Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

23 julho 2012

Lidar com a fama

O Pedro Correia, falava, a propósito da morte de Amy Winehouse, há um ano, da absoluta incapacidade de certas pessoas para lidarem com a fama. O mundo está cheio desses casos. Estando de fora, parece-nos absurdo, mas muitos de nós talvez também sucumbissem à fama planetária.

Era notória a dificuldade que Amy Winehouse tinha de atuar em público. A primeira vez que a vi (e ouvi falar dela), salvo erro, num dos MTV Awards, olhei espantada para aquela figura magra e hesitante. A impressão que me deu foi a de que estava ali perfeitamente deslocada, o que me levou a pensar que estivesse a fingir. Achei-a ridícula.

Depois, porém, ouvia-a na rádio e não era apenas a voz que me encantava, era o sentimento com que ela cantava. Há certas passagens, nas suas canções, uma certa inflexão de voz, que me põem com um nó na garganta. E, à medida que a conhecia, convencia-me de que não fingia. Amy devia ter um grande medo do palco, pânico mesmo, de não estar à altura, de fazer figura de parva (como acabava por fazer), o que indica uma grande falta de autoestima.

Sei que é polémica a assunção de que os pais são os culpados por coisas destas. Os próprios psicólogos não nos sabem dizer quanto do que somos é hereditário e quanto mal/bem nos fizeram os pais, ou as pessoas que nos criaram. E porque é que alguns de nós superam os seus traumas e outros não? É um tema deveras complicado, pois é certo que, ao nascer, já trazemos genes que definem, pelo menos, parte do nosso caráter. Mas também somos aquilo que fazem de nós. Há toda uma mistura de vivências e hereditariedade que torna difícil comparar casos, pelo que afirmações do estilo: “eu também sofri, mas dei a volta”, não levam a lado nenhum e estão longe de ajudar quem se encontra no fundo do poço. Algumas misturas (genes/educação/vivências) serão tão explosivas, que, praticamente, não darão hipóteses de superar aquilo que correu mal.

Não conheço a infância de Amy Winehouse. Mas, quando ela começou a adquirir fama planetária, a família dela pediu aos fãs que lhe não comprassem os discos, pois o dinheiro estragava-a. Este apelo caiu-me muito mal. Posso compreender que estivessem desesperados, mas escolheram o pior caminho. Foi o mesmo que dizer: “ela é boa, mas não lhe liguem, coitada, que lhe faz mal”, o que dá cabo da autoestima de qualquer um (ponham-se no lugar dela). Claro que o dinheiro facilita o acesso às drogas, mas, num caso destes, é um erro reduzir o problema ao facto de se ganhar muito. É só ver a ponta do icebergue. De resto, quem se quiser drogar e embebedar, fá-lo, tendo, ou não, dinheiro.

Quando ela morreu, o pai declarou que ela já não se drogava há mais de um ano e que não bebia há, pelo menos, três semanas. Passado uns dias, foi à casa dela, defronte da qual se encontravam muitos fãs, e começou a distribuir t-shirts. O que mais me impressionou foi que me parecia agradar-lhe ser o centro das atenções. Por essa altura, a mãe veio desmentir as afirmações do marido, dizendo que a Amy não parara de se drogar e de beber, que o corpo dela estava uma ruína e que os médicos teriam dito que, se não modificasse o estilo de vida, seria, em breve, tarde demais. Como veio a ser.

O pai de Amy Winehouse não seria o primeiro a aproveitar-se de um/a filho/a para brilhar. É algo que nos choca e, por isso, fazemos de conta que coisas dessas não existem. E, no entanto, os pais que usam as suas crianças para obterem a atenção que sempre lhes faltou é mais frequente do que queremos admitir.

A caricatura de Amy Winehouse é da autoria de Fernandes

4 comentários:

Imperatriz Sissi disse...

Conheci, embora numa escala muito mais pequena, esse meio desde muito nova. Posso dizer que não vi mais drogas, competição feroz ou perigos nele do que noutro qualquer. Mas eu tinha pais conscientes e os pés bem assentes na terra. O problema são os miúdos deslumbrados, ou com uma personalidade frágil e insegura - presas fáceis para quem se aproveita disso. Para esses, qualquer tipo de "poder" é mau. A fama e o dinheiro, tal como o poder, são lupas que mostram quem somos na realidade...nem mais, nem menos.

Cristina Torrão disse...

Pois, a Amy Winehouse teria essa "personalidade frágil e insegura". O problema é saber porquê e como se pode ajudar uma pessoa assim.

Bartolomeu disse...

Cristina.
Tens uma coizinha, no sítio que avança quase parado.
;)

Anónimo disse...

Olá,

Espero que esteja tudo bem consigo.

A frase " O que mais me impressionou foi que me parecia agradar-lhe ser o centro das atenções. " é algo profundamente chocante por se tratar de um familiar muito próximo que se deveria preocupar mais com o bem-estar da sua filha e não com os proveitos que poderia tirar dela. O mundo é mesmo assim, a sociedade surpreende pela negativa.

Manuel de Sousa
bloguedomanel.blogs.sapo.pt