Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

14 de novembro de 2020

Siddhartha

 


Não se põe em causa a qualidade literária e a beleza deste livro. Trata-se de um clássico, escrito por um dos autores mais conhecidos no mundo. Quem nunca ouviu falar de Hermann Hesse? E quem não sabe que Hermann Hesse ganhou o Prémio Nobel? Limito-me, por isso, a algumas reflexões que o conteúdo me suscitou.

Hermann Hesse era, sobretudo, um pensador, na incessante procura do sentido da vida e do significado de felicidade. Não encontrando respostas satisfatórias na nossa civilização ocidental, virou-se para a cultura indiana e os valores budistas. Também a sua personagem Siddhartha, um indiano, começa cedo essa procura, juntando-se, na companhia de um amigo, aos seguidores de Buda. Chega a conhecer pessoalmente o próprio mestre e vive, durante sete anos, segundo os seus preceitos.

Siddhartha aprende a dominar o desejo, a dor, a fome e a sede; fica imune a sentimentos e emoções. É esse o sinónimo de felicidade? Não necessitar de nada e não se deixar atingir por nada? Siddharhta acha que não. A resposta não pode estar no ignorar do nosso próprio corpo, em anular aquilo que somos. Por isso, Siddhartha deixa o grupo à volta de Buda, separando-se igualmente do seu grande amigo, e continua a sua busca.

Chegado a uma cidade, dá-se uma viragem inesperada na sua vida. Torna-se o homem de confiança de um comerciante rico, graças à sua inteligência e à sua disciplina. Conhece igualmente o prazer carnal, ao iniciar uma relação com uma concubina, na verdade, uma prostituta de luxo. Esta é, para mim, uma fraqueza desta obra-prima da literatura. Embora Hermann Hesse conceda a Siddhartha capacidade para admirar e respeitar a sua amante, ela mais não é do que uma conhecida fantasia masculina: uma mulher afável e inteligente, que ensina a um homem inexperiente tudo o que há a ensinar sobre sexo, não exigindo qualquer compromisso da parte dele. O texto não é muito claro quanto à possibilidade de ela continuar a servir outros clientes, mas depreende-se que sim, já que Siddhartha não sente qualquer tipo de responsabilidade em relação a ela.

Ao fim de sete anos, porém, Siddhartha sente-se desiludido com a sua nova vida. O zelo que ele põe em tudo quanto faz torna-se exagerado, ao ponto de ele se ir tornando um tiranete, exasperando os clientes e parceiros de negócios do seu patrão. A insatisfação de Siddhartha leva-o a querer mais e mais, chegando à conclusão que também não é o luxo que dá sentido à vida. Resolve então deixar o emprego, a cidade e, por muito que lhe custe, a concubina, que aprendeu a amar. E ela, continuando a corresponder à fantasia masculina, nem lhe revela que está grávida dele.

Siddhartha acaba por encontrar satisfação a trabalhar como barqueiro, transportando pessoas de uma margem para a outra de um rio (o qual se torna na metáfora da vida), observando a Natureza e ouvindo as histórias de quem transporta. Constata não precisar de mais nada para ser feliz. Passado uns anos (e sem me querer alargar muito sobre o enredo), toma conta do filho adolescente, depois da morte da mãe. Porém, habituado à vida luxuosa na cidade, o jovem é incapaz de se adaptar àquela vida simples, o que entristece o pai. Por outro lado, Siddhartha nada faz para se aproximar do próprio filho, acha que o rapaz tem de ver, por ele, as vantagens que o seu tipo de vida traz, em relação à vida citadina. O jovem, amargurado e triste, acaba por regressar à cidade.

