Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
31 de dezembro de 2025
28 de dezembro de 2025
Pela Europa
Faço hoje uma pausa nas Rapidinhas de História, voltarão no próximo ano. E aproveito para pôr aqui outro vídeo: "Da Alemanha até Portugal, em três minutos". Uma viagem pela Europa sem fronteiras. Para quem gosta de liberdade.
Trump e Putin são psicopatas invejosos. O seu discurso anti-Europa é apenas mais um, entre os disparates que debitam, todos os dias. Esperam desmoralizar-nos. E não podemos deixar que isso aconteça.
Faço viagens entre a Alemanha e Portugal, maioritariamente de carro, há trinta e três anos. Sinto-me bem-vinda em qualquer local, sou uma europeísta convicta. Não imagino outro lugar do mundo, onde se viva melhor, com mais liberdade.
Mensagem de esperança para 2026:
Viva a Europa!
21 de dezembro de 2025
18 de dezembro de 2025
O desmoronar de mitos ("mais vale tarde do que nunca")
Através da RTP-Play, vi ontem o primeiro episódio da série "Visita Guiada" dedicado a D. Afonso Henriques e que, na televisão portuguesa, foi transmitido a 6 de outubro passado. Com a colaboração do Professor e Historiador Luís Carlos Amaral, da Universidade do Porto, vi com satisfação confirmadas muitas das informações que vou divulgando nas minhas Rapidinhas de História.
As quatro mais importantes:
1 - A ligação de D. Teresa à nobreza galega não possuía apenas um aspeto sentimental. D. Teresa seguia um plano ambicioso: pretendia reconstituir o antigo reino da Galiza, que pertencera a seu tio Garcia, e que incluía os condados Portucalense e o de Coimbra. D. Teresa entendia que este reino fazia parte da sua herança.
2 - D. Afonso Henriques recebeu de seus pais um condado organizado e forte, situação conseguida ao longo de trinta e quatro anos: governo conjunto de D. Teresa e D. Henrique - dezoito anos; governo de D. Teresa viúva - dezasseis anos.
3 - Não está historicamente provado que, à altura de São Mamede, já houvesse um projeto de reino português.
4 - Em Zamora, em 1143, o imperador Afonso VII, primo de Afonso Henriques, não o libertou da ligação vassálica, ou seja, ficou comprometida a independência de Portugal.
Muito mais haveria a dizer sobre a desmontagem de vários mitos que duraram séculos e que o Estado Novo realçou e divulgou (e se se têm mantido para além dele).
Quem tiver interesse, pode ver este episódio aqui:
https://www.rtp.pt/play/p14841/e879958/visita-guiada
12 de dezembro de 2025
Um ano com D. Dinis (65)
BATALHA DE ALVALADE

Depois das Cortes de Lisboa, em outubro de 1323, em que as pretensões do príncipe herdeiro foram desleixadas, este retirou para Santarém, a fim de reunir os seus apoiantes e apoderar-se do trono à força.
Ao saber que o filho avançava em direção a Lisboa com a sua hoste, D. Dinis, auxiliado pelos bastardos Afonso Sanches e João Afonso, tomou posição no campo de Alvalade (ou, segundo José Mattoso, no lugar chamado Albogas, perto de Loures).
Estava tudo a postos para a batalha final da guerra civil. Mas a refrega foi impedida por intervenção de D. Isabel. Diz-se que se interpôs entre os dois exércitos, no meio do campo de batalha.
Imagem daqui
Dei a minha versão dos acontecimentos, no romance sobre D. Dinis:
Soaram as trombetas e os anafis, deu-se ordem de disparo, abrindo as hostilidades. Voaram as primeiras setas dos archeiros de Dinis por cima do campo e não tardou que uma chuva delas, vindas do adversário, caísse em cima dos seus homens, protegidos pelos escudos.
O monarca deu mais algumas vezes ordem de disparo, a fim de matar o maior número possível de adversários, antes de investir contra eles.
Nisto, o alcaide Fernão Rodrigues Bugalho agitou-se:
- Pelas cinco chagas… Mas que vem a ser aquilo?
Dinis esforçou os olhos no ar límpido da manhã. Viu a cruz em primeiro lugar. Devia ser enorme, mas era transportada por um único cavaleiro. À frente deste, vinha mais alguém. Duas figuras a cavalo deslocavam-se pelo campo, debaixo do fogo das setas.
- Com mil diabos - exclamou o alferes-mor João Afonso. - Estarão as criaturas cansadas de viver?
O rei esforçou mais os olhos. A figura da frente vinha toda vestida de branco, uma capa esvoaçava na brisa da manhã, iluminada pelo sol de Dezembro. Parecia um anjo…
Isabel!
- Cessai os disparos - berrou Dinis com quanta força tinha. - É a rainha! Cessai os disparos!
Também do outro lado teria sido dada ordem semelhante, pois os projéteis deixaram de cruzar os céus. Estabeleceu-se o silêncio sobre a planície. Dinis mandou cavaleiros ao encontro de Isabel e seu acompanhante. Constatou que o príncipe fizera o mesmo. Cavaleiros de ambos os lados aproximaram-se das duas figuras solitárias.
