Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

17 janeiro 2018

A Crueldade Da Natureza

Foto © Horst Neumann

A suposta "crueldade" da Natureza nunca pode ser pretexto para nós humanos maltratarmos ou abandonarmos um animal (somos muito lestos a procurar razões para fugirmos ao sentimento de culpa). Aliás, não sei se podemos dizer que a Natureza é cruel, pois ela não tem ética, nem moral. Nós, pelo contrário, temos!

Nós humanos mudámos o mundo, com tudo o que a ele pertence e com tudo o que isso implica. Mudámos irremediavelmente, e para sempre, a vida de (quase) todos os animais e nada mais nos resta do que assumir essa responsabilidade. Muitos de nós esquecem-se de que os animais que nascem e crescem no nosso meio nunca aprenderam a viver na Natureza. Além disso, no caso dos cães, por exemplo, há características em muitas raças que tornam a sua sobrevivência na vida selvagem impossível: o tamanho (pequeno demais), ou pêlos longos que, sem a higiene e os cuidados adequados, facilitam a acumulação de sujidade e parasitas (não esqueçamos que as raças surgiram por
intervenção humana).

Todos os cristãos (ou quase) admiram São Francisco de Assis, mas poucos seguem os seus ensinamentos. E até nem precisamos de ir tão longe como ele, que considerava os animais seus irmãos. Eu, por exemplo, considero-os meus primos. Desde Darwin que sabemos possuir um qualquer grau de parentesco com todos os animais e, sendo impossível separar a condição humana das componentes moral e ética, temos o dever de os tratar com dignidade e não lhes infligir sofrimento gratuito.

Temos igualmente o dever de preservar as espécies! Isto não é mania do nosso tempo, tem tradição bíblica! É essa a mensagem do episódio da Arca de Noé. Com o mundo a ser destruído por cheias e enxurradas, Deus não ordenou a Noé que salvasse outros humanos (além da sua família), mas sim "casais" de animais. É a prova de que o nosso planeta e a nossa própria vida dependem das outras espécies, mesmo das que não servem para a nossa alimentação, nem vivem no nosso meio. O equilíbrio do planeta depende da existência dos outros animais.

Nós, com a nossa inteligência e os meios que adquirimos, temos a obrigação de preservar o mundo que Deus nos ofereceu e de assumir as responsabilidades de que Ele nos incumbiu.


15 janeiro 2018

Recordando Francisco Sá Carneiro

Do Boletim da Assembleia da República COMUNICAR, Janeiro 2018:

«Na sessão de 15 de janeiro de 1972 da Assembleia Nacional, Francisco Sá Carneiro, Deputado da denominada Ala Liberal, denuncia a atuação da Direção-Geral de Segurança como atentatória dos direitos humanos, referindo diversas queixas por “prisões e buscas sem mandados”, pelos “métodos de interrogatórios praticados, durante os quais se não admite a presença de advogado dos suspeitos presos”, assim como pelo regime prisional da Cadeia de Caxias.

O Deputado exige o respeito da legalidade, com a presença de advogado nos interrogatórios, garantia do tratamento justo das pessoas, preservando-as de qualquer “coação física e moral”, e, simultaneamente, da própria credibilidade das autoridades instrutórias. Sá Carneiro refere que se trata apenas de defender o cumprimento da lei, pois a “investigação não é, não pode nunca ser, obtenção de confissões”.
(...)
Por entre interrupções e apartes, Sá Carneiro prossegue solicitando o fim das detenções de pessoas sem culpa formada em “crimes contra a segurança do Estado”».

Um ano mais tarde, Sá Carneiro apresentou um projeto de lei de amnistia dos presos políticos, sobre o qual a Comissão de Política e Administração Geral e Local emitiu o seguinte parecer:

«“Passando à Apreciação do Projeto de Lei apresentado pelo Senhor Deputado Francisco Sá Carneiro, foi o mesmo unanimemente considerado, pelos membros presentes à reunião da Comissão de Política e Administração Geral e Local, como gravemente inconveniente.”»

