Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

27 fevereiro 2015

Moolb O Reverso




«Um dos problemas de Inverso, Reverso ou Anti-Bloom, era saber se algum dia poderia igualar-se a Bloom» (p. 59).

O nome Bloom é paradigmático, na literatura. Originalmente personagem de Ulisses, de James Joyce, surge-nos em Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares. Sobre Moolb, o seu inverso, criado por Pedro A. Sande, paira ainda o fantasma de Harold Bloom, cujo humanismo, segundo Terry Eagleton, um teórico da literatura, «sofreu as pressões agónicas» das doutrinas de Marx, Freud e do pós-estruturalismo, não sendo possível «uma reversão a uma fé humana optimista, serena», (citações que me foram fornecidas pelo autor de Moolb).

Este ponto de partida de Pedro A. Sande revela o carácter filosófico da sua obra, onde a procura desemboca em desilusão. Através de uma viagem à Índia, um território que já foi considerado quase mágico (para nós portugueses, especialmente: o destino de Vasco da Gama; o mito camoniano), a antítese da nossa civilização (onde os hippies pensavam encontrar o sentido da vida), Moolb anda à procura do seu EU, sendo esta palavra igualmente a sigla de European Union, um paralelo interessante estabelecido por Pedro A. Sande. Como europeus, o nosso eu está intimamente ligado à cultura deste continente, que se diz unido, mas numa união que toma rumos cada vez mais obscuros. Moolb anda à deriva, assim como a União Europeia. Pedro A. Sande aproveita para fazer uma crítica mordaz ao sistema. E à sociedade: «se o homem culto desconhece o homem inculto poderá dizer não ser ignorante?» (p. 58).

A solução, porém, parece também não estar na antítese. Moolb não encontra resposta, regressa desiludido. O exótico fascinou-o, mas, ao mesmo tempo, impressionou-o a miséria e certas atrocidades de que foi testemunha. Resta à condição humana continuar a procurar, vagueando eternamente, na esperança de encontrar aquilo que deseja.

«Nesta Índia que habitamos nem todos somos castos ou produtos de castas. Nesta Índia que habitamos rumam naus e caravelas, por entre nevoeiros, à procura do que nos faça especiais» (p. 47).


25 fevereiro 2015

Os Segredos de Jacinta - Excertos (13)



Jacinta abriu igualmente os braços e ensaiou umas voltas. Não tardou, porém, a parar, muito tonta. A moura lançou, no meio dos seus rodopios:
- Assim que te sentires recobrada, recomeça! Se quiseres ser bailadeira, tens de te acostumar, quanto mais voltas, melhor.
Jacinta assim fez. De braços abertos, dava voltas e mais voltas.
Diogo e Rosinha abeiraram-se, fascinados, como agem as crianças quando veem adultos a soltarem-se como elas. A pequena Rosa decidiu imitar as duas e pôs-se a rodopiar, de braços abertos, dando gritinhos de prazer. Mas também cedo perdeu o equilíbrio, foi de encontro a Jacinta e as duas caíram na areia, soltando gargalhadas. Zaida puxou-lhes pelos braços:
- Mas que ronceiras vós me saístes! Erguei-vos, vamos!
Recomeçaram as três a rodopiar, rindo de satisfação. Diogo, que até aí mantivera a pose, não se conseguiu segurar mais e os quatro rodopiavam, de braços abertos, olhos fechados e cara levantada ao sol. Por vezes, iam de encontro uns aos outros e caíam, para se tornarem a erguer, numa galhofa pegada.
Jacinta sentia-se inebriada de alegria e liberdade, como se voasse. A felicidade suprema consistia em rodopiar ao sol, de cabelos soltos e braços abertos, gargalhando a seu bel-prazer. Era tão simples! Porque não se soltavam as pessoas mais vezes, alegrando-se apenas por estarem vivas, rindo a bom rir, até ficarem tontas, até perderem o ar?



23 fevereiro 2015

A Citação da Semana (49)

«Educação (cultura) é a capacidade de conseguir ouvir quase tudo sem perder a calma nem a autoconfiança».

Robert Frost


20 fevereiro 2015

Danos Colaterais


Daqui


Estas crianças parecem ter uma boa vida. Estão bem alimentadas, bem vestidas e lavadas. Porém, reparando nos seus olhares (é tão importante reparar nos olhares!), constatamos que algo os incomoda. Os olhos são profundamente tristes, desiludidos, um tanto desconfiados.

Estas crianças foram simplesmente abandonadas! Não só pela família, como por toda a aldeia onde viviam. A razão? Algum seu familiar adoeceu com ébola, ou elas próprias apresentaram sintomas: febre, vómitos, dores nas articulações. Na verdade, muitas nem contraíram o ébola! Quantas outras doenças há com os mesmos sintomas?

