Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

04 março 2015

Os Segredos de Jacinta - Excertos (14)



A moura regateou o preço na língua dos infiéis. Jacinta nunca a ouvira falar assim. Também Zaida tinha o seu passado, crescera num outro mundo, aprendera as suas primeiras palavras num outro idioma. Teria nascido em berço rico, ou pobre? Que vida levara, antes de ser feita cativa e trazida para a terra dos cristãos?

Jacinta sabia como se tratavam as mouras cativas, principalmente, as formosas. Quantos Fuças houvera na vida de Zaida? Quantas vezes tivera ela de passar por tal tormento?

Finda a transação, as três encantavam-se com as suas compras, também Rosinha exibia orgulhosa a pequena bracelete que Zaida lhe oferecera como prenda de anos. Completava os seis, a mãe dizia que ela nascera «pela Páscoa». Jacinta ia ficando para trás, tentando segurar as lágrimas.

A moura aguardou-a, deixando as outras adiantarem-se, e disse-lhe:

- Também devias ter comprado alguma cousa, para te alegrares.

Jacinta olhou-a, começou a murmurar:

- Peca-se, quando se escolhe o caminho do mal. Mas como é, quando não se tem escolha?

- Que dizes?

- Supõe que vamos por uma estrada fora, que, num certo ponto, se divide em duas. Dizem-nos que a da direita leva a anos de sacrifício, mas, no fim, à salvação. A da esquerda leva-nos a anos de folia e prazeres, mas, no fim, à condenação. Sabemos que pecamos se nos deixarmos levar pela folia. Mas… E se não nos dão escolha? Se nos encaminham para uma estrada que nunca se bifurca e somos obrigados a percorrê-la até ao fim, seja ela qual for? Pecamos, mesmo que escolhêssemos outra, tendo essa oportunidade?

Zaida olhava-a, agora, igualmente séria. Jacinta acrescentou:

- Nem a D. Mafalda, uma donzela tão nobre, se permite escolher o rumo da sua vida. Temos de nos sujeitar àquilo que decidem por nós… Ou àquilo que nos fazem…

Apesar de os olhos da moura não poderem ser mais negros, Jacinta viu uma sombra de tristeza e sofrimento perpassá-los. Por fim, Zaida murmurou:

- Estamos todos nas mãos de Deus… Não podemos cair mais fundo do que isso…



3 comentários:

Cláudia da Silva Tomazi disse...

Bom dia Cristina, este nome "Zaida" estaria a ser comum na idade média?

Cláudia da Silva Tomazi disse...

A princípio peço-lhe desculpa sei que escrever demanda tempo e as vezes, importuno-a com perguntas e também, (meu gosto) a estudar aprofundado o assunto passa longe a exemplo Idade Média estudo-a e, sei o que sei o reconhecendo através a diferentes civilizações e há o que demonstra a fidelidade deste dado a História me é agradável.

Cristina Torrão disse...

Olá, Cláudia, não peça desculpa, a curiosidade leva as pessoas mais além ;)
Sim, o nome Zaida parece ter sido comum, pelo menos, entre as mouras que habitaram a Hispânia. Já li o nome várias vezes em livros da especialidade. Zaida também se chamava uma barregã de D. Afonso VI, o pai de D. Teresa e avô de D. Afonso Henriques. Dela ele teve um filho, que até legitimou, ao mandar batizar a Zaida, para casar com ela. Era o único varão de D. Afonso VI, por isso, ele o nomeou seu herdeiro. Chamava-se Sancho e, infelizmente, morreu antes do pai, numa batalha. Se ele tivesse mesmo sucedido ao pai, a História teria sido bem diferente, pois acabaram por ser as filhas de D. Afonso VI que tomaram conta dos territórios, entre eles, o condado Portucalense.