Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

10 de outubro de 2019

“Deus nunca se familiarizou comigo”




Traduzi desta maneira, do alemão, o título deste livro (à letra não faz muito sentido). A autora, de apenas 22 anos, inspirou-se nas suas leituras da Bíblia, exprimindo as suas dúvidas, aquilo que lhe agrada e aquilo que não lhe agrada. Achei pertinente, principalmente, por ela tentar dar vida às “personagens”, ou seja, tirá-las das Sagradas Escrituras e pô-las no mundo real. É certo que algumas dessas tentativas não são bem conseguidas. Outras, porém, tornam-se em bons motivos de reflexão, como o capítulo intitulado “Gostava de ter Eva como Padroeira”, do qual traduzo alguns excertos (pp. 19 a 23):

Gostava de ter Eva como padroeira, porque mais ninguém como ela sabe o que significa perda. Gostava que ela me dissesse quão vazia se sentiu, depois de ter sido expulsa do Paraíso.
Gostava de conversar com Eva sobre vergonha e ouvir da sua boca a palavra “distância”, pois ninguém como ela sabe sentir a vergonha e a distância. Gostava de ouvir dela que não ter vergonha significa apenas não ter segredos e que houve, uma vez, um lugar, onde nem sequer se concebia a ideia de que possa haver necessidade de nos escondermos.

Eu diria a Eva que tento sempre roubar a árvore completa, quando alguém me diz que não devo comer do seu fruto. E que vou atrás de qualquer serpente que me prometa alguma coisa.

Quero Eva para padroeira, porque ela sabe como é ser criada por Deus e, mesmo assim, não acreditar totalmente n’Ele.

Gostava de perguntar a Eva se lhe dói pensar na maçã - não por ela ter feito o que fez, mas por ter sido tão previsível. E se ela ainda interpreta a dor como sendo metade perda e metade humilhação.

Se eu fosse Eva, não falaria de certas coisas. Não falaria sobre Adão e de como ele foi autorizado a escolher o nome dela. Não falaria sobre Deus e de como Ele a vestiu, ainda antes de a expulsar do Paraíso.

Deus disse que Eva passara a poder distinguir entre o Bem e o Mal, mas eu acho que Ele sobrestimou os humanos.
Não acho que nós humanos gostemos de nos destruir. Apenas tentamos ver para além de nós. Damos pinceladas cor-de-rosa sobre os avisos dos maços de tabaco, ignoramos recomendações, toleramos amizades tóxicas e drogas leves. Falsificamos a assinatura dos contratos que celebramos connosco próprios.

Espero que o Céu não seja o Jardim do Éden e que lá não exista cobiça, nem maçãs, nem serpentes, nem saídas de emergência.
Porque, se eu fosse Eva, tornaria, em qualquer altura, a morder a maçã.


5 de outubro de 2019

Efemérides históricas à volta da formação de Portugal (5)

Há quem assinale a data de 5 de Outubro de 1143 como a da independência de Portugal. É um facto que, em Zamora, Afonso VII, o imperador da Hispânia, reconheceu o título de rei a seu primo e Portugal como reino. Contudo, não prescindiu da vassalagem de Afonso Henriques.

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Atentemos ao que diz José Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (2007; extractos das páginas 207 a 214):

No Verão de 1143, chegou ao reino de Leão o cardeal legado da Sé Apostólica Guido de Vico (…) Guido parece ter-se dirigido primeiro a Portugal. Há informações acerca da sua estadia no Porto e em Coimbra.
(…)
De Coimbra, o legado dirigiu-se a Valhadolid, onde, em 19 e 20 de Setembro, celebrou um concílio.
(…)
Depois de ter encerrado o concílio, o legado papal dirigiu-se a Zamora, onde estava a 4 e 5 de Outubro, e onde se reuniu com os reis de Portugal e de Leão. A este encontro chamam os historiadores modernos a «conferência de Zamora». Tem sido considerada como a reunião que selou o acordo entre Afonso Henriques e Afonso VII, que marcou o reconhecimento pelo segundo da dignidade régia do primeiro, e que permitiu a celebração de um tratado, que talvez incluísse uma repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos, mas do qual, infelizmente, não existe nenhum texto.
(…)
A 13 de Dezembro de 1143, Afonso Henriques dirigiu uma carta ao papa declarando que tinha feito homenagem à Sé Apostólica, nas mãos do cardeal Guido, como cavaleiro de São Pedro (…) Também se torna quase certo que esta decisão obtivera o acordo do cardeal, uma vez que a carta declara que o rei tinha prestado homenagem nas suas mãos. (…) Estes factos significam, por sua vez, a realização de conversações anteriores, talvez por ocasião da passagem de Guido por Coimbra [ou seja, antes da conferência de Zamora].

