Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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17 de janeiro de 2025

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (3)

 

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Chegada a Krefeld, depois de vinte e um dias de viagem e quase 570 km percorridos, Jette deixou a Pinou bem entregue e descansou três dias, alojada em casa de um tio. O namorado foi ter com ela. Na bagagem, trazia uma ração especial para a Pinou, própria para cavalos sujeitos a maiores esforços.

Jette e Pinou bem precisaram de todos os confortos proporcionados por esta estadia. Ao retomarem a viagem, a 1 de outubro, tinham a Eifel pela frente, uma cordilheira montanhosa, na Renânia-Palatinado, que se estende por 5300 km², entrando na Bélgica e no Luxemburgo e atingindo, no seu ponto mais alto, à volta de 750 m.

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Não eram apenas os montes a tornarem custosas as etapas. Os dias eram já curtos e o tempo mudou, tornando-se frio e chuvoso. Por vezes, chovia um dia inteiro. Nas pausas, para comer a merenda, Jette abrigava-se debaixo de uma árvore. E nem sempre encontrava quem lhe cedesse um quarto para dormir.

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Pernoitando na tenda, com temperaturas entre os 0ºC e os 4ºC, Jette tinha frio, apesar de se deitar vestida com calças de ski e de cobrir o saco-cama com uma manta da Pinou, feita de pêlo de ovelha. Por vezes, tinha de montar a tenda em relvados totalmente alagados. Deste modo se apresentavam igualmente muitos caminhos, obrigando-as a fazer grandes desvios.

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Havia dias em que só avançavam 18 ou 20 km. Cheia de andar à chuva, Jette começava a procurar alojamento pelas duas e meia da tarde. E, caso só lhe restasse dormir na tenda, a preparação da viagem, no dia seguinte, era penosa, debaixo da chuva. Jette sentia pouca motivação para continuar e demorava uma eternidade até ter tudo pronto, só arrancando pelas 11 horas.

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A jovem começou a duvidar se devia prosseguir. Sempre soube que ia deparar com dificuldades, mas seriam estes desafios extremos boas lições de vida, ou contribuíam apenas para a deprimir? Sentia muita falta do namorado, da família e de uma rotina caseira. Não saber, dia após dia, onde e como ia passar a noite, era psicologicamente exaustivo. E parecia-lhe que as mudanças constantes esgotavam também a Pinou. A todo o momento, poderia solicitar ao pai que a fosse buscar de carro, trazendo um atrelado para a égua. Acabaria por o fazer?

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Depois de dez dias de canseiras e extremo desconforto, encontrou uma pequena quinta com gente muito simpática. A Pinou teve direito a um estábulo coberto e, apesar de a família não ter um quarto disponível para a Jette, ela pôde dormir numa divisão aquecida, deitada no seu colchão de ar.

No dia seguinte, talvez notando que ela estava realmente esgotada, sugeriram-lhe que ficasse mais uma noite. Num primeiro momento, ela recusou, queria avançar. Mas mudou de ideias. Era domingo e, se ela e a Pinou estavam tão bem instaladas, porque não aproveitar aquele dia para descansar?

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A primeira coisa que fez, depois do pequeno-almoço, foi tornar-se a deitar. Aquela possibilidade de poder descansar, a qualquer momento, sem preocupações, fez-lhe sentir a familiaridade típica de um domingo. Convidaram-na para almoçar e, em seguida, como não chovia, resolveu ir dar um passeio com a Pinou. Poder cavalgar, sem sujeitar a égua ao peso da bagagem, trouxe-lhe uma sensação de verdadeira felicidade.

Na segunda-feira, fizeram-se novamente à estrada. Os montes continuaram a cansá-las, mas o tempo melhorara e Jette notava que a Pinou, entretanto treinada, vencia melhor as subidas. Passado uns dias, numa outra aldeia, a jovem teve de escolher entre a tenda, ou levar o saco-cama para um antigo curral de vitelos, o abrigo da Pinou, guarnecido com feno fresco.

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Escolheu ficar com a égua, o que se revelou a melhor solução. Durante a noite, Pinou deitou-se duas vezes ao lado dela, algo que, naquela situação, lhe deu conforto e felicidade imensos. Estabelecia-se uma verdadeira cumplicidade entre as duas, baseada, como sempre acontece numa relação entre um humano e um animal, numa total confiança mútua.

