Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

11 maio 2013

O Leitor


Este filme costuma ser reduzido à importância que a literatura nele desempenha. Sim, é certo que Hanna Schmitz (Kate Winslet), a mulher madura, pede a Michael (David Kross), o seu amante adolescente, que lhe leia obras-primas da literatura, quando estão na cama. E também é certo que Hanna, analfabeta (um segredo que guarda a sete chaves), aprende a ler por si própria, através das gravações que Michael lhe envia para a prisão dessas mesmas obras literárias. Para mim, uma das cenas mais fascinantes deste filme (e do cinema, em geral) é precisamente quando ela tenta perceber como funciona a língua escrita, a partir da primeira frase de A Dama do Cachorrinho, de Anton Checkhov.

Mas este filme é muito mais do que isso. É sobre uma Alemanha que, em muitos momentos, se sente incapaz de viver com um passado indizível. É sobre aqueles que nasceram depois da guerra e se veem a braços com esse passado doloroso, do qual têm vergonha e pelo qual se sentem culpados. É sobre gente mais ou menos humilde e inculta, posta sob pressão pela ditadura nazi, obedecendo, por medo, e contribuindo para a execução de crimes abomináveis. E, last but not least, sobre a incapacidade de perdoar esses crimes, mesmo quando se ama quem os ajudou a cometer, ou se vislumbra um motivo para o fazer.

Há, realmente, atos imperdoáveis? É legítimo herdar culpa? Como lidar com feridas que não saram? Como lidar com o amor que sentimos por alguém, vindo a descobrir as atrocidades que essa pessoa cometeu, enquanto se toma consciência que ela agiu assim porque, no fundo, não podia agir de outra maneira? E, tendo possibilidade de a ilibar de uma parte da culpa, devemos fazê-lo?

São estas as questões colocadas neste filme, que tem o mérito de nos dar as várias perspetivas. As mensagens mais importantes estão nas palavras que ficam por dizer. E cada um que julgue, se puder...

A ver e rever!

Nota: Michael, o amante adolescente, é interpretado por Ralph Fiennes, em adulto.


4 comentários:

Belinha Fernandes disse...

Um boa apreciação deste filme! Já vi há uns tempos e gostei. Ontem vi O discurso do rei onde também reina a palavra dita e escrita. Durante um par de anos pensei que era um filme aborrecido. Enganei-me! É muito, muito bom!Bom Domingo!

Cristina Torrão disse...

Ainda não vi "O Discurso do Rei". Infelizmente, o tempo é curto para tantos filmes bons...
E livros bons...

Vespinha disse...

Também gostei muito, sob outra perspetiva: http://vespaaabrandar.blogspot.pt/2009/02/ate-onde-nos-leva-vergonha.html

Cristina Torrão disse...

Obrigada pelo link, Vespinha, ainda não conhecia. Nem o cartaz com aquelas frases em inglês, que coincidem exatamente com o que escrevi. Sinal de que o filme transmite a sua mensagem na perfeição :)