Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

21 fevereiro 2014

Nem tudo era mau


Com o título DDR - nicht alles war schlecht (RDA - nem tudo era mau), a ZDF transmitiu, a 28 de Janeiro e 4 de Fevereiro, um documentário, dividido em duas partes, sobre a antiga República Democrática Alemã. O jornalista Constantin von Jascheroff, que nasceu na Alemanha de Leste e tinha apenas três anos quando o Muro de Berlim caiu, foi à procura do país dos seus pais. E quis pesar os prós e os contras, ou seja, ser o mais objetivo possível, pôr as pessoas a falar do que também era bom.

A República Democrática Alemã, a nível de regime, era uma espécie de União Soviética em miniatura, seguia à risca os preceitos ditados por Moscovo. E, de facto, nem tudo era mau. Não havia desemprego nem pobreza extrema. Além disso, a emancipação feminina parecia perfeita, já que existiam creches gratuitas em todo o país, que cuidavam das crianças de todas as idades, durante todo o dia. E o regime punha igualmente à disposição dos cidadãos alojamentos em locais de férias praticamente de graça.

O reverso da medalha não é, porém, de desprezar. A falta de iniciativa ou propriedade privada baixava a autoestima, as pessoas sentiam-se desmotivadas, principalmente, os jovens. Além disso, entre as crianças que ficavam aos cuidados das creches, a percentagem das que faziam chichi na cama era enorme, constituía mesmo um problema nacional que, no entanto, era abafado. Pensa-se que seria por elas sentirem a falta da família, a proximidade dos pais.

Mas o que mais me impressionou e que, na minha opinião, nada justifica (nem mesmo a quase total erradicação de desemprego), foi a existência da STASI, a polícia política da RDA. Os relatos dos antigos presos, as torturas, as represálias, as imagens das prisões, etc. transportaram-me para um livro que li há pouco tempo: Os Últimos Presos do Estado Novo. As polícias políticas dos regimes comunistas eram exatamente como a PIDE. E vieram, em 1974, os comunistas portugueses exilados em Moscovo reclamar a liberdade!

Os comunistas que viveram na clandestinidade e foram presos e/ou exilados, durante a ditadura salazarista, (com Álvaro Cunhal à frente) merecem todo o meu respeito. Mas que eles queriam instituir um regime repressivo, com características em tudo semelhantes ao fascismo, lá isso queriam!


4 comentários:

Anónimo disse...

«Lá isso queriam...»

ABC

Anónimo disse...

A Stasi era muito minuciosa, sim era uma polícia comunista, mas exercida por um povo que prima pela disciplina e pelo respeito mútuo, um povo que sabe viver em sociedade, pena que fechado e com tiques de imperialismo. Já o comunismo, essa teimosia exacerbada, essa obsessão pelo controlo é umas das maiores utopias da humanidade, pois o homem que acredita que o Homem pode ser contido para seu gosto, como o daquele que constrói um grande presépio: tudo tem de estar no seu lugar, tudo tem de ser perfeito, é um homem que não respeita a vida.
Manuel

Cristina Torrão disse...

Aprecio a ideia subjacente ao ideal comunista, a ideia da igualdade. E, no Portugal de Abril, havia a necessidade de acabar com os patrões (empresas em auto-gestão) e os latifundiários (a terra a quem a trabalha). O grande problema é partir do princípio que se podem "uniformizar" as pessoas, sem ter em conta a sua própria iniciativa e criatividade. Além disso, o comunismo manifesta-se nessa necessidade de controlo, de se vigiarem uns aos outros, porque não se admitem desvios à ideologia vigente.

Anónimo disse...

De acordo. Como se diz e, quanto a mim, bem: conhecendo o passado conhecemos o futuro. Mas é no presente que se vive e se aje. No presente, essas doutrinas revelam-se, por um lado, como que mouribundas e pelo outro como que intrinxeiradas nos argumentos usados como capa que esconde apenas egos particulares. Ora, estes dois aspectos estão completamente desenquadrados da acção, fazendo parecer que a vida humana não tem valor nem sentido. Talvez a humanidade precise tanto de ódio como de amor para poder ter esperança e sentido de vida e é aqui que fico preocupado, pois se assim o é, então muito pouco, ou até nada, aprendemos com o passado.
Manuel