Francisco Sá Carneiro renunciou, assim, ao seu mandato. 
Depois da Revolução, seria o primeiro Secretário-Geral do Partido Popular Democrático, do qual foi cofundador. Viria a ser Primeiro-Ministro num governo liderado pela coligação AD, mas faleceu a 4 de dezembro de 1980, num desastre de aviação, com apenas 46 anos.

Quem quiser ler mais sobre a intervenção de Francisco Sá Carneiro, na sessão de 15 de janeiro de 1972, pode fazê-lo aqui:

http://app.parlamento.pt/COMUNICAR/Artigo.aspx?ID=1112

 
   

12 janeiro 2018

Educar Sem Violência

Foto © Horst Neumann

Na Alemanha, há cada vez menos pais a bater nos filhos. E a delinquência juvenil diminuiu para metade, nos últimos dez anos!

«É uma diminuição histórica», dizem os criminologistas Dirk Baier, Christian Pfeiffer e Sören Kliem, que procederam a um estudo de longa duração. Ainda há uma década se discutia, na Alemanha, o problema do aumento da criminalidade juvenil (dos 14 aos 18 anos), com delitos cada vez mais brutais. As instituições prisionais próprias para delinquentes desta idade estavam a abarrotar, por isso, se procedeu ao aumento das instalações de umas, enquanto surgiram novas, construídas de raiz.

Hoje verifica-se que muitas estão vazias, outras apenas ocupadas pela metade. Mesmo uma cadeia acabada de construir em 2010, a Jugendvollzugsanstalt Wuppertal-Ronsdor, tem muitas alas vazias. Já se procedeu ao fechamento de algumas, outras estão prestes a seguir o mesmo destino e os municípios fazem planos de adaptação dos edifícios a outras funções.

Mas quais as razões para esta evolução, se as leis e os tribunais até se tornaram mais duros? Os criminologistas citados não hesitam em referir o cada vez mais raro uso da violência familiar, o denominador mais comum nos delinquentes juvenis: quem experimenta violência em casa é mais suscetível de a usar fora de portas - confirma o que escrevi aqui, em Agosto de 2016: Os dados oficiais dizem que a violência doméstica é o principal factor de risco para jovens em Portugal (neste post). Em sondagens escolares, na Alemanha, a percentagem de estudantes que declaram terem pais que não os castigam corporalmente subiu de 43,3% para 60,8%.  Paralelamente, verifica-se que os pais e/ou educadores dão mais apoio emocional às suas crianças e aos seus jovens.

Também outros fatores contribuíram para esta diminuição. Os criminologistas apontam para a necessidade de os jovens terem uma perspetiva e a verdade é que o desemprego juvenil diminuiu de 15% para cerca de 7%, entre 2004 e 2016. Onde há perspetivas, dizem eles, desenvolvem-se menos agressões. Também o consumo de álcool tem diminuído.

Porém, nem tudo são rosas. Com a crise dos refugiados (a Alemanha recebeu quase milhão e meio, nos últimos dois anos), assistiu-se a um aumento da criminalidade juvenil, contrariando a tendência que se vinha a verificar desde 2007. Os refugiados são vítimas e agressores, ao mesmo tempo. Se, por um lado, sofrem ataques da extrema-direita, por outro, com menos perspetivas de emprego, os jovens tornam-se mais violentos e são mais facilmente atraídos por movimentos extremistas.

Nota: post baseado neste artigo, de autoria de Patrick Diekmann (em alemão):

http://www.t-online.de/nachrichten/panorama/kriminalitaet/id_82990678/jugendkriminalitaet-liebe-fuehrt-zu-leeren-gefaengnissen-in-deutschland-.html

Adenda: já depois de ter escrito este texto, tomei conhecimento deste artigo, no blogue IP:

Filhos de vítimas de violência doméstica chumbam cinco vezes mais (clique). 

Não faltam provas de que a violência doméstica é extremamente prejudicial, por isso, me surpreende que ainda há quem a defenda (em relação aos filhos).