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O saco-cama de Jette, no curral onde ela dormiu ao lado da Pinou

A jornada prosseguiu, novamente com alguma chuva. Por vezes, tinham sorte e encontravam um lugar agradável para dormir, com gente que a convidava para jantar. Outras vezes, tinham de se contentar com mais um terreno alagado, onde a moça montava a tenda, enquanto a noite se aproximava fria.

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Jette ia resistindo, deixando a Eifel e as suas montanhas para trás, à medida que se aproximava do Saarland, onde o pai surgiria, a fim de as transportar até Espanha. Isso dava-lhe naturalmente motivação extra.

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O pai e ela encontraram-se a 20 de outubro, perto da fronteira francesa. A moça e a égua tinham percorrido quase 1000 km, em quarenta dias.

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Nota: Todas as fotografias e informações aqui divulgadas foram retiradas do diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

3 de janeiro de 2025

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (1)

 

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Jette é uma alemã de vinte anos, moradora nos arredores de Hamburgo e cuidadora da égua Pinou.

Muitas meninas alemãs são fascinadas por cavalos, uma fascinação que começa pelos cinco ou seis anos de idade. As escolas de equitação proliferam e o sexo feminino está em clara maioria, tanto a nível de alunos, como de professores. As crianças mais pequenas iniciam a sua aprendizagem com póneis.

Muitas vezes, essa fascinação acaba por desaparecer na adolescência. Caso se mantenha, os pais com mais posses compram cavalos para as filhas e alugam lugares nos estábulos das escolas ou de quintas. As moças pertencentes a famílias, cuja situação financeira não permite tal aquisição, prontificam-se a cuidar dos animais e a limpar os estábulos em troca da prática gratuita de equitação.

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Jette (pronuncia-se Iéta) trata da Pinou desde 2023. No ano passado, porém, a dona da égua resolveu mudar-se para Portugal, para os lados da Bemposta, alguns quilómetros a norte de Castelo Branco. Penso que essa senhora terá mais animais e não sei pormenores da mudança. Sei que ela não levou logo a Pinou, deixando-a num estábulo conhecido e aos cuidados de Jette, até organizar o seu transporte.

Jette tinha, nessa altura, concluído o liceu e estava indecisa sobre o que deveria fazer a seguir. Muitos jovens alemães tiram um ano para viver no estrangeiro, ou exercer alguma actividade relacionada com serviço social, no seu país, antes de prosseguirem os estudos. Em tom de brincadeira, a mãe de Jette sugeriu: “porque não levas tu a Pinou, fazendo uma viagem a cavalo até Portugal?”

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Depois de uma certa perplexidade inicial, a ideia não mais saiu da cabeça de Jette. E contactou a dona da Pinou que, depois de refletir uns dias, lhe respondeu: “Faz isso, então, se é o que queres”.

Decidida a provar a si própria e aos outros de que seria capaz, Jette começou a treinar mais intensamente com a égua e a preparar a viagem. Os pais e o namorado colaboraram, discutindo os planos com ela. Iniciando-se a jornada em Setembro, e como seria irrealista atravessar os Pirenéus no Inverno, o pai prontificou-se a levá-la de carro através da França, até Bilbao, caso ela realmente conseguisse atravessar a Alemanha, de Hamburgo até à fronteira francesa, no Saarland (quase 1000 km, na rota escolhida por ela; a viagem na auto-estrada é 300 km mais curta).

Reservaram dormidas para a primeira semana, em locais de turismo rural, com distâncias de 30 a 40 km entre eles. Depois, Jette teria de se desenvencilhar sozinha, munida de uma tenda, deixando o destino decidir. Os pais e o namorado comprometeram-se igualmente a ir buscá-la, fosse onde fosse, caso ela se achasse incapaz de prosseguir, ou algo lhes acontecesse (a ela e/ou a Pinou).

A 8 de setembro de 2024, Jette iniciou a viagem da sua vida.

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Nota: Todas as fotografias e informações aqui divulgadas são retiradas do diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

21 de junho de 2020

Covid-19 nos matadouros alemães

O mundo atual pode ser caracterizado, entre outras coisas, pelo consumo desenfreado de carne. Nunca se comeu tanta carne como hoje em dia. Dir-me-ão que é bom praticamente toda a gente ter acesso ao seu bife e ao seu assado, já que a carne se tornou barata.

