Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

24 maio 2017

Quatro Novelas




Esta obra, publicada pela primeira vez em 1908 e que descarreguei gratuitamente no Projecto Adamastor (caso contrário, dificilmente entraria em contacto com ela), foi uma excelente surpresa. Não tanto pela qualidade literária, que não é fora do comum, mas pela importância que tem na História da nossa literatura.

Infelizmente, a literatura escrita por mulheres só começou a ter mais significado nas últimas décadas. Ana de Castro Osório viveu de 1872 a 1935, um período de tempo em que só se costuma destacar uma escritora portuguesa: a poetisa Florbela Espanca. E, no entanto, quão importante é conhecer o que produziu a pena guiada por mão feminina; conhecer os dramas das mulheres numa civilização pensada quase só para os homens!

Na novela A Feiticeira, Ana de Castro Osório mostra-nos como a sociedade do seu tempo castigava as mulheres alegres e sensuais. O jovem Manuel, dividido entre duas moças, a Teresinha recatada e a Maria extrovertida, embora mais inclinado por esta última, acaba por se decidir pela primeira, influenciado pelas intrigas da sua aldeia, que o fazem acreditar que Maria é feiticeira. Ana de Castro Osório não condena nem uma rapariga nem outra, limita-se a apresentá-las, porque, afinal, ambas são vítimas da sociedade. E, enquanto Teresinha é recompensada, fazendo-se esposa do rapaz mais cobiçado da terra, o desgosto e as intrigas destroem Maria, que se torna precisamente naquilo em que a fazem acreditar:

«A Maria, agora feiticeira conhecida e apontada por todos, já não canta nem vai às romarias.
Nos trabalhos do campo, as mulheres e as crianças afastam-se dela apavoradas, e os homens lamentando-a, não têm coragem de vencer esse pavor.
Um brilho ardente de febre queima sempre os seus lindos olhos negros, que vagueiam inquietos, num medo doentio e trágico.
Atormentada de visões, mordida de maus-olhados, meses inteiros presa de delírios histéricos, sente-se, na verdade, transportada nas asas do vento para sítios ermos [onde] (…) olharapos, duendes, lémures e trasgos povoam as noites horríficas de sabbat».

Em Diário de uma Criança, conta-se como mais uma menina extrovertida e alegre, que até se atreve a montar a mula como os rapazes, é, a partir de certa altura, submetida a uma disciplina de ferro, longe dos pais, que se deixam levar por quem diz que a filha não se comporta convenientemente. A criança passa anos de amargura numa casa em que é tiranizada.

A novela que mais me impressionou, porém, foi Sacrificada, em que Manuela, uma jovem de boa família, engravida solteira e é banida pela própria mãe. Dá à luz uma filha num casebre abandonado e vê-se depois obrigada a separar-se da bebé, a fim de entrar num convento, pois a família quer anular aquele membro vergonhoso. O sofrimento de Manuela torna-se palpável, na escrita de Ana de Castro Osório, que nos põe em contacto com a vida das outras freiras, quase todas igualmente sacrificadas:

«Foi Soror Cláudia a última a deixar a vida, que tão dolorida lhe fora; foi ela, a pobre louca, quem fechou, como um ponto final simbólico, mais um período de história feminina, tecida de sacrifícios e servidões e ilusões profundas, e sem um fecundo e nobre e belo ideal de vida!
Ali ou na família pouco diferia, pouco mais era que esse decorrer estirado de anos partilhados entre pequenos deveres, insignificantes trabalhos, apagadas alegrias e supliciantes sacrifícios a que ninguém prestava atenção, tão naturais são aos servos e aos inferiores».

Quando Manuela finalmente conhece a filha, já adulta, algo que ela pensa ser uma consolação final para o sacrifício que levou a cabo, constata que as duas, separadas uma da outra, não passam de desconhecidas, com feitios totalmente opostos e inconciliáveis. Manuela apenas encontra a paz na morte.

Nesta novela, Ana de Castro Osório critica igualmente a educação dada às meninas, com o objetivo de as deixar mal informadas, julgando-se ser esse o melhor remédio para seguirem o caminho que se lhes destina. O contacto com a realidade é, porém, doloroso:

«as horas que passara ali sozinha, idealizando um futuro de poesia e de romance, como o idealizam sempre as mulheres que uma educação racional não preparou para entrar na vida pela porta ampla e sem mentidos encantos da realidade».

Ana de Castro Osório mostra também sensibilidade para as agruras da infância:

«nesses tão magoados desgostos infantis que todos desprezam e são talvez os mais violentos e os mais desesperadores de toda a vida» (em A Vinha).

«Ah, como se sofre quando se é criança, quando ninguém respeita a nossa dor e a nossa vontade, quando decidem do nosso querer como se fôssemos títeres animados por maquinismo industrial» (em Diário de uma Criança).

Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e outros escritores escreveram igualmente sobre o sofrimento feminino. Porém, os excertos que aqui publiquei provam, na minha opinião, que faz falta a visão feminina, a fim de conhecermos os dilemas humanos em toda a sua amplitude. Um homem dificilmente escreveria, principalmente em 1908, sobre a «indulgência da sociedade para com as leviandades do homem transformadas em crimes para as mulheres» (em Sacrificada).

Não me admira que a Ana de Castro Osório não fosse dado um destaque igual ao de outros escritores, pois, como feminista, pioneira em Portugal na luta pela igualdade de direitos entre homem e mulher, deveria ser muito incomodativa no início do século XX.

Descubramos as escritoras que foram mantidas num quase anonimato! Há muitas, infelizmente. E depois vêm homens, ainda no nosso século XXI, como um tal eurodeputado polaco, dizer que a prova de que os homens são mais inteligentes do que as mulheres é haver muitos mais homens escritores, cientistas, inventores, etc.!

Quanta ignorância! Quanto ainda há por fazer…


4 comentários:

Sara disse...

Já descarreguei o ficheiro. Veio mesmo a calhar para o meu projecto de ler mais autoras...Obrigado :)

Cristina Torrão disse...

De nada, Sara :)
O tom é, muitas vezes, melodramático, num estilo que já não se usa. E, por vezes, é difícil digerir a mentalidade da época, tão absurda nos parece. Mas é precisamente isso que importa mostrar.

Ricardo Lourenço disse...

Olá Cristina,

Fico contente por lhe ter agradado a leitura. Concordo quando diz que faz falta uma visão feminina, e foi essa uma das razões para a publicação deste volume. Não obstante, creio que o Projecto Adamastor pode contribuir muito mais para resgatar do esquecimento escritoras como a Ana de Castro Osório. Nesse sentido, estou a ponderar organizar uma antologia exclusivamente dedicada à ficção feminina escrita em português, tendo já iniciado o processo de pesquisa; caso tenha algumas sugestões, pode entrar em contacto connosco através do nosso e-mail: geral@projectoadamastor.org

Cristina Torrão disse...

Uma boa ideia, Ricardo!
E obrigada pelo seu comentário e pelo contacto.