Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

14 abril 2011

A importância de D. Châmoa Gomes na vida de D. Afonso Henriques (II)

Para o meu romance, eu não podia deixar de pegar na ideia de que D. Afonso Henriques terá tentado casar com D. Châmoa Gomes. Estava apaixonado, ela pertencia à alta nobreza galega e, além disso, tinham, pelo menos, um filho: Fernando Afonso. Terão tido um outro, Pedro Afonso, mas há fontes que identificam este nome com um meio-irmão do nosso primeiro rei.




Aos barões portucalenses não agradava tal casamento. As razões são referidas numa conversa entre D. Egas Moniz e D. João Peculiar, arcebispo de Braga:


            - Estamos, porém, todos de acordo, em que D. Afonso não deve casar com D. Châmoa Gomes, não é verdade?
            - Aqui para nós, eminência, não seria melhor?
- Pelo amor de Deus, D. Egas!
- Rendamo-nos à evidência! Afinal, D. Châmoa é filha e sobrinha de condes. Deu a D. Afonso um menino forte e saudável e o segundo filho vem a caminho... É capaz até de já ter nascido, enquanto aqui conversamos.
- O herdeiro de D. Afonso Henriques não pode ser um sobrinho do conde de Trava! Morresse o soberano nos próximos tempos (Deus nos livre de tal destino), os Trava logo tratariam de manter o pequeno Fernando sob a sua influência. Um casamento destes tem que ser evitado a todo o custo!
            - Mas como conseguiremos mudar os intentos do próprio D. Afonso?
            O arcebispo reduziu os olhos perspicazes a duas linhas e retorquiu:
            - Talvez nem seja tão difícil quanto isso.
            - Não? D. Châmoa pode levá-lo a fazer um casamento clandestino. E o que Deus uniu...
            - Pode tornar-se a separar!
            - Que dizeis, eminência?
            - A Igreja tem o poder de anular uniões matrimoniais. Neste caso, haveria até duas razões de peso. Em primeiro lugar, podia-se invocar o incesto...
            - Santo Deus!
            - O incesto vai até ao sexto grau de parentesco, D. Egas! D. Châmoa é sobrinha de D. Fernão Peres, que viveu numa união de facto com D. Teresa. O que faz dele o padrasto de D. Afonso Henriques. E faz primos dos dois amantes!
            O arcebispo fez uma pausa, a fim de beber mais um pouco de água, e prosseguiu:
            - Vejamos agora a segunda razão de peso: à morte de D. Paio Soares da Maia, D. Châmoa ingressou no convento beneditino de Vairão, à semelhança de muitas viúvas nobres…
            - Oh sim, com as consequências que se conhecem. Viúvas novas e, acima de tudo, bonitas não se deviam precipitar.
            - O mais importante é que, por pouco tempo que fosse, D. Châmoa se fez monja. Qualquer casamento lhe está proibido! E não esqueçamos que deixou o mosteiro para se amancebar ao senhor de Tougues. Este motivo, por si só, não seria impeditivo de uma nova união matrimonial. Mas, entre nós, D. Egas, quereremos nós ver uma dama de passado tão pouco recomendável ocupar o trono de Portugal? Porque é de um trono real que se trata! Embora não reconhecido oficialmente, D. Afonso vem-se intitulando rei há mais de um ano.
            Egas remeteu-se ao silêncio e, depois da curta pausa, o clérigo acrescentou:
            - D. Châmoa que construa as suas armadilhas! Não é ela que me tira o sono. O verdadeiro problema assenta no facto de D. Afonso nem se preocupar em procurar uma noiva apropriada... e o tempo vai passando.
            - O nosso rei meteu-se numa bela alhada. Com uma parenta dos Trava! Muitas vezes, penso ser esta uma maldição que a própria mãe lhe lançou.

Fiz, por isso, de D. João Peculiar, arcebispo de Braga e grande amigo e colaborador de D. Afonso Henriques, o opositor mais acirrado do rei nesta questão. E liguei o assunto a mais dois, de elevada importância: o Tratado de Zamora e o casamento do monarca com D. Mafalda de Sabóia. D. João Peculiar terá pensado encontrar a solução do problema na vinda do Cardeal Guido de Vico à Hispânia, em 1143. A intenção do legado papal é participar em dois concílios, um em Valhadolid e outro em Girona, mas também servirá de mediador num tratado a assinar entre Afonso Henriques e o imperador, em que este reconhecerá o título real ao primo. Falo do Tratado de Zamora, assinado a 5 de Outubro de 1143.




Mas o que tem tudo isto a ver com D. Châmoa Gomes e o casamento do rei com D. Mafalda? A ideia foi-me "dada" pelo Prof. Joaquim Veríssimo Serrão, que, na sua História de Portugal (Editorial Verbo), nos diz que poderá ter sido o cardeal Guido de Vico quem advogou, junto de Afonso Henriques, o casamento com a filha do conde Amadeu III de Sabóia. E como se lembraria o cardeal de fazer uma coisa dessas? Talvez o arcebispo de Braga lhe tivesse pedido para o fazer, a fim de acabar, de vez, com o problema chamado D. Châmoa Gomes.

Para apimentar mais o meu romance, Afonso Henriques, que não fazia ideia dos planos do seu amigo arcebispo, terá, ele próprio, visto na vinda do cardeal uma oportunidade de conseguir autorização para o casamento com a sua amada.

Mais no próximo post.

8 comentários:

Cat SaDiablo disse...

Estou a gostar de acompanhar.

Cristina Torrão disse...

Disponha ;)

Daniel Santos disse...

força.

Juvenal disse...

É sempre uma enorme alegria verificar o interesse de autores portugueses por assuntos da nossa história, quer ao nível da investigação , quer ao nível da ficção histórica, sabendo~se contudo que, mesmo para esta última situação é indispensável o estudo e pesquisa de dados. O resultado é sempre positivo, saber mais e melhor.

Juvenal disse...

É de louvar a contribuição de trabalhos relacionados com a história da nossa pátria.Quer se trate de trabalhos de base científica ou de ficção, o resultado é sempre positivo e acrescenta sempre algo mais ao nosso conhecimento .

Cristina Torrão disse...

É isso, Juvenal, bem podiam ser mais. Com uma História tão longa e rica, devia haver um autêntico "movimento pelo romance histórico" em Portugal.

Rogério Fraga disse...

Li um livro sensacional: "Assim Nasceu Portugal, por amor a uma mulher", de Domingos Amaral, narra os acontecimentos históricos e amorosos no período entre 1112 e 1130

Cristina Torrão disse...

Sim, estou muito curiosa em relação a esse livro, recentemente publicado. Mas orgulho-me de ter sido eu a primeira a trazer este assunto à luz. E o licor Chamoa, criado em Santa Maria da Feira, foi inspirado no meu livro.
Mas, enfim, eu não tenho a notoriedade de Domingos Amaral...