O acompanhante de D. Isabel era o bispo de Lisboa, D. Gonçalo Pereira. Enquanto a rainha seguiu os cavaleiros do príncipe, pois decidiu falar primeiro com o filho, o bispo acompanhou os de D. Dinis. Chegado à presença do rei, o prelado relatou:
«Vieram acordar-me a meio da noite, disseram-me que a rainha se encontrava ali no meu paço. E ela assim comigo falou:
- D. Gonçalo, temos de impedir a batalha prestes a acontecer no campo de Alvalade. Estava eu a meio das minhas rezas, quando Deus me fez ver a desgraça: os corpos mutilados, os gritos desesperados dos feridos… E uma voz suplicou-me que me interpusesse entre os dois exércitos, acompanhada do mais alto representante de Deus que pudesse encontrar. Aqui em Lisboa sois vós, eminência.
- Mas que podemos nós os dois fazer contra dois exércitos, minha santa senhora? Sem armas, sem guerreiros…
Ela replicou, cheia de serenidade:
- A voz garantiu-me que nada nos sucederá, se levarmos esta cruz.
Mostrou-me a enorme cruz, transportada por quatro criados.
Ainda me recordo de pensar ter D. Isabel endoudecido, quando senti uma força misteriosa apoderar-se de mim. Parecia vir do brilho dos olhos da rainha, uma força que me impedia de a contradizer. Fizemo-nos ao caminho, no escuro da noite fria, acompanhados pelos quatro serviçais e mais dois com lanternas. Ao acercarmo-nos do campo de batalha, já ao nascer do sol, D. Isabel disse que apenas eu e ela estaríamos protegidos das setas pelas forças divinas. Os criados teriam de procurar abrigo. Eu retorqui que, na minha idade, jamais conseguiria carregar com uma cruz daquelas, mas ela disse:
- Pegai nela, D. Gonçalo, e vede como Deus a faz leve.
E tinha razão! Logrei pegar na cruz e erguê-la. Se não o houvesse experimentado, nunca acreditaria. Mas ainda perguntei à rainha:
- E quem guiará o meu cavalo? Fico sem mãos livres para as rédeas…
- Deus - respondeu ela. - Tende Fé!
A minha montada seguia a de D. Isabel como se realmente alguma força a guiasse, nem sequer se assustava com a zoada das setas, voando em arco por cima de nós. O mesmo não se podia dizer de mim. Confesso nunca haver sentido tanto medo na minha vida. Bradei:
- Morreremos, é o nosso fim.
- Fechai os olhos, D. Gonçalo, e rezai.
- Fechar os olhos? Mas como saberei para onde ir?
- Confiai em Deus!
Obedeci, nada mais me restava. E dei por mim com a cabeça encostada à cruz, a confessar os meus pecados, suplicando absolvição, tão convencido estava haver chegado a minha hora. Não faço ideia quanto tempo assim estive. De repente, dei conta do silêncio que se havia apoderado de todo o campo. O meu cavalo parou, sem que lhe houvesse dado qualquer ordem. Abri os olhos e vi os vossos cavaleiros e os do príncipe virem ao nosso encontro. Chegaram no momento certo, pois comecei a tremer violentamente e a cruz pôs-se-me de repente mui pesada. Não fossem eles, tê-la-ia deixado cair ao chão. E só deixei de tremer aqui, no abrigo da vossa tenda».
A pedido da mãe, o príncipe concordou em desistir dos seus intentos, mas declarou não mais desejar falar com o pai, nem encontrar-se com ele.
Em Fevereiro seguinte, D. Dinis dirigiu-se a Santarém, onde o príncipe se havia recolhido, apenas para sofrer grande humilhação. As portas da cidade mantiveram-se fechadas, barrando a entrada ao rei de Portugal. Houve combates, em redor das muralhas, e, a 26 de Fevereiro, conseguiu-se um acordo entre o rei e o príncipe. D. Dinis comprometeu-se a aumentar as rendas do filho e a retirar o cargo de mordomo-mor ao bastardo Afonso Sanches.
7 de dezembro de 2025
4 de dezembro de 2025
Um ano com D. Dinis (64)
OS IRMÃOS SANCHO E AFONSO

Representação de D. Afonso III na Viagem Medieval de Santa Maria da Feira 2015
Em dezembro de 1245, D. Afonso Conde de Bolonha desembarcou em Lisboa, a fim de tomar conta do reino português, caído em desordem sob a regência de seu irmão D. Sancho II. D. Afonso, que vivia em França há vários anos, satisfazia assim o pedido de uma delegação portuguesa que se deslocara a Paris em busca de ajuda. Possuía o apoio dos concelhos do Centro e do Sul e dos castelos de Santarém, Alenquer, Torres Novas, Tomar e Alcobaça.
Seguiu-se uma guerra civil, que acabou com a deposição de D. Sancho II.
D. Afonso, o terceiro desse nome, seria o pai de D. Dinis. O seu irmão Sancho morreu no exílio, em Toledo, a 4 de janeiro de 1248.


