Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

24 de outubro de 2026

Texto da Rapidinha #64

 


D. Raimundo conde da Galiza, de Zósimo - Trabajo propio, CC BY-SA 4.0,

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=113777675

 

No vídeo anterior, vimos que Henrique se declarou vassalo de Raimundo, no Pacto Sucessório, firmado em 1105. No que respeita à recompensa que o primeiro deveria receber do segundo, o texto é, porém, confuso.

Num primeiro momento, parece que D. Henrique teria aspirações ao senhorio de Toledo e, caso o cunhado não pudesse, ou não estivesse disposto, a concedê-lo, substituía-o pela Galiza.

Mas não seria o contrário?

Inclino-me para esta hipótese. Por várias razões.

Em primeiro lugar, Raimundo era conde da Galiza há quinze anos. Não abriria facilmente mão deste território, o que torna estranho propor tal doação por iniciativa própria.

Em segundo lugar, conceder a um vassalo o senhorio de uma cidade situada nas terras do suserano (neste caso, Toledo) era prática habitual na Idade Média. Era mesmo uma confirmação, tanto da benevolência do suserano, como da fidelidade e da obediência do vassalo. Ou seja, seria mais ao gosto de Raimundo.

Em terceiro lugar, era mais lógico um interesse de Henrique pela Galiza. Desde logo, pela proximidade territorial entre a Galiza e o condado Portucalense. E, não obstante o prestígio de Toledo, tratava-se “apenas” de uma cidade. Ora, a Galiza era um reino!

Conclusão: é perfeitamente possível que o interesse de Henrique pela Galiza tivesse criado um impasse, pois a ideia não agradaria a Raimundo. E este tentou compensar com a doação da mais prestigiosa cidade da Hispânia: Toledo. Henrique terá, no entanto, insistido no seu desagrado. E o moderador Dalmácio Geret poderá então ter sugerido uma solução provisória: «Toledo ou a Galiza».

17 de outubro de 2026

Texto da Rapidinha #63

 


 Cópia do "Pacto Sucessório", existente na Biblioteca Nacional de França

 

Vamos então ver em que consistiu o Pacto Sucessório, firmado na presença de Dalmácio Geret, o enviado do poderoso abade D. Hugo de Cluny, em 1105.

A versão existente na Biblioteca Nacional de França foi a enviada a D. Hugo, acompanhada de uma carta, cujo início passo a citar:

Ao senhor e reverendíssimo abade de Cluny, Hugo, e a toda a congregação de S. Pedro, o conde Raimundo, o seu filho e o conde Henrique, familiar, desejam saúde e amor em Cristo.(1)

De notar a referência ao filho de Raimundo, o pequeno Afonso Raimundes, nascido nesse mesmo ano. Raimundo quis vincar a existência de um sucessor legítimo, um neto legítimo, do imperador Afonso VI.

O conteúdo geral do pacto consiste no seguinte: Raimundo tomaria conta das possessões do sogro depois da morte deste, ou seja, as terras de Leão e Castela. Henrique comprometia-se a defender com fidelidade e aumentar para ti [Raimundo] toda esta terra do rei Afonso (1).

De notar: Henrique declara-se vassalo de Raimundo. E seria recompensado.

No que diz respeito à recompensa, o texto do pacto é, porém, um pouco confuso.

Primeiro, Raimundo compromete-se a dar a Henrique o senhorio de Toledo e toda a terra que lhe pertence (1). Mais abaixo, contudo, numa garantia que o conde Raimundo fez na mão do senhor Dalmácio Geret (1) lê-se o seguinte:

Se eu, conde Raimundo, não puder dar Toledo a ti, conde Henrique, tal como prometi, dar-te-ei a Galiza com a condição de que tu me ajudes a conquistar toda a terra de Leão e de Castela (1)

Como interpretar esta passagem? Teria D. Henrique aspirações ao senhorio de Toledo e, caso o cunhado não pudesse, ou não estivesse disposto a concedê-lo, substituía-o pela Galiza?

Ou seria o contrário?

 

(1) Teresa, a condessa-rainha, Luís Carlos Amaral e Mário Jorge Barroca (Temas e Debates 2020) - pp. 331/332

10 de outubro de 2026

Texto da Rapidinha #62

 

D. Raimundo conde da Galiza, de Zósimo - Trabajo propio, CC BY-SA 4.0,

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=113777675

 

Vamos então falar do Pacto Sucessório, firmado entre os condes D. Raimundo e D. Henrique, no verão de 1105 (1)

Não existe cópia deste documento nos arquivos portugueses. E a versão existente na Biblioteca Nacional de França não está datada. O documento é, porém, considerado verdadeiro. Enquadra-se perfeitamente na conjuntura ibérica de 1105.

Afonso VI revolucionou as relações familiares, ao nomear o filho de Zaida seu sucessor. E D. Raimundo resolveu agir. Era conde da Galiza, casado com a única filha legítima do imperador e tornara-se pai, nesse ano, de um filho varão.

Raimundo logrou obter o apoio de um dos clérigos mais influentes em toda a Europa: D. Hugo, abade de Cluny, tio-avô de Henrique. Não custa aceitar que o abade de Cluny preferisse ver o pequeno Afonso Raimundes como herdeiro do imperador Afonso VI, em detrimento do sucessor recentemente nomeado: o infante Sancho.

A mãe de Sancho era muçulmana. No entanto, Zaida ter-se-á convertido ao cristianismo, adotando o nome de Isabel e casando com Afonso VI, legitimando o filho.

D. Hugo de Cluny não aprovou a atuação dos clérigos hispânicos envolvidos neste caso. E chegou ao ponto de “apadrinhar”, digamos assim, a realização do pacto secreto, que era uma verdadeira traição ao imperador.

O poderoso abade enviou à Hispânia um seu representante, Dalmácio Geret. E foi na presença deste que os dois cunhados Raimundo e Henrique firmaram o Pacto Sucessório, do qual falarei no próximo vídeo.

 

(1) Data considerada verosímil por Luís Carlos Amaral e Mário Jorge Barroca, in TERESA, A CONDESSA-RAINHA, Temas e Debates 2020, p. 42.