Por acaso, não é bom. Relacionamos o problema da fome com a falta de carne, mas, na verdade, pode-se viver muito bem, e até mais saudável, com pouca carne. Tenham calma, não comecem já a limpar e a carregar as armas! Não sou extremista, não acho que nos devíamos tornar todos vegetarianos, apenas que devíamos consumir menos carne. Esta tornou-se tão barata, que perdeu o seu valor, deita-se fora como se de cascas de batatas se tratasse. Um terço da carne produzida industrialmente vai para o lixo. Se prescindíssemos de um outro terço, ninguém morria de fome, talvez até fôssemos mais saudáveis, deitando por terra o argumento de que é forçoso manter este tipo de indústria, a fim de alimentar a população mundial.

Dizer que a produção industrial de carne dá cabo do planeta e da nossa saúde não é uma invenção. Claro que não estou apenas a falar do gás metano. Todos sabemos, por exemplo, que as gigantescas plantações de soja são um desastre ecológico. Ao contrário do que se diz (normalmente, os consumidores de grandes doses de carne), a responsabilidade não é dos vegetarianos e dos vegans. 70% a 80% da soja produzida serve de ração para animais que engordam e vegetam em espaços minúsculos, que se mutilam uns aos outros por puro stress e que não fazem ideia do que é a luz do sol.

Mas estou a fugir ao tema. Não queria falar de animais e, sim, de pessoas. Humanos que adoecem de Covid-19 por causa das suas condições de habitação e de trabalho nos matadouros alemães. Muitos desses trabalhadores são oriundos da Europa de Leste, recebem ordenados míseros e vivem em condições de pouca higiene, quase tão apertados como os animais que esventram e esquartejam todos os dias. Isto tudo, para que a carne chegue barata aos supermercados, coisa que em nada contribui para diminuir a fome no mundo, nem sequer para melhorar a qualidade de vida seja de quem for.

A Alemanha está a enfrentar um sério problema de Coronavírus nos seus matadouros. Depois dos primeiros indícios, a coisa está a descontrolar-se, precisamente, na altura em que se tenta recuperar alguma normalidade. Ontem foram testados mais de 600 casos positivos num matadouro de Gütersloh, uma cidade de quase 100.000 habitantes, bem no centro da Alemanha. As restrições regressaram ao concelho: tornaram a fechar-se todas as escolas e creches e há 7.000 pessoas em quarentena. Hoje, nova bomba: num matadouro da Baviera (pertencente à mesma empresa), foram, até agora, detetados 110 casos.

Quando, há algumas semanas, começaram a surgir os primeiros problemas, houve uma tentativa de início de uma discussão sobre as condições de trabalho desta gente e o nosso consumo de carne (admita-se, ou não, há uma ligação entre os dois assuntos). Essa discussão, porém, logo desapareceu, tão poderoso é o lobby da carne, um negócio de milhões, construído sobre a falta de respeito pela vida no nosso planeta. Agora, não deve haver modo de fugir a essa discussão.

É triste que tenham de surgir desgraças, a fim de que certos temas sejam finalmente abordados. Temos de desenvolver uma nova cultura da alimentação, começando pelas crianças, uma cultura que nos leve a dar mais valor ao que temos no prato. Um bife, ou uma febra, não é a mesma coisa que um pedaço de cartão. Um animal teve de viver em condições indignas, de sofrimento permanente, a fim de ser morto e esquartejado por pessoas a trabalhar e a viver em condições sub-humanas (para não falar nos estragos ambientais). E eu pergunto: na tentativa de modificar este estado de coisas, não seremos capazes de prescindir de carne todos os dias, de comer um bife de 200g em vez de 400g, ou de acabar com orgias de carnes em churrascos? Serão estes sacrifícios assim tão gigantescos, se pensarmos no que está em causa?

Para mim, não. Há muito que reduzi o meu consumo de carne para menos de metade (e assim se relativiza o seu preço). Podem dizer-me que não adianta nada, que sou uma sonhadora. Eu respondo com John Lennon:

You may say I’m a dreamer

But I’m not the only one

 Quantos mais formos, mais podemos modificar.

 

Nota: os artigos citados são em alemão, a tradução é de minha autoria. Texto originalmente publicado aqui.