Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
Mostrar mensagens com a etiqueta Trás-os-Montes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Trás-os-Montes. Mostrar todas as mensagens

21 de março de 2026

Para lá do Marão... (4)

Nesta interminável sequência de grandiosidade das «Terras de Bragança», muitas das coisas que por aqui vou trazendo são fruto do acaso ou, por vezes, «a pedido de várias famílias». Será esta incursão representativa do último caso. Tudo por responsabilidade da magnífica Algoso e do seu não menos magnífico castelo. O que conduziu a Balsamão e ao seu convento, território que, não obstante se localizar na soberba freguesia de Chacim, no concelho de Macedo, tem uma umbilical ligação a Algoso. “Atãu’e, bota lá mais uas palabrecas, pr’ós qui’u quijerim”…
 
De facto, durante meio século, os Marianos de Balsamão marcaram presença por Algoso, no Convento de Santo António, entre a segunda metade do séc. XVIII e a primeira metade do séc. XIX. Quando as ordens religiosas masculinas foram extintas, após um decreto dessa primeira metade do séc. XIX, os seus bens, ou foram «arrebanhados», ou vendidos em hasta pública ou, particularmente no que respeito dizia a «bens menores», como paramentos, vasos sagrados ou algumas pinturas, foram transferidos para a igreja paroquial respectiva. O que aconteceria com alguns bens, que foram depositados na Igreja de S. Sebastião de Algoso. Aqui destacando, particularmente, um: a magnífica tela de «Nossa Senhora da Imaculada Conceição». Pintura que, há não muitos anos, se encontrava «esquecida» na sacristia da igreja, e cuja autoria será de um dos mais renomados pintores portugueses do séc. XVIII. É a incúria com que, muitas vezes, por desconhecimento, tratamos o nosso valioso património…
 
Pintor esse que também deixou magnífica obra pelo Convento de Balsamão. Assim como o fizeram outros destacados pintores do séc. XVIII. Balsamão, como alguém deixava em comentário, está envolto em lendas. Todavia, Balsamão é muito mais do que lendas. Mas tanto mais!!! Talvez muitos não o saibam, Balsamão tem uma ocupação, quase contínua, desde há cerca de 2000 anos. Pois por lá existiu um povoado fortificado pré-romano, com toda a probabilidade dos nossos antepassados Zelas. Povoado esse que também teve ocupação Romana. E que, ao que tudo aponta, terá sido a sede de um dos «pagi» Suevos e, posterirmente, centro de cunhagem de moeda Visigoda. “Ah peis é”!
 

Rui Rendeiro Sousa 17.jpg

Balsamão guarda muito mais do que História Religiosa. Aliás, as lendas sobre Mouros não passam disso mesmo, de lendas. Que os ditos Mouros pouco ou nada quiseram saber destas terras. Por isso, Chacim, por exemplo, nada tem a ver com a «chacina» que lhe apontam. Caso assim fosse, mais «Chacim» havendo, um dos quais no Minho, e mais uns quantos por Espanha, muitas «chacinas» teria havido. Pelo contrário, o nome «Chacim» é um antropónimo, ou seja, o nome derivado de uma pessoa. Assim como «Balsamão» o é. Mas isso não interessa para aqui…

Rui Rendeiro Sousa 15.jpg

Balsamão que aldeia foi, alcandorada no alto do Monte Carrascal, popularmente chamado Monte do Caramouro. E até teve um castelo, cujo perímetro ainda é possível verificar (e não, não é a torre que por lá há, que essa é de construção contemporânea). Um castelo que, conjuntamente com o de Algoso, foi um dos tomados, no início do séc. XIII, aquando das incursões de Afonso IX de Leão, que deixaram as nossas terras «a ferro e fogo». Outras histórias… Assim como outras histórias levaram ao abandono da povoação de Balsamão, que ainda no séc. XIV existia como tal, pois o nosso D. Dinis andou «às turras» com um dos filhos do «último Braganção», por causa dos direitos sobre a dita povoação. Depois seria abandonada…

Por lá deve ter permanecido uma pequena capela em honra a Santa Maria. A qual, mais tarde, tomaria o nome de Nossa Senhora de Balsamão, em honra à povoação entretanto desaparecida. Capela essa cuja primeira referência documental à sua efectiva existência é do séc. XVI, quando uma das muitas «desgraçadas» vítimas da «santa» Inquisição, aí foi obrigada a ir em penitência para limpar os seus «pecados judeus». Posteriormente, seria um eremitério, por lá tendo assentado uma ordem religiosa. Só já no séc. XVIII é que chegariam os Marianos, de lá expulsos, tal como em Algoso, no séc. XIX. Em boa hora regressariam no séc. XX.
 

