Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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26 de janeiro de 2020

Lisboa e Porto

2020-01-25 Portugal TV Today.jpg
Imagem TV Today 18 a 31-01-2020

Ontem, um canal regional alemão, pertencente ao 1º canal público ARD, mostrou um pequeno programa sobre duas cidades portuguesas. A revista televisiva que costumo comprar, porém, fez uma imensa confusão entre as duas. Traduzindo o texto acima: «Lisboa conta-se entre as "boomtowns" turísticas na Europa. Mais de seis milhões de visitantes anuais - para apenas 500.000 habitantes. A reportagem guia-nos às grandes Praças do Rossio e do Comércio, ao lindíssimo bairro de Alfama e ao Mercado da Ribeira. Depois, segue para o Porto, na margem do Douro».

Presumo que os «500.000 habitantes» deviam pertencer ao Porto. E a legenda da imagem vai ainda mais longe: «Arquitectura imponente: a ponte Dom Luís I em Lisboa»!

Um texto destes é capaz de pôr os cabelos em pé de qualquer português. Para os mais radicais, aqueles que levam a um nível muito pessoal a rivalidade (que se quer saudável) entre as duas maiores cidades do nosso país, um texto destes pode ser mesmo caso para insultos aos responsáveis da revista.

Apesar de também criticar a falta de cuidado com que este pequeno texto foi escrito, aconselho um respirar fundo aos mais indignados. Afinal, se uma revista televisiva portuguesa fizesse uma confusão destas entre Berlim e Hamburgo, não nos merecia mais do que um encolher de ombros (quando muito... e só para quem estivesse em condições de detectar os erros). E eu, que vi o programa, garanto que não se misturaram as duas cidades. Foi uma pequena reportagem interessante, que é bem capaz de atrair ainda mais turistas ao nosso país. Se isso é bom, ou mau, fica ao critério de cada um.


Também publicado aqui.

7 de julho de 2019

"Portugal-Krimis"

Krimi é a interessante palavra que na Alemanha se usa para livro policial. Portugal-Krimis são policiais portugueses. Estão na moda, aqui no país da Sra. Merkel. Estranho, não é? Não há notícia de livros portugueses com sucesso na Alemanha. Além disso, não se escrevem muitos policiais made in Portugal. Pois é, estes passam-se em Portugal, mas são escritos por… alemães!

São um sucesso editorial e muito recomendados agora para a época de férias. Por acaso, o meu marido já leu um deles: Lost in Fuseta.

Lost in Fuseta.jpg

O autor, um alemão com o pseudónimo Gil Ribeiro, brinca com a palavra Lost, pois o seu investigador chama-se Leander Lost, um alemão que, na sequência de um intercâmbio policial (nem sei se isso existe), é colocado na Fuseta. Ou seja, a tradução directa do título não é “Perdido na Fuseta”, embora o Leander Lost se sinta muitas vezes perdido. Este investigador tem o síndrome de Asperger, o que o torna num polícia muito especial: tem uma memória fotográfica (muito útil, na sua profissão), não sabe mentir (o que, por vezes, é desvantajoso) e encara os acontecimentos destituído de emoção (o que lhe permite manter o sangue-frio em certas situações). Lost in Fuseta é a primeira aventura de Leander Lost por terras algarvias, mas a série já vai, entretanto, no terceiro volume.

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Tod in Porto (“Morte no Porto”), é o segundo caso do inspector Fonseca e da sua equipa da Judiciária. O autor é um alemão que vive há vários anos em Portugal e usa o pseudónimo Mario Lima (na Alemanha não se põem acentos).

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Mord auf Portugiesich (“Assassínio em Português”) passa-se numa pequena aldeia no Norte de Portugal (junto à costa) e tem a assinatura da jornalista alemã free-lancer Heidi van Elderen.

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Fado Fatal (dispensa tradução), outro policial situado no Porto, de Hanne Holms. Esta autora já publicou um Krimi passado na Toscana e outro em Maiorca. Agora, pelos vistos, foi a vez de Portugal.

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Letzte Spur Algarve (“Última pista: Algarve”), de Carolina Conrad, conta a aventura de uma jornalista alemã, filha de portugueses, chamada Anabela Silva, que resolveu mudar-se para a aldeia de origem dos seus pais (no interior algarvio). Trata-se de uma jornalista muito curiosa e logo se vê envolvida numa investigação policial comandada pelo comissário João Almeida. Parece que o enredo é apimentado com um caso amoroso entre os dois.

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Portugiesisches Blut (“Sangue Português“ - assinalado como "Lissabon-Krimi), de Luis Sellano, é a quarta aventura de um alemão, Henrik Falkner, que vive em Lisboa. Luis Sellano é (já adivinharam; e sem acento) o pseudónimo do autor alemão.

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Madeirasturm (“Tempestade na Madeira”, ou "Tempestade madeirense") tem autoria de Joyce Summer, o pseudónimo de uma autora de Hamburgo. Criou o comissário madeirense Ávila e este é o seu segundo caso.

Nota: texto originalmente publicado aqui.


9 de junho de 2018

Prémios PORTUGALESER


Infelizmente, não posso estar hoje em Berlim para assistir à cerimónia de entrega dos prémios PORTUGALESER, no Hotel Pestana Tiergarten.