10 janeiro 2018

O Quarto Mandamento


Honrarás Pai e Mãe.

«E se os pais tratam mal os filhos, humilham-nos, batem-lhes, prendem-nos, obrigam-nos a fazer tarefas indignas? E se eles nunca se dão ao trabalho de compreender os filhos e de lhes ensinar o que quer que seja? E se nunca ligam aos filhos, lhes dão a entender que são merda, que não contam, que só servem para atrapalhar, para os envergonhar? E se os abandonam? E se os molestam sexualmente, ou consentem que alguém o faça? E se passam a vida a rir-se deles e a dizerem-lhes que nunca serão nada na vida? E se os olham com nojo? E se os olham com desprezo? E se lhes incutem sentimentos de culpa e de vergonha por não serem aquilo que eles desejaram? E se os castigam por se atreverem a dizer não? E se os manipulam com falinhas mansas, para que façam apenas o que eles querem, sem lhes darem hipóteses de desenvolverem o seu carácter, a sua vontade, a sua personalidade? E se os desprezam, enquanto tratam outras pessoas com carinho e simpatia? E se, em público, são pessoas agradáveis e, em casa, lhes fazem a vida negra? E se se fartam de elogiar os outros, enquanto não se cansam de pôr defeitos nos filhos?»

In "Tu És a Única Pessoa"

Talvez Deus tivesse obtido melhores resultados se se tivesse dirigido aos pais, em vez de aos filhos. Afinal, aqueles já cá estão antes destes, compete-lhes dar o exemplo.




07 janeiro 2018

05 janeiro 2018

Se vires um pobre à beira de um rio...



Pais que se prezam tudo fazem para proporcionar aos filhos uma vida melhor do que a que eles tiveram. Mas incorrem facilmente no erro de os super-protegerem. Apesar de não ter filhos, calculo que não será fácil encontrar um equilíbrio entre o desejo de os ver felizes e despreocupados e a obrigação de os preparar para a vida. Penso, no entanto, que, se os pais tiverem consciência de que não podem evitar que os filhos sofram desilusões ou falhanços e enfrentem desafios, apenas essa consciência já poderá ajudar. O importante é que eles, os pais, não os deixem sozinhos, nessas dificuldades, o importante é que estejam lá, quando os filhos perdem o ânimo. Porque a verdadeira ajuda não é evitar que sofram desilusões e, sim, compreendê-los nos seus desgostos e infelicidades, dar-lhes os meios de saberem lidar com as agruras da vida (porque ela traz sempre agruras).

Observo, no entanto, que muitos pais fazem tudo pelos filhos por uma questão de comodismo. É muito mais fácil dar um peixe a um pobre do que ensiná-lo a pescar, já que ensinar implica oferecer tempo, ter paciência para lhe explicar o processo, ficar a seu lado durante essa aprendizagem, apoiá-lo, aturar-lhe as primeiras tentativas desajeitadas, consolá-lo nos falhanços (e este consolo não passa por pescar por ele), às vezes, fingir o resultado (ou melhor, pescar, sim, mas sem ele dar conta) para que ele não perca a motivação, etc. Sim, é bem mais fácil, rápido e cómodo dar-lhe um peixe! Mas esse “pobre” estará novamente cheio de fome no dia seguinte, na margem do rio cheio de peixes.

Nos nossos dias, porém, há pouco peixe, o que põe os jovens numa situação absurda: gordinhos, bem tratados, com telemóveis e carros, mas, quando se vêem na necessidade de pescar, gritam e protestam: “Não sabemos e nem vale a pena aprendermos, porque não há peixes”.

Penso que a melhor solução não é acusá-los de que berram de barriga cheia. Será melhor tentar explicar-lhes que vale a pena aprender, pois os peixes, apesar de poucos, estão lá. Têm é que se dar ao trabalho de os procurar, o que não será fácil, pois estão habituados a sacar da cesta dos paizinhos. Mas lembremos sempre que a responsabilidade não é só deles!

P.S. A solução também não passa por pô-los a pescar, sem lhes ter ensinado antes.



