Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

29 setembro 2011

Religião e Natureza


Aquilo que parece uma fotografia normalíssima (um lavrador à frente das suas vacas) tem que se lhe diga. O camponês em questão é um monge beneditino, pertencente ao mosteiro de Plankstetten, na Baviera. Na propriedade de 120 hectares, existem à volta de 130 cabeças de gado bovino, 80 vitelos, 150 porcos, 80 cabras e 30 cabeças de gado selvagem. Além disso, há culturas rotativas, de seis em seis anos, englobando trigo, milho, centeio, cevada, batatas, ervilhas e malte para cerveja. E, numa estufa, cultiva-se couve branca e vermelha, alface e rabanetes.

Uma outra particularidade desta quinta: há cerca de quinze anos que pratica agricultura biológica e trata os seus animais com respeito e dignidade. "Recebemos a Natureza de presente e cabe-nos respeitá-la", diz Richard Schmidt, o monge da fotografia. No Verão, as vacas pastam todos os dias ao ar livre e está a ser construído um estábulo para os porcos, onde estes terão quatro vezes mais espaço do que nos convencionais.

O mosteiro tem uma loja própria, onde se vendem os seus produtos (incluindo presuntos, enchidos, pão e cerveja), mas já supermercados e outras lojas biológicas da Baviera os procuram.  Os monges beneditinos de Plankstetten têm tido tanto sucesso, que outros conventos da região seguem o seu exemplo.

O monge Richard Schmidt diz-nos ainda: "A Igreja não se deve limitar a pregar o respeito pelas criaturas de Deus e a preservação da Natureza, deve passar à acção, dando o seu contributo e servindo de exemplo."

7 comentários:

LPontes disse...

Que a quinta do mosteiro de Plankstetten seja conduzida de acordo com as melhores práticas biológicas e ambientais, é sem dúvida uma boa notícia.
Que do facto desta quinta pertencer a uma ordem monástica católica se infira uma relação entre natureza e religião é que já me escapa...

João Raposo disse...

Embora seja uma ideia interessante, seria também interessante um estude que mostre a viabilidade de a agricultura biológica alimentar toda a humanidade. Lamentavelmente, ou há um controlo demográfico ou haverá ainda mais gente a morrer de fome.
Embora continue a preferir as maçãs pequenas e com bicho, não as há em quantidade suficiente.

Cristina Torrão disse...

Caro LPontes, eu acho que se trata de um exemplo a seguir. Muitas vezes me pergunto qual a função da religião católica, hoje em dia. E penso que, se a Igreja juntar à tolerância e à paz o respeito pela Natureza (animais incluídos) já provará a sua utilidade. As pregações não chegam, é preciso passar à prática, dar o exemplo. Foi baseada nisso que achei este apontamento digno de nota. Quantos padres portugueses se preocupam com o ambiente e respeitam a Natureza? Ainda faz sentido pregar contra pecados como a vaidade e o orgulho? Ainda faz sentido clamar que sejamos humildes em todas as situações? Ainda faz sentido mantermo-nos agarrados a dogmas, como a virgindade? Há coisa de um ano, li, num blogue, sobre um padre que mantinha uma cadelinha presa e sozinha. É assim que se respeitam as criaturas de Deus? Na minha opinião, a Igreja tem de se reinventar e eu acho que este seria um bom caminho.

Caro João Raposo, foca uma questão pertinente. Realmente, não penso que haja um estudo nesse sentido (não é, pelo menos, do meu conhecimento). Mas acredito que uma agricultura bem planeada e uma mudança de hábitos poderiam resultar. Enquanto que, na Europa, nos debatemos com o problema da adiposidade, crianças morrem de fome, em África. Criou-se a indústria da carne, onde os animais não são respeitados. São alimentados a rações, para crescerem o máximo, no mínimo espaço de tempo, com o objectivo de tornar a carne mais barata e acessível. E, no entanto, todos os dias se atiram para o lixo milhões de toneladas de alimentos. Não seria possível uma melhor distribuição e racionalização dos produtos?