Rui Rendeiro Sousa 14.jpg

Balsamão é muito mais do que devoção ou a casa-mãe dos Marianos em Portugal. Balsamão é um sítio mágico, onde se captam umas inigualáveis energias. E até tem um museu fantástico, uma igreja que assoberba os sentidos, quer pelo seu tecto, quer pelos vestígios de pinturas murais que ainda lá moram. E até tem uma subida que encantará qualquer um, com as suas capelas a bordejarem o caminho. E até se comem por lá uns acepipes de «fazer chorar por mais», acompanhados de uma simpatia e de uma arte de bem receber incomparáveis. Mas eu sou suspeito para falar…

Rui Rendeiro Sousa 13.jpg

Porque Balsamão é uma marca indesmentível na minha vida, por lá foi decidido baptizar os filhos. Por lá, a deslumbrar os sentidos, corre o Azibo, que é muito mais do que a “barraige”. Só quem já experimentou dar uns mergulhos no «Poço dos Paus» é que sabe do que falo. Ou quem já estendeu a manta para um piquenique nas imediações da «Ponte da Paradinha» saberá o que quero transmitir. Ponte medieval essa que terá sido construída pelos Hospitalários, para melhor fazerem o seu trajecto entre a Comenda de São Cristóvão de Malta e a de São Sebastião de Algoso. Sempre a ligação entre as «minhas» terras e Algoso, daí o fascínio. Algoso e a sua Comenda Hospitalária que também foram detentoras, por via da Comenda de São Cristóvão, de vastos direitos sobre outras aldeias do meu concelho, na sua região noroeste, nomeadamente as magníficas Lamalonga, Vilarinho de Agrochão, Nozelos e Ala.

Tudo isso por doações feitas pelos «nossos» Bragançãos, que a «cartilha» diz que foram os reis a fazer. Havendo agora outra «cartilha» que até quer fazer de Balsamão, e de outras terras que Hospitalárias foram, território Templário. Mas isso são outras «batalhas»… E já me “ztendi co iz’tu’e, q’ou quandu impeçu a butare faladura” sobre as nossas terras, tanto que têm, nunca mais se me “fetch’á matraca”. “Zculpim qualquera cousinha, pode sere?”…

Rui Rendeiro Sousa 16.jpg


16 de fevereiro de 2026

Para lá do Marão... (3)

Pauliteiros e Caretos estiveram relacionados com manifestações religiosas e é interessante verificar o esforço da Igreja, noutros tempos, em conciliar hábitos pagãos com ritos católicos.

Regressando a uma das particularidades que transformam esta região num tal de território único: os Pauliteiros. “Dize que”… Pelo menos a partir do longínquo século XIII, os tais «dançadores da dança dos paus», ou, mais recentemente, «bailadores», como bem fui advertido, passaram a integrar, oficialmente, as manifestações religiosas, especialmente as «procissões do Corpo de Deus», ou aquelas que festejavam o «santo da terra». Isto porque a Igreja, bem ao jeito de «se não consegues vencer o inimigo, junta-te a ele», ao não ter tido a capacidade para eliminar as celebrações de carácter profano, tal como também acontecia com os «mascarados», optou por integrá-las nas suas celebrações.
 
