Quinze anos e três meses
Pregou-nos alguns sustos nos últimos tempos, mas encontra-se agora muito bem e adora dar o seus passeios.
Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
11 de fevereiro de 2019
2 de fevereiro de 2019
No Tempo de D. Afonso Henriques
Este livro, com coordenação do Professor Mário Jorge
Barroca, reúne as prestações de vários historiadores no colóquio com o mesmo
título, promovido pelo museu Alberto Sampaio e que decorreu em Guimarães nos
dias 22 e 23 de junho de 2010. Cada historiador abordou um tema, como, por
exemplo, a Igreja no tempo de D. Afonso Henriques, a imagem do nosso primeiro
rei na escultura medieval portuguesa, a arquitetura militar dessa época, o
papel da escrita, a habitação, a alimentação, o vestuário, etc., sem esquecer
as terras do sul muçulmano.
O limitar do tempo à época de D. Afonso Henriques -
século XII - é de extrema importância. Por falta de documentação coeva, ou de
estudos sistemáticos sobre muitos dos temas, há a tendência frequente, mesmo em
tratados históricos de alto nível, de alargar o espaço temporal aos séculos
XIII, XIV, ou mesmo XV, quando se pretende caracterizar a época da formação da
nacionalidade, seja em relação aos costumes, ao paço real, ou mesmo ao
vestuário e modo de combater. Um grande exemplo é uma tentativa de explicação
da organização territorial, usando as Inquirições levadas a cabo por D. Afonso
III em 1258, cerca de 70 anos após a morte de D. Afonso Henriques, como nos diz
André Evangelista Marques, no capítulo “A organização do espaço rural no tempo
de D. Afonso Henriques: a morfologia do casal
entre os textos e as materialidades” (pp. 195 a 227:
«Esta acepção da palavra [casal] pode ser considerada dominante, na medida em que a passagem
do tempo a tornou quase hegemónica, como se verifica, logo na primeira metade
do século XIII, pela leitura das actas das Inquirições Gerais de 1220 e de
1258.
Mas a realidade foi bem mais complexa e matizada (…)
[existe a] tendência para retroprojectar uma realidade característica dos
séculos XIII e seguintes (…) A escassez de estudos de história rural para o
período anterior a 1200, sobretudo no que respeita ao Entre-Douro-e-Minho,
explica o excessivo à-vontade com que esta noção [do casal] se generalizou na literatura e foi aplicada a [outras] cronologias»
(p. 210).
Trata-se de um livro imprescindível para quem se
interesse pelo início da nossa nacionalidade. Apenas menciono uma certa
desilusão, quanto ao capítulo “Viajar no Tempo de D. Afonso Henriques. Vias e
Pontes no território vimaranense” (pp. 303 a 357). Como o título o indica,
resume-se ao atual distrito de Guimarães e à ligação desta vila (à altura) com
outros centros urbanos como Braga, Porto ou Ponte de Lima. Apesar de ser um
estudo muito completo e rigoroso, gostaria também de ler sobre outros caminhos
e rotas no século XII português. Presumo, porém, que esse estudo, como tantos outros, estará ainda por
fazer.
Louve-se, no entanto, o trabalho recente dos
historiadores, que originou um verdadeiro avanço no estudo da nossa época
medieval neste século XXI. Esperemos que assim continue.
31 de janeiro de 2019
Contra o Esquecimento!
Ruth Winkelmann, uma judia de 90 anos, é um caso raro
na História da Alemanha. Sobreviveu ao regime nazi e à guerra, sem sair de
Berlim. E, mesmo depois do conflito mundial, não deixou o país onde nasceu.
Era filha de um judeu e de uma cristã. Os pais
separaram-se, quando o ódio contra os judeus se tornou visível e eles consideraram que
os seus filhos podiam estar em perigo. Mesmo assim, Ruth, a mãe e uma irmã
viveram os anos da guerra escondidas num anexo da casa de um amigo da família, aliás,
um militante do Partido Nazi!
Ruth foi o único membro judaico da família que
sobreviveu. O pai morreu em Auschwitz, um irmão foi também assassinado pelos
nazis e uma irmã, mais nova, não resistiu à vida no esconderijo sem aquecimento
e acabou por morrer de difteria, em março de 1945, pouco tempo antes de acabar a
guerra e apenas três dias depois de completar os oito anos.
Durante 57 anos, Ruth Winkelmann não conseguiu falar
desse período da sua vida. Sempre que se falava no Holocausto, ou aparecia um
programa sobre o assunto na televisão, ela saía, em silêncio, da respetiva sala
e ficava incomunicável por algumas horas. Em 2002, porém, numa estadia de
férias na costa polaca do Mar Báltico, fez amizade com outra turista alemã.