Penso que Siddhartha, apesar de toda a sua sabedoria, falha como pai. O rapaz só o conhece quase adolescente (ou seja, o pai é um estranho para ele); vê-se, de repente, a ter de adotar um estilo de vida que não conhece e, para piorar tudo, o pai pouco fala, passa a vida, ou a exercer a sua profissão de barqueiro, ou muito sossegado, a meditar. Recordemos que o filho ainda não é adulto e acabou de perder a mãe, que o criou sozinha. Quando parte, a fim de regressar à cidade, Siddhartha conforma-se: enfim, o rapaz lá fez a sua escolha. Depois de nada ter feito pelo filho, acho esta atitude de um egoísmo atroz, não tendo nada a ver com a condição de pai.

Siddhartha mostra-nos que uma vida sem luxos pode ser (e talvez seja sempre) mais satisfatória. O equilíbrio e a felicidade devem ser encontrados dentro de nós. Por outro lado, tal posição parece incompatível com o assumir de compromissos, com uma vida familiar, que implica assumir responsabilidade por outros que dependem de nós. A meu ver, essa a grande falha de Siddhartha.

8 de novembro de 2020

História viva

 

Museu Casa da Roda Torre de Moncorvo

Museu Casa da Roda, Torre de Moncorvo © 2016 Horst Neumann

 

Antigamente, os bebés abandonados eram denominados de expostos. Existiam casas da roda um pouco por todo o país. Na Lisboa queirosiana, o hospital dos expostos da Santa Casa da Misericórdia era o destino de cerca de trezentos e cinquenta bebés por ano. Estes são vários registos de baptismo dessas crianças. Concentremo-nos no primeiro, o Assento nº 4:

1890-01-08 Carlos da Graça e Santos PT-ADLSB-PRQ-

«No dia oito do mês de Janeiro do ano de mil oitocentos e noventa, pelas duas horas e meia da tarde, entrou para o Hospital dos expostos de Lisboa, uma criança do sexo masculino, nascida em vinte e três de Dezembro do ano próximo findo, trazendo o seguinte: camisa, fralda e envolvedouro de algodão, um cueiro de baetilha branca, um embrião (?) de chita de riscas amarelas e encarnadas com raminhos pretos, touca de malha de lã cor de rosa e branca e um xaile de algodão em xadrez preto e branco. Foi hoje solenemente baptizado com o nome de Carlos pelo Reverendo José António Conceição Vieira, tesoureiro da Igreja da Santa Casa da Misericórdia; sendo padrinho o moço de capela Manuel de Oliveira Nunes. E para constar, lavrei este assento, que assino com o referido padrinho.

Padre Leonardo Avelino Ribeiro

Manuel de Oliveira Nunes»

Na barra do lado direito, foi, mais tarde, acrescentado o seguinte:

«Este exposto casou com Ana de Jesus Coelho, no dia 03 de Novembro de 1909, como consta do ofício do Reverendo prior de Assentiz, de 20 do corrente. Lisboa, 23 de Novembro de 1909. O substituto do Padre ??? Padre Fonseca»

A noiva, Ana de Jesus Coelho, tinha dezanove anos e o exposto, que, no registo de casamento, surge com o nome de Carlos da Graça e Santos, também ainda não completara os vinte. Casaram na freguesia de Assentiz, concelho de Torres Novas, a terra-natal da noiva. Carlos e Ana tiveram nove filhos. A terceira dessas crianças foi batizada com o nome de Deolinda e haveria de ser a minha avó materna.

É difícil de descrever a comoção sentida, quando finalmente encontrei o registo de batismo do bisavô Carlos. Não fazia ideia de que ele tinha estado na Santa Casa. Na família, sempre se disse que era filho de um padre, mas falava-se na freguesia do Olival, concelho de Ourém, onde a minha avó e, penso, os seus irmãos nasceram. Também se diz que o padre vivia com uma irmã e uma prima, sendo esta a mãe do filho dele, mas as pessoas ainda vivas não sabem dizer nomes, ou outros pormenores. Ou não querem dizer.

Ao encontrar o registo, senti-me muito próxima deste bisavô, que nunca conheci. A descrição das roupinhas faz-me pensar que estava bem tratado. Pergunto-me, porém, como se sabia a data do seu nascimento. Noutros registos, referem-se certidões que os bebés traziam consigo, passadas nos hospitais onde nasciam; outros nada traziam e são batizados, sem se referirem datas. No caso do meu bisavô, porém, há uma data de nascimento, sem se explicar de onde ela vem.