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Consideremos este ponto importantíssimo: antes de se dirigir a Zamora, Afonso Henriques prestou homenagem ao cardeal Guido de Vico. Porquê? Só podia ser por saber que o primo não prescindiria da sua condição de vassalo! Como imperador, Afonso VII podia ter reis (e tinha) como vassalos, por isso, o reconhecimento do título real a Afonso Henriques e de reino a Portugal não significa uma aceitação da independência por parte dele.

Neste sentido escreve igualmente o Prof. Miguel Gomes Martins em 1147 - A Conquista de Lisboa (2017):

[Na conferência de Zamora deve ter sido também debatido] o compromisso por parte de Afonso Henriques de não voltar a intervir militarmente na Galiza (…) Este ponto pode mesmo ter sido decisivo para o que se passou de seguida, ou seja, para que Afonso VII, em retribuição e talvez por pressão do legado [papal], reconhecesse o título de rei a Afonso Henriques, algo a que o imperador não deve ter colocado grandes entraves, já que em nada beliscava a sua supremacia face ao primo, que continuaria (…) na sua dependência vassálica. Pelo menos, assim o pensava, pois desconhecia o que secretamente tinha sido negociado em Coimbra, semanas antes, entre Afonso Henriques e Guido de Vico, ou seja, a preparação da vassalagem do monarca português à Santa Sé, acto que necessitava ainda de ser formalizado pelo rei, mas acima de tudo, pelo papado (p. 98).

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Temos aqui uma situação muito curiosa e que costuma ser ignorada: o cardeal Guido de Vico aceitou a homenagem de Afonso Henriques, prometendo libertá-lo do jugo de Afonso VII e, passadas semanas, serviu de mediador num encontro em que o rei português não contestou a sua condição de vassalo do imperador hispânico! Como se explica que um legado papal tivesse tal atitude?

A explicação estará em negociações secretas levadas a cabo entre D. João Peculiar, arcebispo de Braga, e o cardeal Guido de Vico, que terão incluído o casamento de D. Afonso e D. Mafalda de Sabóia. José Mattoso (2007) considera o arcebispo de Braga uma figura chave em todo este processo. Chega a afirmar que D. João Peculiar terá contribuído tanto como o próprio Afonso Henriques para a independência de Portugal.

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Estátua do arcebispo D. João Peculiar, em Braga.

A 13 de Dezembro de 1143, cerca de dois meses depois do encontro de Zamora, Afonso Henriques encontrou-se em Braga com o arcebispo D. João Peculiar e com os bispos do Porto e de Coimbra, a fim de se escrever a missiva (Claves regni celorum) a enviar ao papa, conforme combinara com o cardeal, solicitando vassalagem à Santa Sé. Ora, se o primo já tivesse reconhecido a independência de Portugal, tal passo seria desnecessário.

Este pedido de vassalagem chegou, porém, a Roma numa altura conturbada, em que se realizaram dois conclaves no espaço de seis meses. Inocêncio II, o papa que enviara Guido de Vico à Hispânia, morreu antes do regresso do cardeal. O seu sucessor, Celestino II, faleceu, antes de responder ao rei português e foi finalmente Lúcio II quem enviou a bula Devotionem tuam, datada de 1 de Maio de 1144. Quando finalmente o nosso primeiro rei a segurou nas mãos, porém, deve ter ficado desiludido.
Em primeiro lugar, o papa não o intitulava rei, mas sim «dux portugallensis». E não dizia claramente que Afonso Henriques estaria livre da suserania do primo, optando por uma linguagem difusa: promete-lhe, tanto a ele, como aos seus sucessores, a protecção de São Pedro para as suas almas e para os seus corpos.

Afonso Henriques viu-se, assim, numa situação bastante ambígua: Roma aceitava-o vassalo (e o censo em ouro), ao garantir-lhe a protecção de São Pedro. Mas intitulava-o apenas de «duque»!
O nosso primeiro rei teria de esperar ainda mais de trinta anos para ver reconhecido o seu título real, por parte da Santa Sé. Tinha já cerca de setenta anos, quando recebeu a Bula Manifestis Probatum de Alexandre III.

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15 de setembro de 2019

"Memórias de uma aldeã"



Este livro não é uma grande obra literária. Mas é maravilhoso, porque conta a vida real. E a vida supera, muitas vezes, a ficção.

Nascida em 1919, na Baviera, a autora, Anna Wimschneider, conta a sua vida de trabalho, desde que, com nove anos, teve de substituir a mãe que morreu de parto do nono filho. Anna não era a mais velha, tinha três irmãos nascidos antes dela. Mas era a rapariga mais velha e teve de ser ela a tomar conta da família. Trabalho sem fim, tanto em casa, como na agricultura, ao mesmo tempo que frequentava a escola. Muitas vezes, o “agradecimento” do pai e dos três irmãos mais velhos, por ela cozinhar, limpar, lavar e remendar a roupa, vinha na forma de tabefes, por ela se esquecer de algo, ou não o ter feito em condições. Só podia ir para a escola, depois de ter tratado dos irmãos mais novos, feito o pequeno-almoço para toda a família e arrumado a cozinha. Chegava sempre atrasada às aulas. O professor era felizmente compreensivo. O padre não! Chegou também a bater-lhe, por chegar atrasada à missa, ou apenas por trazer o missal errado (de notar que toda a gente, na aldeia, sabia que a miúda substituía a mãe).