Assim sendo, passaram a ser vulgares as referências à presença de «mascarados», «tamborileiros», «gaiteiros» e «dançadores», nas manifestações de carácter religioso. No entanto, particularmente no que respeitava aos «mascarados», isso terá dado azo a excessos, nomeadamente a ajustes de contas em plena procissão! “De bêz’im quandu’e”, lá aparecia um devoto que não terminava a procissão… O que acabaria por redundar na proibição de «mascarados», quer por instruções eclesiásticas, quer por decretos régios. Prosseguiria, no entanto, a presença dos elementos musicais, assim o justificam, entre outra documentação, alguns «livros de contas» de confrarias ou irmandades. Embora fossem surgindo Pastorais dos Bispos a tentar limitar os excessos, particularmente os cometidos no interior dos espaços sagrados.
 
É delicioso examinar a imensa documentação eclesiástica. Somos aí confrontados com realidades bastante distintas daquelas que conhecemos na actualidade. De repente, recordo-me da alusão que é feita aos abusos que eram cometidos dentro de igrejas ou de sacristias, onde se comia e festejava, noite dentro! Ou onde se dormia, «tudo ao monte e fé em Deus»… E outras coisas ainda mais mundanas… Mais tarde, alegando que os tocadores e dançadores distraíam os fiéis, foi mesmo proibida a sua presença em manifestações religiosas. Coisas do «arco da velha»…
 
A chegada de novos ventos, traria o regresso dos «Pauliteiros» às celebrações religiosas, voltando a misturar-se o profano com o sagrado. Assim como os «Caretos», especialmente nas festividades associadas ao Santo Estêvão, passariam a voltar a ter papel determinante. E muito haveria para dizer sobre as «Festas dos Rapazes», mas ficará para a altura própria. Como o haveria em relação a um incontável número de tradições populares que a chegada da «velha senhora» acabaria por castrar, algumas «matando» de irreversível forma, outras tendo tornado moribundas. O fenómeno da emigração também contribuiria, definitivamente, para esse abandono de milenares tradições, enraizadas na memória popular. Felizmente, resta a documentação para as relembrar. E, felizmente ainda, nas décadas mais recentes vem-se assistindo ao resgatar de muitas delas.
 
Entretanto, a propósito desta junção entre festas pagãs e festas religiosas, subitamente me lembrei de outro aspecto. Que também incluía a presença de «mascarados», «tocadores» e «dançadores»: as antigas procissões a locais de culto pagão.
 
A nossa história colectiva é fabulosa! Por isso há sempre mais uma «carta na manga»… E não se esgotam, acreditem! Mas também não gosto que os textos fiquem muito longos… Como tal, já cá virei trazendo, para os interessados, outros temas, começando pelas antigas procissões… e as capelas no alto dos montes. E outras “cousas, pur’i”…

7 de fevereiro de 2026

Para lá do Marão... (1)

 Texto de autoria de Rui Rendeiro Sousa, partilhado (assim como a imagem) no grupo Memórias... e outras coisas - BRAGANÇA:

Muitos já terão ouvido falar de Zelas (ou Zoelas, nalgumas versões). Já por aqui trouxe esses «nossos avós» para demonstrar o quão diferentes somos. Nomeadamente pela forma como os autores clássicos Romanos os classificaram como Ástures, ou como os Romanos integraram o seu território, a «Civitas Zoelarum», no «Conventus Asturicensis». No actual distrito de Bragança ocupariam, genericamente, os chamados concelhos da Terra Fria, e ainda uma grande parte do concelho de Macedo de Cavaleiros, bem como as zonas mais a norte dos concelhos de Mirandela, Alfândega da Fé e Freixo de Espada à Cinta. “E q’é que tem iz’tu a bêre cum Caretus e Pauliteirus’e?”…
 
Conheço, no distrito, mais de três dezenas de manifestações relacionadas com Mascarados e Chocalhadas. Grosso modo, todas se situam nos concelhos que faziam parte da… «Civitas Zoelarum»! Ou seja, os concelhos de Vinhais, Bragança, Vimioso, Miranda do Douro, Mogadouro, as extensões centro-norte e sudeste do concelho de Macedo de Cavaleiros, mais as manifestações em Torre de Dona Chama, a norte de Mirandela, a confinar com o concelho de Macedo, e as de Alfândega da Fé e Sambade, também a lindar com o concelho Macedense. Há, ainda, uma referência histórica à sua existência no norte do concelho de Freixo de Espada à Cinta, onde confronta com o de Mogadouro.
 