Para estas crianças, não costuma haver regresso. As portas fecham-se-lhes, sentem na pele a frieza, a recusa, a segregação. Vagueiam pelas ruas e, se têm sorte, são recolhidas numa aldeia SOS, como estas, em Freetown, na Serra Leoa.

O monge salesiano alemão Lothar Wagner é uma das pessoas que se ocupam destes “órfãos”, lhes tentam incutir nova coragem, gosto e confiança na vida. O sucesso não está garantido. Mesmo os fisicamente saudáveis, quedam-se sem iniciativa, queixam-se de falta de apetite, alguns passam a vida a chorar silenciosamente, ou mantêm-se apáticos.

Já não se fala de ébola, na Europa e nos Estados Unidos. Depois da histeria de alguns casos (meu Deus, a doença já está entre nós!), o perigo passou. É como se o ébola estivesse debelado. Apesar de a situação estar mais ou menos controlada, porém, o ébola continua a matar. E a condenar crianças ao abandono.




18 fevereiro 2015

Os Segredos de Jacinta - Excertos (12)


- Não te queres tornar uma de nós?
Jacinta olhou a moura tão atónita, que esta acrescentou:
- Ou julgas-te preciosa demais? Afinal, estiveste num convento… E deves saber ler e escrever, guardas esse teu livrinho como se de um tesouro se tratasse.
Jacinta remeteu-se ao silêncio, lutando consigo própria. Estava sozinha no mundo, valia menos do que um cão de pastor, ou uma vaca de camponês. Mais cedo, ou mais tarde, haveriam de abusar dela, como o Fuças fizera. Também nessa altura ela se esforçara por ser humilde e recatada. E de nada adiantara!
Não seria melhor passar da defesa ao ataque? Várias vezes, constatara que o mal não estava nos atos em si, mas nas circunstâncias em que ocorriam. Como soldadeira, poderia, pelo menos, escolher com que homem se deitar. E ainda ganharia dinheiro com isso.
Que mais lhe restava, como mulher, esgotadas que estavam as possibilidades do casamento e do mosteiro? Possibilidades que desperdiçara, fosse por azar, por burrice, ou por ruindade…
Olhou para Rosinha, de apenas cinco anos, que corria livre e feliz, pela areia. A única hipótese daquela catraia era tornar-se soldadeira, todas as outras lhe estavam vedadas. Porque condenava Deus crianças doces e inocentes a tal destino?
Não passaríamos todos de gotas de chuva a vaguear ao sabor do vento…
- Crês que me podias ensinar a bailar?
Zaida, que, perante o silêncio dela, tornara a concentrar a sua atenção no mar, mirou-a crítica. Depois, considerou:
- Bem, és tão alta como eu e, embora sejas magra, pareces-me bem-feita. Além disso, – pôs-lhe a mão debaixo do queixo, obrigando-a a erguer a cabeça, – tens uma pele clarinha e mimosa. Há homens doudos por isso. E esses olhos de gata também os enfeitiçam. – Recolheu a mão e acrescentou: - Desprende lá os cabelos!



17 fevereiro 2015

Quem é o mais medroso?

Imagem Daqui

O Carnaval alemão (sim, aqui também há Carnaval) destaca-se, não pelas suas sambistas, que não as há (coitaditas, não teriam a mínima hipótese, no meio da neve e de temperaturas negativas ou a rondar os zero graus), mas pelas piadas socio-políticas, muitas vezes, verdadeiramente satíricas. As línguas afiadas fazem-se notar, não só nos desfiles de carros alegóricos, mas também em festejos e eventos dentro de portas, em que humoristas têm a oportunidade de mostrar o que valem, perante assistências, por vezes, de alto nível, quando delas faz parte a nata política da nação, que aliás aceita as críticas com excelente desportivismo.

Este ano, como não podia deixar de ser, os humoristas dividiram-se entre aqueles que cederam ao terrorismo islâmico, argumentando que há um limite para a liberdade de imprensa, e aqueles que não se deixam intimidar.

A propósito disto, achei este cartoon muito significativo. Os desfiles do Carnaval de Colónia, os mais famosos, pautam-se, este ano, pelo cuidado. E, na pequena cidade de Braunschweig, houve um contratempo, no fim-de-semana, quando o desfile foi cancelado, à última da hora, por uma ameaça terrorista, que provou ser falsa.

No cartoon, alusivo ao Carnaval de Colónia, retrata-se uma disputa entre os medrosos. Vê-se alguém que segura o dístico Je suis vorsichtig - a palavra vorsichtig significa cuidadoso, ou cauteloso -, enquanto alguém reclama o título de mais medroso, afirmando: nós somos os mais cagarolas! Os de Braunschweig só cancelaram o seu cortejo para que soubéssemos da existência do dito.


