Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

14 novembro 2011

D. Sancho I, o Povoador


Embora fosse o único filho legítimo de D. Afonso Henriques a sobreviver à infância, D. Sancho I não seria muito parecido com seu pai. Durante o seu reinado não mostrou ter as mesmas qualidades.

Em 1189, chegou a conquistar Silves, com a ajuda de cruzados, pelo que se intitulou «Rei de Portugal, de Silves e do Algarve». Mas, logo no ano seguinte, os mouros tornaram a chegar à linha do Tejo, uma verdadeira catástrofe, pela quantidade de praças perdidas. Além disso, envolveu-se em vários conflitos com a Igreja, recusou-se mesmo a pagar o tributo, negociado pelo seu pai com Roma e que garantia a independência de Portugal em relação aos outros reinos hispânicos. Só em 1198, treze anos após a morte de D. Afonso Henriques, a questão foi resolvida.

Mas D. Sancho I era um homem muito letrado e inteligente. Mandou povoar locais abandonados e concedeu quase 50 cartas de foral, sobretudo na Estremadura, Beira e Trás-os-Montes. Ou seja, se não aumentou o território (perdeu mesmo algum) consolidou e organizou o já existente, tornando-o mais forte e imune a influências exteriores. Além disso, tinha qualidades poéticas. Na sua História de Portugal, o Professor Veríssimo Serrão compara-o mesmo a D. Dinis e reporta-se a uma conhecida balada, que D. Sancho terá composto para a sua barregã preferida, D. Maria Pais Ribeira, mais conhecida pela Ribeirinha, que por ele espera, no sopé da Serra da Estrela. D. Sancho virá da Guarda, cidade por ele fundada:


Ay eu coitada - Como vivo
em gran cuidado por meu amigo
que ei alongado. Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!

Ay eu coitada - Como vivo
en gran desejo por meu amigo
que tarda e não vejo. Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!




Entre os filhos que teve da sua rainha, D. Dulce de Aragão, e das barregãs, D. Sancho contou cerca de vinte rebentos, enquanto o pai se limitou a onze, embora tivesse vivido muito mais tempo. O Povoador faleceu a 16 de Março de 1211, com 57 anos.

23 comentários:

Olinda Melo disse...

Agora com o seu nome definitivo: Sancho.

Rei um tanto conflituoso, não?

Sempre o admirei pela inteligência e pela sua visão de que não valeria a pena ter terras e terras se lá não houvesse gente.

Qualidades poéticas também tinha ele.D.Dinis que temos sempre na ideia de que era O Rei-poeta perderá um pouco este estatuto...mas nós ganhamos dois, o que é excelente.

Bjs

Olinda

Bartolomeu disse...

Até parecia mal... tendo-lhe sido atribuido o cognome de "Povoador", não tivesse dessiminado vasta prole...
Digo eu... que nem rei sou...
;)))

Anónimo disse...

Não há "coisa" que mais me agrade ler, que a nossa História...

Claro que não se podem comparar todas as coisas que lemos. Mas os temas da nossa História, até aí por volta do Sec. XVIII, são das coisas que mais satisfação me dão ao ler, inclusive estes posts de um blog aonde me habituei a vir cuscar.

Simão Gamito

Olinda Melo disse...

:))

Pois é,Bartolomeu,quis dizer isso mesmo mas apaguei o que escrevi na esperança de que tu o fizesses com a tua verve incomparável...

;)

Bartolomeu disse...

É o que se chama vulgarmente, transmissão de pensamentos, Olinda.
;)))
Mas olha que a minha "qualidade" verborreica, é infinitamente incomparável com a de antanho, basta que atentemos no termo barregã, ao qual nos nossos dias designamos por "acompanhantes de luxo", ou mais trivialmente, "Escort's".
Os nossos reis foram uns sortudos... pagavam-lhes em castelos, se fosse hoje, teria de ser em apartamentos na Lapa, ou na Quinta do Lago. O que quer dizer, que só haveria um rei, Duarte Lima, ou então... as barregãs estariam todas a viver do subsídio de reincersão...
;))))

Cristina Torrão disse...