Porém, o território dos Zelas ultrapassava os actuais limites do distrito, estendendo-se para as regiões da Sanabria, Aliste, Sayago, até Zamora. Regiões essas onde subsistem cerca de duas dezenas de manifestações de Mascarados e Chocalhadas! Sempre com as chamadas «Festas de Inverno» como matriz, sejam elas no período de Natal, ou no período do Entrudo. Não há coincidências…
 
Na actualidade, muitos encararão os Caretos apenas como uma curiosidade etnográfica, acrescida da dimensão adquirida pelo Entrudo Chocalheiro e, consequentemente, pelos Caretos de Podence, elevados a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Mas os Caretos, e o fenómeno das Mascaradas e das Chocalhadas são muito mais do que isso. São uma das representações maiores de um Povo que é, de facto, diferente. Fazem parte do seu ADN! Um Povo que soube, com maiores ou menores obstáculos, manter tradições milenares, que esta coisa das máscaras e dos rituais encontram reminiscências em muito recuados tempos.
 
A referência documental mais antiga que encontrei até hoje, a referir, especificamente, Caretos, é de inícios do séc. XVIII. Emboras as menções a mascaradas e chocalhadas, bem como à quebra de regras, especialmente no Entrudo, abundem desde a Idade Média. Curiosamente, essa menção é oriunda de uma povoação na qual já não existem Caretos, nem memórias há de terem existido. Porém, a documentação não mente, especialmente a provinda de eclesiásticos mundos. Acervo a partir do qual se percebem realidades muito distintas daquelas que conhecemos. Hoje será inconcebível a ideia de que os Caretos participavam em procissões… Ou que entravam em igrejas… Ou que os próprios padres participavam nas manifestações burlescas do Povo… Entre tantas outras coisas... Mas assim era!
 
Assim como o era o universo inseparável entre os Caretos e… os Pauliteiros. Parece que onde andavam estes a tocar e a dançar, Caretos andavam pelo meio. Aliás, ainda subsistem algumas manifestações onde se preserva essa ancestral ligação entre Pauliteiros e Mascarados. Mas sobre Pauliteiros e Zelas já cá virei noutra ocasião. Que isto de sermos «Leoneses» tem muito que se lhe diga…
 

Rui Rendeiro de Sousa 10.jpg

29 de outubro de 2024

A origem do mirandês


Miranda. na Fonte 1914.jpg

Fotografia de 1914

Deparei, há dias, com um vídeo do Professor Marco Neves sobre o mirandês, reconhecido como língua, pela Assembleia da República, há vinte e cinco anos. Infelizmente, tenho apenas este link do Instagram, não sei se há acesso ao vídeo por outro meio.

Costumo seguir os vídeos do linguista Marco Neves e este chamou-me particularmente a atenção, porque a língua mirandesa é algo que me tem ocupado, nos últimos anos, não tivesse eu uma boa costela transmontana – de “Trás-os-Montes Oriental”, acrescente-se, pois há grandes diferenças entre os distritos de Vila Real e de Bragança, incluindo os dialetos que se falavam nas aldeias.

O Professor Marco Neves vem clarificar um equívoco: muita gente pensa que o mirandês começou por ser um dialecto do português. Nada mais errado! Sabemos que o português e o galego têm a mesma origem. O mirandês, no entanto, pertence a um outro grupo linguístico, o asturo-leonês, uma variante situada, geograficamente, entre o galaico-português e o castelhano.

Acrescento (isto não vem no vídeo) que, à altura da formação de Portugal, Castela ainda não era o grande reino no qual se tornou mais tarde. O reino mais poderoso da Península Ibérica era Leão (ao qual pertencia o condado Portucalense). E, nesse reino, como é óbvio, não se falava castelhano, mas asturo-leonês. Esta língua acabou por desaparecer. Falava-se na região que, das Astúrias, descia para Zamora e Salamanca e espalhou-se ainda mais para Sul, enquanto o rei de Leão deu cartas na Reconquista. Leão acabou, porém, por ser engolido por Castela, com uma (grande) ajuda de Portugal. A independência da nossa nação foi-lhe fatal. Enquanto, a Leste, Castela se tornava cada vez mais poderosa, a expansão de Afonso Henriques para Sul impediu a progressão do malogrado reino para Ocidente. Enfim, o nome ficou eternizado na grande região espanhola de “Castilla-León”.

