Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

11 março 2015

Lousas, 11 de Março e Verão Quente



Alma Nostra


Ainda sou do tempo em que se usavam lousas na escola primária: um pedaço de ardósia, de forma quadrada ou retangular, dentro de um caixilho de madeira. Escrevíamos com um ponteiro, também de lousa, que se partia facilmente. Nada simples, para crianças de seis ou sete anos. E, embora fosse barato e a professora costumasse ter muitos, guardados num armário da sala de aula, torcia o nariz e havia sempre uma repreensão, quando tal acontecia. Se o acidente se repetisse com alguma frequência, a criança tinha um problema.

Também as lousas se partiam facilmente. Por vezes, ao abrir a pasta, no início da aula, dava-se com a lousa partida. E logo nela tínhamos feito o trabalho de casa! A lousa servia para os trabalhos de casa e para fazer exercícios de aritmética, por se poder apagar com facilidade o que lá se escrevia. Normalmente, com cuspo. Só depois de estar tudo direitinho, se copiavam os exercícios para o caderno, onde se escrevia com esferográfica, ou até com caneta de tina permanente. Assim nos ensinavam a sermos asseadas e a ter o caderno em ordem.

Engana-se, porém, quem julgue que estou a suspirar pelos bons velhos tempos, em que as crianças aprendiam a fazer cálculos de cabeça e a ser asseadas. Vivíamos subjugadas, com terror de darmos um passo em falso, com medo que nos batessem. E, quando olho para a fotografia tirada na minha quarta classe, só vejo uma miúda tímida, submissa e assexuada.


Esta fotografia foi tirada no inverno de 1975, talvez em março, já não me lembro. O que é certo, é que o país andava em convulsões, com o contragolpe de 11 de março e a consequente viragem à esquerda, a radicalização que provocou nacionalizações em massa e que culminaria no Verão Quente, com a guerra civil a espreitar a cada canto.

Eu pareço viver a leste de tudo isso. E vivia! Eu era ainda uma menina de escola salazarista.


3 comentários:

Cláudia da Silva Tomazi disse...

Cristina Torrão e "medo" não estabelece relação a priori, possivelmente a língua alemã tem modo a influenciar ansiedade porque desconhecê-la a perceber difere a dominá-la; está exige (de facto) bom talento em assimilar vestígio cultural ou seja, demanda tempo.

Quanto a educação certamente o Europeu primou-a excelência (a longo) naquela sociedade o zelo, patamar a herança conquistada compatível com modelo artístico arquitectónico a engenharia o direito humano a integridade saudável a postura e princípios, influência o bem querer a satisfação.

Bartolomeu disse...

Assexuada???
Mesmo que tivessemos a veleidade de não nos colocarmos na época e nos guiarmos somente pela "onda" actual de igualdade dos sexos, portanto, não dando importância aos "vivos" que ornamentavam os bibes das meninas, seríamos ceguinhos se não notássemos os traços de feminilidade do teu rosto. Belos, inocentes e indiscutivelmente de menina, patentes no olhar, na configuração do rosto e na linha dos lábios, no sorriso também. E deixa-me acrescentar: não me parece nada submissa; a tua postura, ao contrário daquilo que é comum observar-se nas crianças de mesma idade, é erecta, firme, afirmativa, as mãos, o tronco e a cabeça estão corretamente posicionados e refletem até uma imagem de afirmação. Relativamente às lousas de que também fiz uso, acho que tanto nós como os nossos pais, fomos uns sortudos. Já reparaste que tivemos i-pad's e i-pod's com as mesmas funções básicas e a um preço de longe mais acessível?! ;) ;) ;)

Cristina Torrão disse...

Muito me dizes, Bartô! Eu sempre detestei esta fotografia, mas forcei-me a publicá-la, numa espécie de desafio aos meus fantasmas ;)
Agora, começo a pensar que essa minha opinião desfavorável talvez se deva ao meu irmão, que sempre mangou da foto e me fez ter vergonha dela.
Enfim, o peso (e a idiotice) dos irmãos mais novos...
Obrigada pelas tuas palavras ;) ;)