Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

25 janeiro 2012

Livros Esgotados #2

Imagem daqui

Um link no Blogtailors aumentou consideravelmente as visitas a este post e resolvi responder aos comentários sob esta forma.

Um/a comentador/a que resolveu não se identificar (já agora, digo que, ao contrário de outros meus colegas da blogosfera, é algo que não me repugna, desde que a pessoa não se ponha com insultos) começa por dizer que uma livraria média ou grande dá sempre a possibilidade de encomendar. Parece, no entanto, não ser bem assim. Vários comentadores a este outro post partilharam as suas experiências e chegou-se à conclusão de que depende muito das livrarias (grandes e pequenas) e, acima de tudo, de quem atende os clientes! Também o Ângelo Marques referiu aqui a falta de tacto dos vendedores.

O mesmo comentador anónimo fez ainda afirmações muito interessantes: se a loja ou cadeia de lojas não trabalhar com a editora, fica melhor dizer "esgotado no editor; não podemos encomendar" do que dizer "somos uma livraria mas não temos acesso a todos os livros". E ainda: uma livraria pequena foge a sugerir a encomenda porque não consegue gerar encomendas adicionais à editora para não ter de pagar portes, que de outra forma trariam prejuízo à venda.

Eu lamento que a sobrevivência de algumas livrarias pequenas seja difícil, até porque, normalmente, o leitor encontra aí  (ou devia encontrar) um atendimento mais personalizado. Mas chegamos, assim, ao absurdo desta situação: encomendar livros que as outras livrarias dizem estarem esgotados não seria uma forma de fidelizar um cliente? Na minha opinião, as livrarias pequenas deviam apostar precisamente neste tipo de "favores".

Depois de dar estas informações, o comentador anónimo diz: é tão simples aprender estas coisas simples, em vez de criar "fúrias" (numa alusão ao modo como eu inicio o post). Desculpe-me, mas, por mais que eu tente entender as dificuldades económicas das livrarias pequenas, ou a vergonha de dizerem que não têm acesso ao livro xis, eu não posso aceitar que elas prejudiquem precisamente os escritores menos conhecidos, que não são editados pelos grandes grupos editoriais. Um autor nestas condições tem, desde logo, dificuldades em ser notado, pois não é objecto de grandes campanhas de marketing. Se, ainda por cima, as livrarias dizem que o seu livro está esgotado, desencorajando os leitores de o continuarem a procurar, é de gerir "fúria" em qualquer um! Nós, os autores congratulamo-nos com cada pessoa que se interesse pelo livro e o compre. Os livros saem-nos "do corpo", é algo em que investimos centenas, ou mesmo milhares, de horas, às vezes, à custa de muito sacrifício! Ver o nosso trabalho assim desprezado dói muito! E enfurece! Um livro não é apenas um objecto de papel, com páginas imprimidas; um livro é sangue, suor e lágrimas; um livro é disciplina e concentração, é investimento de energia, é o abdicar de coisas de que gostamos de fazer, a fim de ter tempo para ele.

As livrarias acabam, assim, por alimentar o sistema perverso, em que os editores (os grandes) é que decidem quais escritores devem vender muitos livros, sem, praticamente, olharem à qualidade. Sob este sistema, a J. K. Rowling nunca teria chegado com o seu Harry Potter onde chegou, se tomarmos em conta que a edição do seu primeiro livro (numa editora, à altura, pequena) se limitou a 500 exemplares! Presumo que o sistema inglês seja parecido com o alemão, em que qualquer livro se pode encomendar em qualquer livraria, independentemente do seu tamanho. É o vendedor/livreiro que nos diz logo: «não temos. Quer encomendar?». Porque, aqui, as livrarias gostam de vender livros e de fidelizar clientes! E, no dia seguinte, dão-nos o livro para as mãos.

6 comentários:

André Nuno disse...

Muito bem, Cristina.
Tem toda a razão.
Não me esqueci, aliás, da promessa de ler e opinar sobre as suas obras. Quebrarei a palavra apenas no que toca ao primeiro livro. Parece-me, nos excerto que li, "menos maduro" que os outro dois. (O que é lógico, tendo em conta que é o primeiro, não estou a colocar defeitos!)
Começarei, pois, do fim para o início. Quem sabe se, em todo o caso, não acabo por chegar às origens de igual modo?
Cumps.

Carla M. Soares disse...