Tudo isto para dizer que, no Portugal dos primeiros séculos, em vastas regiões das terras de Bragança, não se falava o galego-português, mas o asturo-leonês. Tenho seguido com muito interesse este estudo, através de Rui Rendeiro Sousa. Natural de Macedo de Cavaleiros, dedica-se, há mais de trinta anos, à História do seu concelho, tendo já publicado livros sobre muitas freguesias.

Carrapatas Anos 50, 60.jpg

Carrapatas, anos 1960 (desconheço o autor da fotografia)

Rui Rendeiro Sousa afirma que a língua, hoje conhecida como mirandês, se falaria numa vasta região do atual distrito de Bragança. Esse idioma foi, ao longo dos séculos, sendo empurrado, pelo português, cada vez mais para Leste, até se limitar a uma pequena zona circunscrita (a de Miranda do Douro).

Uma coisa é certa: quando eu era criança, não entendia as pessoas da aldeia-natal do meu pai, com o curioso nome de Lombo. Quase nem entendia a minha própria avó. Falavam português, mas de uma maneira, digamos, estranha. Hoje, já quase ninguém fala assim. O sotaque transmontano continua a ser especial (não o confundam com o da faixa litoral Minho/Porto, não tem nada a ver), mas já nenhum português de outras paragens tem dificuldade em entender os naturais da região.

 

Lombo visto do ar.jpg

Freguesia do Lombo, concelho de Macedo de Cavaleiros (fonte: página da freguesia no Facebook)

Acrescento palavras do próprio Rui Rendeiro Sousa, até porque ele consegue muito bem demonstrar uma maneira de falar única e que começou a desaparecer nos anos 70/80 do século passado. Estas palavras são excertos de textos que vai publicando no Facebook, na sua luta pela verdadeira identidade do que ele denomina de “Trás-os-Montes Oriental”. O primeiro vem a propósito de um artigo sobre a mania de os nortenhos trocarem os “vês” pelos “bês”, acrescentando-se: «No passado, o Norte de Portugal e a Galiza partilhavam a mesma língua, o galaico-português»:

Um Norte ao qual também tenho imenso orgulho em pertencer! Todavia, há dois «Nortes», geográfica, histórica, linguística, etnológica e etnograficamente. Por isso não dançamos por aqui o Vira Minhoto, nem Pauliteiros ou Caretos há pelo Norte Litoral… Mais orgulho ainda tenho em pertencer ao segundo dos «Nortes», o Interior, que nada tem a ver com o Litoral! E ainda mais orgulho tenho em pertencer a «Trás-os-Montes Oriental» denominação que se vem tornando tradição, no universo da historiografia, para designar, grosso modo, o território que corresponde ao actual distrito de Bragança!

No que respeita à publicação em causa, desconhecerá (naturalmente) a autora (e todos aqueles que a partilham), que pelas bandas do tal de «Trás-os-Montes Oriental», especificamente na tal de Terra Fria, não havia Galego-Português para ninguém (à excepção dos letrados da corte que para aqui vinham em públicos cargos). Havia, sim, um outro ramo, o Asturo-Leonês, do qual derivam os dialectos Riodonorês e Guadramilês, e a oficial Língua Mirandesa. Idioma este que até era o por aqui falado pelos nossos bisavós/trisavós… E no qual não há nenhuma troca de «vês» por «bês», ou o inverso, porque o alfabeto Mirandês nem sequer contempla a letra «v»! Dito de outra forma, enquanto a «Língua Fidalga», a norma-padrão Português, é uma evolução a partir do Galego-Português, a «Língua Charra», na qual se inclui o Mirandês e os dialectos com raízes aí, é uma evolução com origem no Asturo-Leonês.

