Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

30 setembro 2016

Tu és a única Pessoa (7)



No seu íntimo, invejava a filha! A possibilidade de ela ter sido feliz com um homem mortificava-a. Lena não sabia ser feminina, nunca se soubera vestir, recusava vestidos vaporosos e sapatos de salto alto. Era uma desajeitada, nem sequer se sabia pintar e pentear. Era uma injustiça que a rapariga tivesse provado daquilo a que ela própria, tão graciosa e sensível, nunca tivera direito. 







28 setembro 2016

Dom Dinis e Dona Isabel (5)

Os desentendimentos entre Dinis e Dona Isabel, baseados nos conflitos que opunham o rei ao seu herdeiro, culminaram com o desterro da Rainha Santa em Alenquer, acusada pelo marido de defender o filho contra ele próprio.

- Chega! - bradou Dinis com quanta força tinha. E, depois de recuperar o ar, acrescentou: - Não tornarei a consentir na vossa intromissão. Ordeno a vossa prisão numa das vossas vilas, privada de todas as vossas rendas!
Isabel olhava-o indignada, mas composta:
- Prescindis então do meu auxílio?
- Auxílio?! Até agora, apenas contribuístes para o agravar da contenda, dando cobro a vosso filho, que comete traição ao virar-se contra o seu senhor e pai. Mas não vos aflijais, não mandarei atirar-vos para um calabouço. Escolhei uma das vossas vilas e vivereis na vossa residência habitual, na companhia das vossas damas, e podereis deslocar-vos dentro do concelho. Mas não mais que isso! Encarregarei guardas de vos vigiar. - Fechou o punho: - Ai de vós se vos atreverdes a sair de lá!
Isabel encarou-o desafiadora:
- Pensais que me faria grande mossa, se me atirásseis para um calabouço? Mesmo lá eu estaria na companhia de Deus e de São Francisco.
- Não me provoqueis…
- Faríeis melhor se olhásseis por vossa saúde! Não estais com bom aspeto, meu rei e senhor. Pálido, apesar da corpulência, os olhos raiados de sangue, o suor sobre a testa… Tende cautela convosco!
- Desaparecei da minha vista! - bradou Dinis, ignorando as tonturas e o bater desordenado do seu coração. - Não mais vos quero ver! Poupai-me à vossa presença, enquanto for vivo!
Isabel deu meia-volta e saiu. Estafado, Dinis deixou-se cair para cima de uma cadeira.


Dom Dinis Série (1).JPG


O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook, por exemplo, na LeYa Online, na Wook, na Kobo e na Amazon (pagamento em euros); Amazon (pagamento em dólares).

No Brasil, está disponível na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura.

Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.

26 setembro 2016

Tu és a única Pessoa (6)

Da recensão da escritora Ana Cristina Silva, publicada no Portugal Post Nº 266 - Agosto 2016:

«Tenho especial preferência por romances que não são lineares e esta narrativa alterna, ao longo dos capítulos, dois tempos: o presente, registado através de cartas num registo mais reflexivo, em que o narrador é Helena, e a evolução da vida da personagem principal narrada na terceira pessoa, sendo a conjugação destas duas vozes narrativas particularmente bem conseguida».






Nas livrarias!


25 setembro 2016

24 setembro 2016

Tu és a única Pessoa (5)

Da recensão da escritora Ana Cristina Silva, publicada no Portugal Post Nº 266 - Agosto 2016:

«Partindo de uma estrutura epistolar, a personagem principal, Helena Tavares, escreve de um hospital psiquiátrico a uma amiga imaginária depois do suicídio da filha. Mergulhada na dor, Helena reflecte sobre as suas culpas enquanto mãe e remexe na sua própria infância, relembrando a violência por ela sofrida no seio da sua própria família».








Nas livrarias!


22 setembro 2016

Dom Dinis e Dona Isabel (4)


Estátuas de Dom Dinis e de Dona Isabel em Leiria

Na última década de vida de Dom Dinis, os seus desentendimentos com Dona Isabel eram sobretudo baseados nos conflitos entre o rei e o seu herdeiro que desembocaram numa guerra civil. Parece ponto assente que Dona Isabel defendia o filho, pelo menos, disso foi acusada pelo marido.