Quando conheceu o futuro marido, o pai não a queria deixar casar, pois ela fazia-lhe falta. Mas uma vizinha lá o convenceu a deixar a moça viver a sua vida. Que aliás não se tornou mais fácil, pelo menos, nos primeiros anos. O marido era um lavrador tão pobre como ela. Além disso, casaram em 1939, pouco antes de se iniciar a 2ª Guerra Mundial, e ele foi alistado. Anna ficou sozinha com dois tios e uma tia do marido, já velhos, e a sogra. Tratava sozinha de tudo: da casa, das terras e dos velhos. Além disso, a sogra era-lhe muito hostil.

A vida só começou a melhorar, depois de a guerra acabar e o marido recuperar dos ferimentos. Os velhos foram morrendo. Anna tinha, assim, apenas a sua própria família e, embora continuasse a ter muito trabalho, já se considerava privilegiada. Os últimos dez anos da sua vida, quando já não tinha os filhos a seu cargo, não foram, porém, muito agradáveis. Anna estava frequentemente doente, devido às agruras que experimentara na infância e na juventude, e chegava a passar mais tempo no hospital, do que em casa. Sofria, principalmente, de asma.

No início dos anos 1980, uma das filhas convenceu-a a escrever a sua história. De notar que Anna Wimschneider nunca se serve de um tom queixoso, ou revoltado. Limita-se aos factos, descritos com grande lucidez. Uma editora dispôs-se a rever e a corrigir o manuscrito (Anna estava longe de ser uma escritora), publicando-o em 1984. Já se venderam, na Alemanha, dois milhões de exemplares! E foi realizado um filme em 1988 (a capa representa uma das cenas). A autora morreu em 1993.

Este livro é testemunho de uma vida que, pelo menos nas nossas latitudes, já não existe, nem se consegue imaginar. Um livro que também nos mostra como as pessoas descarregam as suas frustrações e os seus ódios nos outros, tendo, por alvo preferido (porque mais fácil), as crianças - de notar que a autora não o denuncia, a conclusão é minha. Um livro que tornou famosa uma mulher simples e nos mostra que as editoras deviam estar atentas a relatos deste tipo. Um livro que li de um fôlego.

A autora Anna Wimschneider, imagem da Süddeutsche Zeitung

Manuscrito original de Anna Wimschneider, na posse da BayerischeStaatsbibliothek (Biblioteca do Estado da Baviera)


Nota: o título original, “Herbstmilch”, designa uma antiga receita bávara, com leite azedo, e significa “leite outonal”, ou “leite de outono”. Como o seu sentido não é passível de ser identificado em Portugal, preferi traduzir o subtítulo: “Memórias de uma aldeã”.


4 de setembro de 2019

Efemérides históricas à volta da formação de Portugal (4)

No Verão de 1184, D. Afonso Henriques deu a mão da filha, a infanta D. Teresa, a Filipe da Alsácia, conde da Flandres.

A história à volta desta filha de D. Afonso Henriques e do conde da Flandres é deveras curiosa. Por vezes, penso que, não se tivesse ela passado em Portugal, mas, por exemplo, na Inglaterra, o romance já teria sido transformado em filme, ou em série, ou nas duas coisas, tornando-se a infanta D. Teresa de Portugal e o conde Filipe da Flandres num dos mais famosos pares amorosos da época medieval.

Afonso Henriques parece ter tido uma relação muito especial com esta filha, que ostentava o nome da avó. Ela permaneceu ao lado do pai até aos trinta e três anos, incomum numa época em que as princesas costumavam casar muito cedo, algumas, ainda crianças. Sobre as razões, nada se pode dizer.
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Afonso I - Óleo de Carlos Alberto Santos

 Corria o ano de 1177, quando uma frota de cruzados flamengos, a caminho da Terra Santa e comandada pelo próprio conde Filipe da Flandres, ancorou na cidade do Porto. Afonso Henriques conhecera o pai de Filipe, Teodorico da Alsácia, que, vinte anos antes, passara, pelas mesmas razões, pela costa portuguesa e participara num ataque a Alcácer do Sal. Em 1177, o nosso primeiro rei, com cerca de setenta anos, estava bastante debilitado, devido ao desastre de Badajoz, em que teria ficado gravemente ferido. Já quase não saía de Coimbra, era o seu filho, o futuro D. Sancho I, que se deslocava pelo reino em seu nome. Mesmo assim, decidiu viajar ao Porto, a fim de se encontrar com o conde da Flandres. Afonso Henriques ficara eternamente grato pela ajuda dos cruzados na Conquista de Lisboa. A rota marítima, que passava pela costa portuguesa, continuou a ser muito frequentada e o nosso primeiro rei não perdia uma oportunidade de contactar com os cruzados que fizessem escala num dos portos portugueses.