João Raposo disse...

Seria e é possível uma melhor distribuição. Porém, como em tudo o mais, isso iria afectar o preço do produto. Portanto, é preferível mandá-lo para o lixo.
Sabe que no nosso país a ASAE multa restaurantes que dêem as sobras de comida, por exemplo, para instituições de apoio a sem abrigo? Que os restos (que é apenas o que não foi utilizado) como sande devidamente protegidas,nas cantinas escolares (pelo menos em algumas) não podem ser dadas a miúdos que se sabe terem carências alimentares?
Há tempos vi um comentário sobre a banana na Costa Rica. Fica mais barato aos naturais comprarem a sua própria banana através de importação que a compra directa?
Coisas "incompreensíveis" de mercados.
Acerca dos alimentos a nível mundial, só é ainda possível alimentar toda (quase toda)a população devido a toda a ciência (adubos, genética, etc) envolvida na produção de alimentos.
Só que a situação começa a inverter-se devido ao esgotamento dos solos e falta de água.
É cada vez mais urgente, sobretudo uma revolução de conhecimentos virados para a sobrevivência da humanidade.
A tecnologia já não é suficiente. Aliás, nunca o foi.

Bartolomeu disse...

Eu, mantenho-me crente na utilização do solo, sem recurso a fertilizantes, pesticidas, herbicidas e outros químicos.
Quanto à subsistência da espécie humana, seria bom que interiorizássemos a ideia de comunitarismo. Um princípio em que todos se ajudam mutuamente e em que cada um troca aquilo que produz em demazia, por aquilo que lhe faz falta.
A humanidade enveredou pelo facilitismo que o capitalismo e as economias de mercado, erradamente lhe venderam como progresso.
Deu no que deu.
Fome, degradação, alienação, depressão.
Perderam~se valores essenciais ao equilíbrio do relacionamento, vive-se em completo desequilíbrio entre humanos e natureza, agredindo-se o ambiente e extinguindo-se as espécies animais e vegetais, em nome de um completo vazio.
Apesar de tanto progresso, e de tanta e tão pronta capacidade de comunicação e de acesso a todo o género de informação, a humanidade possui incomparávelmente menos, que possuia ha um século atrás.
Por isso, à dez anos atrás, desertei da cidade. Vivo no campo, cultivo e não uso uma grama de qualquer produto químico na agricultura. Por enquanto ainda dependo do trabalho na cidade mas, conto libertar-me em breve.

George Sand disse...

Bonita imagem, de uma igreja que se quer cada vez mais em acção.

Cristina Torrão disse...

Gostei muito de ler estes comentários, obrigada por os partilharem aqui.

"A tecnologia já não é suficiente. Aliás, nunca o foi" - é verdade João Raposo. O problema é que muitos de nós ainda acreditam que serão mais felizes se tiverem menos que fazer. É uma ilusão. O ser humano precisa de uma ocupação, a preguiça e a falta de tarefas conduz à depressão (há ocasiões para tudo, o exagero é que é o problema). E, no fundo, a tecnologia, em vez de nos aliviar, ocupa-nos cada vez mais. E separa-nos da Natureza, que exige trabalho corporal. É isso que assusta muita gente, hoje em dia. Sentado a uma secretária horas a fio, stress, televisão nos tempos livres, pegar no carro por tudo e por nada... Tudo bem! Agora: mexer-se, andar a pé, tomar contacto com a Natureza? Que horror! Isso cansa!
Muitas vezes, penso que gostava de viver como o Bartolomeu, isto é, depender, o menos possível, da cidade. Poderá ter o seu quê de ilusório, assim como a crença de que a humanidade poderia viver de produtos biológicos. Mas alguém (já não sei quem) disse: se quiseres mudar o mundo, começa por ti mesmo.