Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

28 agosto 2011

A Desilusão de Judas



O primeiro romance de António Ganhão, editado pela Lua de Marfim, vai ser lançado a 6 de Setembro pelas 18:30 no El Corte Inglés de Lisboa.

A Desilusão de Judas conta-nos a história de um serial killer, um normalíssimo pai de família, habitante do Barreiro e empregado no contencioso de um banco. Junto com a esposa, colabora na sua paróquia e frequenta cursos sobre a Bíblia. É, aliás, à Bíblia que ele vai buscar a sua inspiração, pois, na sua ideia, ao matar, ele está a libertar as suas vítimas, o verter do sangue enche o cálice simbólico. O critério de escolha das vítimas não é sempre o mesmo, tanto pode ser a colega que se atreve a ser encantadora, ou um gerente de balcão bem vestido, de "cabelo penteadinho puxado para trás e fixado com gel", que lhe provoca desprezo.

Um outro forte deste romance, na minha opinião, é a descrição das relações de trabalho, das conversas entre colegas, da maneira como se trata um caso de irregularidade financeira no banco e do quotidiano em Lisboa e seus arredores. António Ganhão é exímio nestes tipos de caracterização, tirando as suas reflexões. Aqui, um excerto:

"Estava fascinado. Talvez devesse fazer isso mais vezes. Levantar-me muito cedo e apanhar o barco de manhã com todo aquele povo, homens e mulheres que a sorte condenara a um emprego indiferenciado, desprotegido de um acordo colectivo de trabalho, gente sem direitos, desqualificada da vida. Gente meio adormecida, mulheres a fazerem renda, malha, lendo revistas cor-de-rosa e sonhando sonhos feitos da vida dos outros. O glamour da nossa alta sociedade como promessa de um mundo melhor, inacessível, apenas tangível, por breves instantes, a quem lia esse tipo de revistas.
Alguns estudantes reviam as suas matérias, outros tentavam compensar noites mal dormidas. Lá ao fundo, junto à entrada do barco, um grupo de homens jogava à sueca rodeados por um coro de penduras que assistiam.
Seria um deles se a vida me tivesse sido madrasta. Sim, não se pode trabalhar num café sem que a vida nos tenha sido madrasta.
Não admirava que este povo precisasse de doses massivas de futebol e telenovelas brasileiras, que, paulatinamente, haviam roubado o peso ao fado. Era o sonho acessível. A alegria das novelas subjugando a tristeza do fado.
(...)
Os poucos jornais, sobre os quais os homens dormitavam, eram na sua maioria desportivos; dava-se por satisfeito este povo que se considerava invariavelmente mais culto do que os emigrantes que nos demandavam e vigiava com uma acentuada desconfiança e alguma dose de reprovação os costumes estrangeiros. Seguros, não havia em nós uma sede de cultura, estávamos saciados. Não admirava que fossemos um povo tranquilo. Era toda esta sabedoria que nos permitia ser assim.
Foi esse o povo que deu novos mundos ao mundo."

António Ganhão, um escritor a descobrir, nesta rentrée literária. Tem um blogue, Em Livro, e colabora no 2711.


6 comentários:

antonio ganhão disse...

Cristina, muito obrigado pela referência e pelas palavras. Bjnhos

Olinda Melo disse...

Cristina

Através do seu blogue fui ter ao de António Ganhão onde li textos, há algum tempo, que captaram a minha atenção e interesse. Um deles é a 'A minha gaveta das Vírgulas', tema muito importante tendo em conta o papel que as vírgulas têm num texto, alterando completamente o seu sentido quando mal aplicadas.

Os meus parabéns ao autor e sucesso para o livro agora publicado.

Olinda

Cristina Torrão disse...

Foi um prazer, António. Tenho muita pena de não poder estar presente no lançamento e desejo-te muito sucesso!

Daniel Santos disse...

Excelente.

alf disse...

O excerto revela que se trata de um autor sábio, que nos pode iluminar este mundo tão confuso; essa a esperança que os leitores sempre buscam na leitura, essa a promessa que este post deixa no ar.

Zélia Parreira disse...

Lá estaremos.