Recostado na sua cadeira, o rei inquiriu:
- Vindes repetir aquilo que já me dissestes dezenas de vezes?
- Não propriamente. Um novo receio me atinge.
- Deveras?
- Muitos dos descontentes que se vão queixar a nosso filho podem meter-lhe ideias na cabeça…
Isabel interrompeu-se e o rei inclinou-se sobre a mesa, onde pousou os braços cruzados:
- Que tipo de ideias?
Contra o que lhe era habitual, a rainha hesitou, mas acabou por responder:
- Afonso completou vinte anos, é casado há quase dois… É bem possível que haja por aí gente que lhe lamba as botas na esperança de que ele substitua o pai o mais lesto possível, a fim de que ele satisfaça as suas reivindicações.
Dinis não sabia se havia de desatar às gargalhadas, ou de dar um murro na mesa. A seriedade com que Isabel o encarava acabou por o decidir: mostrar-lhe-ia que tal afirmação só lhe provocava escárnio. Riu-se. E, quanto mais se ria, mais vontade sentia de o fazer. Acabou por dar gargalhadas sinceras, mas a rainha não se deixou impressionar:
- Quereis fazer-me crer que considerais tais suposições absurdas? Que não considerais o perigo?
- Perigo de quê? - replicou ele, ainda entre risos. - Que o meu filho participe numa conspiração, com o fito de me mandar desta para melhor? Sim, porque se essa gente está à espera que eu morra em breve, bem desiludida ficará! - Endireitou-se, de peito feito: - Sinto-me mais saudável do que nunca!
- Eu sei.
- Sim, claro - replicou ele irónico. - Como pude eu pensar que tal pormenor vos escapasse?
- Não considerais a hipótese da deposição?
- Que dizeis?!
Dinis estava agora furioso, Isabel acrescentou:
- Quando existe consenso suficiente à volta do príncipe herdeiro…
- Credes mesmo que Afonso teria poder suficiente para me pôr em tais dificuldades?
No silêncio que se seguiu, Dinis ouvia o eco das próprias palavras, ditas num tom alterado, mais agudo do que o costume. Na verdade, o rei fora novamente atingido pelo receio repentino que lhe causava a lembrança do avô, isolado em Sevilha, deposto pelos nobres do seu reino, que se haviam juntado à volta do filho Sancho. À altura, Alfonso X não era muito mais velho do que ele, que acabara de completar os cinquenta anos.


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O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook, por exemplo, na LeYa Online, na Wook, na Kobo e na Amazon (pagamento em euros); Amazon (pagamento em dólares).

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20 setembro 2016

Tu és a única Pessoa (4)



- Se sei que andas metida com algum desses comunistas, desfaço-te!
No dia seguinte, levou a filha à estação, com o seu habitual ar de mau, não abrindo a boca nem para se despedir, para já não falar de um abraço, de um beijo ou do mero desejo de boa viagem.






16 setembro 2016

Dom Dinis protege os Templários

O papa Clemente V enviou a Dom Dinis a bula Callidi serpentis vigil, recomendando-lhe a prisão definitiva dos Templários. Alguns eclesiásticos portugueses, como os Cónegos Regrantes de Santa Cruz e o bispo da Guarda, insistiram em que se cumprisse a bula papal. No fundo, pretendiam apoderar-se dos bens que haviam pertencido aos Templários.

A esse propósito, um excerto do meu romance, em que o bispo da Guarda Dom Vasco Martins de Alvelos expressa a sua indignação a Dom Dinis:

- Ignorais uma bula papal? E olvidais que Jacques de Molay confessou os pecados mais terríveis? Heresia, usura, sodomia! Se os franceses se davam a essas práticas repugnantes, os hispânicos não serão muito diferentes…
- Credes realmente que os freires do Templo fomentavam tais costumes? - contrapôs Dinis. - Sob tortura, qualquer um é levado a confessar principalmente o que não fez. Além disso, o Mestre francês desmentiu a sua confissão dois meses mais tarde.
- O que prova a sua falta de carácter!
- Ou constatar o não cumprimento de certas promessas?
O bispo olhou o seu monarca desconfiado:
- Que quereis dizer?
- Frei Vasco Fernandes é de opinião que Jacques de Molay terá confessado os crimes, acima de tudo, perante a promessa de que os restantes irmãos seriam poupados aos suplícios. Mais tarde, ao verificar que tal não passava de uma mentira, desmentiu a sua confissão.
- Ora, Alteza, é claro que eles se protegem uns aos outros. A opinião de Frei Vasco Fernandes, neste caso, é mais que suspeita.
Dinis olhou o prelado de soslaio, convencido de que ele cobiçava o património dos freires. Retorquiu:
- Tenho Frei Vasco Fernandes em grande estima e confio no seu juízo. Como aliás em todos os membros portugueses da Ordem. Bem sabeis como eles sempre lutaram com bravura contra a ameaça sarracena e como a sua presença é preciosa em muitos pontos da fronteira, garantindo a defesa e o povoamento.
Depois de um momento de vacilação, o bispo insistiu:
- As bulas papais são para se cumprirem!
- Pois eu estou certo que na Hispânia não se ateará uma fogueira que seja contra os Templários. Nem tão-pouco se procederá à alienação dos seus bens.


Dom Dinis Série (1).JPG


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15 setembro 2016

Tu és a única Pessoa (3)



Helena deixou de reagir, deixou até de sentir revolta e medo. Os pides não faziam ideia do quanto ela aguentava, de como ela aprendera a anular-se, a desistir de reagir, de pensar, de sentir. De como aprendera a desligar-se do próprio corpo e do mundo. Apanhar bofetadas sem bem saber porquê era-lhe familiar. Crescera assim.



Em breve nas livrarias!