Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

4 de março de 2017

Saudade, Desbundar, Desenrascanço



Não parece, mas estas palavras têm algo em comum: considera-se que são intraduzíveis. Pelo menos, assim o diz Tim Lomas, da Universidade de Londres.

Que a palavra saudade não tem tradução literal noutras línguas, já era conhecido - embora eu duvide; ou melhor, chamo a atenção para o facto de que a dificuldade de tradução não implica que os naturais de outros países não saibam o que é ter saudades, ou não conheçam o sentimento ligado à saudade.

Esta dificuldade de tradução costuma deixar-nos muito orgulhosos, pois a saudade, tendo um conceito muito poético, torna-se própria de um país de poetas. Mas que dizer de desbundar e desenrascanço? São muito portuguesas, mas não são poéticas. Enfim, só prova que temos outras características, o que é muito bom.

Não se pense, porém, que somos o único povo do mundo a ter palavras intraduzíveis (uma outra característica nossa é pensarmos constantemente que somos os únicos ou os melhores do mundo nisto ou naquilo; é pena não haver uma palavra que defina isso mesmo). O estudo de Tim Lomas encontrou palavras dessas em muitas línguas. É o caso do termo filipino Kilig, ou da palavra holandesa Uitwaaien, ou ainda do termo do dialeto africano Bantu Mbuki-mvuki. Para ficarem a saber os seus significados, cliquem nelas!

Este estudo encontrou também uma palavra alemã difícil de traduzir: Sehnsucht, um termo que considero aliás muito próximo da nossa saudade. 


1 de março de 2017

Ainda a influência do Estado Novo


Neste interessante artigo, mais uma vez se confirma que os mitos históricos criados e/ou alimentados pelo Estado Novo continuam a dominar o nosso imaginário coletivo. Nas palavras da historiadora Ana Maria Rodrigues: «Ainda estamos muito influenciados pela história do Estado Novo, pois os reis e rainhas de que mais se gosta ainda são os mesmos que se elogiavam na instrução primária há 50 anos».

Pergunto-me se os programas escolares continuam a ser responsáveis por esta situação. As historiadoras Ana Maria Rodrigues, Manuela Santos Silva e Ana Leal de Faria, que também são professoras, culpam mais os autores de romances históricos, o que me entristece, pois um dos meus objetivos, ao escrever ficção histórica, é precisamente acabar com esses mitos, baseando-me nos mais recentes estudos.

Preocupadas com a verdade histórica, estas três historiadoras coordenam a série Casamentos da Família Real Portuguesa, publicada pelo Círculo de Leitores e que vai no seu segundo volume. O primeiro ocupa-se da época medieval até aos finais do século XVI; o segundo abrange os séculos XVII, XVIII e XIX.




É uma obra que me interessa, até porque as autoras «consideram que a história necessita de reinterpretações e é preciso acompanhar as novas correntes. Como a da recente que se preocupa com os afetos». Não posso, porém, deixar de me perguntar se estas novas correntes não são influenciadas pela ficção histórica. Se assim é, o romance histórico tem, pelo menos, as virtudes de contribuir para que o estudo da História se reinvente e se empenhe em acabar com certos mitos.


25 de fevereiro de 2017

Bruxas e Caretos



Tenho pena que o Carnaval tradicional português, também conhecido por Entrudo, com características específicas de cada região, se esteja a perder em nome da importação brasileira. Não critico que existam escolas de samba em Portugal, o samba é uma dança belíssima, além de ótimo exercício físico, mas festejar um Carnaval abrasileirado, com dançarinas a tiritar de frio, parece-me fora de contexto.


 

Em certas zonas, porém, continua a manter-se a tradição, como no nordeste transmontano, nomeadamente no concelho de Macedo de Cavaleiros, com os Caretos de Podence. São figuras curiosas, que me abrem o apetite para um livro publicado recentemente sob a chancela da Poética Edições e de autoria de Luís Filipe Costa.




Não sei até que ponto o autor explica a origem dos Caretos, mas gostaria muito de saber se há alguma ligação com as bruxas Allersberger Flecklashexen, figuras do Carnaval bávaro, que surpreendentemente me fazem lembrar as do nordeste transmontano. Desde as máscaras, à vestimenta e aos guizos que tilintam com os movimentos, em tudo são semelhantes aos “nossos” Caretos (que utilizam aliás chocalhos).




Penso que seria interessante ir ao fundo da questão, averiguar se realmente há uma origem comum, quiçá celta, mas nem sei se tal pesquisa será possível. Quem sabe, algum dia arranjo tempo…

Deixo-vos com imagens de um espetáculo carnavalesco da Baviera, bem diferente daquilo que consideramos Carnaval, mas, pelo menos, genuíno: