Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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7 de dezembro de 2016

Sugestões de Prenda de Natal (3)



Paulo M. Morais, finalista do Prémio LeYa 2015, editou, há cerca de um ano, o romance O Último Poeta, sob a chancela da Poética Edições. A editora Virgínia do Carmo pediu aos poetas que edita que encarnassem a personagem do romance, Isaque. O resultado foi o livro As Vozes de Isaque.

As duas obras estão agora em promoção por 20 €.
(encomendas: poeticaedicoes@gmail.com, ou na loja online: poetica-livros.com/loja).

Uma boa maneira de oferecer poesia e prosa ao mesmo tempo, neste Natal.


22 de novembro de 2016

Sugestões de Prenda de Natal (1)


Nem Sempre os Pinheiros São Verdes
Oito contos de Natal e um desejo 


Tive a honra de participar neste projeto da Poética Edições, com o conto Natal em Família.
Não se trata de um livro infantil, nem de contos de Natal convencionais. Estes são tão diferentes uns dos outros como os seus autores e proporcionam um outro olhar sobre esta quadra. O mote é dado pela editora Virgínia do Carmo e uma das autoras presentes neste volume:

«Nem sempre os pinheiros são verdes. Nem sempre há pinheiros no Natal. Nem sempre as folhas dos pinheiros são perenes. Nem sempre o que é perene é belo. Por vezes o Natal é opaco como os dias vulgares. Por vezes, ainda, é mais triste do que os amanheceres de Novembro. Mas nem sempre a alegria é só alegria. E nem sempre Novembro é triste».

O lançamento deste livro terá lugar a 26 de Novembro, pelas 18h00, na Sociedade Guilherme Cossoul - Av. D. Carlos I, nº 61 - 1º andar, em Lisboa (Santos).





Uma boa oportunidade para conhecer vários autores de uma vez. Tenho muita pena de não poder estar presente, mas enviarei uma mensagem, que será lida pela Virgínia do Carmo.

Divirtam-se!


26 de dezembro de 2015

Conto de Natal (8)