A infanta D. Teresa, com cerca de vinte e seis anos, acompanhou o pai ao Porto (presume-se que praticamente não saísse do seu lado). E, estando o pai debilitado, foi ela que fez de cicerone a Filipe da Alsácia, mostrando-lhe a cidade e a região. Parece certo que, durante uma semana, a infanta portuguesa e o conde da Flandres conviveram muito. Ter-se-á estabelecido simpatia entre eles? Ou algo mais? Enfim, Filipe da Alsácia era casado. E, passada essa semana, despediu-se da infanta e de seu pai e seguiu viagem.

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Jovem medieval copiada de um anúncio numa revista medieval alemã, há vários anos (o vestuário não é muito compatível com o do século XII, mas serve hoje para representar a infanta D. Teresa, da qual não encontrei imagens)

Cerca de seis anos mais tarde, o conde da Flandres enviuvou. E, sete anos depois da sua passagem pelo Porto, sem nunca mais ter visto Teresa, enviou uma frota a Portugal, pedindo a infanta em casamento e, caso o pai o aceitasse, solicitando que ela viajasse para a Flandres nessa mesma frota.

Historicamente, não existem fontes que expliquem as razões que levaram a este casamento e alguns historiadores admitem que o conde da Flandres tenha ficado bem impressionado com a figura e o porte da infanta. O próprio Afonso Henriques a chegou a apontar como sua sucessora, caso o infante D. Sancho falecesse sem filhos. Em 1172, ao doar o castelo de Monsanto à recém-criada Ordem de Santiago da Espada, Afonso Henriques declarou que os Mestres da Ordem deveriam aceitar nesse castelo a soberania de seu filho Sancho e de sua filha Teresa, si regnum meum tenuerit («se vier a ter o meu reino»). Era a prova de que considerava a infanta, e mais ninguém, como a sucessão alternativa ao filho Sancho.

A infanta D. Teresa partiu para a Flandres nesse ano de 1184 e o rei seu pai morreria no ano seguinte. Já se previa que o seu fim estava próximo. Aquela filha, de trinta e três anos, que nunca se havia separado dele, não o confortou, nos seus últimos momentos, nem assistiu à sua morte. A separação deve ter sido muito difícil para os dois.
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Filipe da Alsácia, Conde da Flandres - estátua na Basílica do Sangue Sagrado, em Bruges. Filipe da Alsácia, que fez várias viagens à Terra Santa, foi um dos cruzados mais famosos do século XII.

Teresa e Filipe não tiveram filhos. E a união acabou por durar apenas seis anos. Filipe embarcou numa nova cruzada, em Setembro de 1190, e morreu, sem ter regressado ao lar, de uma epidemia que atingiu os cruzados durante o cerco a Akkon. Teresa, ou Matilde, como ficou conhecida por aquelas paragens, por identificação com sua mãe, governou a Flandres sozinha durante mais de vinte anos (uma verdadeira representante da avó, de quem herdou o nome). Morreu em 1216, sem filhos, e eu acho uma pena que os governantes da Flandres, a partir do século XIII, não tivessem sido descendentes de D. Teresa e de D. Afonso Henriques. A sorte acabou por calhar a Balduíno V de Hennegau, um parente do falecido Filipe.

1 de setembro de 2019

Sem receio da mudança

Imagem Wochenblatt

Estou muito orgulhosa do "meu" Horst. Atreveu-se a mudar de emprego aos 56 anos e até teve direito a reportagem no jornal diário local. Trabalha, desde 1 de agosto, na Câmara de Stade, a sua cidade-natal e onde vivemos há 20 anos, como planeador de tráfego, fazendo parte de uma equipa que pretende criar um novo conceito para a cidade, dando mais espaço aos peões e aos ciclistas (não, a Greta Thunberg não vai resolver os problemas ambientais do planeta, mas o movimento por ela iniciado está a ter reflexos e é isso que importa; quem, de nós, conseguiria tal proeza?).

Esta decisão do Horst exigiu coragem, pois, apesar de continuar funcionário público, está à experiência por seis meses. Se algo correr mal, pode ser despedido ao fim desse tempo. Para isso, rescindiu um contrato de trabalho vitalício, que tinha com a Câmara de Hamburgo, onde trabalhava há 26 anos. Como sabem, a Alemanha é uma federação de estados. Hamburgo é uma cidade-estado; Stade, apesar de estar a apenas 50 km, pertence ao estado da Baixa Saxónia. Um funcionário público não pode mudar de estado, mantendo o mesmo contrato, pois a entidade empregadora é diferente. Mas há-de tudo correr bem, estamos confiantes.

O emprego em Stade, além de lhe proporcionar fazer um trabalho para o qual está muito motivado, fica pertinho de casa. É só agarrar na bicicleta e, em dez minutos, chega ao emprego. Um verdadeiro sonho para quem, durante 20 anos, viajou de comboio todos os dias para Hamburgo, uma hora para cada lado.

