Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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14 de novembro de 2024

Big Bands e podcasts

Longe vão os tempos do emigrante português analfabeto e humilde. Na edição de agosto passado do jornal português na Alemanha PT-Post, li sobre dois nossos compatriotas, dos quais nunca tinha ouvido falar, mas que atingiram um certo destaque na sociedade alemã.

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Marco Matias

Marco Matias, filho de portugueses oriundos da Calda das Taipas, Guimarães, nasceu em junho de 1975 em Solingen, uma cidade conhecida pela sua indústria de cutelaria e onde muitos portugueses encontraram emprego.

Marco Matias é a voz masculina da Big Band do exército alemão (Big Band der Bundeswehr). Inspirado pelo major norte-americano Glenn Miller, fundador de uma banda militar que optava pelo swing em detrimento das habituais marchas, o Ministro da Defesa alemão Helmut Schmidt (mais tarde, chanceler) fomentou, em 1971, a formação de uma banda desse estilo. Além do swing, a Big Band der Bundeswehr toca igualmente rock e pop.

Marco Matias começou a dar nas vistas em 2003, ao participar num programa de casting intitulado “Die Deutsche Stimme”. Embora o título se traduza por “A Voz Alemã”, este programa nada tem a ver com The Voice of Germany, idêntico ao da versão portuguesa e cuja primeira temporada foi para o ar em 2011.

Em 2005, Marco Matias participou no Festival da Canção alemão, em dueto com a cantora Nicole Süßmilch, e ficou em segundo lugar. No ano seguinte, atuou mesmo no Festival Eurovisão da Canção, mas representando a Suíça, integrado no grupo Six4one.

Tornou-se vocalista da Big Band do exército alemão, em 2017. Como, nesta altura, já tinha, porém, uma vasta rede de conhecimentos, continua a colaborar com outros conjuntos, permitindo-lhe atuar em mais de cem eventos por ano.

 

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Vítor Gatinho (Foto Instagram)

Vítor Gatinho, de quarenta e um anos, filho de portugueses e nascido em Frankfurt, é um médico pediatra com milhares de seguidores nas redes sociais. Além disso, já venceu duas vezes o prémio de melhor podcast, na categoria “Ratgeber” (orientação e aconselhamento), e escreveu três livros, um deles atingindo o primeiro lugar na lista de best-sellers do Spiegel.

Vítor Gatinho era um médico como outro qualquer, até que chegou a pandemia, em 2020. Obrigado a passar os tempos livres em casa, apercebeu-se de médicos, sobretudo americanos, que publicavam vídeos no TikTok e resolveu começar a fazer os seus próprios vídeos. Do TikTok, passou para o Instagram, onde, dos seus 120 seguidores iniciais (familiares e amigos), passou a ter mais de 700.000!

O sucesso levou-o a criar um podcast (o artigo não explica se sozinho, ou sugerido/apoiado por alguém ou alguma entidade), onde explica, de uma forma descomplicada, várias questões à volta da infância e da adolescência. Em março e abril deste ano, pisou, pela primeira vez, os palcos, a fim de interagir com o público, numa digressão por Frankfurt, Hamburgo, Estugarda e Munique.

Estas atividades passaram a ocupar tanto espaço na sua vida, que reduziu o tempo de trabalho na clínica, de cinco para três dias por semana. Já pensou em criar conteúdo em português, mas confessa não serem suficientes os seus conhecimentos da nossa língua para fazer vídeos. Além disso, não conhece a realidade da medicina pediátrica, nem da vida de crianças e adolescentes, em Portugal e calcula haver muitas coisas a funcionarem de outra maneira. Alimenta, porém, o desejo de ver os seus livros traduzidos para português.

 

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Kölner Stadt-Anzeiger

Já agora, a propósito dos sessenta anos da presença da comunidade portuguesa na Alemanha, foi renovada a placa comemorativa em memória de Armando Rodrigues de Sá, o milionésimo imigrante (Gastarbeiter). Armando Rodrigues de Sá chegou à estação de Köln-Deutz, a 10 de setembro de 1964. A placa havia sido inaugurada em 2014, por ocasião dos cinquenta anos da sua chegada, mas estava muito deteriorada. Foi renovada, a pedido do Conselho de Integração da cidade de Colónia, e novamente descerrada, a 3 de setembro passado.

A placa, embora evocativa da chegada do português, é dedicada a todos os imigrantes, como se lê no título: Den Eingewanderten gewidmet.

22 de abril de 2011

Mensagem de Páscoa

(em estéreo, embora com outro título) 


Quando as pessoas se sentem ameaçadas, constroem barreiras à sua volta. Pouco importa se a ameaça é real, ou não, atrás de um muro, sentimo-nos protegidos, mas também importantes e superiores. Foi assim com o muro de Berlim, é assim com o muro dos israelitas e é assim nos condomínios privados, onde certas famílias vivem separadas do mundo que as rodeia.

Há pessoas que gostariam de viver num país rodeado de muros, para afugentarem pessoas vindas de outros países. No seu entender, assim se vivia em bem-estar, sem desemprego, sem crime, numa sociedade mais justa, mais civilizada, quiçá, perfeita.

Quando as coisas correm mal, há que procurar bodes expiatórios, numa tentativa de explicar aquilo que não se compreende. Na Idade Média, quando a peste grassava na Europa Central (no que hoje é a Alemanha e não só), a maioria cristã meteu na cabeça que a culpa era dos judeus, que envenenavam a água das fontes, onde as comunidades iam buscar a sua água. Começaram, assim, as matanças de judeus, organizavam-se milícias, que espalhavam o terror, matando e linchando a torto e a direito.

Hoje em dia, há quem veja nas hordas de imigrantes à procura de uma vida decente na Europa a razão de todos os males e de todas as crises. Não estou a negar que a Europa está a rebentar pelas costuras, que o financiamento estatal aos mais fracos está a soçobrar e que existem conflitos entre religiões. Mas as razões do desemprego, da criminalidade e da crise, em geral, devem ser procuradas na incapacidade dos nossos governantes. Além de uma gritante falta de visão, não exercem o seu posto a pensar no bem comum, mas no proveito próprio. E conflitos religiosos sangrentos existem igualmente entre cristãos, como o prova o caso da Irlanda do Norte.

Construindo um muro à volta do nosso país, travando a imigração, resolveríamos os nossos problemas? Não creio. Portugal depende muito do estrangeiro. Devemos, então, construir um muro à volta da Europa? De toda a Europa? Incluindo a Roménia, Albânia e outros países, onde existem tantos ciganos? Hum… Talvez construir um muro à volta da Europa rica, deixando a pobre de fora… O pior é que, neste caso, Portugal arriscava-se a ficar do “lado errado”!

Os ódios, extremismos e fanatismos que grassam um pouco por todo o lado só provam uma coisa: que nós, a Humanidade, estamos ainda muito longe de encontrar soluções para os nossos problemas e de viver em paz uns com os outros. Mas uma coisa é certa: a resposta não está (não pode estar!) no erigir de barreiras e, sim, no estender de mãos.

Uma Páscoa Feliz para todos!