Conversa puxa conversa e, ao aperceber-se de que ela era judia, a senhora
perguntou-lhe como tinha sobrevivido ao período nazi. Sem hesitar, surpreendendo-se
a si própria, Ruth começou a contar a sua história, uma história que estava
guardada no fundo do seu ser há tantas décadas e que, de repente, subiu à
superfície. A surpresa foi ainda maior, quando, instada pela senhora se estava
disposta a contar as suas memórias numa escola, Ruth respondeu, sem hesitar:
«Estou».
Durante três meses, anotou as suas lembranças e
vasculhou entre fotografias e documentos que havia guardado durante todo esse
tempo, mas ignorado. Foi terrível, nas suas palavras, houve dias que ela achava que não
aguentava. Mas aguentou, pois, com 74 anos, Ruth encontrara a missão da sua
vida: lutar contra o esquecimento.
Entretanto, as suas memórias foram publicadas em
livro, Plötzlich hieß ich Sara (De Repente, Chamava-me Sara) com a ajuda da historiadora Claudia Johanna Bauer. Com 90 anos, Ruth
ainda arranja força para três sessões mensais nas escolas, ou de leitura de
excertos do livro noutros contextos. Os estudantes são mais recetivos a um
destino pessoal do que a aulas estéreis de História. Numa ocasião, até fizeram
uma pequena peça de teatro, baseada em passagens do livro. Na apresentação da
peça, Ruth diz que não havia ninguém na sala que não tivesse lágrimas nos
olhos.
Ruth Winkelmann adora falar com os jovens, realizando,
em parte, um sonho seu: gostaria de ter sido professora. Porém, quando a guerra
terminou, ela tinha já dezasseis anos e não a autorizaram a encetar os estudos
interrompidos há vários anos, por já estar fora da idade. Acabou por se tornar
modista e, se a sua nova missão a ajuda a fazer as pazes com o passado, esta mágoa,
diz ela, guarda-a até hoje.
Nota: Texto baseado numa reportagem da edição de 27 de
janeiro de 2019 da KirchenZeitung, igualmente a origem da fotografia, no início.
24 de janeiro de 2019
Seres exóticos
Na programação televisiva alemã da passada segunda-feira, dei com o seguinte programa (tradução minha):
«Quem come o quê ao pequeno-almoço? Como funciona a máquina da louça? Onde está o aspirador? Cinco mulheres observam como um pai se avia sozinho, durante dois dias, com os filhos».
Passando por cima da polémica que possa causar um programa que mostra o quotidiano de uma casa onde moram crianças, achei pertinente o comentário da redação da revista em causa:
«Curioso que, em 2019, homens a tratar das tarefas caseiras continuem a ser apresentados como algo de exótico».
«Quem come o quê ao pequeno-almoço? Como funciona a máquina da louça? Onde está o aspirador? Cinco mulheres observam como um pai se avia sozinho, durante dois dias, com os filhos».
Passando por cima da polémica que possa causar um programa que mostra o quotidiano de uma casa onde moram crianças, achei pertinente o comentário da redação da revista em causa:
«Curioso que, em 2019, homens a tratar das tarefas caseiras continuem a ser apresentados como algo de exótico».
19 de janeiro de 2019
Feminismo
«Uma mulher que educa os seus filhos seguindo os
ensinamentos e os valores cristãos faz mais pelo progresso da política e pela
verdadeira emancipação feminina do que todas as feministas do mundo, com os
seus costumes duvidosos».
Gosta desta frase? No fim deste post, direi
quem e quando a proferiu.
O feminismo é ainda muito mal visto. No caso dos
homens, não me admira. Afinal, a ambição, por parte das mulheres, de atingirem
igualdade de direitos e oportunidades significa que eles têm de fazer concessões,
aprender a dividir o poder. E quem gosta de perder privilégios?
No caso das mulheres, já me preocupa mais, pois mostra
que estão imbuídas de mentalidade machista, mesmo sem o saberem. Não querem ser
confundidas com ativistas, não vão os homens pensar que também são “dessas”. Ou
seja, submetem-se à imagem que os homens criaram para elas.
Muitos homens parecem ficar ciumentos, perguntam porque
não podem eles ser machistas, ou seja, consideram o feminismo um pendant do machismo. Esta interpretação
está errada. A História da nossa sociedade patriarcal prova que o machismo se
baseia na subjugação da mulher, considerando o sexo masculino superior. O
feminismo, por seu lado, “apenas” almeja igualdade de direitos e
oportunidades. Não se trata de supremacia, mas de igualdade. As pioneiras do movimento
necessitaram de um termo que caracterizasse a sua causa e a sua luta. Os homens
não precisam, nem nunca precisaram, de lutar contra a subjugação por parte das
mulheres. E, no entanto, parecem sentir-se ameaçados por elas! Sentem
necessidade de se agarrarem a um termo com o pretexto de lhes fazerem frente. Pois
eu acharia ótimo que o feminismo não fosse necessário. Mas vivemos ainda numa
sociedade marcadamente patriarcal, foram muitos séculos de supremacia masculina
e, se o feminismo não o lembrasse constantemente, depressa se voltaria ao
passado.