O Horst merece.

Obs: a bicicleta dele não é elétrica.


Nota: texto originalmente publicado aqui.


29 de agosto de 2019

Desafio "Museu Salazar"

Vivendo no estrangeiro, estou um pouco de fora do teor desta polémica, embora já tenha lido algumas alusões pela net. Como sou uma apaixonada pela História (porque acho que só nos conhecemos, se conhecermos a nossa História) e como Salazar e o Estado Novo fazem parte da História de Portugal, decidi dar a minha opinião, principalmente, depois de ler o Editorial do “Público”, por Manuel Carvalho.

Tal como Manuel Carvalho, acho que um "Museu Salazar" não pode ser nunca uma homenagem branqueadora e normalizadora do ditador. Por outro lado, nas democracias não pode haver temas tabus, personagens apagados das fotografias ou lugares de esquecimento, porque isto também serve para branquear a História, apagando, ou fazendo por esquecer, aquilo que nos incomoda. Aliás, Portugal tem muita necessidade de trabalhar certos momentos da sua História de forma rigorosa e o mais objetiva possível.

Um "Museu Salazar" nunca deve ter como propósito homenagear um “grande homem” (como parece afirmar o autarca socialista de Santa Comba Dão), mas deve possuir o objetivo de educar e informar. Isso, sim, seria um centro interpretativo do Estado Novo. Aliás, o nome da instituição devia ser este, por exemplo, ou Museu do Estado Novo, em vez de "Museu Salazar".

Um museu, ou centro, deste tipo, além de fazer um retrato da vida de Salazar, devia, obrigatoriamente, incluir:

- Uma secção sobre a Censura à Imprensa, praticada durante todo o Estado Novo, com imagens de notícias censuradas e informações sobre que tipo de artigos o eram (porque não eram apenas os políticos, também se censuravam notícias de suicídios, por exemplo, ou de crimes familiares).

- Uma secção dedicada ao Tarrafal (com imagens e artigos, talvez vídeos, se os houver) e à perseguição dos comunistas e sindicalistas.

- Uma secção dedicada à PIDE e às prisões de Caxias e Peniche, também com imagens, documentos, descrição das torturas, testemunhos, etc.

- Uma secção dedicada ao assassinato de Humberto Delgado (e a outros crimes que se tenham cometido em relação a opositores do regime).

- Uma secção dedicada à guerra colonial, com fotografias (que não faltam) e, proponho também, vídeos que mostrem, por exemplo, os embarques das tropas, ou as mensagens de Natal que os combatentes enviavam, todos os anos, pela televisão.

Estas são as minhas sugestões. Os historiadores especialistas desta época teriam mais e deviam ser contactados. Para que se fizesse, em Santa Comba Dão, um verdadeiro Museu ou Centro Interpretativo do Estado Novo, que nos oferecesse uma visão aberta da História. De visita obrigatória para estudantes!

Será que o autarca socialista de Santa Comba Dão tem arcaboiço para tal?


Nota: texto originalmente publicado aqui



11 de agosto de 2019

O Pacto Sucessório





Venho hoje falar de um documento um pouco polémico, pois paira sobre ele o espectro da falsificação, embora actualmente se considere poder ser verdadeiro. De qualquer maneira, trata-se de um assunto em aberto e que, na minha opinião, tem a sua relevância. Estou a falar de um Pacto Sucessório secreto, que terá sido firmado entre os condes D. Raimundo e D. Henrique, à revelia do sogro Afonso VI, decidindo como dividiriam a herança depois da morte deste e por mim já aqui referido. Não se sabe a data exacta em que terá sido firmado, o historiador Charles Bishko situa-o entre 14 de Maio e 22 de Setembro de 1105, ou seja, durante o Verão. Nada melhor do que o mês de Agosto para o relembrar.

Nos arquivos portugueses, não existe cópia do documento, mas a versão que terá sido enviada ao abade de Cluny encontra-se na Bibliothèque Nationale de France. O Professor Abel Estefânio, da Universidade do Porto, publicou dois estudos sobre o assunto, na Medievalista online. No primeiro, O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, em 2011, duvida da sua autenticidade. Porém, no segundo, Proposta de aclaração do “pacto sucessório” à luz de novos dados, três anos depois, admite que possa ser verdadeiro.

Manuscrito do “pacto sucessório”, Recueil de Chartes de CLUNY, Bibliothèque Nationale de France, Département des manuscrits, Colecção Baluze nº 86, f. 470.