A pesquisa familiar é, para mim, fascinante, embora seja uma actividade que exige muito tempo, muita persistência e ânimo para ultrapassar desilusões de documentos perdidos, ou de perguntas por responder (além do esforço para decifrar estas escritas antigas). Ainda assim, em Portugal, a pesquisa está bastante simplificada. Na página https://tombo.pt/ tem-se gratuitamente acesso a muitos livros paroquiais digitalizados (e continuam a digitalizar-se os que faltam). É um excelente trabalho dos nossos arquivos, que me permite fazer esta pesquisa a 2.500 km do meu país, confortavelmente, em casa.

O meu lado materno é bastante variado, abrange V. N. de Gaia, Mealhada, Torres Novas e possivelmente Lisboa. Infelizmente, nunca vou ficar a saber onde nasceu o meu bisavô Carlos, nem quem eram os seus pais. Já o lado paterno é mais simples, pois quase toda a família é proveniente da freguesia transmontana do Lombo, concelho de Macedo de Cavaleiros. Numa certa linha, já cheguei ao século XVII, ao encontrar o registo de um casal que contraiu matrimónio a 14 de abril de 1698, Miguel Moreno e Catarina Alves, meus oitavos avós.

 

1698-04-14 Casamento Miguel Moreno e Catarina Alve

 

Não ando à procura de antepassados nobres, que não os tive. Mas, por algum motivo, fascina-me saber quem eles eram e tento imaginar as suas vidas. Ao mesmo tempo, aprendo bastante sobre o Portugal de antigamente, pois, como diz o Professor Mattoso: «O passado dos homens não foi só a sua vida pública. Foi também o jogo ou a luta de cada dia e aquilo em que eles acreditaram».

Não obstante, também do lado do meu pai vão ficar questões por esclarecer. À parte um trisavô filho de pai incógnito (precisamente, o trisavô Torrão!), tive uma bisavó espanhola, natural da freguesia de Fonfria, concelho de Alcanices. Acontecia bastante famílias espanholas assentarem arraiais em aldeias transmontanas. Contudo, no reino de nuestros hermanos, parece não existir uma página que me permita consultar os livros paroquiais online. Teria de ir ao arquivo de Zamora e passar lá um dia, ou dias, inteiros, a consultar os calhamaços. Isto, claro, se conseguisse ler o castelhano de séculos passados…

Fico com pena de nunca ter conhecido o bisavô Carlos, que foi depositado, ainda tão frágil, no hospital dos expostos. Nem sequer tenho uma fotografia dele. Mas tenho da mulher com quem ele casou, que aliás me lembro de visitar, em Porto de Mós, onde ela faleceu em 1976, tinha eu quase onze anos.

 

Ana Coelho.jpg

Bisavó Ana de Jesus Coelho, mãe da minha avó materna

(que esteve a 13 de outubro de 1917 em Fátima, no meio do povo que lá se reuniu e diz ter assistido ao milagre do sol)

28 de outubro de 2020

«Para eles, Trump é um Messias»

 Excertos de uma entrevista dada pelo sociólogo norte-americano Philip Gorski, Professor na Universidade de Yale, à edição de 11 de outubro de 2020 do Jornal Católico da diocese alemã de Hildesheim, em que se analisa o apoio incondicional dado a Trump pelos evangélicos norte-americanos:

Qual a razão de muitos evangélicos serem apoiantes incondicionais de Trump?

Para eles, o essencial é a proibição do aborto e do casamento entre homossexuais. Até podem criticar a política migrante de Trump, ou não aprovar o comportamento pessoal do Presidente - no fim, tudo isto é secundário. Aqueles dois temas estão acima de quaisquer outros.

Porque consideram eles esses temas tão mais importantes do que outros temas cristãos, como a justiça social, o clima, ou a proteção dos refugiados?

Isso explica-se, em parte, do ponto de vista psicológico. Muitos temas políticos permanecem abstratos para certos conservadores norte-americanos, como impostos, alianças internacionais ou proteção do ambiente. Têm dificuldades em estabelecer uma relação com questões desse tipo. Já no que concerne ao aborto ou ao casamento homossexual, estabelecem, de imediato, uma ligação emocional, porque veem aí uma ameaça aos seus valores familiares tradicionais. O casamento monogâmico e heterossexual é, para eles, muito central - pretendem manter a sociedade limpa de todos os comportamentos que não se coadunem com estes seus valores. Os Republicanos vêm propagando a ameaça a estes valores familiares nos últimos anos, a fim de espetar uma cunha entre os conservadores católicos e o Partido Democrata.

Como se explica que especialmente os evangélicos brancos se sintam ameaçados?

Para eles, os Estados Unidos da América são uma nação branca e cristã, fundada por Protestantes brancos e prósperos. Sentem esta identidade ameaçada pela secularização, pela imigração e pelos não-cristãos. Sentem-se realmente como o grupo mais ameaçado e perseguido dos EUA. E consideram necessitar de um protetor forte e impiedoso, que os defenda a todo o custo.

E esse protetor é Trump?

Exatamente. Muitos acreditam mesmo que Trump é um enviado de Deus, um instrumento de Deus. Trump é, para eles, um Messias. Comparam-no ao rei Ciro do Velho Testamento, que libertou os israelitas do cativeiro babilónico. Muitos evangélicos leva a Bíblia à letra e estabelecem permanentemente paralelos entre a política atual e o Apocalipse. Consideram estar no meio de uma luta entre o Bem e o Mal. Eles, os evangélicos, estão naturalmente do lado do Bem - os seus opositores políticos e culturais corporizam o Mal.

E Trump sustenta essa sua crença?

Sim, Ele vê o mundo tal como eles: divide-o entre amigo e inimigo, Mal e Bem. O seu princípio é olho por olho, dente por dente (…) Ficaria surpreendido se me dissessem que ele, em toda a sua vida, tivesse mais de uma hora de leitura da Bíblia. Mas, como todos os demagogos, ele possui grande capacidade de sentir como o público reage à sua pessoa e de escolher os temas que provocam a reação mais forte.

Quão importante é para os eleitores cristãos a manutenção da democracia?

Não tão importante como se possa pensar. Sobretudo os brancos evangélicos e muitos católicos conservadores vão tomando uma direção cada vez mais autoritária. Eles consideram inclusive a democracia ser um obstáculo que os impede de alcançar os seus fins políticos. Muitos dizem abertamente desejarem uma ditadura.

26 de outubro de 2020

Carta Encíclica "Fratelli Tutti"

 

Alguns pontos que considero interessantes (e importantes), da última Carta Encíclica do papa Francisco, publicada e 03 de outubro passado:

7. Quando estava a redigir esta carta, irrompeu de forma inesperada a pandemia da Covid-19 que deixou a descoberto as nossas falsas seguranças. Por cima das várias respostas que deram os diferentes países, ficou evidente a incapacidade de agir em conjunto. Apesar de estarmos superconectados, verificou-se uma fragmentação que tornou mais difícil resolver os problemas que nos afetam a todos. Se alguém pensa que se tratava apenas de fazer funcionar melhor o que já fazíamos, ou que a única lição a tirar é que devemos melhorar os sistemas e regras já existentes, está a negar a realidade.

11. A história dá sinais de regressão. Reacendem-se conflitos anacrónicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos. Em vários países, uma certa noção de unidade do povo e da nação, penetrada por diferentes ideologias, cria novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais.

15. A melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores. Usa-se hoje, em muitos países, o mecanismo político de exasperar, exacerbar e polarizar. Com várias modalidades, nega-se a outros o direito de existir e pensar e, para isso, recorre-se à estratégia de ridicularizá-los, insinuar suspeitas sobre eles e reprimi-los. Não se acolhe a sua parte da verdade, os seus valores, e assim a sociedade empobrece-se e acaba reduzida à prepotência do mais forte (…) Neste mesquinho jogo de desqualificações, o debate é manipulado para o manter no estado de controvérsia e contraposição.

18. Partes da humanidade parecem sacrificáveis em benefício duma seleção que favorece a um setor humano digno de viver sem limites.

27. Criam-se novas barreiras de autodefesa, de tal modo que deixa de haver o mundo, para existir apenas o «meu» mundo; e muitos deixam de ser considerados seres humanos com uma dignidade inalienável passando a ser apenas «os outros». Reaparece «a tentação de fazer uma cultura dos muros, de erguer os muros, muros no coração, muros na terra, para impedir este encontro com outras culturas, com outras pessoas. E quem levanta um muro, quem constrói um muro, acabará escravo dentro dos muros que construiu, sem horizontes. Porque lhe falta esta alteridade».

74. O facto de crer em Deus e O adorar não é garantia de viver como agrada a Deus. Uma pessoa de fé pode não ser fiel a tudo o que essa mesma fé exige dela e, no entanto, sentir-se perto de Deus e julgar-se com mais dignidade do que os outros (…) O paradoxo é que, às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes.

107. Todo o ser humano tem direito de viver com dignidade e desenvolver-se integralmente, e nenhum país lhe pode negar este direito fundamental. Todos o possuem, mesmo quem é pouco eficiente porque nasceu ou cresceu com limitações. De facto, isto não diminui a sua dignidade imensa de pessoa humana, que se baseia, não nas circunstâncias, mas no valor do seu ser. Quando não se salvaguarda este princípio elementar, não há futuro para a fraternidade nem para a sobrevivência da humanidade.

121. Por conseguinte, ninguém pode ser excluído; não importa onde tenha nascido, e menos ainda contam os privilégios que outros possam ter porque nasceram em lugares com maiores possibilidades. Os confins e as fronteiras dos Estados não podem impedir que isto se cumpra. Assim, como é inaceitável que uma pessoa tenha menos direitos pelo simples facto de ser mulher, de igual modo é inaceitável que o local de nascimento ou de residência determine, por si, menores oportunidades de vida digna e de desenvolvimento.

180. Reconhecer todo o ser humano como um irmão ou uma irmã e procurar uma amizade social que integre a todos não são meras utopias. Exigem a decisão e a capacidade de encontrar os percursos eficazes, que assegurem a sua real possibilidade. Todo e qualquer esforço nesta linha torna-se um exercício alto da caridade [nesta passagem, a tradução alemã utiliza a expressão “amor ao próximo” - Nächstenliebe - que considero mais apropriada do que “caridade”].

 

A Encíclica completa pode ser lida aqui:

http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html#_ftn2

24 de outubro de 2020

Cartas por um Sonho

Este livro, da escritora espanhola Ángeles Doñate, é agradável de ler, mas eu esperava mais dele, já que parte de uma ideia muito interessante e tem como mote uma frase de Saramago, “jamais uma lágrima manchará um email”, (da qual aliás já li outras versões, mas é esta que a autora cita).

Numa pequena localidade espanhola, Sara, a funcionária dos correios, é informada de que será transferida para Madrid, já que não compensa ter uma estação de correios na sua aldeia, num tempo em que quase ninguém escreve cartas. A mudança causa-lhe muitos transtornos, pois cuida sozinha de três filhos em idade escolar e pensa que tudo será muito mais complicado numa cidade grande, desprovida dos seus amigos e do ambiente familiar que ali se vive. Desabafa com Rosa, a sua vizinha idosa, que fica igualmente muito preocupada. Rosa é viúva, nunca teve filhos e Sara, com as suas crianças, são para ela uma verdadeira família. Tem então uma ideia: iniciar uma corrente de cartas, a fim de mostrar à Central, em Madrid, que, naquela aldeia, ainda se escreve muito. Numa carta anónima, explica o problema de Sara, e pede à destinatária que não quebre a corrente. Mas Rosa não resiste em usar aquela carta para resolver igualmente conflitos interiores. Endereça-a a uma amiga de juventude que deixara a aldeia há sessenta anos para nunca mais voltar. Rosa aproveita para dar livre curso a palavras que guardou durante todo aquele tempo dentro de si. A casa onde a amiga vivera, um pouco afastada da aldeia, e que permanecera vazia, está de novo ocupada, desde alguns dias. E, querendo acreditar que a amiga regressou, Rosa envia para lá a carta.