 

Foto Artur Pastor.jpg

Fotografia de Artur Pastor (desconheço a data)

 

E a propósito da passagem, em 1884, do linguista Leite de Vasconcellos por Macedo de Cavaleiros:

Porque falavam os nossos “abós d’ua forma ztranha” e temos Pauliteiros em Salselas? [Salselas é uma outra freguesia do concelho de Macedo de Cavaleiros]

As “belhinhas” e medievais «Terras de Miranda» abrangiam, histórica e geograficamente, uma vasta extensão, que incluía, não só os concelhos de Miranda do Douro, Vimioso e Mogadouro, mas também uma grande parte dos concelhos de Bragança, Freixo, Moncorvo e… Macedo de Cavaleiros!!!

É por isso que (ainda) temos por cá Pauliteiros (os magníficos de Salselas!), e outros já tivemos…

Havia outras coisas, que ele [Leite de Vasconcellos] deixou magnificamente registadas. Nomeadamente a soberba essência dos nossos “abós”, os tais que falavam de uma forma “ztranha”. E é delicioso ver os apontamentos desse «básico» Homem que incluiu as Terras Macedenses no seu périplo, por cá andando “d’a cabalu’e n’ua burra”… E descansando numa hospedaria, que na altura era chamada de “stalaige”, porque os seus donos eram os “stalajadeirus’e” (e as “stalajadeiras’e”). E “habia deis im Macedu’e, pur’u menus’e”, não sabendo a qual dos dois terá solicitado repouso… Mas sei que, nessa época, pediu batatas para acompanhar o jantar e os convivas riram-se… Porque, a contrariar a realidade actual, na qual a “balula” é indissociável da nossa riquíssima gastronomia, nesse tempo dos nossos “abós/bisabós”, o digno tubérculo era produzido, quase exclusivamente, para “butare na bianda”… A dos “cutchinus’e”…

E “prontus’e”… Lá vou “intentandu’e” partilhar o tanto que “fêzu” o que “sêmus’e”, trazendo por aqui o muito que guarda uma terra que até já foi “mim piquerrutcha”…

Dizem, por «Terras de Miranda», no seu fantástico idioma, que também já foi o nosso, que têm imensa «proua an ser Mirandés». Deturpo-lhes a expressão, alterando-a para algo que melhor se me adapta, não a escrevendo em «Pertués», mas no original «Mirandés»: «proua an ser de Macedo de Cabalheiros»! Porque «ye a tierra adonde naci, a mie tierra»…

 

Castanhas assadas.jpg

Desconheço autor e data

20 de setembro de 2018

Gentes e Lugares


«Joaquim aproximava-se dos noventa. Aceitava a inevitabilidade de que Deus o chamaria a Si em breve, como aceitara todas as outras na sua vida: a pobreza, os filhos que lhe tinham morrido pequenos, o trabalho de sol a sol, o calor infernal, a geada e a neve. Aceitava igualmente com paciência os desconfortos inerentes à velhice. Já não sabia o que era viver sem dores nas articulações e sem força nas pernas, nem o que era ouvir mais do que apenas sons abafados e distantes, nem tão-pouco se lembrava de como o olhar é nítido na juventude».

In "Identidade", conto de minha autoria, incluído na coletânea "Gentes e Lugares - Contos e Contas de Autores Transmontanos", uma edição da Academia de Letras de Trás-os-Montes e que vai ser apresentada amanhã em Mirandela.





30 de julho de 2018

Igreja do Santuário de Nossa Senhora de Balsamão



A igreja barroca de Balsamão é lindíssima e, ao contrário da de Podence, está muito bem conservada.

 
Por um lado, gostei de ver o nosso património religioso tratado com tanto esmero. Por outro lado, não pude deixar de ficar triste, pois tinha visitado, poucos dias antes, a igreja de Podence, que não é menos bonita, mas que se encontra muito degradada (para ver as imagens da igreja de Podence, clicar aqui).


As duas igrejas situam-se no concelho de Macedo de Cavaleiros. Porquê este contraste? Porque há dinheiro para uma e não para a outra? Perguntas que gostava de ver respondidas…

Pintura e placa evocativa de Fei Casimiro, o fundador polaco do Santuário de Balsamão


Imagem de Nossa Senhora de Balsamão (de "bálsamo na mão")