Pauliteiros e Caretos estiveram relacionados com manifestações religiosas e é interessante verificar o esforço da Igreja, noutros tempos, em conciliar hábitos pagãos com ritos católicos.
Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
16 de fevereiro de 2026
Para lá do Marão... (3)
Regressando a uma das particularidades que transformam esta região num tal de território único: os Pauliteiros. “Dize que”… Pelo menos a partir do longínquo século XIII, os tais «dançadores da dança dos paus», ou, mais recentemente, «bailadores», como bem fui advertido, passaram a integrar, oficialmente, as manifestações religiosas, especialmente as «procissões do Corpo de Deus», ou aquelas que festejavam o «santo da terra». Isto porque a Igreja, bem ao jeito de «se não consegues vencer o inimigo, junta-te a ele», ao não ter tido a capacidade para eliminar as celebrações de carácter profano, tal como também acontecia com os «mascarados», optou por integrá-las nas suas celebrações.
Assim sendo, passaram a ser vulgares as referências à presença de «mascarados», «tamborileiros», «gaiteiros» e «dançadores», nas manifestações de carácter religioso. No entanto, particularmente no que respeitava aos «mascarados», isso terá dado azo a excessos, nomeadamente a ajustes de contas em plena procissão! “De bêz’im quandu’e”, lá aparecia um devoto que não terminava a procissão… O que acabaria por redundar na proibição de «mascarados», quer por instruções eclesiásticas, quer por decretos régios. Prosseguiria, no entanto, a presença dos elementos musicais, assim o justificam, entre outra documentação, alguns «livros de contas» de confrarias ou irmandades. Embora fossem surgindo Pastorais dos Bispos a tentar limitar os excessos, particularmente os cometidos no interior dos espaços sagrados.
É delicioso examinar a imensa documentação eclesiástica. Somos aí confrontados com realidades bastante distintas daquelas que conhecemos na actualidade. De repente, recordo-me da alusão que é feita aos abusos que eram cometidos dentro de igrejas ou de sacristias, onde se comia e festejava, noite dentro! Ou onde se dormia, «tudo ao monte e fé em Deus»… E outras coisas ainda mais mundanas… Mais tarde, alegando que os tocadores e dançadores distraíam os fiéis, foi mesmo proibida a sua presença em manifestações religiosas. Coisas do «arco da velha»…
A chegada de novos ventos, traria o regresso dos «Pauliteiros» às celebrações religiosas, voltando a misturar-se o profano com o sagrado. Assim como os «Caretos», especialmente nas festividades associadas ao Santo Estêvão, passariam a voltar a ter papel determinante. E muito haveria para dizer sobre as «Festas dos Rapazes», mas ficará para a altura própria. Como o haveria em relação a um incontável número de tradições populares que a chegada da «velha senhora» acabaria por castrar, algumas «matando» de irreversível forma, outras tendo tornado moribundas. O fenómeno da emigração também contribuiria, definitivamente, para esse abandono de milenares tradições, enraizadas na memória popular. Felizmente, resta a documentação para as relembrar. E, felizmente ainda, nas décadas mais recentes vem-se assistindo ao resgatar de muitas delas.
Entretanto, a propósito desta junção entre festas pagãs e festas religiosas, subitamente me lembrei de outro aspecto. Que também incluía a presença de «mascarados», «tocadores» e «dançadores»: as antigas procissões a locais de culto pagão.
A nossa história colectiva é fabulosa! Por isso há sempre mais uma «carta na manga»… E não se esgotam, acreditem! Mas também não gosto que os textos fiquem muito longos… Como tal, já cá virei trazendo, para os interessados, outros temas, começando pelas antigas procissões… e as capelas no alto dos montes. E outras “cousas, pur’i”…
15 de fevereiro de 2026
Rapidinhas de História #45
INDEPENDÊNCIA (4)
Não se pode "colar uma data precisa" à independência de Portugal.
(historiadora Maria João Branco)
12 de fevereiro de 2026
Para lá do Marão... (2)
Texto de autoria de Rui Rendeiro Sousa, partilhado (assim como a imagem) no grupo Memórias... e outras coisas - BRAGANÇA:
Irei principiar esta nova incursão por uma afirmação que poderá gerar polémica. Que me perdoem os meus amigos Mirandeses, antecipadamente me penitenciando, igualmente, perante os meus amigos Mirandelenses… Em simultâneo me desculpem os meus amigos Podentinos, neste caso particular porque até tenho, com muito orgulho, costelas de Podence.