De facto, teve de se esperar, já com o resto pronto, mas não era ainda tarde, quando os genros surgiram com o leitão fumegante, de pele estaladiça. Apesar de já temperado, trazia-se sempre uma malga cheia do molho especial, a tresandar de alho e pimenta. As tias Tininha e Guiomar procederam ao trinchar do bicho, Géninha alegou que não tinha jeito nenhum para aquilo e desfaria a carne.
Havia batata assada e arroz e, na travessa do leitão, rodelas de laranja, que ajudavam a desenjoar da gordura. A refeição foi ensombrada pelo constatar de que o vinho mal chegava e a resistência do avô em ir buscar mais. Apesar de ter a adega cheia, aquilo contrariava-lhe os planos e alegava que o que estava à disposição chegaria, caso fossem comedidos. Narciso já não se segurava de indignação e levantou-se, a fim de ir à adega, quando o avô, que nunca interrompia uma refeição, igualmente se levantou, declarando, com uma energia inabitual, que ele é que sabia qual o vinho que deveria ser bebido. Encaminhou-se para adega com o pano de cozinha que lhe servia de babete ao dependuro, e Narciso foi atrás dele, convencido de que o sogro nunca traria o suficiente. Realmente o avô regressou contrariado, pois o genro insistiu em trazer três garrafas em vez de uma. «Quem há de beber isso tudo?», perguntava, exasperando Narciso: «ó homem, deixe-as ficar aqui à mão, logo se verá se são ou não precisas».
É difícil dizer se o avô conseguiu gozar o resto da refeição. E o neto Filipe, divertido com aquela casmurrice, ainda o espicaçou: «ó avô, já abriste o teu chocolate? Bem podias dar um quadradinho a cada neto». Os primos e a tia Guiomar riram e também Géninha, normalmente defensora do pai, esboçou um sorriso, pois a malandrice fora dita pelo seu tesouro. Os homens não ligaram e a avó, apesar de incomodada, absteve-se de comentar.
No fim, Sandra sentia-se tão enfartada, que prescindiu das sobremesas. O creme e a aletria não tinham, de qualquer maneira, grande sabor, nunca ligara a bolharacos e já se enchera de rabanadas no dia anterior. Já o tio Januário tornou a elogiar a aletria da mãe, emborcando grande quantidade, sob o olhar enfadado da mulher. Ficou uma garrafa de vinho por abrir e o avô, normalmente tão calado, lançou a farpa: «eu bem disse que eram garrafas a mais». Enfim, valeu-lhe que a boa disposição de Narciso andava intimamente ligada à pança bem atestada.
O dia estava frio, mas ensolarado, pelo que se resolveu ir dar um passeio, aproveitando para passar no café. Clara foi, mais uma vez, objeto da chacota dos primos, por ostentar uns botins de camurça de cano tipo fole no tornozelo e apertado na zona onde começava a barriga da perna. Também o tio Carlos, bem bebido, se juntou àquele divertimento dos rapazes.
Apesar de achar que a combinação dos botins com a minissaia rodada da prima lhe dava um aspeto de trovador medieval, Sandra achava de muito mau-gosto aquela chacota e declarou gostar dos botins, que estavam na moda. Minutos depois, já ela havia esquecido o episódio, a mãe veio segredar-lhe a sua surpresa, temperada por um laivo de censura: «gostas mesmo das botas»?
Durante o passeio, Januário e Narciso encetaram as suas discussões políticas, em altos berros, enquanto o tio Carlos preferia a companhia das sobrinhas, caminhando no meio delas, que lhe enfiavam o braço e se riam muito das suas lérias.
Depois do passeio, a festa terminara para Narciso, que se mostrou ansioso por fazer a viagem de regresso. Instigou a família a fazer as malas, quando todos se preparavam para descansar nos sofás da sala. O desagrado de Sandra era ainda maior, porquanto ela gostaria de ficar com a prima, cuja família tornaria a pernoitar nos avós. Januário não queria perder o almoço do dia seguinte, em que a mãe fazia roupa-velha: os restos das batatas, dos grelos e do bacalhau desfeito eram estrugidos em azeite e alho. À despedida, e por entre recomendações ao genro que guiasse com cuidado, a avó desabafou: «gosto muito do Natal, mas também me agrada, quando, no fim, vocês regressam às vossas casas».

No dia seguinte, ao serão, Géninha recebeu um telefonema de sua mãe. Assim que a casa esvaziara, ela procedera às primeiras arrumações e, no corredor do primeiro andar, dera conta de um vaso fora de sítio. Quando o quis arrastar, o vaso abriu-se, despejando a terra para cima da alcatifa! Era óbvio que o despropósito tinha a assinatura dos netos e ela exigia saber qual deles partira o vaso!
A avó nunca telefonava a ninguém, fazia mesmo questão de apregoar que dispunha de telefone só para receber chamadas. Num tempo em que não havia telemóveis nem internet, os telefonemas «para fora», isto é, para uma localidade diferente, exigindo indicativo, eram de facto custosas.
Naquele serão, porém, a avó ligou aos três filhos. Em vão. Nunca se descobriu quem partiu o vaso, os primos cumpriram o pacto que haviam feito entre eles, encolhendo os ombros, alegando não saberem de nada.

E assim se passou mais um Natal. No ano seguinte, a cena repetir-se-ia. E, por mais chacotas, discussões e ressabiamentos que houvesse, Sandra tornaria a sentir-se menos sozinha do que na sua própria casa, ficando, para o resto da vida, com a sensação de que aqueles convívios natalícios tinham sido os melhores da sua vida.


25 de dezembro de 2015

Conto de Natal (7)