Este seu gesto dá início a uma corrente com consequências inimagináveis, já que os autores das cartas, sempre anónimos, seguem-lhe o exemplo e aproveitam para dar livre curso a palavras que guardam dentro de si, revelando paixões escondidas e sonhos que ficaram por realizar.

Penso que todo este potencial poderia ter sido mais bem aproveitado. Alguns conflitos são resolvidos em estilo cor-de-rosa, que roça a telenovela. Além disso, não me parece que tal corrente, que resulta numa carta de quatro em quatro dias (mais ou menos) resolvesse qualquer problema.

Por outro lado, o livro tem momentos francamente bons e possui o encanto de, além de uma frase de Saramago lhe dar o mote, começar com o poema de Álvaro de Campos: «Todas as cartas de amor são / Ridículas».

 

Nota: li este livro na tradução alemã Der schönste Grund, Briefe zu schreiben.



 

31 de agosto de 2020

Morte no Porto*

 

Depois de Barco Negro, li mais este policial de Mario Lima, pseudónimo de um escritor alemão residente em Portugal. Confirma-se o afeto que ele tem pelo nosso país, nomeadamente, pelo Norte, onde vive. Assim como se confirma o seu talento para transmitir a atmosfera da cidade do Porto. Em Barco Negro, transportava-nos para o meio de um inverno frio e chuvoso, à volta da refinaria de Leça da Palmeira; em Morte no Porto*, vemo-nos num verão escaldante, nas margens do rio Douro, tendo por companhia os barcos rabelos enfeitados de galhardetes. Insisto em que é muito interessante ver o nosso país através dos olhos de um estrangeiro, pois apercebemo-nos de pormenores únicos que os nossos autores raramente mencionam, talvez por os acharem banais. Quando se realçam, porém, constatamos que são tudo menos isso. Quem, entre nós, escreveria que esses barcos típicos se enfeitam de galhardetes? Apenas se mencionariam os rabelos no rio Douro.

Mais uma vez, Mario Lima consegue construir suspense, num policial bem pesquisado, envolvendo cidadãos brasileiros residentes no Porto. O autor entra mesmo na cena mafiosa de São Paulo, pois os crimes, em Portugal, têm a ver com ajustes de contas entre bandos. A PJ do Porto é apresentada como um grupo dinâmico, chefiado pelo inspetor Fonseca, na busca da verdade, digna de surgir em qualquer série do género. Quando, porém, olho para a sede daquela polícia, com uma das entradas mais feias que vi em toda a minha vida, pergunto-me se a PJ será assim tão glamorosa...

A única experiência que tive com a judite portuense foi o presenciar de rusgas que se faziam a um café de Vila Nova de Gaia, no início dos anos 1980. Esse café ficava às portas do liceu que eu frequentava e era um autêntico centro de tráfico de droga. Nós, os alunos do liceu, íamos lá tomar café, ou lanchar, convivendo lado a lado com os traficantes e os consumidores de charros (que eram fumados com toda a descontração, como se de simples cigarros se tratasse), chegávamos mesmo a ser revistados pela PJ. Tudo isto seria impensável, nos nossos dias, só mesmo possível num país ainda a viver o rescaldo de uma revolução.

