Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

11 de julho de 2013

Divagações Abrilinas (15)





Força, força, companheiro Vasco
            Nós seremos a muralha de aço

Era o verdadeiro culto de uma personalidade, Vasco Gonçalves estava na iminência de se tornar um «querido líder». Álvaro Cunhal, pelos vistos, não tinha ciúmes, talvez não visse qual era o mal de, em vez de nos tornarmos na «Cuba da Europa», nos tornássemos na «Coreia do Norte da Europa». É, no entanto, curioso verificar que a figura de Vasco Gonçalves inquietava um revolucionário como Gabriel García Márquez:

            [Vasco Gonçalves] «É o único puritano em quem se pode confiar», disse-me um velho amigo seu, quando lhe manifestei a minha inquietação pelo facto de o primeiro-ministro só beber água mineral, mesmo nas festas mais íntimas.

Resta saber o que tinha o génio da literatura contra a água mineral.


8 de julho de 2013

Para quem vive em Macedo de Cavaleiros ou arredores...

... e não sabe como entreter a pequenada nas férias:



Já em agenda:

10 de Julho
atelier de leitura: os animais na literatura infantil
6-10 anos

11 de Julho
Coisas e Mãos | Marcadores de páginas (expressão plástica/ trabalhos manuais)
a partir dos seis anos

12 de Julho
atelier de escrita: brincar com versos
6 a 10 anos

Naquele Tempo (19)



Ora as noções de que aqui falo estão tão arreigadas na consciência cultural de todos, que é preciso lembrar constantemente uma realidade que poderia ser óbvia há seiscentos anos, mas não o é hoje de modo algum. Aparentemente não há muita dificuldade em recordar que, se o país surgiu como Estado independente em 1128, teria de ser precedido de uma realidade política bem diferente. Foi precisamente pelo facto de os autores dos anos 30 e 40 [do século XX], que se ocuparam muito deste assunto, terem partido de uma noção de Estado independente análogo ao que hoje existe, que eles postularam a existência de formas por assim dizer proféticas da nacionalidade, que se teriam ocultado antes, porventura desde a pré-história, sob aparências diversas, e que eles procuraram descobrir, como quem desenterra um tesouro. A ideia de Pátria como realidade sagrada, e por isso mesmo eterna, exigia que a fundação da nacionalidade não fosse mais do que a resposta a um apelo da natureza injustamente reprimido durante séculos. Para quem aplicava ao passado os conceitos fundamentais da ideologia então dominante, não era fácil de conceber a formação de Portugal como um longo processo, que começava propriamente com a fundação do Estado e não antes dele.

Capítulo Autonomias fronteiriças e formação nacional, ps. 445/446


6 de julho de 2013

875 livros num ano!



Sophia Moss, uma menina americana de 5 anos, leu 875 livros num ano! Aquilo que muitos pensam ser um exemplo a seguir, suscita-me preocupação. De um modo geral, as crianças leem menos do que deviam, mas não me parece saudável entrar em extremos destes. Uma criança tem necessidade de muito movimento e muita brincadeira e é impossível que esta menina tenha tempo para tais atividades. Pelos vistos, nem para dormir, como diz o pai:

Sophia's father, Carl said that sometimes her love of reading can get in the way of life. 'She'd be reading instead of sleeping'

Alguém comentou este artigo, dizendo que tem um filho assim. E o que diz a seguir também me parece assustador:

He's home educated, party due to bullying but mainly due to the fact that the schools couldn't give him what he needs and that is to be constantly reading and learning something.

Quando os pais se tornam paranoicos, em relação à segurança e às atividades dos filhos, estão-lhes a roubar muito do prazer da vida. E a comprometer seriamente a sua saúde mental.



4 de julho de 2013

Divagações Abrilinas (14)



Os comunistas, que se diziam defensores da liberdade, menorizavam a importância das eleições, a expressão da vontade do povo. É verdade que se tratava de uma situação especial. Mas, se Álvaro Cunhal estava bem ciente daquilo que dizia, a maior parte dos jovens esquerdistas não o estava. Acreditavam em utopias e pretendiam um corte radical com a sociedade antiga, recusando tudo o que fosse ordem estabelecida.

                        Anda, a gente vai começar
A gente já começou
A gente vai acabar
Aquilo que começou
A gente vai começar

            Era uma dinâmica sedutora. O Portugal de 1975 tornou-se num paraíso para revolucionários estrangeiros, jovens europeus, que vinham à procura de bebedeiras e borgas sexuais. Que os portugueses se tinham libertado de uma ditadura, era o que menos lhes interessava. Eles não faziam ideia do que era uma ditadura.

Centro de Documentação 25 de Abril


2 de julho de 2013

Educadores das massas




No dia 20 de Junho, em Lisboa, oito editores estiveram à conversa na Fundação José Saramago, numa mesa moderada pela jornalista Sara Figueiredo Costa. Discutiram o tema «Edição: passado, presente, que futuro?», não só no cenário português, já que também a Itália e a Espanha estiveram representadas.