Estando as prendas distribuídas, a mesa levantada e a cozinha arrumada, a avó ligou a televisão. O avô acomodou-se na sua poltrona, com a escalfeta eficientemente reparada pelo neto Mário a seus pés. As mulheres conversavam, porquanto Tininha andava ainda às voltas com os sais de frutos, massajando a barriga inchada. Os primos tornaram a desaparecer. O tio Carlos, embriagado, trauteava lengalengas obscenas aos ouvidos das sobrinhas, que se riam muito, na sua adolescência, e Narciso e Januário, sentados à mesa, à volta dos seus copos de vinho, embrenharam-se numa discussão política, berrando cada vez mais alto, impedindo os avós de ouvirem a sua televisão. Acabaram por se separar, amuados um com o outro.
Falou-se na missa do galo, mas estava frio. Os homens, de qualquer maneira, nunca consideravam ir e as mulheres sentiam-se cansadas. A avó alegou que se poderia assistir às cerimónias transmitidas de Roma. Foram, porém, todos deitar-se ainda antes da meia-noite, encaminhando-se para os seus quartos gelados. As primas tinham mais sorte, ficavam na sala aquecida, embora tivessem de abrir, por momentos, a janela, a fim de renovar aquele ar de comidas e transpirações.

A manhã de Natal reservava uma má surpresa a Clara. Os rapazes haviam-lhe dado nós nas roupas, alguns tão apertados, que ela só os conseguiu desfazer com a ajuda da mãe. As primas tinham deixado as suas malas no andar de cima e a indignação da moça só contribuiu para aumentar o divertimento dos primos. A tia Guiomar foi a única, de entre os adultos, que se dispôs a admoestá-los. Os homens não quiseram saber. E, se Tininha mostrou um pouco de compreensão pelo agastamento da sobrinha, Géninha limitou-se a um circunstancial «ai que malandros». Às escondidas, chegou a rir com o filho. As roupas de Sandra haviam sido poupadas, confirmando-lhe que uma moça só era tolerada quando apagada e submissa.
O avô dava-se ao luxo de saborear o seu café com leite e as suas torradas com manteiga na cama, pois a mulher levava-lhe o tabuleiro com o pequeno-almoço. Entretanto, já se havia acendido o lume no forno de lenha da adega, a fim de se assar o cabrito e o galo capão. Também se havia encomendado um leitão, já pronto, pois, em plena Bairrada, acedia-se sem dificuldade aos melhores especialistas.
Tendo já retirado a lenha e metido as carnes no forno quentinho, a avó preparou-se para ir à missa, solicitando a companhia das netas, já que as filhas e a nora ficariam a tomar conta dos assados. «Bem me custa», dizia ela, «mas, quanto maior é o sacrifício, mais Deus gosta e nos recompensa». A Sandra lembrou-se do avô, ainda no quentinho dos cobertores, e perguntou à avó porque não precisava ele de fazer aquele sacrifício. A avó olhou-a como se ela tivesse dito algum absurdo e respondeu: «eu rezo por mim e por ele». Trocando um olhar divertido com a prima, Sandra contrapôs: «e não podias rezar por nós também»? «Não sejas preguiçosa, anda», retorquiu a avó, mas era a vez de Clara dizer de sua justiça: «e os rapazes, também não precisam de fazer sacrifícios»? «Deus me livre, levá-los», replicou a avó, «são tão difíceis de aturar». «Não é justo», começou a neta, mas a avó interrompeu-a: «deixem-se de disparates e apressemo-nos, que se faz tarde».
A missa foi demorada, mas, em casa, tudo corria sobre rodas e os genros foram buscar o leitão, sendo agora a preocupação da avó que o dito cujo estivesse pronto a tempo. Devido ao grande número de encomendas, costumava haver atrasos.


24 de dezembro de 2015

Conto de Natal (6)



Houve uma tentativa de cantar É Natal, é Natal, mas não pegou, os homens e os três rapazes não estavam para aí virados. A avó, porém, recordou que o filho havia cantado o Silent Night num coro do liceu, um momento que ela nunca esquecera. E, a pedido dela, não obstante a desaprovação da tia Guiomar e da filha Clara, fez-se ouvir a voz grave e poderosa, mas impiedosamente desafinada, do tio Januário:

                        Siiiii-ilent Night

Os primos trocaram olhares. Clara mostrava-se ligeiramente incomodada, o irmão Mário parecia encontrar-se literalmente sob tortura. A vontade de rir nos outros primos, porém, fê-lo descontrair-se um pouco.
Januário, com os seus olhos esbugalhados, expelia agora um ôôôôôô, que a Sandra não entendeu. Não fazia parte da canção que ela conhecia. Até que o tio completou a frase:

