Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

15 outubro 2012

Da linguagem no romance histórico

Quando se fala sobre a linguagem do romance histórico, muita gente apelida de "anacronismo" o facto de pôr pessoas da Idade Média a falarem como nos nossos dias.
Eu discordo!
Porquê? Porque o romance histórico é sempre uma "tradução"!

A fim de melhor expor o meu ponto de vista, começo por citar o escritor nobelizado Orhan Pamuk, num excerto do livro sobre o qual dei minha opinião:

O facto de, como diz Yourcenar, a linguagem de todos os dias não ter sido gravada antes do aparecimento do romance, leva-nos a pensar no absurdo, ou mesmo na impossibilidade do que é designado por «romance histórico». Quando se refere ao «inevitável simplismo» dos romances históricos e à ingenuidade dos seus leitores, Henry James não estava a falar só de palavras, mas também da dificuldade em penetrar no espírito de uma época muito diferente da nossa. Quando eu estava a escrever o meu romance histórico O Meu Nome É Vermelho, tinha consciência de que, ao ler meticulosamente os documentos relativos à corte otomana, registos de negócios e documentos públicos, a fim de encontrar elementos precisos sobre a vida quotidiana da época, isso não bastaria para ultrapassar o abismo que me separava dela e compreender profundamente essa época. Decidi então revelar  e até exagerar os aspetos concretos e evitar a especulação interpretativa sobre a linguagem corrente, o diálogo praticado quotidianamente no século dezasseis, em Istambul, elemento que, de facto, desconhecemos.

Desconhecemos o diálogo praticado quotidianamente no século XVI, em Istambul. Como desconhecemos o diálogo praticado quotidianamente nos séculos XII e XIII, em Portugal. Desconhecemos e é impossível virmos, algum dia, a conhecer. Como disse Yourcenar, citada por Orhan Pamuk, essa linguagem não foi gravada. Somos forçados a "traduzir" aquilo que julgamos que as pessoas sentiram e disseram. E, ao fazer uma tradução, o melhor é usar uma linguagem que toda a gente entenda!

Claro que devemos, tanto quanto for possível, tentar transmitir um pouco da atmosfera da época (ou, pelo menos, aquilo que julgamos que o tivesse sido). Mas passar para os diálogos expressões que se leem em textos e crónicas antigas é um método muito discutível. Além de dificilmente dar um retrato fiel, dificulta muito a compreensão do texto.

Como diz o Prof. José Mattoso, aquilo que sabemos da Idade Média é-nos dado através de documentos oficiais, redigidos por uma elite. Mas não era assim que as pessoas falavam, nem sequer os nobres, nem sequer o rei. Hoje em dia, também não falamos uns com os outros como se estivéssemos a redigir uma certidão, ou a fazer um requerimento. Se não houvesse gravações, daqui a 500 anos ainda nos punham a despedirmo-nos (oralmente) de um amigo deste modo: "confiando na resolução pronta deste meu problema, despeço-me, com os meus melhores cumprimentos".

Usar expressões das cantigas de amigo e de amor, para declarações de amor, ou situações românticas, também não será boa ideia, pois os poemas não costumam imitar a linguagem do dia-a-dia. A não ser que a personagem cite alguma cantiga que conheça, mas, nesse caso, é aconselhável que o refira.




4 comentários:

Imperatriz Sissi disse...

Estou somewhere in between. Acho impossível, pelos motivos enumerados no texto e por mais alguns, reproduzir na íntegra a linguagem da época. Por outro lado, é importante que o romance recrie a atmosfera da época em que a acção se desenrola.É um equilíbrio delicado, sem dúvida.

Cristina Torrão disse...

Claro que há que ter cuidado com certas expressões que sabemos que não existiam na altura. Na minha opinião, o melhor é, com a linguagem de hoje, tentar imitar um jeito de falar antigo, como o uso da segunda pessoa do plural (vós tendes, vós estais, etc), entre os nobres e linguagem brejeira entre o povo.
Não concordo (e sei que isto é controverso) com o uso de expressões tiradas de textos antigos, que servem apenas para dar um ar erudito ao livro, sem nos mostrar como as pessoas realmente falavam.

Mônica Cadorin disse...

Muito boa sua reflexão. Eu também estou nessa busca de o que é o ponto certo. Procuro não usar gírias e, dependendo da ambientação (se for em Portugal ou no Brasil - onde eu moro), procuro saber quando certas palavras foram registradas por escrito, pois isso me dá uma ideia se tal palavra poderia existir oralmente na época da minha história. Também não uso expressões tiradas de textos antigos, pois também acho que vira exibição do autor. Acho que há formas de se dar ar de antiguidade a uma personagem, sem que ela precise usar fala empolada. Muitas vezes, gestos e atitudes falam muito mais da visão de mundo daquela personagem do que as palavras que ela usa.

Cristina Torrão disse...

Quanto mais recuamos no tempo, mais difícil é saber que palavras já existiam. Para o século XII, por exemplo, é quase impossível. Para outras épocas, mais recentes, pode compensar, sim.