A MISOGINIA NOS ESCRITOS MEDIEVAIS (1)
Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
Publiquei este vídeo ontem à noite, no YouTube, Facebook e Instagram. Tem sido dos vídeos menos vistos de minha autoria. Penso que o tema é desconfortável demais. No Dia da Mulher, elogiam-se as capacidades e as características das mulheres, relembram-se as suas lutas, recorda-se o quanto há ainda para fazer. Tudo indubitavelmente importante. Estou, porém, convencida de que as mudanças apenas serão completas, quando o estatuto das prostitutas mudar também. As prostitutas são estigmatizadas, os seus clientes não. É preciso uma mudança de mentalidades. Enquanto os homens considerarem que é de seu direito comprar sexo, usando uma mulher como um produto, não pode haver igualdade.
Quando se fala de mulheres, ninguém se lembra delas. Apagam-se, como se não existissem. E, no entanto, são mulheres como as outras. Mulher é mulher. Seja a mãe mais considerada, seja a que vende o seu corpo.
Nas minhas infância e juventude, acontecia ouvir com uma certa frequência a expressão "Maria-rapaz". Dizia-se de meninas que eram vivaças, gostavam de corridas, de trepar às árvores ou de outras brincadeiras consideradas serem de rapazes. Mostrar entusiasmo com uma boa dose de decibéis também estava reservado aos representantes do sexo masculino.
A expressão era dita num tom muito crítico, ou mesmo acusatório. O objetivo era gerar vergonha. Por acaso, em minha casa, abria-se uma exceção. Era de mim esperado que eu jogasse futebol com o meu irmão, ou que cooperasse nas corridas de carrinhos Matchbox por os meus pais acharem eu dever entreter o menino. Aquilo que vinha mascarado de avanço civilizacional era, no fundo, uma outra maneira de acentuar a superioridade dos interesses masculinos. Nem sequer se punha a hipótese de que o meu irmão, a fim de retribuir um pouco da atenção por mim dada aos seus interesses, se juntasse àss minhas brincadeiras com bonecas ou tachos de miniatura.
Falei em avanço civilizacional, porque, em relação aos anos 1960/70, as mulheres são hoje mais bem aceites na vida pública, exercendo profissões anteriormente reservadas a homens. Até o futebol feminino tem vindo a considerar-se "normal". No entanto, no que respeita à infância, e tendo-se extremado as posições, há quem entre em verdadeiro histerismo ao ver meninas em brincadeiras de rapazes, ou a usar roupas parecidas com as deles. A "Maria-rapaz" parece representar uma maior ofensa aos adultos sensíveis do que há quarenta ou cinquenta anos.
Tudo isto é muito estranho num país que possui, entre os heróis nacionais, uma mulher, digamos, masculinizada.
Aprendeu a manejar a espada e o pau com tal mestria que depressa alcançou fama de valente.
Oh, diabo, mas isto da Padeira de Aljubarrota é muito woke, não vos parece?
Ele há mulheres
que mantêm fria a cabeça
na mais opressiva situação.
Logo lhes sai a resposta seca,
ou a adequada reação.
Infalíveis computadores,
neurónios como chips,
músculos como tratores,
ninguém lhes chega aos acepipes.
Não há medo, nervosismo,
nem vergonha, ou intimidação.
Determinada tecla
aciona a correspondente reação.
São imunes ao dramalhão.
Raciocinam numa fração de segundo,
indiferentes aos olhares de meio mundo,
ou à solidão de um poço fundo.
E logo se lhes levanta o joelho,
direito à tomatada.
E logo se lhes levanta a mão,
aplicando a bofetada.
E logo se lhes solta a língua,
sem gaguejar, sem hesitar,
em impropérios ao camarada.
Ele há mulheres
que desdenham das mulheres
desprovidas de chips,
possuindo detestáveis tiques.
Não pensam com ligeireza,
mostram (sacrilégio!) fraqueza.
O medo deixa-as bloqueadas,
certas palavras, intimidadas,
certas situações, envergonhadas.
Ficam arrasadas,
sentem-se culpadas,
por não terem reagido a preceito
e levado tudo a eito.
Ele há mulheres
que criticam estas mulheres
sem dó nem piedade.
E deixam impoluto o homem
que as pôs em dificuldade,
que as ofendeu, ou abusou
de profícua oportunidade.
As indefetíveis mulheres
avaliam de longe a situação
no conforto do seu cadeirão.
“Havia de ser comigo,
dizia isto,
fazia aqueloitro
e deixava o desgraçado num oito”.
Palavras de conforto,
de alento, de carinho,
solidariedade e apoio
para as suas semelhantes?
Mas que tamanhas lacrimejantes!
Não reagiu?
É porque gostou.
Não respondeu?
É porque bem achou.
Queixa-se do homem?
Ainda lhe estraga a vida
por tamanha lana-caprina.
Ele há mulheres
duras, implacáveis,
de reflexos memoráveis,
matemáticas e insensíveis,
cheias de soluções exequíveis,
amantes dos clássicos:
“Ai se fosse comigo”;
“Segurem-me que os desfaço”.
Treinadas, musculadas,
engomadas, engravatadas.
Ele há mulheres…
Que parecem (certos) homens.
© 2024 Cristina Torrão
Desdenhar da fraqueza alheia é cobardia. Solidariedade é coragem.

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A dignidade humana é intocável.
Direitos das Mulheres são Direitos Humanos.
Não nos ofereçam flores. Olhem-nos ao mesmo nível (não de cima para baixo).
O tamanho da pessoa é insignificante, quando está em causa a dignidade humana.
Direitos das Mulheres são Direitos Humanos.

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