Não posso deixar de concordar inteiramente consigo quando refere a indisponiblidade aparente de certas obras - recentemente uma livraria pediu uma obra para mim, mas vários colegas meus foram simplesmente informados, noutras livrarias, de que se encontrava esgotada.
Identifico-me também com as suas palavras acerca do empenho que quem escreve coloca nos seus livros, independentemente da sua publicação ou do modo da sua publicação. Esse esforço não é de menosprezar!
Lamento ainda (e talvez venha a lamentar ainda mais) outra situação provavelmente comum, com origem nas editoras: um escritor menos conhecido, com menor investimento da marca comercial, poderá nunca ver uma segunda edição do seu livro, o que gerará uma verdadeira situação de "livro esgotado". Não sei se acontece com frequência, nem qual a solução para a circunstância de uns poucos leitores perguntarem pela obra, se à partida a livraria diz que esgotou, em vez de solicitá-lo à editora...

Olinda Melo disse...

Olá, Cristina

É uma situação inconcebível, que dá mesmo lugar a 'fúrias'. Depois do investimento de vária ordem na concepção, investigação e feitura de um livro, não cabe na cabeça de ninguém que haja um jogo desses da parte das editoras e livrarias.
Cada um deveria poder conquistar o seu lugar nesta área, sendo os leitores os únicos a ditar o sucesso de um livro através da sua procura...

Qual seria a solução para isto?

Bj

Olinda

Cristina Torrão disse...

André Nuno, comece pelo livro que quiser, quando tiver tempo ;)

Carla, focou outro ponto interessante. Pelo que me tenho apercebido e lido, as editoras, muitas vezes, hesitam realmente em fazer novas edições de um livro, apesar de ainda haver quem o procure. As editoras têm medo de arriscar, de ficarem "penduradas" com os livros, pois não ligam as impressoras para imprimir apenas algumas dezenas. É compreensível, principalmente, em tempos de crise. Os mais prejudicados serão os escritores menos conhecidos, seria necessário que o público começasse a procurar, em massa, um determinado livro, a fim de convencer a editora de que valeria a pena investir mais nele. Mas também escritores conhecidos podem ser prejudicados. Lembro-me de uma entrevista que li na OML, já há bastante tempo, ao editor da Gailivro, a chancela, em Portugal, dos livros da Stephanie Meyer (não está, agora, em causa a sua qualidade). Apesar de a procura ser grande e as edições esgotarem depressa, o editor pensava sempre várias vezes, antes de proceder a nova edição, pois tinha precisamente medo de que os livros, de repente, deixassem de ser procurados. E (aspecto perverso) quanto mais se vendiam, mais ele tinha receio, já que, a dada altura, haveria pouca gente que ainda não os tinha. Se é assim com uma escritora destas, como não será com os outros...
É um mundo difícil, para singrar, precisa-se sempre daquele bocadinho de sorte...
Um outro aspecto que prejudicará o negócio é o facto de as livrarias pagarem os livros. Quando um livro sai, encomendam uns tantos e pagam-nos. Se não se vendem, são devolvidos à editora, que terá de proceder ao seu reembolso, o que deixa muitas delas em situações apertadas. Não sei na Alemanha também será assim.

Olinda, de facto, não são os leitores os únicos a determinar o sucesso de um livro. Mas, no nosso mundo, em que tudo é ditado pelos mercados, será difícil encontrar outra solução.

Iceman disse...

Esqueçam o mercado português. É pouco ou nada profissional e por muito que jurem, não acredito que dêem formação profissional aos colaboradores nem estes estão muito interessados em perceber de livros.

Independentemente da ladainha dos colaboradores quando afirmam que está esgotado, o que eu constato em TODAS as livrarias, até nas pequenas, é que os colaboradores não conhecem autores, nem títulos, nem editoras, nem nada. Estão lá como se estivessem numa sapataria ou numa pastelaria e vender galões e bicas pingadas. Estão-se a borrifar.

Há dois dias, e só o último caso que me aconteceu, desloquei-me à Bertrand do Chiado, tão pomposamente referida como a mais antiga da Europa e arredores, e quis saber informações sobre uma determinada trilogia. O colaborador andou às voltas com o sistema, foi ao site do autor e, pasme-se, não me soube dizer qual era o primeiro volume, o segundo e terceiro e, pasme-se ainda mais, foi o segurança que me elucidou sobre o fim dessa trilogia.

Em Portugal há pouco interesse e o pouco que há é só para as megas vedetas que vendem fácil.

tina disse...

Concordo plenamente com o que dizem, é por isso que quando quero muito um livro procuro logo pela sua editora e até pelos próprios autores. Quem melhor que eles para nos conseguirem ajudar em encontrar um livro seu?!
Esta situação é até muito gratificante, porque as novas tecnologias colocam-nos em contacto directo com os autores e isso não há livraria que ganhe!