Nessas alturas, os agentes da PJ (também femininos), pareciam-me pessoas fechadas, mesmo embrutecidas. Surgiam à paisana, mas não enganavam ninguém, com a sua maneira de se moverem e de olharem. E o seu vestuário também destoava, muito formal e tão fora de moda… Bem, lembremos que estas cenas foram presenciadas há cerca de quarenta anos e a PJ talvez possuísse ainda tiques de certas polícias do tempo da ditadura. Muito terá mudado, entretanto. E, pela maneira como Mario Lima escreve, eu diria que conhece o meio.

Além disso, não esqueçamos que se trata de ficção, um interessante e bem construído policial, digno de ser traduzido para português. Quem sabe alguma editora portuguesa ainda se venha a interessar por Mario Lima…

 

*Título traduzido por mim, do alemão (Tod in Porto), por não haver versão portuguesa.

17 de agosto de 2020

O Alienista e Outros Contos


Nestes vinte contos, Machado de Assis abre-nos a janela para o século XIX brasileiro, tanto citadino, como provinciano. No seu poder de observação, na sua ironia e na sua crítica velada aos costumes, fez-me lembrar Eça. Mas o mundo de Machado de Assis é outro, um mundo ainda sob um regime esclavagista.

São livros destes que nos ensinam a entender melhor certas revoltas de hoje em dia. Depois de ler um conto como O Caso da Vara, fica-se com um nó na garganta e com vontade de pedir desculpa aos povos escravizados pelos brancos. Machado de Assis não emite qualquer juízo, limita-se a apresentar-nos as situações. É quanto basta.

Mas também a crítica à sociedade hipócrita e materialista é magistral, por exemplo, em O Alienista, onde se pode ainda observar os efeitos da manipulação e o desejo que as pessoas têm em acreditar em alguém que lhes parece poderoso e capaz de resolver os seus problemas.

Há ainda lugar para desejos adolescentes, para a importância de manter as aparências e para a tragédia, em A Cartomante, que mais uma vez espelha a insegurança humana.

Como se costuma dizer, nada como ler os clássicos. Para nos entendermos melhor, assim como o mundo que nos rodeia.


3 de agosto de 2020

Na Casa do Rei Dragão - A Saga do Rei Dragão - Vol. I


Li este livro com bastante curiosidade, pois, muitas vezes, penso em escrever “Fantasia”, ou seja, situar um enredo num local imaginado, com características medievais. Tenho até muitas ideias para um livro (ou vários) desse género, mas confesso que é um tipo de literatura a que não me tenho dedicado. Na Feira do Livro do Porto, há alguns anos, encontrei os dois primeiros volumes da Trilogia do Rei Dragão, de Stephen Lawhead, por um preço baratinho. 

Falo hoje do primeiro volume. O facto de o autor ser conhecido e ter escrito romances históricos (que aliás ainda não li) aumentou-me a expectativa. Fiquei, porém, desiludida. O livro lê-se bem, cria suspense, há várias aventuras e peripécias. Mas apresenta soluções banais para conflitos complicados. Além disso, o autor não prima pela verosimilhança e nem tudo tem a sua razão de ser. O problema é que eu detesto quando me apresentam situações empolgantes e cheias de perigo, mas desnecessárias, ou mal engendradas. Dou um exemplo:

O protagonista é um jovem inexperiente que se vê envolvido numa missão perigosa. O destino guia-o a um guerreiro famoso, mas aposentado, por assim dizer, que resolve acompanhá-lo, pois apercebe-se de que o rapaz não está de todo preparado para os perigos que terá de enfrentar. Ora, logo na sua primeira aventura, é o guerreiro experiente que se vê em grandes apuros e o rapaz obrigado a salvá-lo. Aqui, o leitor pergunta-se porque diabo o jovem não cumpre a sua missão sozinho. Enfim, ele precisará mais tarde da ajuda do guerreiro. Mas não tanto como isso…

 Mesmo tratando-se de literatura juvenil, penso que deveria haver mais cuidado na construção do enredo. O segundo volume, que eu planeara ler de seguida, terá de esperar, dando, para já, lugar a literatura mais exigente.