Atentemos às palavras com que o Professor Abel Estefânio abre o segundo estudo:

«Quando o estudei pela primeira vez, pareceu-me que se tratava de um falso histórico e apresentei essa hipótese num artigo publicado em 2011 na revista Medievalista (…) Todavia, como não o pude afirmar categoricamente, não dei o assunto por encerrado. Havia, desde logo, que considerar a nota que o Professor José Mattoso elaborou sobre o meu estudo, com o contributo do Professor Arnaldo do Espírito Santo relativamente ao argumento linguístico. Perante a ausência de sinais evidentes do uso de um latim clássico que denuncie um falsário da época moderna, o Dire(c)tor da Medievalista considerou que se impunha um exame mais aprofundado».

Na minha opinião, é verosímil que os condes D. Raimundo e D. Henrique tenham firmado este pacto. Recordemos a situação! D. Afonso VI, sentindo a morte a aproximar-se e angustiado por não ter herdeiro varão, nomeia seu sucessor o filho que teve da moura Zaida, baptizando-o de infante Sancho. Podemos imaginar a revolta que sentiu a sua única filha legítima, D. Urraca, e também o genro D. Raimundo, sobretudo por, neste mesmo ano de 1105, a 1 de Março, ter nascido o filho do casal.

Raimundo terá recorrido ao abade Hugo de Cluny. A fim de conseguir guerreiros para a Reconquista, Afonso VI seguira, durante anos, uma política pró-francesa, ligada à Ordem Cluniacense, nomeando muitos prelados estrangeiros para as dioceses hispânicas, fazendo-lhes riquíssimas doações e dotando-os de privilégios, assim como aos nobres que os acompanhavam. Foi neste contexto que surgiram Raimundo e Henrique na Hispânia. O conde portucalense era inclusive sobrinho-neto do abade Hugo. Os cluniacenses introduziram, na Península, o culto romano, ditado pela reforma gregoriana, em detrimento do velho rito hispânico, ou moçárabe.

Afonso VI de Galiza, Leão e Castela Catedral Sant
Miniatura representando Afonso VI, rei de Leão, Castela e Galiza (1047-1109). Tumbo A da catedral de Santiago de Compostela.

A fim de poder nomear Sancho seu sucessor, porém, o imperador Afonso VI executou um verdadeiro volte-face, pois o velho clero hispânico prontificou-se a baptizar a moura Zaida e a legitimar o filho desta. Alarmado por Raimundo, o abade Hugo de Cluny enviou à Hispânia um seu representante, Dalmácio Geret, na presença do qual Raimundo e Henrique terão firmado o pacto sucessório.

O documento não costuma ser mencionado na nossa historiografia. A hipótese de falsificação não é o único motivo, já que, mesmo sendo verdadeiro, há quem o considere irrelevante. Tanto Raimundo, como o infante Sancho, viriam a falecer antes de Afonso VI, o primeiro dois anos depois de ter assinado o pacto e o segundo no ano seguinte, em 1108, na batalha de Uclés.

Na minha opinião, porém, que vejo boas razões para que seja autêntico, ele foi fundamental na política tão criticada de D. Teresa. Mas comecemos pelo princípio!

Ao casar com D. Urraca, D. Raimundo tornou-se conde da Galiza e, nas suas posses, incluía-se o condado Portucalense que, nessa altura, ia até ao Tejo, pois Afonso VI tinha recebido Santarém e Lisboa do rei mouro de Badajoz, que se pôs sob a protecção do imperador. Raimundo, porém, não conseguiu segurar Lisboa, provocando a ira do sogro. Ao casar a filha Teresa com Henrique, Afonso VI pôs nas mãos deste o condado Portucalense, confinando Raimundo à Galiza. Henrique, porém, permaneceu vassalo do cunhado, situação que o pacto confirma. A carta endereçada ao abade de Cluny começa assim:

Ao senhor e reverendíssimo abade de Cluny, Hugo, e a toda a congregação de S. Pedro, o conde Raimundo, o seu filho e o conde Henrique, seu vassalo, desejam saúde e amor em Cristo (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p. 13).

A nossa historiografia tende a divulgar a versão de que o interesse de D. Teresa pela Galiza se deveu ao seu envolvimento com a família de Trava. Ora, este pacto secreto, assinado pelo marido, sete anos antes de morrer, mostra que a Galiza fazia parte das ambições do conde portucalense. D. Teresa deu-lhe seguimento. Nas suas lutas com a irmã Urraca, ela reclamou sempre a Galiza para si. E o próprio Afonso Henriques passou os cinco anos a seguir à Batalha de São Mamede a tentar conquistar território galego. Foi essa a sua primeira medida, depois de se tornar no líder incontestado do condado Portucalense. Só depois de sucessivas derrotas, perdendo os territórios galegos conquistados, ele se virou para o Sul.

Se eu, conde Raimundo, não puder dar Toledo a ti, conde Henrique, tal como prometi, dar-te-ei a Galiza com a condição de que tu me ajudes a conquistar toda a terra de Leão e de Castela (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p.22).