Os Pauliteiros são tão de Miranda, como as alheiras são de Mirandela (ou o folar é de Valpaços, só para sair do âmbito geográfico bragançano). Ou, daqui por cinquenta ou cem anos, dado o patamar superior que atingiram os «meus» Caretos de Podence (e muito bem, que “munta proa” tenho nisso!), algum estudioso venha a tomar como exclusivas estas três acepções: os Pauliteiros são de Miranda, as Alheiras são de Mirandela, os Caretos são de Podence. O que não é bem verdade… Ou seja, os Pauliteiros são, efectivamente, de uma região, a que ocupada foi pelos Zelas, a antiga «Civitas Zoelarum», assim como os Caretos o são. Já quanto ao Folar ou às Alheiras, são de todos…
Não me irei deter no Marketing, nem nos acasos da História, nem nas campanhas que alguns municípios, «puxando a brasa à sua sardinha», tão bem souberam impor. Assim como imposto foi o nome de um idioma, parte fazendo de um «sistema» Ásturo-Leonês Ocidental, com a exclusiva designação de «Mirandés». Nada me move contra ele, antes pelo contrário, até fiz questão de o aprender, tendo uma especial afeição pelo «Mirandés». Mas também fiz questão de aprender o Asturianu, que por lá não há sectarismos, não havendo «Oviedês», ou «Gijonês» ou «Avilês», é uno, regulado pela «Academia de la Llingua Asturiana». Assim como na Galiza há uma língua una, o Galego, com variantes regionais, mas não havendo o «Corunhês» ou o «Ourensês», só para mencionar duas das suas províncias.
Quanto às variantes do Leonês, não estão reguladas… Ou seja, aprendi uma língua que já foi falada no meu concelho (e noutros), nos quais subsiste com variantes dialectais, que mais correctamente deveria ser designada através de um nome genérico, tal como acontece com os ditos Asturianu ou Galego. Até poderia ser «Trasmontanês Oriental». Porque, de facto, é tão «Mirandês», como poderia ser «Vinhaês», «Bragancês», «Vimiosês», «Mogadourês» ou «Macedês»… Quem dúvidas tiver, faça o favor… de se pronunciar em «queimarês pestanês»… Nota adicional, para que dúvidas não restem: “tengo muita proua ne l Mirandés”! “E tamém tânhu munta proa na faladura q’aprendi co a nh’ábó Maria”! E talvez o «Mirandês» tivesse outro protagonismo e outra visibilidade se olhado fosse como ele, efectiva e historicamente é: um idioma que foi falado numa região abrangente. Assim, parece não passar de uma curiosidade em vias de extinção (o que muito me custa!).
Mas regressemos aos Pauliteiros… Os quais, históricos registos, são tão de Miranda como de… Vinhais, Bragança, Vimioso, Mogadouro ou Macedo! Ou seja, da região que era abarcada pelos Zelas (os «Zoelae» da literatura clássica)! Por isso ainda subsistem, no meu concelho, os Pauliteiros de Salselas! Já tendo havido outros… Por isso, também, por Bragança, já houve os Pauliteiros de São Pedro dos Sarracenos! E já houve mais…
«Pauliteiros» que é uma designação contemporânea, que nos documentais registos eram «apenas» Dançadores. “Ó depeis”, à custa dos paus, ou dos palitos ou paulitos, ficou mais engraçado adoptarem esse nome. Que por território espanhol correspondente ao antigo território Zela, não há «Paloteros» ou coisa do género, há, simplesmente, «danzadores» e «danzadoras» da… «danza do paloteo». Cujas características são «iguaizinhas», com algumas variantes, às dos nossos «Pauliteiros». Que o magnífico Marketing fez, exclusivamente, tal como o «Mirandés», de… Miranda. É bonito, mas é falacioso, e retira-nos o conceito de região.
Como escreve um ilustríssimo autor, corroborando observações de outro insigne autor Mirandês, apesar de, em Portugal, os Pauliteiros estarem associados a Miranda do Douro e ao seu concelho, eles subsistem como elemento da cultura popular noutras regiões do distrito de Bragança. Porque se trata disso mesmo, tal como os Caretos, um «elemento da cultura popular», da cultura de um Povo, não de uma região específica! Bastará, para os que dúvidas tiverem, consultar a extensa documentação existente desde a Idade Média. Sei que dá “muntu trabalhinhu’e”, mas vale bem a pena! E até se poderá recuar a mais ancestrais tempos, nos quais viveram aos nossos antepassados Zelas, mais os seus vizinhos «Vacceos», ambos indicados como tendo origem celta. De onde, com muita probabilidade, provirá a tal de «dança dos paus», que de uma «dança guerreira» parece tratar-se. E os ditos Zelas, não foram exclusivos de Miranda…
Como estas incursões têm tendência para se alongar, tanta é a informação que subsiste sobre a nossa região, já cá virei noutra ocasião com mais «polémica»… Esperando não ser excomungado ou crucificado, especialmente pelos meus amigos que dizem, e muito bem, “proua an ser Mirandés”...
