois da sua captura a 18 de Fevereiro de 1943

Os dois foram condenados à morte apenas quatro dias depois e a sentença, por decapitação (guilhotina), executada nesse mesmo 22 de Fevereiro de 1943. Sophie Scholl não tinha ainda completado os 22 anos.

Os irmãos Scholl, mas principalmente Sophie, já serviram de inspiração a vários filmes, livros, peças de teatro e exposições. Na Alemanha, há inúmeras ruas e praças com o seu nome, assim como quase duzentos liceus.

16 de novembro de 2022

Resistência em alemão (1)

Hans Scholl

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Direitos: C.H. Beck Verlag in "Flamme sein" von Robert Zoske

Em tempos conturbados, muito por causa de uma guerra em solo europeu, começo uma série sobre alemães que se opuseram ao nazismo, pois, embora haja conhecimento de alguns exemplos, penso ser, no geral, algo pouco conhecido fora da Alemanha. E é sempre bom relembrar exemplos de quem reage ao populismo/fascismo, mesmo que, num primeiro momento (em alguns casos) se deixasse ir na onda de quem promete soluções simples para problemas complicados, em nome de uma pretensa salvaguarda de valores.

Ao estudar este assunto, surpreendeu-me que muitos desses resistentes fossem prelados, Católicos e Protestantes, apesar de a Igreja ser acusada (com razão) de ter sido demasiado passiva, durante a 2ª Guerra Mundial. Mas houve, de facto, quem levantasse a voz em nome dos princípios cristãos, também muitos leigos. É o caso de Hans Fritz Scholl.

Os irmãos Scholl (Hans e Sophie) são dos mais conhecidos opositores ao nazismo, principalmente, Sophie Scholl, sobre a qual já se rodaram filmes e escreveram livros. Mas começo pelo irmão, pois ele foi um dos fundadores da “Rosa Branca” (Weiße Rose), um movimento estudantil baseado em princípios cristãos e humanistas, surgido em Junho de 1942, na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique. Passado um ano, estava já aniquilado e os seus principais membros executados pelo regime nazi.

Sophie Scholl, Hans Scholl, Christoph Probst - Fot

Da esquerda para a direita: Hans Scholl, Sophie Scholl, Christoph Probst (os primeiros a serem executados)

Foto: George (Jürgen) Wittenstein/akg-images

O grupo clandestino “Rosa Branca” escrevia, imprimia e distribuía folhetos, nos quais dava conhecimento dos crimes do regime e apelava à oposição. As primeiras distribuições resumiam-se à região de Munique, depois, arranjaram quem o fizesse também noutras cidades. Pouco antes de o grupo ter sido descoberto, andava em contactos com outros grupos oposicionistas, tentando alargar a sua influência até à capital Berlim e a focos de oposição no próprio exército. Ao todo, imprimiram seis folhetos, cuja tiragem foi aumentando, chegando aos 9000 exemplares.

Hans Scholl, nascido em Setembro de 1918, entrou, com doze anos, para um grupo de jovens católicos. Antes de completar os quinze, e contra a vontade do pai, juntou-se à Juventude Hitleriana (a 15 de Abril de 1933). Dois anos mais tarde, porém, sentia-se já incomodado com o radicalismo e o princípio da obediência cega dos membros dessa organização juvenil.

Ao começar a estudar Medicina na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, em 1939, Hans Scholl entrou em contacto com Professores, Assistentes e estudantes que se regiam por princípios éticos cristãos e criticavam o regime. O ponto de viragem definitivo deu-se quando, nas férias, foi enviado como socorrista para a frente francesa, vivências que lhe consolidaram a forte oposição ao nazismo e à guerra por este iniciada.

Outras influências contribuíram para a sua transformação, como as mensagens do escritor Thomas Mann difundidas pela BBC, ou as pregações do bispo de Münster, Clemens August Graf von Galen, que denunciava a execução de doentes mentais pelo regime e apelava à oposição. Em Fevereiro de 1942, Hans Scholl começou a organizar fóruns de discussão com um pequeno e selecionado grupo de estudantes.