A fim de comemorar os seus vinte e cinco anos, o Portugal Post, o único jornal para portugueses na Alemanha, decidiu distinguir «vinte e cinco personalidades, empresas e instituições que, pela sua atuação, nos mais diversos campos, contribuíram para a dignificação da comunidade portuguesa residente na Alemanha e para o desenvolvimento das relações bilaterais entre o país de origem e de acolhimento. O prémio tem também como objetivo revelar alguns rostos menos conhecidos da comunidade, mas cujo contributo para a sociedade é indiscutível».

Esta é a terceira edição do prémio PORTUGALESER. O nome desta medalha de mérito e dedicação tem a sua origem numa moeda que permite estabelecer uma ligação histórica entre Portugal e a Alemanha.

Por volta de 1500, D. Manuel I mandou cunhar uma moeda de ouro no valor de dez cruzados, pesando cerca de catorze gramas e com um diâmetro superior a trinta milímetros. Foi-lhe dado o nome de “Portuguez”, mas ficou também conhecida por meia dobra.

Imagem daqui

Imagem daqui

Com a fuga de judeus de Portugal e Espanha para a Holanda e Alemanha, nos séculos XVI e XVII, estabeleceu-se uma grande comunidade em Hamburgo. Os mercadores desta cidade hanseática tiveram contacto com o “Portuguez” e ficaram tão fascinados, que cunharam moedas evocativas semelhantes, com um valor de dez ducados, e às quais chamaram “Portugaleser” (ou “Portugalöser”). Ainda hoje, cidadãos eméritos de Hamburgo são homenageados com uma condecoração denominada “Portugaleser”.

E este é o PORTUGALESER que será hoje atribuído pelo jornal Portugal Post:


Desde já, os meus parabéns aos premiados!

27 de janeiro de 2018

A Vida Trágica De Uma Escritora Que Morreu em Auschwitz



Foto: dpa/AP

Else Ury, autora alemã de livros infantis da primeira metade do século XX, foi morta nas câmaras de gás de Auschwitz, um destino ignorado durante cinquenta anos no mundo literário alemão, apesar de os seus livros tornarem a conhecer grande êxito depois da 2ª Guerra Mundial. A razão? Os intelectuais alemães da literatura infanto/juvenil desdenhavam de uma escritora por eles intitulada de «propagandista do mundo de conto de fadas”.

Else Ury ficou famosa, a partir de 1913, com uma série dedicada a uma menina chamada Annemarie Braun, que vivia em Berlim no seio de uma família feliz, com o pai médico, a mãe dona de casa, dois irmãos mais velhos, uma criada, uma ama e a sua boneca. Por ser a mais nova, Annemarie Braun era apelidada de Nesthäkchen (benjamim), uma criança vivaça e traquina, que tinha muito a aprender, até se tornar numa jovem obediente e, mais tarde, numa esposa e mãe perfeita. Os episódios da série Nesthäkchen decorriam sob o esquema: «ultrapassar das regras - arrependimento - final feliz».


Entre 1913 e 1925, a série conheceu grande sucesso. Else Ury enriqueceu, mas nunca casou nem constituiu família própria, pelo que se dedicou aos pais, aos irmãos e aos sobrinhos. Dir-se-ia que a sua vida decorria perfeita, um retrato dos seus livros, até que… chegou o nazismo.

Else Ury era judia. A partir de 1933, foi proibida de escrever e de publicar. Viu os seus livros serem retirados das livrarias. Um dos seus irmãos suicidou-se em 1935, os outros familiares fugiram para o estrangeiro. Else Ury ficou em Berlim. Mais! Regressou à sua cidade-natal, depois de uma viagem que fez a Londres, em 1938! Regressou para não deixar a mãe de noventa anos sozinha. Mas terá havido igualmente um pouco de inconsciência? Acreditaria Else Ury no mundo conto de fadas que criara nos seus livros?

O certo é que a sua biografia, publicada em 2007 por Marianne Brentzel (e que finalmente revelou a vida desconhecida desta autora de sucesso) se intitula Nada de mal me acontecerá… (tradução livre de Mir kann doch nichts geschehen…). Else Ury confiaria na justiça e na humanidade, acreditaria que o bem acabava por vencer o mal e terá pensado que os nazis não se preocupariam com uma mulher que já passara os sessenta.


Como todos os judeus, ela foi despojada dos seus bens e direitos, roubada e humilhada. Depois da morte da mãe, com 93 anos, foi obrigada a mudar-se para o ghetto nazi de Berlim. Em Janeiro de 1943, foi deportada para Auschwitz e guiada para a câmara de gás, logo à chegada, por ser dada como inapta para trabalhar. Tinha sessenta e cinco anos.

Livros da Nesthäkchen publicados depois da guerra
Apesar de gerações de meninas alemãs continuarem a ler os seus livros, a partir dos anos 1950, e se ter feito inclusive uma série televisiva neles baseada, em 1983, imperava o silêncio sobre o seu fim por ser má vista pelos intelectuais. Na Alemanha de Leste, os seus livros permaneceram proibidos até à queda do Muro de Berlim! E, no entanto, ao contrário de outros autores do género, Else Ury acompanhou a vida da sua heroína muito para lá da infância. Annemarie Braun, a Nesthäkchen, tornou-se adolescente, casou, formou família e até envelheceu. No último livro da série, publicado em 1925 e intitulado Nesthäkchen im weißen Haar, ela é uma avó de cabelos brancos.