Esta passagem, do texto do pacto, é um pouco enigmática, pois dá a ideia de que D. Henrique teria aspirações ao senhorio de Toledo e que o cunhado não estava disposto a concedê-lo, substituindo-o pela Galiza. Ou seria o contrário? Inclino-me para a segunda hipótese. Não vejo que interesse D. Henrique pudesse ter por Toledo, tão longe das suas posses, apesar de se tratar de uma cidade de grande prestígio, antiga capital do reino visigótico. Contudo, depois da morte do imperador, Toledo nunca foi motivo de conflito com a rainha D. Urraca. Já a Galiza sim! Além disso, à data do pacto, D. Raimundo era conde da Galiza há cerca de quinze anos, não penso que facilmente abrisse mão desse território. E relembremos ainda que, dar, a um vassalo, o senhorio de uma cidade situada nas terras do suserano, era prática habitual na Idade Média. Podemos, por isso, admitir que a ideia de Toledo terá sido de Raimundo, como recompensa pela ajuda do cunhado. Henrique, porém, estaria mais interessado no reino da Galiza, criando um impasse. Com a moderação de Dalmácio Geret, ter-se-á tentado uma solução provisória, do estilo: «Toledo ou a Galiza».

Defendo, portanto, a importância do pacto, ao mostrar que a luta pela Galiza não se baseou num capricho de D. Teresa, por ter um amante galego. Fazia parte de uma estratégia política iniciada pelo conde D. Henrique, seguida pela sua viúva e também pelo filho de ambos, num primeiro momento: formar um reino na faixa oeste da Península, que iria desde a costa norte galega até onde as conquistas a Sul o permitissem.

Teresa, Bermudo e Urraca.JPG
Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos (Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol.  6v.)


25 de julho de 2019

Efemérides históricas ao tempo da formação de Portugal (3)

Faz hoje 880 anos que se deu a Batalha de Ourique.

Batalha de Ourique Jorge Colaço.JPG

Ainda existe bastante mistério à volta desta batalha, o que alimenta o mito. Não há, porém, dúvida de que ela foi importantíssima para D. Afonso Henriques e a unidade portuguesa. Foi a partir desse dia que ele passou a intitular-se rei, considerando Portugal um reino. Também foi a partir desta altura que o seu nome começou a ser temido no Al-Andalus (a Hispânia muçulmana). Por outro lado, relembremos algo que muita gente não considera: D. Afonso Henriques não conquistou, a 25 de Julho de 1139, um palmo de terra que fosse!

Este último aspeto foi aliás motivo de discussão sobre o local da Batalha: se Portugal acabava a algumas dezenas de quilómetros a sul de Coimbra (embora não houvesse fronteira definida entre Coimbra e Santarém; o castelo de Leiria situava-se em território hostil, constantemente ameaçado) como se foi dar uma batalha entre portugueses e muçulmanos em pleno Alentejo?

Hoje, parece ponto assento que a batalha terá surgido na sequência de um fossado com grande raio de acção. Era costume a realização de fossados de parte a parte, as tropas avançavam devastando e depredando, reunindo espólio, incluindo pessoas (que serviriam como escravos) e animais. Reunindo as suas forças em Coimbra, o rei português avançou em direcção ao Tejo, que cruzou a leste de Santarém, e continuou a avançar, atravessando o Guadiana e aventurando-se até perto de Sevilha. Por onde passava, deixava um rastro de destruição atrás de si. E não encontrou praticamente resistência, o que pode explicar o ter-se aventurado tão longe.

Em Abril, Afonso VII, o primo de Afonso Henriques, iniciara um cerco a Oreja, a nordeste de Toledo. Os governadores almorávidas de Córdova e de Sevilha reuniram um grande exército, a fim de lhe fazer frente, o que explica que os portugueses pudessem avançar facilmente e levando o Professor Miguel Gomes Martins (De Ourique a Aljubarrota, A Esfera dos Livros 2011) a considerar que os dois primos tivessem combinado as suas ações.

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Fosse como fosse. No regresso, Afonso Henriques terá cruzado o Guadiana perto de Mértola, continuando depois para oeste, a fim de evitar a cidade de Beja. Os danos provocados pela sua ofensiva devem, porém, ter sido de tal ordem, que o governador de Córdova decidiu afastar-se de Toledo, a fim de ir cortar o caminho aos portugueses. E assim se defrontaram os dois exércitos no Campo de Ourique, «uma vasta área delimitada pelas serras do Cercal e de Grândola a oeste, pela serra algarvia a sul e pelo Guadiana terminal a leste» (Miguel Gomes Martins, na obra citada).

Pouco se sabe sobre a constituição das duas hostes. As fontes portuguesas são escassas e, o que também é estranho, esta campanha não é mencionada em qualquer fonte muçulmana. Parece, no entanto, que o exército mouro era muito maior do que o cristão, a «Vita Theotonii» (Vida de S. Teotónio) refere que Afonso Henriques «derrotou cinco reis dos infiéis». Os historiadores atuais vêem algum exagero nestas palavras, se bem que, muitas vezes, os almorávidas se intitulavam de reis, sendo meros governadores de pequenas cidades.