(Foto: Pauliteiros de Salselas)

8 de fevereiro de 2026
Rapidinhas de História #44
INDEPENDÊNCIA (3)
O título real de Afonso Henriques não implicava a independência de Portugal.
7 de fevereiro de 2026
Para lá do Marão... (1)
Texto de autoria de Rui Rendeiro Sousa, partilhado (assim como a imagem) no grupo Memórias... e outras coisas - BRAGANÇA:
Muitos já terão ouvido falar de Zelas (ou Zoelas, nalgumas versões). Já por aqui trouxe esses «nossos avós» para demonstrar o quão diferentes somos. Nomeadamente pela forma como os autores clássicos Romanos os classificaram como Ástures, ou como os Romanos integraram o seu território, a «Civitas Zoelarum», no «Conventus Asturicensis». No actual distrito de Bragança ocupariam, genericamente, os chamados concelhos da Terra Fria, e ainda uma grande parte do concelho de Macedo de Cavaleiros, bem como as zonas mais a norte dos concelhos de Mirandela, Alfândega da Fé e Freixo de Espada à Cinta. “E q’é que tem iz’tu a bêre cum Caretus e Pauliteirus’e?”…
Conheço, no distrito, mais de três dezenas de manifestações relacionadas com Mascarados e Chocalhadas. Grosso modo, todas se situam nos concelhos que faziam parte da… «Civitas Zoelarum»! Ou seja, os concelhos de Vinhais, Bragança, Vimioso, Miranda do Douro, Mogadouro, as extensões centro-norte e sudeste do concelho de Macedo de Cavaleiros, mais as manifestações em Torre de Dona Chama, a norte de Mirandela, a confinar com o concelho de Macedo, e as de Alfândega da Fé e Sambade, também a lindar com o concelho Macedense. Há, ainda, uma referência histórica à sua existência no norte do concelho de Freixo de Espada à Cinta, onde confronta com o de Mogadouro.
Porém, o território dos Zelas ultrapassava os actuais limites do distrito, estendendo-se para as regiões da Sanabria, Aliste, Sayago, até Zamora. Regiões essas onde subsistem cerca de duas dezenas de manifestações de Mascarados e Chocalhadas! Sempre com as chamadas «Festas de Inverno» como matriz, sejam elas no período de Natal, ou no período do Entrudo. Não há coincidências…
Na actualidade, muitos encararão os Caretos apenas como uma curiosidade etnográfica, acrescida da dimensão adquirida pelo Entrudo Chocalheiro e, consequentemente, pelos Caretos de Podence, elevados a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Mas os Caretos, e o fenómeno das Mascaradas e das Chocalhadas são muito mais do que isso. São uma das representações maiores de um Povo que é, de facto, diferente. Fazem parte do seu ADN! Um Povo que soube, com maiores ou menores obstáculos, manter tradições milenares, que esta coisa das máscaras e dos rituais encontram reminiscências em muito recuados tempos.
A referência documental mais antiga que encontrei até hoje, a referir, especificamente, Caretos, é de inícios do séc. XVIII. Emboras as menções a mascaradas e chocalhadas, bem como à quebra de regras, especialmente no Entrudo, abundem desde a Idade Média. Curiosamente, essa menção é oriunda de uma povoação na qual já não existem Caretos, nem memórias há de terem existido. Porém, a documentação não mente, especialmente a provinda de eclesiásticos mundos. Acervo a partir do qual se percebem realidades muito distintas daquelas que conhecemos. Hoje será inconcebível a ideia de que os Caretos participavam em procissões… Ou que entravam em igrejas… Ou que os próprios padres participavam nas manifestações burlescas do Povo… Entre tantas outras coisas... Mas assim era!
Assim como o era o universo inseparável entre os Caretos e… os Pauliteiros. Parece que onde andavam estes a tocar e a dançar, Caretos andavam pelo meio. Aliás, ainda subsistem algumas manifestações onde se preserva essa ancestral ligação entre Pauliteiros e Mascarados. Mas sobre Pauliteiros e Zelas já cá virei noutra ocasião. Que isto de sermos «Leoneses» tem muito que se lhe diga…

1 de fevereiro de 2026
Rapidinhas de História #43
INDEPENDÊNCIA (2)
Nem a Afonso Henriques, nem ao cardeal, conviria abordar a questão da independência, em Zamora.
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