Obrigada a todos :)

Realmente, "Povoador"... (nessa ainda não tinha pensado eu)

Daniel Santos disse...

li isso num interessante livro que me deram.

Juvenal disse...

Maria João Violante Branco,na sua biografia de D. Sancho I,refere que o 2ºrei português teve 19 filhos:11 de D. Dulce de Aragão,com quem esteve casado,2 de Maria Aires de Ornelos e 6 de Maria Pais Ribeira.
Já agora,se me permite o picaresco,Povoador sim,mas nem tanto...de 19 para 20,sempre faz alguma diferença.

Juvenal disse...

Queria rectificar o apelido de Maria Pais que,na realidade, é Fornelos.

Cristina Torrão disse...

Tem razão. Eu não tenho a biografia, de Maria João Violante Branco (vou comprar, essa e mais algumas, que saíram há relativamente pouco tempo, quando estiver em Portugal), mas fui ver à História de Portugal, de Veríssimo Serrão, e confirmam-se os 19 filhos. Para dizer a verdade, quando escrevi este post, não tinha a certeza e não fui verificar, sabia que eram cerca de 20 e foi isso mesmo que escrevi: "cerca de vinte rebentos".
De qualquer maneira, aqui fica, e muito bem, a correcção.

Juvenal disse...

Mais uma rctificação relativamente a um dos nomes referidos:Maria Aires de Fornelos. Agora é que ficou acertado o nome de uma das mulheres que perfumou,ameigou e fez florir o tálamo real de D. Sancho I.

Juvenal disse...

Estive a fazer algum estudo relativamente à descendência de D. Sancho I e verifiquei, mais uma vez,que não há unanimidade entre os autores que possa esclarecer o assunto em definitivo.Foi possível identificar mais um filho deste rei, de nome Pedro ou Pero Moniz,havido do concubinato com D.Maria Moniz de Ribeira,senhora da nobreza medieval.
A sua contabilização elevaria para 20 os descendentes do Povoador,mas nem todos os autores o referem.Rui de Pina também não o menciona.

Cristina Torrão disse...

Obrigada por mais essa informação, Juvenal. Realmente, é difícil, muitas vezes, ter certezas sobre coisas passadas nestas épocas, já que não havia os registos que há hoje. E os filhos ilegítimos não eram, muitas vezes, considerados.

P.S. Não me esqueci da nossa troca de impressões sobre o Tratado de Zamora, mas ainda não tive ocasião. E lembrei-me que seria oportuno tornar a falar dele a 5 de Outubro.

Juvenal disse...

Li o P.S. enviado sobre o tratado de Zamora e ocorreu-me acrescentar,uma vez que afirma que as pessoas não conhecem o seu conteúdo,que Oliveira Marques,na sua História de Portugal,refere não ter chegado,aos nossos dias,nenhum documento escrito sobre esse evento.

Cristina Torrão disse...

Está a dar-me uma novidade. As pesquisas que fiz sobre Afonso Henriques já acabaram há alguns anos (livro foi editado em 2008) e não me lembro desse aspeto. Não tenho a História de Portugal de Oliveira Marques, mas as de José Mattoso e Veríssimo Serrão. Hei de averiguar o que eles dizem sobre o assunto. Tenho na ideia que Mattoso é peremptório a afirmar certos detalhes do Tratado, mas, como disse, já lá vão alguns anos, terei de o confirmar.

Muito obrigada por mais esta informação. Como disse, planeio escrever sobre o assunto a 5 de Outubro. Acho que vai ficar um post interessante...

Pepezunco disse...

Oi gente, adoro a nossa historia,a historia de Portugal e vejo a estátua da D. Sancho I quase todos os dias, aqui na Guarda com a sua belíssima catedral por detás..mas o que eu gostava de encontrar online era um filme ou imagens sobre El Rei D. Sancho. Na biblioteca da cidade (Guarda) á uma coletanea em VHS(já tiveram tempo suficiente para passar de VHS para um CD)que tem a sucessão de réis de Portugal, menos ..D. Sancho..que tanga !! Alguém me pode ajudar? Obrigado
Pepe Tapada

Cristina Torrão disse...