Já depois de o grupo “Rosa Branca” ter distribuído quatro folhetos, Hans Scholl e Alexander Schmorell (um outro membro) foram enviados como soldados para a frente leste. Nessas quinze semanas, os jovens foram confrontados com vários horrores, incluindo a maneira como os judeus eram tratados no Gueto de Varsóvia. Depois do seu regresso a Munique, em Novembro de 1942, Hans intensificou o tom usado nos folhetos, apelando à luta organizada contra o NSDAP (Partido Nazi), principalmente, depois da Batalha de Estalinegrado.

A 18 de Fevereiro de 1943 Hans e a irmã Sophie foram descobertos a distribuir os folhetos por um funcionário da Universidade que os entregou à Gestapo. Depois de quatro dias de interrogatório, foram condenados à morte por decapitação. A sentença foi executada ainda nesse dia (22 de Fevereiro). Diz-se que as últimas palavras de Hans Scholl foram “viva a liberdade” (Es lebe die Freiheit). Tinha 24 anos.

Hans Scholl Es-lebe-die_freiheit.jpg

Imagem da página do Liceu "Irmãos Scholl", em Waldkirch

27 de agosto de 2014

«Quem se lembra hoje do extermínio dos Arménios?» perguntou Hitler

Este ano, assinala-se o 100º aniversário do início da Primeira Guerra Mundial, a guerra das malfadadas trincheiras. Mas a guerra de 1914/18 não foi só feita nas trincheiras, nem causou miséria e mortandade apenas na Europa. Foi igualmente palco de um genocídio perpetrado pelo Império Otomano sobre os Arménios, de que mal se fala nas nossas longitudes, e que provocou a morte de cerca de dois milhões de pessoas.

Durante os primeiros dois anos a seguir à sua entrada na guerra, a 29 de outubro de 1914, a Turquia praticou o extermínio sistemático da minoria arménia, que se alargou a cristãos de outras etnias. O ponto de partida foi a ofensiva falhada no Cáucaso, em fins de 1914 e início do ano seguinte. Os Arménios de determinada província apoiaram os russos neste conflito e, embora a maioria dos restantes se mantivesse do lado dos turcos, foi determinado o seu extermínio. Normalmente, as populações arménias eram sujeitas a marchas forçadas de centenas de quilómetros, ou transportadas em carruagens de gado, e deixadas a morrer à fome e à sede em regiões inóspitas. Muitos deles, porém, foram sumariamente assassinados e muitas mulheres e crianças forçadas à conversão ao Islão.

Nem todos os turcos pactuaram, mas sofreram as consequências. Os governadores de Ankara, Kastamonu e Yozgat, que demostraram resistência a estas práticas, foram demitidos, os de Basra e de Muntefakt chegaram a ser executados.

Apesar da derrota do Império Otomano, aliado da Alemanha e da Áustria, os responsáveis pelo genocídio não sofreram qualquer tipo de consequências. Isto terá inspirado o próprio Hitler que, cerca de 25 anos mais tarde, instado por alguns dos seus colaboradores sobre o possível impacto dos seus planos, terá replicado: «Quem se lembra hoje do extermínio dos Arménios»?

Nota: informações tiradas da KirchenZeitung


28 de julho de 2011

Como é que Deus deixa acontecer?

É o tipo de pergunta que surge, perante catástrofes como a do Japão. Tremores de terra, tsunamis, chuvas torrenciais com desabamento de terras, secas monumentais… Espalham a morte e a miséria. Ficamos perplexos. Como é que Deus consente?