«Terá sido nos momentos que antecederam a batalha que teve lugar o célebre episódio (…) da aclamação de Afonso Henriques (…) Erguido de pé sobre o seu escudo - à maneira germânica - pelos seus guerreiros, o príncipe, então com 30 anos, convertia-se, aos olhos dos que iriam lutar a seu lado, em rei». Este episódio (considerado “coerente e verosímil” por José Mattoso) teve certamente «um efeito profundamente moralizador no seio dos combatentes portucalenses» (Miguel Gomes Martins 2011).

Quanto à tática, Miguel Gomes Martins é de opinião de que a cavalaria pesada cristã (em contraste com os ginetes, os cavaleiros leves e ágeis dos muçulmanos) deve ter conseguido romper e desorganizar as linhas inimigas com grande sucesso. A derrota terá tido um grande impacto no seio dos almorávidas, já que o mesmo governador de Córdova, no ano seguinte, levou a cabo um fossado, no âmbito do qual atacou e arrasou o castelo de Leiria. E, em 1144, foi a vez de Soure.

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Cavaleiros muçulmanos representados na capa de Reconquista Cristã, de Pedro Gomes Barbosa (Ésquilo 2008).

A verdade é que Afonso Henriques não mais deixou de se intitular rei, obtendo, em 1143, a confirmação do primo, em Zamora, embora não devesse ter sido quebrado o laço de vassalagem (que aliás nunca foi oficializado em cerimónia, permanecendo ambígua a relação entre os primos). A verdade é que o nosso primeiro rei enviou, dois meses depois da Conferência de Zamora, uma carta dirigida ao papa, prometendo-lhe vassalagem e solicitando que o libertasse do jugo do imperador da Hispânia.




Nota: texto publicado originalmente aqui.

7 de julho de 2019

"Portugal-Krimis"

Krimi é a interessante palavra que na Alemanha se usa para livro policial. Portugal-Krimis são policiais portugueses. Estão na moda, aqui no país da Sra. Merkel. Estranho, não é? Não há notícia de livros portugueses com sucesso na Alemanha. Além disso, não se escrevem muitos policiais made in Portugal. Pois é, estes passam-se em Portugal, mas são escritos por… alemães!

São um sucesso editorial e muito recomendados agora para a época de férias. Por acaso, o meu marido já leu um deles: Lost in Fuseta.

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O autor, um alemão com o pseudónimo Gil Ribeiro, brinca com a palavra Lost, pois o seu investigador chama-se Leander Lost, um alemão que, na sequência de um intercâmbio policial (nem sei se isso existe), é colocado na Fuseta. Ou seja, a tradução directa do título não é “Perdido na Fuseta”, embora o Leander Lost se sinta muitas vezes perdido. Este investigador tem o síndrome de Asperger, o que o torna num polícia muito especial: tem uma memória fotográfica (muito útil, na sua profissão), não sabe mentir (o que, por vezes, é desvantajoso) e encara os acontecimentos destituído de emoção (o que lhe permite manter o sangue-frio em certas situações). Lost in Fuseta é a primeira aventura de Leander Lost por terras algarvias, mas a série já vai, entretanto, no terceiro volume.

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Tod in Porto (“Morte no Porto”), é o segundo caso do inspector Fonseca e da sua equipa da Judiciária. O autor é um alemão que vive há vários anos em Portugal e usa o pseudónimo Mario Lima (na Alemanha não se põem acentos).

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Mord auf Portugiesich (“Assassínio em Português”) passa-se numa pequena aldeia no Norte de Portugal (junto à costa) e tem a assinatura da jornalista alemã free-lancer Heidi van Elderen.

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Fado Fatal (dispensa tradução), outro policial situado no Porto, de Hanne Holms. Esta autora já publicou um Krimi passado na Toscana e outro em Maiorca. Agora, pelos vistos, foi a vez de Portugal.

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Letzte Spur Algarve (“Última pista: Algarve”), de Carolina Conrad, conta a aventura de uma jornalista alemã, filha de portugueses, chamada Anabela Silva, que resolveu mudar-se para a aldeia de origem dos seus pais (no interior algarvio). Trata-se de uma jornalista muito curiosa e logo se vê envolvida numa investigação policial comandada pelo comissário João Almeida. Parece que o enredo é apimentado com um caso amoroso entre os dois.

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Portugiesisches Blut (“Sangue Português“ - assinalado como "Lissabon-Krimi), de Luis Sellano, é a quarta aventura de um alemão, Henrik Falkner, que vive em Lisboa. Luis Sellano é (já adivinharam; e sem acento) o pseudónimo do autor alemão.

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Madeirasturm (“Tempestade na Madeira”, ou "Tempestade madeirense") tem autoria de Joyce Summer, o pseudónimo de uma autora de Hamburgo. Criou o comissário madeirense Ávila e este é o seu segundo caso.

Nota: texto originalmente publicado aqui.