Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

12 maio 2017

O Poder da Memória

Não conheço os livros de Filipa Martins, mas li, há dias, uma reportagem da escritores.online sobre esta escritora, inserida na série “Um dia com…”.

A propósito do seu quarto livro, que chegará em breve às livrarias, a autora afirma:

«É um livro que existe muito à volta do conceito de memória, mas aqui o postulado é inverso àquele que consideramos como válido, porque o que está no livro não é tanto lembrar, é mais esquecer. Ou seja, como é que devemos esquecer para conseguir viver. Isto é trabalhado do ponto de vista filosófico – porque é que devemos esquecer determinados momentos da nossa vida para seguir em frente, quase como se os pudéssemos aspirar ou deitar fora – e é trabalhado do ponto de vista científico— de que forma é que podemos interferir no cérebro humano para apagar determinadas memórias que são traumatizantes e paralisantes, que funcionam quase como uma doença, para que uma pessoa consiga ser funcional».

É difícil comentar sem ter lido o livro, mas uma coisa é certa: ninguém consegue «aspirar ou deitar fora» momentos da sua vida, isso é impossível. Boas ou más, traumatizantes ou motivadoras, as vivências estão registadas no nosso subconsciente e, mesmo que não nos lembremos delas (no caso de amnésia, por exemplo, temporária ou permanente), parece cientificamente seguro que elas continuam a influenciar-nos.

É humanamente impossível «apagar determinadas memórias que são traumatizantes e paralisantes, que funcionam quase como uma doença, para que uma pessoa consiga ser funcional». Esta hipótese não é de todo saudável. Muitas memórias funcionam realmente como uma doença (e não «quase»). A solução, porém, não está em apagá-las! As pessoas que o tentam fazer passam a vida numa fuga constante e angustiante, em busca de coisas que as distraiam, com pânico de parar para pensar. Este tipo de vida, desgastante, torna-se muito propício à depressão.

Por mais traumatizantes que sejam as memórias, só conseguimos ser funcionais se aprendermos a viver com elas; se as trouxermos à superfície e nos deixarmos envolver por elas, aceitando-as. Elas fazem parte do nosso ser, da nossa identidade. Nós não somos máquinas. Nós somos as nossas memórias! Apagá-las significa deixar de sermos quem somos, desistir da nossa identidade para passarmos a ser outra pessoa.

Resta acrescentar: felizes daqueles que sabem quais são as suas memórias traumatizantes. Anda tanta gente traumatizada por aí, sem fazer ideia... Na melhor das hipóteses, acham que têm mau feitio, ou que há algo de ruim dentro deles.

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