O Blogtailors fez uma pequena reportagem do evento e fiquei a saber, por exemplo, que a indústria do livro tem hoje uma faturação mais elevada do que a indústria automóvel e representa a maior fatia das indústrias culturais (350 milhões de euros por ano). Um membro do público lembrou mesmo que fatura mais do que a rádio e a televisão portuguesas em conjunto.

Mas houve algo que me chamou particularmente a atenção: Pilar Reyes, editora da Alfaguara em Espanha, acha que êxitos como As Cinquenta Sombras de Grey ou Harry Potter são fenómenos que não podem ser repetidos.

Não podem? Admira-me que uma editora experiente diga uma coisa destas, sobretudo, na era da publicação (e auto publicação) digital. É claro que as editoras devem primar pela qualidade. Por outro lado, os seus responsáveis não devem ser arrogantes ao ponto de se considerarem seres superiores, com a missão divina de educar as massas. Podem esforçar-se por mostrar ao grande público o que, na sua opinião, é literatura de qualidade. Mas nunca conseguirão condicionar o mercado editorial de tal modo que lhes permita evitar que determinados livros sejam publicados, ou se tornem sucessos de vendas. Só recorrendo à censura!

Ninguém gostará que uma editora, por mais competente que seja, lhe vá ditar aquilo que deve, ou não, ler. Pode ser aberto às suas sugestões, mas tem o direito de as recusar. Há que preservar (e saber lidar com) a liberdade de expressão, com todas as vantagens e desvantagens que ela acarreta!


1 de julho de 2013

O Herdeiro do Vinho do Porto




Este livro devia ser traduzido para português. Fala-nos de um arquiteto alemão de trinta anos que herda de um tio, que ele mal conhecia, uma Quinta no Douro. É sem grande interesse que ele se dirige ao nosso país, pois nada sabe sobre Portugal, nem percebe de vinhos.

Mas (e como não podia deixar de ser) a região do Douro sedu-lo. O problema é que se vê inserido numa série de peripécias, correndo, inclusive, perigo de vida. E chega à conclusão de que o tio foi assassinado.

A partir daqui, desenvolve-se uma história interessante sobre um jovem alemão revolucionário (o tio) que veio para Portugal, na altura da Revolução dos Cravos, à procura de aventura. Acaba por fazer amizade com um revolucionário português, com o inevitável nome de Otelo, e os dois vão, em pleno Verão Quente, trabalhar para uma cooperativa de vinhos alentejana. O alemão encanta-se de tal maneira com a indústria vinícola, que reclama a sua parte da herança, na Alemanha (e que ele havia recusado), para comprar a Quinta no Douro. Mas há um problema: Otelo, que o acompanha ao Norte, fez um inimigo na guerra colonial, um agente da PIDE que, décadas depois, lhes trará dissabores, assim como ao sobrinho herdeiro.

Não sendo uma grande obra literária, este livro compensa pelo enredo interessante e pelo charme de  apresentar os portugueses de fora, ou seja, através dos olhos de um alemão que, como disse, nada sabe sobre o nosso país. Como exemplo, aqui vão duas passagens (traduzidas por mim):

Nicolas guiou bastante tempo atrás do camião. A estrada não oferecia visibilidade, o que, aliás, não impressionava os outros condutores que ultrapassavam, num verdadeiro desafio à morte, em curvas apertadas, para tornarem à sua faixa no último momento antes do choque frontal. Os camiões que vinham em sentido contrário passavam a milímetros do seu carro, num ronco infernal. Aquilo não era para os seus nervos, ele nunca conseguiria viver num país de condutores doidos varridos.

Na próxima passagem, ele acaba de conhecer uma alemã que vive em Portugal e por quem se sente atraído:

- Por isso, tirei o curso de Românicas, espanhol e português. E, na minha primeira estadia em Lisboa, apaixonei-me pelo Fernando Pessoa.
Nicolas estremeceu. Era preciso ter azar! Sempre que se interessava por uma mulher, surgia um homem pelo meio, já com a belga tinha sido a mesma coisa.
- Não o conheces?
- Não – respondeu Nicolas irritado. – Ainda não conheci muita gente, por aqui, só a que está ligada à Quinta.
Rita desatou às gargalhadas.
- Não conheces Fernando Pessoa? Não o viste na biblioteca do teu tio?
Agora é que Nicolas não percebia nada. Que brincadeira estúpida era aquela?

Como o autor, Paul Grote, explica, no fim do livro, durante as suas pesquisas, deslocou-se a Portugal, entrando em contacto com muitos vinicultores da região do Douro, que lhe deram as informações de que precisava. A obra está, de facto, bem fundamentada. Admira-me que ainda nenhuma editora portuguesa se tenha interessado por ela.