04 janeiro 2018

Calendário 2018 da UZ (1)

«Os cães riem. E nenhum ri como ri o outro. Quando os cães nos mostram como riem, ficamos a saber quem são».

«O sorriso do Moulin Rouge é exactamente como o próprio, sem tirar nem pôr, um repto à brincadeira perpétua».

https://www.facebook.com/uniaozoofila/

http://www.uniaozoofila.org/




01 janeiro 2018

A Citação da Semana (128)

«Não há melhor meio de despertar a bondade de uma pessoa do que tratá-la como se ela já fosse boa».

François Rabelais


31 dezembro 2017

Feliz Ano Novo!

Vivemos num mundo cheio de injustiças e ódios, a que se juntam catástrofes naturais. As más notícias são diárias, o que nos deixa revoltados, deprimidos, desmotivados. Por isso, talvez seja boa ideia pensarmos igualmente naquilo que é bom e pelo qual devíamos estar agradecidos.

Este mundo pode não ser perfeito, mas é o único que temos. Urge preservá-lo. É isso que nos diz a canção Look At The World, aqui interpretada pelo Coro Gospel Lightfire, ao qual pertenço.

E é a minha mensagem de Ano Novo, desejando, a todos vocês, um excelente 2018!




28 dezembro 2017

Retrocesso Civilizacional em Democracia


Agora, que o Natal já passou e nos preparamos para iniciar um novo ano, uma época que poderá servir de reflexão, publico um resumo da minha palestra do passado dia 2 de Outubro, no Rotary Clube da Feira, a convite da sua Presidente Carla Pinto:




Considera-se que, quanto mais evoluímos, mais solidariedade e companheirismo desenvolvemos e melhor sabemos viver em comunidade. Infelizmente, nem sempre se verifica tal e um dos nossos grandes males, a meu ver, é a memória curta.
Verifica-se um crescimento de partidos radicais e xenófobos, ou seja, um retrocesso civilizacional que muitos de nós não julgavam possível. Estamos perante um fenómeno estranho na nossa democracia: há como que um desejo de regresso a regimes autoritários. E, o que é realmente perigoso, a palavra ditadura parece ter perdido muito do seu verdadeiro significado.
«É o medo que nos torna agressivos», escreve a minha personagem Helena, numa das suas cartas, no meu romance parcialmente epistolar Tu És A Única Pessoa. Muitos de nós parecem ter capitulado a um medo ancestral, nomeadamente, o medo do desconhecido. Não nego que vivemos tempos complicados, em que o terrorismo é uma ameaça a ser encarada com toda a seriedade. Impõe-se, porém, discernimento, que ajude a separar o trigo do joio e não nos leve a ver um terrorista em qualquer refugiado que procure a nossa solidariedade (muitas vezes, até nos esquecemos que muitos desses refugiados são cristãos).
O medo procura soluções radicais, como a instauração de uma autoridade suprema, que proteja a vida daquelas que são consideradas “pessoas de bem”. Confesso ter dificuldades com a expressão “pessoas de bem”, altamente subjetiva e que, afinal, nada diz. Muitos de nós parecem dispostos a prescindir de liberdade, em nome de uma segurança, que aliás é sempre ilusória, pois não existe a segurança absoluta. E, numa ditadura, a segurança de alguns paga-se com a insegurança de outros, cujo único “crime” é discordar do sistema vigente.
Assusta-me que o comodismo em que vivemos vá ao ponto de desejar uma ditadura, desejar que haja uma autoridade suprema que nos resolva os problemas, sem nos preocuparmos com que métodos. Considero gravíssima essa ilusão de vivermos em segurança, sem querermos saber dos métodos aplicados, a ilusão que possibilitou o regime nazi.
Nós portugueses também já tivemos uma experiência ditatorial. Penso que é imprescindível manter viva essa memória e ir à procura de testemunhos que não nos deixem esquecer as barbaridades que se cometeram em nome de uma pretensa segurança, em nome da proteção das famílias e das tais “pessoas de bem”.