Não resisto a fazer um paralelo com o racismo (que não
é a mesma coisa, mas tem pontos de contacto). Muitos brancos se sentem
afrontados com a expressão black pride
e acham que também têm o direito de apregoar o white pride. Eu não concordo. A História conta-nos séculos de
subjugação indigna dos negros. Apesar de a escravatura ter sido abolida há
muito tempo, nós, brancos, carregamos essa herança, quer queiramos, quer não.
Até porque a verdadeira igualdade ainda não foi atingida, há muitos negros
vítimas de discriminação.
Acham que os brancos não têm de carregar herança
nenhuma? E se eu falar de alemães, por exemplo? Acham que os alemães de hoje
não têm de carregar com o estigma nazi? Como reagiriam os portugueses, se
vissem um alemão alto, forte e loiro a passear em Portugal com uma t-shirt ostentado
o dístico german pride? Decerto não
lhes agradaria. E com razão. Porque, também neste caso, há uma História de desrespeito
pelos direitos e pela dignidade de outros povos (e inclusive de genocídio) por
parte dos alemães.
Voltando ao ponto de partida: muitas mulheres alegam
que não precisam do feminismo para se sentirem ao mesmo nível dos homens. E apontam
comportamentos impróprios de ativistas mais radicais para justificarem a sua
aversão. É verdade que o movimento feminista já conheceu radicalismos. Por
outro lado, é preciso reconhecer o grande valor das pioneiras do movimento,
que, muitas vezes, precisaram de atitudes radicais para serem ouvidas. Mulheres
atuais com aversão ao feminismo esquecem-se de que, se não fossem essas ativistas,
talvez ainda não pudessem votar, nem viajar sozinhas sem a autorização de um
homem, nem sequer orgulhar-se de não se sentirem inferiores a nenhum homem e de
não terem medo deles. Atitudes destas, no dia-a-dia, são muito de louvar, mas
não modificam leis. E são as leis que garantem a igualdade de direitos. As
modificações de que beneficiamos, hoje, foram conseguidas pelas feministas que certas
mulheres tanto desprezam.
Mulheres com aversão ao feminismo e homens machistas
são, em regra, lestos a criticar a situação da mulher na sociedade islâmica.
Eles e elas esquecem-se de que o podem fazer graças às feministas.
Infelizmente, a verdadeira igualdade não foi ainda atingida,
mesmo na nossa democracia ocidental. Ainda há muita mulher a ser agredida pelo
marido e/ou companheiro; ainda há muita mulher a ganhar menos do que os homens
pelo mesmo trabalho; ainda há muita mulher a ser culpada por ter sido violada e
a sofrer vexames incomportáveis perante sentenças de juízes e juízas!
Volto agora à frase que serviu de mote a este post, confessando que a modifiquei um
pouco. A versão original é a seguinte:
«Uma mulher que educa os seus filhos seguindo os
ensinamentos da religião católica faz mais pelo progresso da política e pela
verdadeira emancipação feminina do que todas as lutadoras pelo direito de voto,
em todo o mundo, com os seus costumes duvidosos».*
Sim, a frase foi escrita para agredir as feministas que
lutavam pelo direito do voto das mulheres, em 1912! Foi escrita por mulheres! Fez
parte de um comunicado da União das Mulheres Cristãs (Christliche Frauenbund), na Alemanha.
Pelos vistos, há mulheres que continuam a pensar segundo
os mesmos esquemas. Foi só preciso fazer umas pequenas modificações para o
provar.
Acrescento ainda que a expressão «costumes duvidosos»
se refere às fundadoras da Associação Alemã para o Direito de Voto Feminino (Deutscher Verein für Frauenstimmrecht), criada
em 1902. Chamavam-se Anita Augspurg e Lida Gustava Heymann e eram um par
lésbico. É interessante verificar que este facto se tornava mais importante do
que a causa em si. Hoje, continua a acontecer. Muitas vezes se atacam pessoas pelas
suas opções sexuais, ofuscando a sua luta por causas justas.
* Traduzido, por mim, do alemão. O original foi lido
na KirchenZeitung, um jornal
católico alemão, edição de 13 de janeiro de 2019, e aqui o transcrevo:
«Eine Frau, die in echt katholischer Gesinnung Söhne erzieht, hat mehr
für den politische Fortschritt und die wahre Emanzipation des weiblichen
Geschlechtes getan als alle Wahlrechtdamen der Welt mit ihren höchst
zweifelhaften Sitten insgesamt».
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