Perante um 11 de Setembro, há quem culpar: os islamitas, obcecados com a jihad, tão diferentes de nós cristãos, tolerantes e democráticos. Em casos destes, raramente nos perguntamos como é que Deus deixa acontecer, pois trata-se da “força do mal”, quiçá guiada pelo Diabo. Deus sempre teve os seus problemas com o Diabo, é a eterna luta entre o bem e o mal. E nós estamos do lado do bem, claro!

E agora? Quando um cristão, nascido e criado num dos países mais civilizados e democráticos do mundo, causa tal banho de sangue? Ontem, ouvi dizer a um jornalista norueguês, cujo local de trabalho se situa na zona onde a bomba rebentou e que assistiu a tudo de perto: “No fundo, todos nós sabemos que um atentado terrorista pode acontecer em qualquer lado, a todo o momento. Mas o que se passou na ilha de Utoya é indescritível, é horrível.”

Um cristão, bem parecido, extermina, em nome da religião, dezenas de crianças e jovens, indiscriminadamente, como se de um jogo de computador se tratasse…

Como é que Deus deixa acontecer?

(Texto originalmente publicado em 2711).

18 de julho de 2011

Crianças-Lobo

As crianças-lobo viviam em florestas, andavam cerca de 20 quilómetros por dia, principalmente, no Inverno, para vencer o frio. Comiam ratazanas, cadáveres e cascas de batatas, encontradas em lixeiras, muitas morreram de fome, algumas, infestadas de piolhos e outros parasitas.

Ao contrário do que parece, não se trata do resumo de mais um livro de ficção, ou de um filme de Hollywood. As crianças-lobo existiram. Não na Idade Média, como se podia pensar, ou noutras eras mais distantes, mas no século XX. E não estamos a falar de regiões inóspitas, mas da "nossa" Europa!

As crianças-lobo eram originárias da Prússia Oriental, um território alemão que, depois da Primeira Guerra Mundial, ficou geograficamente separado do resto da Alemanha pelo chamado corredor polaco. Depois da Segunda Guerra, a Alemanha perdeu o território por completo, que foi dividido entre a Polónia e a Rússia. A partir de 1944, as tropas soviéticas começaram a invadir a Prússia Oriental, espalhando o terror e a destruição. Alguma da população conseguiu fugir para a Alemanha, mas algumas crianças, vendo-se órfãs ou em situações de perigo, fugiram em direcção às florestas da Lituânia.

São histórias incríveis e praticamente desconhecidas do mundo. Li a de Ursula Dorn, hoje com 76 anos, no Jornal Católico do bispado de Hildesheim. Com apenas dez anos e cansada de assistir à violação de mulheres, à fuga de pessoas em chamas de casas incendiadas e ao juntar de cadáveres pela rua, Ursula Dorn, apesar de ter a mãe ainda viva, fugiu àquele horror num comboio de mercadorias, em direcção à Lituânia. Por ali errou, durante dois anos. Dormia em celeiros, ou em campos, e escondia-se na floresta. Sobreviveu, nas suas palavras, graças à bondade de camponeses, que, apesar de muito pobres, sempre lhe iam dando uma caneca de leite e um pedaço de pão. Às vezes, até a recolhiam temporariamente.

Muitas dessas crianças foram adoptadas pelos camponeses lituanos. Proibidas de falar alemão, para que o exército soviético não as notasse, receberam nomes lituanos e foram naturalizadas. Muitas conseguiram regressar à Alemanha, depois da guerra, outras por lá ficaram, recalcando a sua verdadeira origem. Hoje, ainda lá vivem algumas dezenas. São pessoas muito pobres, analfabetas e esperam, agora, serem naturalizadas alemãs, a fim de terem direito a uma reforma de jeito. Mas tem sido difícil. Como diz Ursula Dorn, "fomos esquecidos, ninguém se preocupou connosco".

São histórias arrepiantes. Na Alemanha, há alguns livros publicados sobre este assunto e foram feitos alguns documentários para a televisão. Quem quiser mais informação, na Wikipedia, em inglês e em alemão.