Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

10 dezembro 2017

Tigres de Papel




«Mas parece-me que se passa qualquer coisa na nossa sociedade: muitos americanos parecem ter deixado de entender o que um líder deve ser, confundindo voz grossa e beligerância com firmeza. Porquê? Será a cultura das celebridades? Será desespero da classe trabalhadora, canalizado para o desejo de slogans fáceis? Não sei».

São palavras de Paul Krugman, economista norte-americano, Nobel de Economia em 2008, originalmente publicadas no The New York Times, traduzidas e publicadas na revista Visão (6 de Abril de 2017).

Paul Krugman diz que não sabe. Pois eu arrisco dizer que este não é um problema exclusivo dos Estados Unidos, nem sequer atual. Os humanos, em geral, sempre confundiram «voz grossa e beligerância com firmeza». Vivemos de aparências, daquilo que impressiona à primeira vista. Somos muito manipuláveis e, de vez em quando, aparece alguém capaz de usar na perfeição os artifícios necessários. Dá a ilusão de segurança e de que sabe o que quer.

Adoramos tigres de papel. Mas o problema não é novo e não aprendemos nada com a História.


07 dezembro 2017

Sociedade Patriarcal (pormenores)




O número da revista Visão publicado no passado dia 6 de Abril dedicava várias páginas a pequenos e curiosos museus, situados fora dos grandes centros e que merecem uma visita, como o Museu do Sabão, em Belver, ou o Museu do Brinquedo Português, em Ponte de Lima.

Em Tomar, existe o Museu dos Fósforos. Neste caso, porém, não foi só a originalidade que me chamou a atenção. Num destaque, o artigo informa que, em 1980, o colecionador Aquiles da Mota Lima doou, ao município de Tomar, cerca de 43 mil caixas de fósforos, reunidas ao longo de 27 anos. Contudo, quando começamos a ler o pequeno artigo, deparamos com o seguinte:

«”Quando era mais nova, corria tudo desde cafés, tabernas, restaurantes, hotéis, fábricas e lojas à procura de caixas de fósforos”, diz Maria Helena Lima, 90 anos, filha do músico, maestro, realizador, jornalista e colecionador Aquiles da Mota Lima. “Cheguei a ir com a minha mãe a Madrid de propósito só para comprar caixas de fósforos”, recorda Maria Helena, diretora benemérita do Museu dos Fósforos, aberto em 1989, no Convento de São Francisco, em Tomar».

É certo que a seguir se diz que a coleção «começou a ser alimentada por Aquiles de Lima, em 1953, durante uma viagem a Londres para assistir à coroação de Isabel II». Mas uma pessoa fica com a impressão de que quem realmente contribuiu para que se reunissem tantas caixas de fósforos foram a filha e a esposa do ilustre cidadão. E, no entanto, o museu perpetuará apenas o nome do pai da família.


05 dezembro 2017




Não sou a melhor pessoa para falar de poesia. Por vezes, leio um poema que me encanta e me põe a pensar. Mas é raro. Li esta obra por curiosidade em relação ao autor, que só conhecia de nome, e também numa tentativa de me forçar a ler poesia, de vez em quando. Não sabendo discutir o impacto que a obra de António Nobre teve nos poetas que se lhe seguiram, limito-me a descrever as minhas impressões deste livro.

Achei interessante que muitos poemas fossem narrativos, principalmente, com recordações da infância e da juventude, assim como hábitos, festejos e paisagens portugueses. Aliás, a saudade da pátria é notória neste poeta, que viveu em Paris, embora, por vezes, se torne sentimental e dramático em demasia, servindo o cliché de que não há nada como o nosso Portugal, nomeadamente, no que diz respeito às mulheres, tão lindas e modestas, a rezarem as suas novenas. Enfim, sentimentalismos à parte, António Nobre dá-nos uma excelente imagem do nosso país, em fins do século XIX.

Uma grande tristeza perpassa todo o livro, o próprio autor o definiu como «o livro mais triste que há em Portugal». Mas António Nobre também consegue ser irónico, como no poema À Toa, um dos meus preferidos, quando os mortos falam:

Séculos tombam uns sobre os outros, como blocos,
E nós dormindo sempre, eternos dorminhocos.

Ou no poema A Vida:

Olha o artista a ler, soluçando, uma crítica…
Olha esse que não tem talento e o julga ter
E aquele outro que o tem… mas não sabe escrever!

Nota-se também uma atração pela morte, por cemitérios, pelo lúgubre, enfim, uma marca romântica, mas dir-se-ia que António Nobre sabia que não viveria muito tempo.

Já que a secção de que mais gostei foi a dos Sonetos, numerados de 1 a 18, passo a transcrever o número 2, em que o poeta, por uma vez, critica o país que normalmente elogia:

Em certo Reino, à esquina do Planeta,
Onde nasceram meus Avós, meus Pais,
Há quatro lustres, viu a luz um poeta
Que melhor fora não a ver jamais.

Mal despontava para a vida inquieta,
Logo ao nascer, mataram-lhe os ideais,
À falsa-fé, numa traição abjecta,
Como os bandidos nas estradas reais!

E, embora eu seja descendente, um ramo
Dessa árvore de Heróis que, entre perigos
E guerras, se esforçaram pelo Ideal:

Nada me importas, País! seja meu Amo
O Carlos ou o Zé da T’resa… Amigos,
Que desgraça nascer em Portugal!


Nota: li a versão ebook, gratuita, publicada pelo Projecto Adamastor.