                        Ôôôôôô-ôly Night

Aquela maneira de ele pronunciar o Holy, sem o mínimo vestígio de um H expirado, provocou-lhe um ataque de riso muito forte e ela teve de tapar a boca com o guardanapo. Os rapazes estavam igualmente capazes de rebentar e também Clara esboçava um sorriso, embora a tia Guiomar continuasse de nariz torcido. Narciso e Carlos revelavam-se enfadados e Géninha e Tininha quedavam-se sem qualquer expressão especial que pudesse revelar o que lhes ia na cabeça, assim como o avô, que se diria estar a dormir, não fossem os olhos abertos. Já a avó não conseguia evitar o derramar de lágrimas de comoção.
Januário continuava, no seu inglês impercetível. Apenas quem soubesse o texto de cor fazia uma ideia do que ele de si emanava.
Depois de trauteada a primeira estrofe, e indiferente aos risos abafados dos sobrinhos, preparava-se para continuar, quando Clara lembrou que era altura da distribuição dos presentes. A tia Guiomar começou a levantar a mesa e as cunhadas imitaram-na. Retomou-se o alvoroço, enquanto o tio Januário se conformava com a interrupção e a avó limpava as lágrimas.
A família espalhou-se pelos sofás e pelas poltronas, à volta do fogão de sala, à exceção de Narciso, que permaneceu sentado à mesa. Dizia que não ligava «a essa coisa das prendas». Mas haveria uma razão mais forte. Talvez lhe custasse aguentar o protagonismo da filha, tão habituado estava a anulá-la. Aquela era a hora das primas, as «princesas da família», como a própria Clara as definia (Sandra nunca ousaria tal). Eram elas que distribuíam os presentes, tirando à vez um embrulho do bordo do fogão de sala. Anunciavam o nome a quem se destinava e procediam à sua entrega. Também Filipe, à semelhança do pai, parecia não apreciar a cerimónia que punha a irmã em destaque e constantemente desinquietava os primos para brincadeiras.
Tininha queixou-se da barriga inchada, depois da lauta refeição, apesar de todos saberem que ela comera pouco. Foi tomar bicarbonato dissolvido em água, segundo o avô, o melhor estimulante digestivo. E, sendo necessário, havia ainda sais de frutos.
Por vezes, batiam-se palmas e exultava-se, depois da entrega de uma prenda, se bem que a tia Guiomar reclamasse por o marido falar alto demais. E, ao desempacotar de um dos presentes, deparando com um livro, o tio Januário mostrou-se desagradado. A avó quis saber o motivo do desconforto do filho e este lá foi dizendo que sabia tratar-se de algo que a mulher desejava ler, ou seja, alegou que a tia Guiomar se presenteava a si própria através dele.
Tanto a esposa, como a filha, negaram tal intento, mas a cerimónia ficou turvada durante uns momentos. Tininha aproveitou para ir à cozinha, emborcar uma dose de sais de frutos, pois o bicarbonato, por si só, parecia não conseguir esmoer os grelos que lhe davam voltas no estômago. Narciso continuava em segundo plano, como se nada daquilo lhe dissesse respeito. E os primos haviam desaparecido.
Sandra e Clara encetaram a distribuição das prendas, agora com mais sossego, desde que se deixara de ouvir o vozeirão do tio Januário, que insistia no seu amuo. Também a avó se manteve acabrunhada. E Narciso, lá atrás, recebia os seus presentes a contragosto, que as moças faziam o favor de lhe ir entregar.
No fim, distribuíram-se os chocolates e os rapazes surgiram, ficando por saber como souberam ajuizar o timing. Logo abriram as suas tabletes, com a avidez de quem tem fome.
O avô enfiou a sua no bolso e solicitou um quadradinho a cada um dos cinco netos, com o pretexto de que gostaria de provar as diferentes qualidades. Longe iam, porém, os tempos em que os moços caíam na esparrela. Desataram em gargalhadas sonoras, o que incomodou Géninha. Não entendia porque haveriam eles de recusar um quadradinho ao avô! Clara argumentou que, se lhe apetecia chocolate, que comesse da tablete dele, o que indignou ainda mais a tia, enquanto a avó ralhava com o marido, que, na sua opinião, se expunha ao ridículo.