16 fevereiro 2015

13 fevereiro 2015

Uma Outra Voz



Este foi o terceiro Prémio LeYa que li e, de longe, do qual eu gostei mais. Lembrei-me muito de Alice Munro e é interessante constatar que o anúncio da vencedora do Nobel se deu poucos dias antes deste LeYa.

Estou a comparar as duas escritoras, não tanto pelo estilo, mas pela sua maneira de dar conta de um quotidiano que, muitas vezes, só à superfície é inofensivo, ou não passível de ser contado. Na minha opinião, qualquer vida é digna de ser contada, depende da maneira como se conta. Nesta nossa ânsia de vivências e sentimentos cada vez mais sofisticados, esquecemo-nos das pequenas coisas do dia-a-dia, cheias de significância. O mérito de Gabriela Ruivo Trindade e de Alice Munro é, a meu ver, pegar nesses pormenores e trazê-los à luz.

Não resisto a repetir o que escrevi na opinião a A Vista de Castle Rock: «romancear as tragédias da Humanidade, como o Holocausto, as guerras, as ditaduras, etc. é muito importante (contra o esquecimento) e dá livros espetaculares. Mas não menos importante é trazer para a luz os escombros do dia-a-dia: vitórias e derrotas, ilusões e desilusões, surpresas e rotinas, conversas e silêncios, esperanças e medos, etc». Compreendo que esta não seja a preferência de muita gente, mas Gabriela Ruivo Trindade tocou, no meu caso, no ponto certo. Apaixonei-me por este livro e largava-o sempre contrariada, quando me via obrigada a fazer uma pausa na leitura.

A ação centra-se em Estremoz, contando a vida de uma família (ou episódios dela) entre os fins do século XIX e 1978. Gabriela Ruivo Trindade revela especial sensibilidade e capacidade de se colocar na pele de várias pessoas. Aprecio muito esta qualidade num(a) escritor(a), pois cada um vê o mundo com os seus próprios olhos. Particularmente interessante, achei as diferentes perspetivas no relato do quotidiano de uma família, conforme se trate do filho, ou da mãe. A autora é licenciada em psicologia, o que penso ter contribuído para essa sua capacidade.

Gostei igualmente da transcrição das páginas de um diário real, no fim.

Adenda: como se pode ver, na caixa de comentários, a própria autora chama a atenção para o facto de que as passagens do diário também são ficção. Enfim, liberdades de escritora. A leitura do livro continua a recomendar-se.


Nota: a quem esteja interessado, a minha opinião sobre os outros dois Prémios LeYa aqui e aqui.


12 fevereiro 2015

Apresentação



Sessão de apresentação da obra Princípios do Socialismo à volta de Antero, de Francisco Castro Rego, em Coimbra.

E porque nesse dia se assinala o 50º aniversário do assassinato pela PIDE do General Humberto Delgado, será feita uma evocação a propósito.



11 fevereiro 2015

Os Segredos de Jacinta - Excertos (11)



Quando se soube que D. Mafalda tencionava assistir à missa na Sé, foi grande a romaria que para lá se dirigiu. Em dias desses, organizava-se uma ponte de barcas sobre o Douro, a fim de permitir o acesso ao povo vindo de Gaia e dos  povoados adjacentes, uma travessia perigosa, sobretudo para velhos e crianças, havendo sempre vítimas a lamentar.

Naquele domingo cinzento de novembro, o grupo do jogral Francisco Lopes de Braga foi autorizado a atravessar o Douro na barcaça do alcaide Paio Guterres. Jacinta entrava, enfim, no burgo de que tanto ouvira falar desde que nascera. Juntaram-se ao povo que subia a longa escadaria incrustada na colina de granito e que, do cais, dava acesso à Porta das Mentiras.

O burgo, em si, não era grande. As muralhas, construídas em função da catedral e da paróquia que a rodeava, não chegavam a ter uma milha de perímetro, devendo-se a riqueza e a fama do Porto à atividade mercantil que se desenrolava nos cais das duas margens e que envolvia os habitantes de uma vasta região.

Embrenharam-se no labirinto de ruelas e vielas, com os seus cheiros a dejetos. Da Terra de Paiva, Jacinta conhecia os odores da agricultura e dos animais, mas na fetidez própria dos aglomerados urbanos imperavam os excrementos humanos e as águas inquinadas deitadas pelas janelas, ao grito de «água vai». Os detritos acumulavam-se nas vielas, que só secavam completamente no estio. O povo não tinha outro remédio senão enfiar os sapatos e os socos, ou mesmo os pés descalços, na lama malcheirosa.

Não havia dificuldade em encontrar o caminho, já que todos se dirigiam para o Largo da Sé, ansiosos por pousar os olhos na donzela, vinda de uma distância que nenhum deles estava em condições de calcular, a fim de contrair matrimónio com el-rei D. Afonso, tornando-se, assim, na primeira rainha de Portugal, reino de cujas dimensões, aliás, também ninguém fazia ideia.