Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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8 de março de 2025

8 de Março

Publiquei este vídeo ontem à noite, no YouTube, Facebook e Instagram. Tem sido dos vídeos menos vistos de minha autoria. Penso que o tema é desconfortável demais. No Dia da Mulher, elogiam-se as capacidades e as características das mulheres, relembram-se as suas lutas, recorda-se o quanto há ainda para fazer. Tudo indubitavelmente importante. Estou, porém, convencida de que as mudanças apenas serão completas, quando o estatuto das prostitutas mudar também. As prostitutas são estigmatizadas, os seus clientes não. É preciso uma mudança de mentalidades. Enquanto os homens considerarem que é de seu direito comprar sexo, usando uma mulher como um produto, não pode haver igualdade.

Quando se fala de mulheres, ninguém se lembra delas. Apagam-se, como se não existissem. E, no entanto, são mulheres como as outras. Mulher é mulher. Seja a mãe mais considerada, seja a que vende o seu corpo. 


 

 

25 de novembro de 2024

"Maria-rapaz"

Nas minhas infância e juventude, acontecia ouvir com uma certa frequência a expressão "Maria-rapaz". Dizia-se de meninas que eram vivaças, gostavam de corridas, de trepar às árvores ou de outras brincadeiras consideradas serem de rapazes. Mostrar entusiasmo com uma boa dose de decibéis também estava reservado aos representantes do sexo masculino.

A expressão era dita num tom muito crítico, ou mesmo acusatório. O objetivo era gerar vergonha. Por acaso, em minha casa, abria-se uma exceção. Era de mim esperado que eu jogasse futebol com o meu irmão, ou que cooperasse nas corridas de carrinhos Matchbox por os meus pais acharem eu dever entreter o menino. Aquilo que vinha mascarado de avanço civilizacional era, no fundo, uma outra maneira de acentuar a superioridade dos interesses masculinos. Nem sequer se punha a hipótese de que o meu irmão, a fim de retribuir um pouco da atenção por mim dada aos seus interesses, se juntasse àss minhas brincadeiras com bonecas ou tachos de miniatura.

Falei em avanço civilizacional, porque, em relação aos anos 1960/70, as mulheres são hoje mais bem aceites na vida pública, exercendo profissões anteriormente reservadas a homens. Até o futebol feminino tem vindo a considerar-se "normal". No entanto, no que respeita à infância, e tendo-se extremado as posições, há quem entre em verdadeiro histerismo ao ver meninas em brincadeiras de rapazes, ou a usar roupas parecidas com as deles. A "Maria-rapaz" parece representar uma maior ofensa aos adultos sensíveis do que há quarenta ou cinquenta anos.

Tudo isto é muito estranho num país que possui, entre os heróis nacionais, uma mulher, digamos, masculinizada.

Brites de Almeida era alta, corpulenta e andava sempre envolvida em desacatos. Diferente das outras meninas, enfrentava qualquer um, com as mãos, com a espada ou à pazada. 

 

 

Brites de Almeida, mais conhecida por padeira de Aljubarrota, não se enquadrava nos típicos padrões femininos: era feia, de cabelos crespos, muito forte e grande. Tinha um comportamento masculino, o que se refletiu nas profissões que teve ao longo da vida.

Aprendeu a manejar a espada e o pau com tal mestria que depressa alcançou fama de valente. 

 

Oh, diabo, mas isto da Padeira de Aljubarrota é muito woke, não vos parece?

8 de março de 2024

Ele há mulheres

Ele há mulheres

que mantêm fria a cabeça

na mais opressiva situação.

Logo lhes sai a resposta seca,

ou a adequada reação.

Infalíveis computadores,

neurónios como chips,

músculos como tratores,

ninguém lhes chega aos acepipes.

Não há medo, nervosismo,

nem vergonha, ou intimidação.

Determinada tecla

aciona a correspondente reação.

São imunes ao dramalhão.

 

Raciocinam numa fração de segundo,

indiferentes aos olhares de meio mundo,

ou à solidão de um poço fundo.

E logo se lhes levanta o joelho,

direito à tomatada.

E logo se lhes levanta a mão,

aplicando a bofetada.

E logo se lhes solta a língua,

sem gaguejar, sem hesitar,

em impropérios ao camarada.

 

Ele há mulheres

que desdenham das mulheres

desprovidas de chips,

possuindo detestáveis tiques.

Não pensam com ligeireza,

mostram (sacrilégio!) fraqueza.

O medo deixa-as bloqueadas,

certas palavras, intimidadas,

certas situações, envergonhadas.

Ficam arrasadas,

sentem-se culpadas,

por não terem reagido a preceito

e levado tudo a eito.

 

Ele há mulheres

que criticam estas mulheres

sem dó nem piedade.

E deixam impoluto o homem

que as pôs em dificuldade,

que as ofendeu, ou abusou

de profícua oportunidade.

As indefetíveis mulheres

avaliam de longe a situação

no conforto do seu cadeirão.

“Havia de ser comigo,

dizia isto,

fazia aqueloitro

e deixava o desgraçado num oito”.

Palavras de conforto,

de alento, de carinho,

solidariedade e apoio

para as suas semelhantes?

Mas que tamanhas lacrimejantes!

Não reagiu?

É porque gostou.

Não respondeu?

É porque bem achou.

Queixa-se do homem?

Ainda lhe estraga a vida

por tamanha lana-caprina.

 

Ele há mulheres

duras, implacáveis,

de reflexos memoráveis,

matemáticas e insensíveis,

cheias de soluções exequíveis,

amantes dos clássicos:

“Ai se fosse comigo”;

“Segurem-me que os desfaço”.

Treinadas, musculadas,

engomadas, engravatadas.

 

Ele há mulheres…

Que parecem (certos) homens.

© 2024 Cristina Torrão

 

Desdenhar da fraqueza alheia é cobardia. Solidariedade é coragem.

Mulheres 01.png

Imagem daqui

 

A dignidade humana é intocável.

Direitos das Mulheres são Direitos Humanos.

7 de março de 2024

8 de março

Não nos ofereçam flores. Olhem-nos ao mesmo nível (não de cima para baixo).

O tamanho da pessoa é insignificante, quando está em causa a dignidade humana.

Direitos das Mulheres são Direitos Humanos.

 

Mulheres 02.jpg

Imagem daqui