Todos os reis de Portugal, menos D.Sancho I? Na Guarda? Realmente, é uma grande tanga!
Mas não o posso ajudar, Pepe. Também eu gostaria de ver imagens dessas. Penso que em Portugal se faz pouco disso (ou mesmo nada). Não haver, pelo menos, um filme sobre D. Afonso Henriques, por exemplo, o fundador da nacionalidade! É incompreensível!

Dulce disse...

Olá Cristina
Acabei agora mesmo a leitura do seu livro Afonso Henriques, e vim há NET pesquisar os seu filho D.sancho I e deparei-me com o seu blog - Fantástico.:)
Gostei imenso do livro a aqui vai um desafio porque não escrever um sobre D.Sancho I, que tão pouco se sabe.
No sábado na biblioteca municipal vou procurar o livro sobre D.Dinis para ler pois é um dos reis de Portugal porque tenho grande simpatia.
Obrigada por nos dar a conhecer os nossos Reis e por escrever tão bem nesta lingua do grande Camões.
Bjs

Cristina Torrão disse...

Olá Dulce
Muito obrigada pelas suas palavras. Ainda bem que gostou :)
Sim, D. Sancho I é uma ideia, já tinha pensado nisso, vamos ver...

Se encontrar o D. Dinis na biblioteca, terá uma capa diferente da que eu anuncio aqui, mais antiga, pois esta reedição ainda não existe em papel. Espero que encontre!

E mais uma vez, obrigada :)
Bjs

lopesdareosa disse...

Quem me dá uma informação???
D. Sancho I casou com Dulce de Aragão! Esta era filha do casamento de Berengário de Barcelona e de Petronila de Aragão!
- Na data em que Berengário de Barcelona casou com Petronila, a quem é que o Condado rendia vassalagem??? - Quem era o suserano do Condado de Barcelona???
lopesdareosa

Cristina Torrão disse...

Caro lopesdareosa, confesso que não estou dentro do assunto, mas penso que a situação na Hispânia, nesta altura, não estava bem definida. Depois da morte do imperador Afonso VII (a quem todos prestavam vassalagem, embora a situação do primo Afonso Henriques se mantivesse ambígua), os reinos de Leão e Castela foram divididos entre os dois filhos. A situação agravou-se, em Castela, quando Sancho III morreu pouco depois do pai, deixando um herdeiro, futuro Afonso VIII, com apenas três anos.
Há bastante tempo que não me ocupo com esta parte da História e não sei agora dizer em que pé estavam as coisas, à altura do casamento do nosso D. Sancho I. Podia até ser que o Condado de Barcelona se considerasse independente.
Não sei se o lopesdareosa está no facebook. Se estiver, posso indicar-lhe nome de pessoas que conheço de lá e que o poderiam esclarecer.

Obrigada pelo seu comentário.

Cristina Torrão disse...

Desculpe, numa segunda leitura do seu comentário, constatei que a sua dúvida é em relação à altura em que os pais de Dulce de Aragão casaram. Continuo a não saber, nunca pesquisei a História do Condado de Barcelona. No entanto, se, à altura do casamento, Afonso VII ainda estava vivo, penso que seria ele o suserano. Se já tivesse morrido, penso que o Condado se considerava independente.

O que disse sobre o facebook mantém-se.

Cumprimentos.

Cristina Torrão disse...

Caro lopesdareosa,

Pedi informações a um meu amigo facebookiano, José Luís Pinto Fernandes, cujas palavras transcrevo:

«Por volta da década de 1170, o Condado de Barcelona era considerado um feudo do rei francês assim como os outros condados catalães (uma herança carolíngia), mas na prática era independente desde finais do século X. A questão das vassalagens só seria resolvida por Luís IX de França e Jaime I de Aragão no Tratado de Corbeil (1258), que delimitou as fronteiras entre os territórios das duas monarquias (com o rei francês a renunciar à suzerania sobre a Catalunha e o Rossilhão em troca de o rei aragonês reconhecer a soberania francesa sobre o resto do Languedoc), aliás já numa óptica de construção do Estado Moderno».

Espero que ajude de alguma maneira.

Cumprimentos.